CONFINS

O tempo social é influenciado pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar – uma defesa do tempo, Harold Innis

Quem manda na internet?


Guia para a Tecnologia Publicitária (Guide to Advertising Technology) G

(por Elizabeth Anne Watkins, Columbia Journalism Review)

Resumo

A tecnologia publicitária gerou uma imensa infraestrutura técnica. As tecnologias e motivações da publicidade são a base da economia da internet. Os sites jornalísticos não são exceção. As informações que procuramos sobre o mundo estão apoiadas e são formatadas pela publicidade e suas necessidades. Os jornalistas precisam saber mais sobre essas tecnologias, como elas funcionam e como elas influenciam a prática, a distribuição e a percepção do jornalismo.

A tecnologia publicitária pode ameaçar a reputação e a viabilidade econômica dos publishers em diversas maneiras. A chamada “ad tech” promove um tipo específico de engajamento com a audiência, e suas estruturas de incentivo comprovadamente afetam o modo como as notícias são produzidas, reduzindo a confiança dos leitores que os publishers estejam oferecendo uma cobertura jornalística objetiva. O fluxo de dados dos usuários via ad tech por sistemas não-transparentes, e em alguns casos com a instalação de malware nos equipamentos dos leitores, ameaça a privacidade e segurança dos leitores e pode danificar ainda mais a imagem dos publishers. A lentidão no carregamento e a distração incômoda dos anúncios tipo display pode reduzir o desempenho dos sites de notícias e afugentar os usuários, que migram para “jardins murados” como aplicativos privados ou plataformas de redes sociais. Isso pode desviar o público para longe dos outlets de jornalismo profissional, deixando a audiência exposta a operações de manipulação informativa, em padrões que os acadêmicos e legisladores estão apenas começando a entender. As políticas sobre publicidade em redes sociais ameaçam borrar a fronteira entre jornalismo e propaganda política, e podem incentivar os chamados “influenciadores” a ignorar totalmente os publishers e criar seus próprios conteúdos. Empresas de busca, por sua vez, têm sido acusadas de explorar seu poder sobre como os usuários acham e acessam as informações.

Para produzir este guia, partimos de uma série de perguntas, incluindo: qual é a relação entre publishers jornalísticos e anunciantes? O que está mudando? O que está em disputa? E como o sistema atual de publicidade, autores, leitores e equipamentos influencia as notícias?

Principais destaques:

  • A publicidade foi essencial para o desenvolvimento do jornal moderno e da reportagem objetiva. As mensagens publicitárias de hoje, transmitidas por meio de um sistema interconectado de softwares, servidores de dados, agência de marketing e mercados de dados, ainda sustentam a maior parte da produção de notícias, mas são pouco estudadas nos cursos tradicionais de jornalismo.
  • A dependência dos publishers em relação à ad tech facilita a coleta e movimentação de dados dos usuários por meio de sistemas opacos, o que pode ameaçar a confiança dos leitores nas notícias.
  • O ad tech e suas métricas comprovadamente alteram a produção interna das notícias, o que cria um conflito com os compromissos clássicos do jornalismo com a cobertura objetiva.
  • O mercado hipereficiente de anúncios programáticos fez os preços despencarem, reduzindo o faturamento para os publishers.
  • O ad tech é afetado por fraudes como visualização por “bots” (softwares que imitam usuários humanos), o que faz com que muitos anunciantes transfiram seus investimentos publicitários para as redes sociais e sites de buscas, reduzindo ainda mais o faturamento dos publishers.
  • Os efeitos negativos do ad tech na experiência do usuário (anúncios visualmente invasivos, lentidão no carregamento e consumo da franquia de dados móveis do usuário) pode levar os leitores (e o dinheiro relacionado com sua atenção) para longe dos sites jornalísticos, dando preferência para apps privados e plataformas sociais.
  • A relação entre publishers e redes sociais representa uma dinâmica assimétrica de poder, e já se sabe que ela afeta a capacidade dos publishers em atingir as audiências, especialmente no caso dos publishers locais.
  • O controle das plataformas sobre a exibição de conteúdo jornalístico levou alguns publishers a recorrer ao uso de influenciadores, o que por sua vez estimula o crescimento de firmas que oferecem conteúdos produzidos sob medida e com precisão de algoritmos especificamente para influenciadores. As plataformas estão tentando impor normas sobre a distribuição de conteúdos por influenciadores, mas isso pode ser uma tarefa difícil.
  • Os mecanismos publicitários das redes sociais, especialmente o “hyper-targeting”, podem ser transformados em armas por agentes mal intencionados.
  • Todos os jornalistas, de repórteres a editores, precisam se manter informados sobre os mercados dinâmicos de produção e consumo de notícias e informações.

Introdução: por que os jornalistas precisam saber como funciona o ad tech?

Imaginem uma jovem chamada Molly, que trabalha como gerente de eventos em Chicago. Durante o planejamento de um longo seminário, ela e seus colegas comentam a respeito da “preguiça” pós-almoço que geralmente ocorre nesse tipo de evento. Para manter o pique dos debates, Molly decide encher o auditório com doces. Ela usa seu laptop e entra no site Amazon.com para comprar vários pacotes de doces. No dia seguinte, Molly percebe que a Amazon está sugerindo vários outros tipos de doces para ela escolher. Rapidamente, porém, ela vê que sua vida digital se transformou em uma terra de doces. Balas e pirulitos aparecem nas páginas de quase todos os sites que ela visita. Naquela noite, procurando informações sobre um pronunciamento presidencial importante, ela visita vários sites jornalísticos respeitados e percebe com surpresa que mesmo os artigos mais sérios estão acompanhados de anúncios de balas de goma e caramelos.

A publicidade encompassa a economia da internet. “Tecnologia publicitária” é um termo para o sistema de softwares, servidores de dados, agências de marketing e mercados de dados que facilitam a venda de dados dos usuários e a exibição (display) de mensagens publicitários para os usuários da internet, incluindo sites de buscas, redes sociais e aplicativos. A grande maioria dos sites e das plataformas sociais são sustentados por ad tech. Os sites jornalísticos não são exceção. O problema é as escolas de jornalismo estão dando pouca atenção à economia política da publicidade nos sites jornalísticos. A experiência do usuário em diferentes aparelhos, a perda de controle sobre o que é exibido nos sites dos publishers e como essa perda pode afetar a reputação da marca estão entre os temas pouco abordados nos currículos do jornalismo profissional. É uma tendência preocupante, já que o ad tech pode influenciar a produção, distribuição e a percepção do jornalismo, tanto em aspectos óbvios como sutis.

As redes sociais em especial causaram uma ruptura no controle que os publishers costumavam ter sobre as informações e publicidade, e o ambiente com múltiplos aparelhos inverteu a primazia pela atenção dos leitores, que foi por muito tempo uma exclusividade dos publishers. Os experimentos com formatos de anúncios borraram a antes clara linha divisória entre os departamentos editorial e comercial das empresas jornalísticas. A ambiguidade é hoje a norma. Jill Abramson, ex-diretora executiva do New York Times, faz uma consideração sobre seus valores com um senso de nostalgia “Talvez eu fosse linha-dura demais, mas eu acreditava na muralha (entre os lados comercial e editorial do jornal)”. Este “Guia para Tecnologia Publicitária” pretende explicar como tudo isso aconteceu e o que representa para a prática de jornalismo hoje, oferecendo uma educação útil na história e política econômica das tecnologias de publicidade digital. O guia inicia-se com uma breve história da publicidade moderna no jornalismo e uma revisão dos fundamentos do marketing. A seguir, são apresentadas descrições técnicas sobre o funcionamento dos anúncios de display digitais, os contornos do espaço do ad tech e o impacto material que o ad tech tem sobre a experiência do usuário. O estudo então examina os padrões resultantes no consumo de notícias e anúncios, como os consumidores e as forças de mercado reagiram contra a publicidade de display digital e como a indústria de marketing reagiu investindo pesadamente em plataformas sociais e sites de busca.

O estudo também aborda como o ad tech cria estruturas de incentivo, que podem influenciar o modo como repórteres e editores pensam a respeito da produção de notícias, e como as tecnologias publicitárias ameaçam o relacionamento entre publishers e leitores, incluindo reputação e marcas jornalísticas. O fato de que as instituições jornalísticas, que estabeleceram um compromisso de informar os cidadãos em uma democracia livre, estejam participando conscientemente do sistema técnico da publicidade – que comprovadamente viola a privacidade dos leitores – é um sério dilema ético. A tecnologia e a sociedade estão misturadas e constroem uma a outra, e os jornalistas precisam ter compreensão de ambas para apresentar uma narrativa que nossa democracia exige.

Por fim, é relevante observar que este relatório é um item de biblioteca, o que significa que suas fontes primárias não são entrevistas, mas reportagens do setor de tecnologia, literatura acadêmica nos campos de marketing e estudos de jornalismo, manuais de marketing e “cases” de faculdades de administração.

O ad tech é um campo que se desenvolve muito rapidamente, fica portanto um alerta que os detalhes podem estar sujeitos a mudanças. As lições políticas e filosóficas, contudo, devem continuar relevantes.

Tipos de anúncios: Display, Branded, Targeted, e Programmatic

  1. Do “branding” ao “targeting”.

Para entender o contexto do mundo onde anúncios display são comprados e vendidos, é útil apresentar um pouco da história dos principais temas da publicidade nos últimos 30 anos.

Na segunda metade do século 20, o principal foco da indústria publicitária era o “branding”. Anúncios de branding são geralmente grandes mensagens visuais, de alto impacto, que associam um produto a uma série de valores. Os consumidores que se sentem representados por esses valores, ou que querem indicar aos outros que acreditam nesses valores, podem ficar inclinados a comprar um produto dessa empresa. As campanhas de branding geralmente são apresentadas em comerciais de televisão, já que a TV é considerada a melhor mídia para branding. Se você já viu um comercial de cerveja que é mais focado em festas, garotas e diversão do que na cerveja em si, então você sabe o que é um anúncio de branding.

Os anunciantes tendem a apostar no branding quando há vários concorrentes semelhantes de alta qualidade no mercado.

Empresas como Procter & Gamble, General Foods e Unilever desenvolveram a disciplina do gerenciamento de marcas – o marketing como conhecemos hoje – quando perceberam que os níveis de qualidade dos produtos oferecidos pelos concorrentes haviam aumentado. Um “brand manager” seria responsável por dar ao produto uma identidade que o destacasse em meio a concorrentes praticamente indistinguíveis.

Um bom exemplo disso é Coca-Cola versus Pepsi. Os dois refrigerantes são quase indistinguíveis como produtos – portanto, as empresas investem altos valores em campanhas de branding para torna-los diferentes um do outro. A Coca-Cola busca associação com valores como união, comunidade internacional e felicidade. Já a Pepsi busca qualidades como progressismo, energia e juventude.

A percepção da marca e dos valores da marca, creem os anunciantes, podem influenciar as decisões de compras dos consumidores. A Procter & Gamble, que fabrica itens de consumo doméstico e é uma das maiores anunciantes do mundo, anuncia propositalmente grupos de produtos diferentes, como o sabonete Ivory, o detergente Tide e sabão para lava-louças Dawn dentro de uma “família de marcas” unificada. O diretor (Chief Brand Officer) Marc Pritchard disse que “descobrimos que muitas vezes quando as pessoas sabem que uma marca é da P&G, elas se sentem melhor a respeito da marca. E quando sabem que a P&G tem todas essas marcas, elas se sentem melhor a respeito da P&G”. Essa abordagem é exemplificada pela publicidade da P&G durante os Jogos de Inverno de 2010, que combinou 18 produtos diferentes da P&G em uma única bandeira, em vez de focalizar nos produtos individuais.

Em meio a esse ambiente de publicidade baseada em branding, os anúncios digitais do formato display estrearam no final dos anos 1990. A publicidade em display são anúncios retangulares que aparecem nos sites, visitados em um computador desktop, tablet ou smartphone. Eles existem em vários formatos, classificados pelo grupo industrial Interactive Advertising Bureau (IAB) em função da relação altura/comprimento, como Horizontal 2:1, Horizontal 4:1, and Vertical 1:2., como mostrados na figura 1.

https://i1.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/12/watkins-formats-392x600.jpg?resize=392%2C600&ssl=1

(Figura 1: Tamanhos aceitáveis de anúncios display para cada tipo de aparelho, segundo a definição do Interactive Advertising Bureau)

Supostamente, os anúncios display devem seguir os padrões e normas definidos pelo IAB. À medida em que a atenção do consumidor se reparte entre smartphones e tablets, além da TV, rádio, revistas, jornais e mídia exterior, os anunciantes tiveram de competir por esse recurso valioso e cada vez mais escasso, o que o mercado chama de “economia da atenção”. Dentro desse ambiente competitivo, a publicidade mudou seu foco do “branding” para o “targeting”.

As campanhas de branding são criadas para chamar a atenção de uma grande parcela da população. Os anúncios de targeting funcionam de modo oposto: são criados para serem os mais atraentes possíveis para grupos específicos de pessoas. Para entender como o targeting funciona, é preciso examinar quais dados dos consumidores são coletados, e como esses dados são coletados.

Inicialmente, os sites captam dados sobre você a partir do programa de navegação e de algo chamado de “tracking cookies”. Os tracking cookies são fragmentos de códigos em linguagens como HTML e Javascript que os sites inserem no programa de navegação (browser) do usuário. Esses pedacinhos de código monitoram os usuários, registrando e enviando ao site original informações sobre os sites que você visita e as coisas que você compra. Os sites reúnem essas informações em duas categorias: 1) dados comportamentais sobre os tipos de sites que você visita e quanto tempo fica conectado neles, e se você comprou alguma coisa; e 2) dados demográficos que eles deduzem a partir do comportamento online, como sua idade, nível educacional, estado civil, faixa de renda e interesses pessoais. Essas informações são então usadas para gerar anúncios para os usuários segundo dois parâmetros: 1) o que você faz (quer dizer, targeting comportamental) e 2) quem você é (targeting demográfico).

A coleta de dados também pode ocorrer no hardware. Um exemplo é sistema de coleta de dados a partir do hardware que ocorre nos telefones equipados com o sistema Android do Google. Um jornalista do The Guardian requisitou uma cópia do arquivo de dados que o Google tinha sobre ele, e descobriu que o Google tinha salvado todos os termos já buscados por ele (cerca de 90.000), todas as imagens baixadas, todos os sites acessados, todos os eventos listados no Google Calendar, incluindo os horários desses eventos, e cada item salvo no Google Drive. O jornalista também havia conectado seu medidor FitBit ao Google, assim o Google tinha o registro de cada passo dado em corridas, sessões de ginástica, yoga e meditação. E como o repórter tinha um telefone com o sistema Android, o Google tinha todas as fotos que ele havia tirado com o celular, incluindo os metadados sobre a localização e data da foto.

O Google tornou o uso desses dados no targeting transparente para os usuários do seu navegador Chrome. Todos os usuários do Chrome podem acessar uma página chamada “ad personalization” e examinar os atributos baseados em interesses e dados demográficos que foram coletados e processados pelo Google.

https://i1.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/Figure2-1-768x600.jpg?resize=629%2C491&ssl=1

(Figura 2: atributos de targeting de anúncios baseado em dados da autora, coletados pelo Google)

Essas informações não são úteis apenas para direcionar os anúncios especificamente para você, mas também para direcionar anúncios para pessoas como você. Os sites agregam todos os dados de seus usuários para criar um instantâneo dos dados demográficos dos visitantes, incluindo faixa média de idade, etnicidade, locais de residência e trabalho, faixa de renda e nível educacional. Esses dados de usuários, chamado de “inventário”, são então usados para vender espaços publicitários para marcas e anunciantes por meio de agências de publicidade. A métrica usada na compra de inventário é a “impressão”, o que significa quantas “impressões” um anúncio registrou entre os usuários que o viram. As impressões são vendidas em CPM, ou “custo por mil visualizações” – um termo que veio da publicidade de TV medida pela firma de audiência Nielsen, apesar das impressões de anúncios digitais terem qualidades muito diferentes. Os anunciantes geralmente estabelecem seus alvos de impressões junto com o valor a ser investido na campanha: “queremos atingir um número Y de impressões, e vamos gastar X para isso”.

Os publishers podem oferecer sistemas de preços alternativos baseados em outras ações dos usuários (além das meras impressões), como o CPC (“cost-per-click”, quando um usuário clica em um anúncio) ou CPA (“cost-per-action”, quando o usuário clica no anúncio e também realiza uma compra)

2- Publicidade programática

Voltando à história da publicidade, os anúncios online explodiram nos anos 1990 e 2000. Os sites estavam vendendo um volume cada vez maior de impressões para um número crescente de anunciantes. Rapidamente, os publishers tiveram de lidar com bilhões de impressões e milhares de anunciantes. Nesse espaço ruidoso, surgiu uma nova camada de prestadores de serviços chamados “ad networks” (redes de anúncios). As ad networks são empresas que agregam sites que tem inventários semelhantes em grupos, facilitando para os assinantes a compra de anúncios. Desse modo, os anunciantes podem comprar grandes volumes de anúncios para exibir para usuários semelhantes em sites diferentes, e atingir suas metas de impressões de modo mais eficiente

2018-7-18 Display LUMAscape

Figura 3

Toda essa agregação, e o número astronômico de impressões unificadas, logo criou uma situação onde os anunciantes não sabem onde seus anúncios estão sendo exibidos ou quem os está comprando. Rapidamente, os compradores de anúncios passaram a buscar mais transparência a respeito do que estavam comprando com o dinheiro que investiam. Isso levou à criação de “ad exchanges” (bolsas de anúncios): plataformas abertas para comparar os preços e qualidade das impressões, para então compra-las. A figura 3 mostra o ecossistema de ad exchanges e ad networks. Os anunciantes são representados por uma barra verde à esquerda, e os publishers por uma barra azul à direita. Entre eles, é possível ver o enorme número de empresas de serviços que formam o cenário do ad tech, incluindo agências de publicidade, compradores de mídia e corretores de dados.

Você pode ver camadas adicionais de empresas, que executam serviços a partir dos dados dos usuários (todos aqueles dados comportamentais e demográficos coletados por meio dos cookies). Esses serviços incluem otimização (testar e analisar os dados de modo mais profundo para aperfeiçoar o targeting); retargeting, que é direcionar anúncios para o usuário depois que ele sai do seu site (lembram-se de Molly vendo anúncios de doces depois que saiu do site da Amazon.com?) e “ad attribution” – executar análises de dados dos hábitos de compras do usuário para determinar qual anúncio o levou até a efetivação da compra. Um corretor de dados no setor de ad exchange explicou desse modo os seus serviços para os anunciantes:

“Podemos desenvolver um segmento de audiência sob medida, a partir dos modelos dos visitantes de seu site (isso é chamado “look-alike modeling”); encontrar residências que têm a maior probabilidade de comprar determinados produtos ou serviços (“MRI Lifestyle Clusters”); se estiver patrocinando uma página na AOL, retarget os consumidores que visitaram a página (“Sponsorship LeadBack”); encontrar sua audiência feminina ideal nos sites com maior probabilidade de visitas (“Subnet Targeting”), encontrar mulheres que estão procurando por informações sobre moda ou casas e jardins e direcionar targets específicos para residências onde há mulheres (“Age/Gender Targeting”)

É nesses ad exchanges que ocorrem os lances programáticos em tempo real. Os lances programáticos em tempo real são leilões ao vivo disputando a atenção do usuário, que ocorrem em milissegundos toda vez que um anúncio é carregado na página. O processo começa assim: como no site de leilões eBay, os publishers disponibilizam um inventário de anúncios (medido em impressões de usuários) em um bloco de leilão. Os anunciantes fazem lances por esse inventário usando programas de computador (daí o termo “programático”). Os anunciantes dizem aos programas que tipo de inventário comprar baseados em vários parâmetros. Os programas fazem lances altos ou baixos, dependendo da adequação do inventário para a campanha publicitária do anunciante, em função do orçamento destino para ela. Os lances ocorrem em tempo real, porque esses leilões ocorrem toda vez que um usuário abre uma página da web, no tempo de milissegundos.

3- Anúncios display em sites de notícias

Organizações jornalísticas publicam padrões descrevendo os formatos que os anunciantes podem esperar ver nas páginas da web, e também os termos e condições que os publishers estabelecem para os anunciantes. Em termos de formatos, essas indicações incluem templates visuais. No guia “Digital Advertising Production Format Guide” do britânico The Guardian, esses templates incluem formatos de anúncios como “Cascade,” “Expanding Billboard,” “Fabric Video,” “Filmstrip,” “Focus,” e “Sliding Doors”. O Guardian apresenta imagens para os anunciantes mostrando como os anúncios aparecerão nas telas de diferentes aparelhos. O “Media Kit” do New York Times também oferece um pacote completo de formatos e imagens de anúncios nos formatos disponíveis. (Figuras 4 e 5)

https://i0.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/guardian-ads-800x275.jpg?resize=629%2C216&ssl=1

Figura 4: Especificações de formatos de anúncios do The Guardian

https://i2.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/times-ads.jpg?w=629&ssl=1

Figura 5: as especificações de formatos de anúncios do New York Times

Os termos e condições especificam o que é esperado dos anunciantes. Alguns publishers incluem exigências sobre a “veracidade” dos próprios anúncios (os “Termos e Condições” do The Guardian especificam que os anúncios devem ser “legais, decentes, honestos e confiáveis”). Outros tentam estabelecer relação de boa-fé quanto à confiabilidade das especificações técnicas dos anúncios. O Guardian diz em seus Termos e Condições que “todos os anúncios enviados para publicação online devem estar livres de quaisquer vírus, adware, malware, bit torrents, e nenhum anúncio deve causar efeitos adversos ao funcionamento do website”. O Media Kit do New York Times estabelece que “todos os tags de terceiros e tecnologias auxiliares servidas pelos tags devem ser compatíveis com SSL (HTTPS)”. Apesar desses requerimentos, foram detectados problemas criados tanto pela infraestrutura técnica da publicidade como pela economia política na qual essa infraestrutura está inserida.

A influência da publicidade nas notícias: inchaço, cliques e bots

O ecossistema do ad tech apresenta várias questões para a produção, distribuição e consumo de notícias. Em primeiro lugar, ele tem impacto material sobre a experiência do usuário. Em segundo, o ad tech cria estruturas de incentivos, que podem influenciar o modo como repórteres e editorem pensam sobre a produção jornalística.

i. Usabilidade e inchaço de anúncios

o Wall Street Journal recentemente informou que a publicidade na era digital arrasta o peso da história: os anúncios digitais estão sobrecarregados com a mentalidade ultrapassada de publicitários que cresceram na era do branding. Ideias de anúncios com imagens em grandes formatos que funcionavam bem na televisão, mas agora estão sendo injetadas em minúsculos anúncios digitais ou contribuem para formas mais invasivas de publicidade online, como as mensagens “roadblock”, que ocupam a tela inteira por alguns segundos e atrapalham a experiência do usuário.

Além de prejudicar a qualidade da experiência do usuário, a infraestrutura técnica dos anúncios digitais reduz o desempenho dos browsers. Basta lembrar de todos aqueles cookies embutidos nos anúncios, além das inúmeras transações de alta complexidade técnica dos leilões programáticos em tempo real, rodando milhões de linhas de código e enviando e recebendo instruções de milhares de servidores a cada milissegundo. Isso sobrecarrega os programas de navegação, tornando os sites de notícias mais lentos e atrapalhando ainda mais a experiência do usuário.

Em 2015, um estudo do New York Times descobriu que a homepage do Los Angeles Times tinha 5,7 megabytes de conteúdo. Porém, o conteúdo jornalístico chegava a apenas 1,6 megabyte – quase 73% do total dos dados enviados para os usuários eram devidos aos anúncios. Isso tornava muito ruim a visita ao site, tanto em termos de tempo de carregamento (os anúncios aumentavam em sete segundos o tempo de carregamento da página, um aumento de 175% em relação ao normal) como de custos para os usuários, especialmente aqueles que acessavam a página em um smartphone ou tablet – que são os aparelhos cada vez mais usados para acessar notícias. Desde 2015, 99 dos 110 maiores sites jornalísticos tinham mais visitantes usando aparelhos móveis do que desktops para acessar suas páginas. Algumas operadoras de telefonia (como a AT&T e Verizon nos EUA) cobram tarifas se você ultrapassa a franquia de dados contratada. Desse modo, sites com inchaço de anúncios não apenas demoram mais para carregam, eles deixam as contas de telefone e internet mais caras para o usuário. Na verdade, os leitores que usam pacotes de dados móveis estão pagando em tempo e dinheiro para ver anúncios que cobrem ou atrapalham a leitura do conteúdo jornalístico que eles estão tentando ler.

O targeting também modifica o mundo que as pessoas veem online porque os anúncios são direcionados para audiências específicas, o que significa que algumas pessoas verão mensagens diferentes de produtos e serviços. O professor Joseph Turow da Universidade da Pennsylvania descreveu esse processo no The Atlantic:

“Considerem uma família fictícia de classe média com pai, mãe e três filhos. Os pais Larry e Rhonda estão recebendo anúncios de financeiras populares e de empréstimos consignados. E Larry percebe com tristeza que os sites de automóveis que ele visita mostram artigos e anúncios sobre carros populares ou modelos usados. Sua amargura aumenta quando ele comenta com sua chefe sobre a crise econômica que anda vendo na web. Surpresa, ela diz que visita os mesmos sites de automóveis e tem a impressão oposta: muitos dos artigos são sobre os modelos alemães mais recentes e um site até ofereceu um cupom para um test-drive em uma revendedora perto de sua casa”.

ii. Ad tech, privacidade e segurança

Além dessas questões de usabilidade, economia e targeting, a tecnologia publicitária também apresenta dilemas de privacidade e segurança. Mesmo que um publisher exija que o anúncio digital não contenha malware, a complexa infraestrutura técnica da publicidade fez com que sites jornalísticos publicassem anúncios com programas nocivos para os leitores.

Em 2009, o New York Times foi vítima de um golpe chamado “malicious ad swap”, onde um anunciante que era reconhecido como legítimo passou subitamente a enviar malware para os leitores. A BBC e o New York Times também enviaram “ransomware” aos leitores (programas embutidos em anúncios que procuram brechas no computador do usuário e instalam softwares que travam a máquina, que depois só pode ser destravada mediante pagamento em bitcoins). Em outro caso de anúncios em sites jornalísticos invadindo a privacidade dos leitores, o site do canal Showtime da rede CBS foi flagrado “minerando” bitcoins por meio das máquinas dos usuários. O caso foi explicado em uma reportagem do The Guardian, com o título “Ads Don’t Work So Websites Are Using Your Electricity to Pay the Bills”:

“O serviço americano de streaming Showtime estava enviando códigos para minerar criptomoedas nas máquinas dos usuários – as criptomoedas, como o bitcoin e seus sucessores, funcionam por um sistema de “mineradores”, que competem para resolver complexos problemas de computação em troca de uma recompensa. Esses problemas exigem uma grande capacidade computacional e também consomem um grande volume de eletricidade. O código malicioso contornava esses problemas, fazendo o usuário pagar a conta de energia elétrica, mas a recompensa ficava com o site”.

Joe Stewart, diretor de pesquisas sobre malwares na empresa de serviços de segurança SecureWorks comentou que “o desenvolvimento de anúncios multimídia, mini-aplicativos e ferramentas de redes sociais está superando rapidamente a capacidade de reação para a segurança que deve existir nesses aplicativos”.

Todas essas ameaças à experiência e privacidade do usuário podem colocar em risco a confiança que os leitores depositam nos sites jornalísticos. Dessa forma, não é surpresa que as tecnologias publicitárias apresentem um sério risco para a reputação das marcas jornalísticas.  Além disso, as demarcações do ad tech sobre o que é valioso na economia da atenção podem alterar as práticas profissionais e organizacionais do jornalismo.

iii. Notícias? Ou produtos geradores de renda?

Além das questões sobre usabilidade e privacidade, os incentivos e infraestruturas do ad tech podem incitar as organizações jornalísticas a produzir e distribuir determinados tipos de notícias. As economias de escala ditadas pela publicidade significam que o dinheiro dos anúncios só se torna tangível quando um número imenso de pessoas vê as mensagens. Investigações jornalísticas e estudos acadêmicos realizados em redações mostraram que os repórteres e editores se sentem pressionados para produzir notícias e tomar decisões operacionais segundo as demandas das estruturas e métricas da publicidade.

À medida em que a indústria de publishing adota funções, rotinas e métricas herdadas do setor de tecnologia, bem como da área de vendas de anúncios, mais decisões orientadas por essas métricas estão afetando o modo como as notícias são distribuídas e consumidas.

As métricas de engajamento medem o grau de envolvimento de uma audiência com o site. Isso inclui cliques (quantas pessoas clicam nos anúncios do site), hits (pageviews), sessões (tudo que um leitor faz enquanto está visitando o site), uniques (número de visitantes únicos no site) e muito mais. Mesmo as palavras “artigo” e “conteúdo” denotam valores e prioridades diferentes na produção de notícias. Enquanto a palavra “artigo” é usada no jornalismo com o sentido de um compromisso jornalístico para informar o público com uma cobertura objetiva, a palavra “conteúdo” vem do setor de tecnologia e indica o papel da palavra escrita dentro de uma infraestrutura maior de transmissão de conteúdo criado para metas específicas, como aumentar o engajamento e gerar faturamento.

O Columbia Journalism Review escreveu extensamente sobre essas motivações concorrentes em sua cobertura sobre a saída de Jill Abramson do comando do New York Times em 2014, e a chegada de seu sucessor Dean Baquet. O CRJ relatou que Baquete acredita que a tradicional “muralha” entre as áreas comercial e editorial do Times deve ser derrubada para garantir a precária sobrevivência do jornal: “Baquet…declarou secamente que a tradicional divisão notícias-publicidade se tornou um luxo que o Times não pode mais se permitir. Para conseguir vencer, disse ele, é necessária a cooperação da área comercial”. Jim Abramson, porém, disse o contrário: “Eu não queria que a energia de nossos jornalistas fosse focalizada em produtos geradores de faturamento”.

Angele Christin, estudiosa de comunicações em Stanford, realizou um estudo em uma redação nos Estados Unidos e outra na Europa, e descobriu que tanto repórteres como editores internalizam e reagem aos números de analytics e métricas da publicidade, e aos programas de engajamento da tecnologia. “Programas de engajamento” (“engagement programs”) são softwares, como o popular ChartBeat, que medem e exibem métricas de engajamento.

Christin descobriu que, embora as respostas não fossem exatamente as mesmas, nenhuma das duas redações estava imune à influência dos programas de engajamento. Repórteres e também editores levavam os números dos programas em consideração ao tomar decisões sobre que tipo de matérias e reportagens escrever, e como gerenciar, incentivar e promover repórteres:

“Web analytics são usados por alguns editores como indicadores de desempenhos na administração de pessoal, especialmente na hora de decidir como promover e compensar os jornalistas. Em vários sites de notícias em Nova York e Paris, essa correlação entre faturamento e tráfego é ainda mais clara: os redatores são ‘pagos por clique’, uma percentagem do faturamento publicitário que seus artigos atraem. Eles também podem receber bônus substanciais quando seus artigos são amplamente compartilhados nas redes sociais”.

É uma mudança dramática em comparação com as gerações anteriores de jornalistas, que escreviam desejando a aprovação de seus pares ou prêmios por reputação.

O YouTube fornece um exemplo claro de como as métricas de engajamento mudam o tipo de conteúdo que é incentivado e distribuído algoritmicamente pela economia da atenção. O crítico de mídia Zeynep Tufekci escreveu sobre uma investigação do Wall Street Journal que mostrou que o algoritmo de recomendações do YouTube empurra os espectadores para vídeos mais extremos, contribuindo para a radicalização dos usuários:

“O que faz com que as pessoas fiquem grudadas no YouTube? O algoritmo do site parece ter concluído que as pessoas são atraídas por conteúdos mais extremos do que o ponto de partida, ou vídeos incendiários de modo geral… o Wall Street Journal realizou uma investigação sobre o conteúdo no YT e descobriu que o site de vídeos costuma oferecer vídeos de extrema-direita ou extrema-esquerda para usuários que geralmente veem vídeos equilibrados de notícias, e que essas tendências extremistas eram evidentes em uma grande variedade de materiais. Se você procurasse informações sobre vacinação contra gripe, o site recomendaria vídeos de conspiração anti-vacinação”.

Os jornalistas devem refletir sobre a relação entre publishers e anunciantes, as questões de usabilidade e privacidade apresentadas pelo ad tech, como as estruturas de publicidade incentivam determinadas decisões operacionais e organizações nas redações, e se é ainda razoável esperar que a publicidade financie o jornalismo. Com isso em mente, vamos nos concentrar em um dos agentes neste sistema que drena dinheiro dos anunciantes e dos publishers: a fraude.

iv. Fraude e bots

Apesar dos algoritmos sofisticados, complexos sistemas técnicos e uma ampla variedade de firmas de serviços, a indústria publicitária é marcada pela fraude. O redator publicitário Akit Kohli observa que “a fraude na publicidade é geralmente pela criação de um tráfego falso de anúncio, usando sites de fachada e outros mecanismos fictícios para apresentar anúncios que não são de fato vistos pelos consumidores”.

O chamado “bot viewing” é uma reclamação frequente. Os bots são programas que realizam tarefas automatizadas na internet (“bot” vem da palavra “robot”, robô, que tem origem na palavra checa para “trabalho”). “Bot viewing” ou “bot traffic” ocorrem quando esses programas são usados para imitar usuários e inflar os números de audiência. Esses programas e seus serviços estão facilmente disponíveis para compra na internet. Uma busca no Google por “viewing bots” incluiu um serviço para pessoas que querem ampliar a audiência de seus próprios vídeos no YouTube (figura 6)

https://i1.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/viewing-bots-800x411.jpg?resize=629%2C323&ssl=1

Figura 6

Esses bots são usados para enganar os anunciantes, fazendo-os pensar que milhões de pessoas clicaram em um anúncio de vídeo, quando na verdade parte desse engajamento não era humano. Alguns bots criados na Rússia são capazes de copiar publishers, criando cópias de sites jornalísticos para furtar dinheiro dos anunciantes.

Enquanto os anunciantes pensavam estar anunciando em websites reais, na verdade eles estavam comprando inventários falsos ou cópias de sites visitados por bots. Os pesquisadores relatam que o golpe afetou mais de 6.000 sites de grandes publishers, incluindo The Huffington Post, The Economist, ESPN, Vogue, CBS Sports, Fox News, e até a Fortune.

O MIT Technology Review escreveu em 2014 que 36% do tráfego da internet é realizado por máquinas sem interferência humana. O IAB estimou no estudo de 2015 “What Is an Untrustworthy Supply Chain Costing the Digital Advertising Industry?” (“Qual é o custo de uma cadeia de suprimentos não confiável para a indústria publicitária digital?”) que a indústria perde US$ 4,6 bilhões por ano devido aos bots. O Wall Street Journal informou em meados de 2017 que a Procter & Gamble – um dos maiores anunciantes do mundo, com imenso volume de anúncios exibidos – reduziu seu investimento publicitário digital em US$ 100 milhões, e seu executivo financeiro disse que a empresa estava apresentando anúncios para bots, e não para seres humanos. No final daquele ano, os cortes nos anúncios digitais subiram para US$ 200 milhões.

Alguns anunciantes recorreram ao uso de blockchains para combater a fraude, apostando no sistema de arquivos seguros e transparentes dessa tecnologia.

A reação contra a publicidade: Bloqueadores, centavos e muros

Diante das questões de usabilidade e finanças para os leitores, ameaças à privacidade e equipamentos dos leitores, o impacto das métricas do ad tech para a prática de jornalismo e o fato de que o próprio sistema do ad tech é permeado por fraudes, não é surpresa que os consumidores e publishers estejam reagindo contra o ad tech.

i.Blockers

Consumidores começaram a evitar toda a infraestrutura da publicidade com o uso de ad blockers, os bloqueadores de anúncios. Os ad blockers são plug-ins dos navegadores (ferramentas que podem ser baixadas e instaladas no browser) e bloqueiam o download dos códigos embutidos: os bloqueadores impedem os anúncios de instalar cookies nas máquinas dos usuários, e também impedem as tentativas dos anúncios de se comunicar com os servidores de ad-exchange. O Wall Street Journal informou que os publishers se tornaram conscientes do incômodo que os anúncios causam para os leitores:

“De acordo com muitos publishers, as agências publicitárias constantemente produzem anúncios grandes demais, com muitos arquivos de monitoração embutidos, e geralmente mandam no último minuto para os sites, que ficam sem tempo para recusá-los. Esse comportamento está contribuindo para tornar o carregamento dos sites muito lento, o que encoraja o uso de softwares bloqueadores entre os consumidores”

Desde 2015, a popularidade dos ad blockers disparou.

As empresas de browsers também adotaram os bloqueadores: em 2017 a Apple abalou os anunciantes digitais nas plataformas móveis ao incluir automaticamente um bloqueador de anúncios na versão móvel do Safari, o browser nativo do iPhone. O Google seguiu o exemplo em 2018, criando mecanismos para bloquear automaticamente o que considera como anúncios “invasivos” no navegador Chrome, que é usado por mais da metade dos usuários da internet.

Ao mesmo tempo em que os usuários e desenvolvedores abraçam o uso dos ad blockers, está cada vez mais claro que os anúncios estão gerando cada vez menos dinheiro para os publishers.

ii. Dólares no impresso, centavos digitais

A experiência publicitária está afastando os usuários dos sites de notícias, e para piorar a situação o mercado hiper-eficiente de anúncios está achatando o valor dos próprios anúncios. A situação foi apelidada pelo jornalista David Carr em 2008 de “print dollars, digital dimes” (trocando dólares do impresso por centavos no digital) – os anúncios digitais representam uma parcela cada vez menor do faturamento dos publishers.

O perfil de fontes de rendimento do New York Times migrou dramaticamente para longe da publicidade, que representava 71% em 2000 e apenas 37% no balanço de 2016. A transição tem sido contínua e certa: entre 2010 e 2015, o faturamento com publicidade impressa caiu 16% (de 44% do faturamento para 28%) e a sua contraparte digital teve um crescimento de apenas 2% (de 10% para 12%)

A ampla transparência, eficiência e disponibilidade dos dados forçou o preço das impressões para baixo, conforme observa o New York Times em seu relatório anual de 2014:

“As redes e exchanges de publicidade digital, os lances em tempo real e outros canais programáticos de compras que permitem que os anunciantes comprem audiências com escala também desempenham um papel mais significativo no mercado publicitário e estão forçando os preços para baixo.”

As pressões de mercado não apenas reduziram o valor dos anúncios digitais, mas sua eficácia relativa de atingir os consumidores também está sendo questionada: um grupo de marketing usou estatísticas divulgadas pelo Google AdWords para calcular a média de click-through (o percentual de pessoas que realmente clicam em um anúncio) e o número é menor do que 1%.

Os publishers reagiram a essa baixa taxa de click-through e o baixo faturamento gerado pela publicidade em display experimentando com modelos publicitários alternativos.  Um desses modelos é o “affiliate advertising”, o que significa que um anunciante trabalha com afiliados (por exemplo, websites e publishers) para publicar posts patrocinados ou promoções de produtos, e esses afiliados ganham uma comissão quando um post ou produto gera uma venda. Os anunciantes obviamente pagam mais por essas ações de engajamento maior, já que o fluxo de faturamento depende de fazer os leitores realmente clicar nos anúncios – o que é uma tarefa difícil.  O New York Times comprou um site de resenhas de produtos chamado WireCutter, onde algumas resenhas apresentam links de afiliados. Se o usuário fizer uma compra por meio de um desses links, o Times ganha uma comissão.

O Times discutiu o potencial de apresentar resenhas tendenciosas na seção “About” do site WireCutter:

“Para ficar claro: nossos redatores não sabem quais empresas podem ter fechado acordos de afiliação com nossa equipe comercial antes de selecionarem os produtos para resenhas. Se os leitores decidirem comprar os produtos que recomendamos como resultado de nossas pesquisas, análises, entrevistas e testes, nosso trabalho é geralmente (mas não sempre) financiado por comissões de afiliação do comerciante onde os usuários fazem a compra. Não existe incentivo para que escolhamos produtos inferiores ou atendamos pressões de fabricantes – na verdade, é exatamente o contrário. Acreditamos que é um sistema bastante, que nos mantém focalizados a atender os leitores em primeiro lugar”.

De modo geral, se configura um cenário sombrio no ad tech digital. Questões financeiras e de usabilidade afastam os leitores dos sites de notícias, e os leitores que permanecem estão usando ad blockers ou clicando em anúncios que geram valores muito baixos. Enquanto isso, novos modelos de anúncios como o affiliate marketing são arriscados porque podem gerar reportagens tendenciosas. Não é surpresa então que os publishers e anunciantes estejam buscando por estratégias diferentes.

iii. Paywalls e assinaturas

Uma maneira pela qual os publishers buscam fugir do modelo publicitário é usar paywalls e assinaturas. Com a queda do faturamento publicitário, o faturamento derivado de assinaturas cresceu para muitos publishers. Em 2000, as assinaturas representavam apenas 23% do faturamento total do New York Times, mas o percentual chegou a 54% em 2015. Uma paywall é um sistema digital que impede a leitura de conteúdos no site sem assinatura. Ao criar paywalls, os publishers aprendem sobre os comportamentos dos leitores e podem incentivar a compra de assinaturas. Existem três tipos básicos de paywalls:

  1. Hard: todos os leitores precisam pagar para ter acesso a qualquer artigo em qualquer aparelho
  2. Metered: Um determinado número de artigos pode ser acessado de graça por mês e depois o leitor precisa pagar para ter acesso.
  3. Leaky/porous: Apenas um certo número de artigos tem acesso gratuito, mas os leitores podem ver o conteúdo quando eles chegam ao site da publicação a partir de um site de busca ou rede social.

Existe um aspecto psicológico na construção desses muros de acesso: os leitores que chegam ao site do publisher por meio de um site de busca ou rede social são considerados “novos” ou “casuais”, sem fidelidade aparente com o site de notícias.

Ao exibir a eles conteúdos por meio de uma paywall metered ou porosa, os publishers esperam conquistar a fidelidade dos leitores, que pode eventualmente ser convertida em uma assinatura. Alguns publishers estão personalizando pacotes de assinaturas de acordo com audiências específicas, como fãs de esportes ou interessados em reportagens sobre crimes. Porém, os publishers enfrentam um sério desafio para criar paywalls que possam converter audiências fiéis em assinantes, e ao mesmo serem porosas a bastante para não perder o faturamento publicitário gerado por por leitores casuais. Os publishers também devem tomar decisões sérias sobre quando suspender as paywalls em momentos de crise, como no ataque ao World Trade Center em 11 de setembro. Vários fatores já foram citados pelos publishers como motivos para suspensão de paywalls, incluindo “informar o público em momentos de crises ou emergências; aumentar a divulgação de eventos e ocasiões especiais; ampliar o acesso a conteúdos não emergenciais mas vistos como de interesse público ou usando anunciantes como patrocinadores de curtos períodos de acesso geral”. Os acadêmicos de jornalismo Mike Ananny e Leila Bighash argumentam que essa lista indica a variedade de motivos subjetivos como os quais os publishers se comprometem.

As pressões negativas sobre os anúncios display (preços em queda, usabilidade baixa, a disparidade entre profissionais que são treinados em branding e os formatos pequenos do display digital, violações de privacidade e a migração para o modelo de assinaturas) forçou a indústria de marketing a procurar por novos canais para apresentar suas mensagens aos consumidores – alguns desses canais incluem apresentar anúncios em plataformas sociais e sites de buscas. Apesar de existirem várias redes sociais e sites de buscas, o foco aqui são os maiores players dessas áreas: o Facebook nas redes sociais e o Google na busca.  Para os propósitos deste estudo, essas duas empresas – chamadas de “duopólio” da publicidade digital, que lideram isoladas no faturamento na indústria – são suficientemente representativas para as questões que afetam jornalistas e o jornalismo.

Em sua atividade profissional, porém, os jornalistas devem olhar além dessas duas empresas para examinar as ações e implicações das várias outras empresas agindo nessa área. A Amazon está silenciosamente emergindo como uma potência no espaço da publicidade digital, lançando novas maneiras de atingir os consumidores envolvidos em comportamentos de compras.

Anúncios em redes sociais

A publicidade em plataformas sociais envolve um complexo sistema sócio-técnico de empresas de plataformas, anunciantes, publishers, aparelhos, servidores, algoritmos e leitores. Esse esquema apresenta uma série de complicações profissionais, sociais e econômicas para o relacionamento entre notícias e publicidade.

i. Jardins murados e o crescimento da economia da vigilância

Enquanto alguns leitores usam ad blockers para se esquivarem dos anúncios display, outros abandonaram a web completamente e migraram seu consumo de notícias para aplicativos que funcionam como “jardins murados”, otimizados para aparelhos móveis e controlados por conglomerados privados. Os exemplos incluem a Apple e o Facebook. Segundo uma recente pesquisa do instituto Pew, 45% dos americanos declaram que o Facebook é a principal fonte de notícias para eles (Figura 7)

https://i0.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/Chart-2-800x560.jpg?resize=629%2C440&ssl=1

Figura 7

Com a queda nos preços dos CPMs e a adoção cada vez maior de ad blockers sufocando o fluxo de caixa da indústria, é fácil imaginar como a entrada na era das redes sociais representou uma benção para os anunciantes. Os dados praticamente infinitos sobre a vida pessoal dos usuários das redes sociais e o controle centralizado sobre o que é exibido para os usuários criaram imensas possibilidades de targeting. Os usuários não apenas fornecem dados pessoais diretamente, escrevendo detalhes sobre seus filmes, músicas, comidas, roupas e programas de TV favoritos, mas também realizam ações como postar fotografias, marcar amigos, assistir vídeos, clicar em links, dar “likes” em posts, entrar em “fan pages” e enviar mensagens aos amigos – e tudo isso é registrado e monitorado.

A Lei Geral de Proteção de Dados (GDPR) da União Europeia de 2018 forçou as empresas de redes sociais a disponibilizar todos os dados coletados sobre os usuários residentes na UE pela primeira vez. Quando os jornalistas começaram a escrever sobre suas experiências ao baixar a analisar os dados que essas empresas tinham sobre eles, um repórter notou que o arquivo que o Facebook mantinha sobre ele era equivalente a 400.000 documentos do Word, incluindo todas as mensagens enviadas e recebidas por ele, todos os contatos em seu telefone, tudo que ele “curtiu”, todos os aplicativos que ele conectou ao Facebook e um registro de todas as ocasiões que ele fez log in e em qual aparelho.

ii. Do targeting para o influencing

Enquanto isso, outro tipo de persuasão que ocorre nas redes sociais não funciona por targeting baseado em dados comportamentais ou demográficos, mas usando o poder de indivíduos que possuem carisma ou capacidade de persuasão dentro de comunidades de consumidores. Na indústria publicitária, essas pessoas são chamadas de influenciadores. Um influenciador é alguém com forte relação com sua audiência, e pode afetar as decisões de compras do público devido ao conhecimento e autoridade que possuem com essa audiência.

Os influenciadores representam uma nova estratégia na publicidade em redes sociais, para setores que vão de produtos de beleza a energéticos ou brinquedos. Alguns publicitários apelidaram esse fenômeno de “growth hacking”, que significa aumentar a audiência “pegando carona” nas redes do influenciador. A indústria jornalística já utiliza o marketing de influência – por exemplo, os publishers Mic, Refinery29 e Slate contrataram o artista George Takei para promover seus artigos em sua popular página no Facebook. O site Mic teve um salto de três dígitos no engajamento (medido em comentários) de um artigo que Takei compartilhou na página (figura 8)

https://i2.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/takei-brock-turner.jpg?w=629&ssl=1

Figura 8

Os influenciadores se mostraram tão populares que uma pequena indústria surgiu para oferecer serviços entre anunciantes e influenciadores. O site Digiday reportou que uma firma atende mais de 100 publishers, incluindo Slate e Entrepreneur. No final de 2017, o Digiday observou que essas promoções contornavam as regras sobre o que é conteúdo comercial e o que é atividade orgânica de usuários, violando não apenas a confiança da audiência, mas os próprios termos de serviço da plataforma ao apresentar conteúdo patrocinado como se fosse uma opinião ou apoio autêntico: “As regras do Facebook exigem que os proprietários das páginas revelem a natureza comercial dos conteúdos postados, algo que essas celebridades não fazem”.

O Digiday também reportou em 2017 que as firmas que trabalham com influencers haviam começado a criar novas estratégias, oferecendo-se para trocar notícias por conteúdo próprio, uma opção mais lucrativa para o influenciador mas que tirava os publishers da jogada.

“Um número crescente de páginas de celebridades e influenciadores estão usando serviços que criam in-house conteúdos para os influenciadores, que são postados diretamente em sites criados especialmente para as celebridades, ou em uma página da própria empresa, onde a celebridade ganha um percentual do faturamento gerado pela visita dos leitores.

Além disso, algumas dessas páginas de influenciadores, que exibem conteúdo potencialmente duvidoso que não passou pelo crivo de nenhuma organização jornalística, foram na verdade criadas usando sofisticadas ferramentas de inteligência artificial (IA) e softwares de tracking, para imitar os sites que o usuário já visitou.

A empresa de serviços para influenciadores Providr usa machine learning para personalizar a aparência de seu site, que muda de acordo com a origem do usuário a partir da página de um influenciador – para manter o usuário por mais tempo na página e ver mais mais anúncios. “Nossa IA aprende o que um usuário tem mais tendência de gostar”, disse Gary Lipovetsky, co-fundador da Providr.

Na revisão das regras a respeito de conteúdo patrocinado e compartilhamento que ocorreu depois das eleições presidenciais americanas de 2016, o Facebook tomou medidas para corrigir esses atalhos usados pelos influenciadores. No começo de 2018, o Digiday reportou que “os donos de páginas não podem aceitar ‘nada que tenha valor’ em troca do compartilhamento de conteúdos que não tenham sido criados por eles em suas páginas’. Um CEO de uma empresa de serviços com influenciadores se mostrou pouco preocupado com as novas regras e disse acreditar que a dificuldade para aplicar as normas vai minimizar seu impacto – “Como o Facebook vai saber se George Takei postou alguma coisa porque ele gostou ou postou porque foi pago por isso?”

iii. Facebook e as notícias

O Facebook é uma empresa de rede social que oferece as versões dekstop e app de seu popular serviço de rede. O site de estatísticas online Statista informa que no segundo trimestre de 2018, o Facebook tinha 2,23 bilhões de usuários ativos mensais – quase um terço da população do planeta.

Depois das eleições americanas de 2016, foi revelado que o Facebook e suas ferramentas de publicidade (e outras plataformas de redes sociais) foram tecnologias essenciais usadas pelas operações de informação da Rússia com o objetivo de “semear discórdia no eleitorado”. Jonathan Albright, diretor de pesquisa do Tow Center for Digital Journalism da Columbia Journalism School, observou: “O Facebook criou ferramentas incrivelmente eficientes que permitiram que a Rússia acessa os perfis de cidadãos nos EUA e descobrissem como nos manipular. O Facebook deu a eles tudo que eles precisavam”. Albiright disse ainda que muitas das ferramentas que os russos usaram, incluindo aquelas que permitem o targeting de anúncios e mostram exatamente o alcance desse anúncio, continuam ativas ainda hoje no Facebook.

O Facebook reconhece que 150 milhões de americanos foram expostos à propaganda russa na plataforma e a empresa foi chamada tanto pelo público como pelo Congresso dos EUA a se explicar e fazer mudanças na maneira como lida com notícias e desinformação. Em resposta, a empresa anunciou mudanças em seu algoritmo do News Feed, que um porta-voz disse que reduziria a prioridade de notícias e conteúdos de marcas. A empresa também apresentou mudanças nas regras para compartilhar notícias e publicidade na plataforma, especialmente 1) como as fontes de notícias são avaliadas em termos de confiabilidade e 2) como a propaganda política é policiada.

iv. Notícias e confiança

No início de 2017, o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, disse que a empresa passaria a classificar os publishers de acordo com a percepção de “confiabilidade” dos sites. Depois, em um evento com desenvolvedores do Facebook, Zuckerberg falou sobre o impacto inicial que essa mudança no algoritmo estava causando no modo como os itens eram exibidos no News Feed da plataforma:

“O Facebook reuniu dados sobre como os consumidores veem as marcas jornalísticas, perguntando a eles se conheciam várias publicações e se confiavam nelas. Colocamos esses dados no sistema, e ele age funciona como um estímulo ou uma supressão, e vamos avaliar a intensidade disso ao longo do tempo. Acho que temos uma responsabilidade em reduzir ainda mais a polarização e encontrar uma área em comum”.

A revista Wired observou, porém, que o os termos empregados na pesquisa (que foi publicada na íntegra pelo BuzzFeed) para definir o ranking de “confiabilidade” não reconhecem a complexidade e as múltiplas definições de “confiança”, especialmente em termos de utilidade política:

“Não apenas as pessoas não confiam muito na mídia de modo geral, mas seu nível de confiança decorre previsivelmente da orientação política de cada pessoa. Usando dados de uma pesquisa realizada na Universidade de Michigan, um estudo publicado em 2010 pelo jornal acadêmico American Behavioral Scientist afirma que três elementos indicam se alguém vai confiar numa publicação jornalística: o grau de inclinação para a a esquerda no espectro político; se a pessoa tende a ser confiante de modo geral; e se a economia está indo bem.”

De modo similar, um estudo do Pew de maio de 2017 revelou uma grande divergência em confiança nas notícias, dependendo da afiliação partidária (figuras 9 e 10)

https://i0.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/Chart-3-800x560.jpg?resize=629%2C440&ssl=1

Figura 9

https://i1.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/Chart-4-800x560.jpg?resize=629%2C440&ssl=1

Figure 10

v. Anúncio político ou notícia política?

Outro ponto da reação do Facebook diante da indignação pública contra as operações de informação na plataforma foi a implementação de novas políticas sobre como os anúncios políticos são comprados e classificados. Isso inclui normas mais rígidas sobre quem pode comprar um anúncio político, rotular cada anúncio político com o nome da pessoa que comprou e criar um arquivo de busca público com esses anúncios. O site ProPublica informa que “o Facebook está apostando que uma combinação de revelação voluntária e revisão por pessoas e sistemas automatizados pode encerrar uma vulnerabilidade que foi explorada por agentes russos na eleição de 2016”. Essa política, porém, cria novas complicações no relacionamento entre o Facebook e os publishers de notícias. Um repórter do New York Times cobriu um painel promovido pelo Tow Center for Digital Journalism, que incluiu o CEO do Times, Mark Thompson, e o diretor de parcerias com o jornalismo do Facebook, Campbell Brown:

“Os publishers protestaram veemente contra serem incluídos no mesmo arquivo que os anúncios políticos. Neste mês, organizações representando mais de 20.000 publishers nos Estados Unidos escreveram ao Facebook para contestar essa política, e alguns outlets, como a New York Media e o Financial Times, ameaçaram suspender as promoções pagas no Facebook se essa política não for alterada. O Facebook concordou em criar uma distinção entre o conteúdo dos publishers e os anúncios políticos, mas ainda não criou um arquivo separado”.

Essa política é claramente severa em seu impacto sobre os publishers locais, que dizem não ter os recursos para superar as regras agora em vigor para não entrar em uma lista negra. O Digiday reportou:

“Ao tentar combater a difusão de notícias falsas e outras desinformações antes das eleições de 2018, o Facebook está criando barreiras para organizações jornalísticas legítimas que querem apresentar suas reportagens para um público maior”. Um publisher local disse que o Facebook bloqueou uma matéria sobre uma feira na cidade, porque o texto mencionava o nome de um político, mesmo que o político não estivesse concorrendo à reeleição”

Vemos aqui um retorno surreal aos tempos da imprensa comercial pré-moderna, onde os primeiros jornais publicavam apenas cobertura política patrocinada pelos partidos locais. Novamente, a história mostra que questões políticas, econômicas e tecnológicas estão irreversivelmente misturadas.

Anúncios na busca

Vamos considerar o outro lado do duopólio, o Google – o site de buscas mais popular do mundo. Segundo o Statista, em julho de 2018 o Google concentrava 63% das buscas feitas em desktop e 94% das buscas em aparelhos móveis, chegando a 12 bilhões de buscas diárias.

i. Targeting por intenção

Uma anedota clássica da indústria de marketing é que ninguém presta atenção em um anúncio antes de entrar no mercado procurando por aquele produto. Uma maneira de capturar a atenção das pessoas quando elas estão no mercado procurando um produto é direcionar anúncios enquanto elas buscam informações sobre aquele produto. Isso torna a publicidade nos sites de busca uma ferramenta muito valiosa para os publicitários.

Existem dois tipos de listas nos sites de buscas, e uma delas é de anúncios. “Busca paga” é quando um site aparece no topo dos resultados de busca porque um anunciante pagou ao site de buscas por aquela posição. A outra, “busca orgânica”, é quando o algoritmo do site de buscas determina que aquele website é o melhor resultado para a busca realizada pelo usuário (figura 11, onde as buscas pagas estão destacadas em vermelho e os resultados orgânicos estão em azul)

https://i0.wp.com/cdn.cjr.org/wp-content/uploads/2018/11/google-ads.jpg?w=629&ssl=1

Figura 11

Almejar os consumidores que estão no meio de uma busca por um produto é chamado de “targeting to intent” (targeting de intenção) e ocorre em um ponto lucrativo do que é conhecida como “jornada de decisão do consumidor”. A jornada de decisão do consumidor é o processo pelo qual os consumidores consideram uma compra, pesquisam essa compra, compram o produto e depois usufruem desse produto. Para ilustrar o valor desse spot, vamos considerar uma estatística: em 2014, 13 dos 20 spots mais valiosos no Google Search (leiloados programaticamente por meio do Google AdWords) incluíam o termo “mesotelioma”, porque a doença é buscada no Google por pessoas que são potenciais clientes em lucrativos processos coletivos (figura 13)

Most Expensive Paid Search Keywords by Average Cost Per Click (Source: AdGooRoo)
U.S. Google Desktop Text Ads, Jan-Dec 2014
Cost Per Click Keyword
$319.34 Mesothelioma attorneys
$312.49 Buying structured settlement annuities
$291.93 Alabama mesothelioma attorney
$247.64 Hawaii mesothehioma attorney
$231.35 mesothelioma attorneys California
$230.04 Structured settlement industry
$229.33 National structured settlement trade association
$226.43 Cash structured settlements
$221.25 Virginia mesothelioma attorney
$211.01 Mesothelioma claim
$206.13 Mesothelioma attorney washington
$206.04 Virginia mesothelioma lawyers
$203.54 Virginia mesothelioma lawyer
$200.21  Maryland mesothelioma lawyer
$196.65  a mesothelioma
$189.78  Selling structured settlements
$189.53 Nevada mesothelioma attorney
$188.76  Wisconsin mesothelioma attorney
$187.00 Structured settlement annuities

Figura 13

Notavelmente, os click-through rates desses anúncios são muito elevados. Enquanto a média dos anúncios gera menos de 1% de CRT, esses anúncios na busca têm índices que variam entre 3.08% e 7,79%.

As práticas publicitárias do Google estão sob investigação pelos legisladores. Em 2017, um tribunal da União Europeia acusou a empresa de violar as regras anti-truste, modificando seu algoritmo para colocar seus próprios serviços e parceiros no topo dos resultados orgânicos de busca – uma acusação contestada pelo Google, citando falta de prova por parte dos regulamentadores.

ii. Notícias na busca

Com a personalização digital se tornando cada vez mais sofisticada, alguns críticos mostram preocupação com o consumo de notícias ocorrer prioritariamente dentro de uma “bolha de filtros”. O termo “filter bubble”, cunhado pelo cientista Eli Pariser em um livro com o mesmo nome, significa um estado de isolamento informacional onde os serviços digitais como sites de buscas e redes sociais recortam as recomendações de conteúdos por meio de algoritmos, baseados no histórico de consumo do usuário. Isso faz com o usuário veja informações que se encaixem apenas dentro de suas visões anteriores. Pesquisas mais recentes, porém, contestam a afirmação de que o Google é um veículo de bolhas de filtragem de notícias: testes empíricos mostram que entre usuários de esquerda e de direta, as recomendações de notícias do Google são praticamente idênticas.

Ainda assim, já que a onipresença das ferramentas computacionais permite que empresas explorem uma integração ainda maior com indústrias paralelas, os jornalistas ficam com a tarefa de entender como essa movimentação vai afetar o mercado e a regulamentação do consumo de notícias e informações.

CONCLUSÃO

Sem a publicidade, não teríamos visto o surgimento da cobertura jornalística independente, livre das amarras do patrocínio político. Os modelos baseados em assinaturas asseguram que apenas pessoas com dinheiro terão acesso às notícias; a publicidade torna as informações disponíveis para todos. E sem publicidade, dificilmente a internet teria crescido tão rapidamente e atendido tantas pessoas ao redor do mundo. Mesmo assim, essas infraestruturas criaram desafios imprevistos para a produção e distribuição de notícias. O investidor de tecnologia John Battelle, escrevendo sobre os danos causados pela publicidade digital, citou o autor Steven Johnson (que por sua vez estava citando Thomas Schelling, ganhador do Nobel): “Uma coisa que ninguém consegue fazer, não importando o rigor de sua capacidade analítica ou de sua imaginação, é uma lista de coisas que não vão acontecer com ele”.

É aqui que entram os jornalistas. Os jornalistas precisam ser mais rigorosos em sua compreensão e em sua curiosidade sobre o ecossistema sócio-técnico e a economia política da publicidade. Isso não apenas porque seu trabalho é distribuído por meio desse desse sistema, mas também porque como cidadãos de uma república democrática capitalista, precisamos de uma cobertura jornalística séria das complexas relações entre representantes eleitos, as infraestruturas de informação e distribuição que confiamos e as informações apresentadas a nós pelos publishers jornalísticos.

LEITURAS RECOMENDADAS

  • The Daily You: How the New Advertising Industry Is Defining Your Identity and Your Worth by Joseph Turow (Yale University Press, 2013)
  • Weaponizing the Digital Influence Machine: The Political Perils of Online Ad Tech, by Anthony Nadler, Matthew Crain, and Joan Donovan (Data & Society, 2018)
  • The Attention Merchants: The Epic Scramble to Get Inside Our Heads by Tim Wu (Vintage, 2017)
  • “Digital Marketing Strategy, Course Overview Note,” Harvard Business School, by Thales Teixeira (Harvard Business School, 2013)
  • Frenemies: The Epic Disruption of the Ad Business (and Everything Else) by Ken Auletta (Penguin, 2018)
  • Discovering the News: A Social History of American Newspapers by Michael Schudson (Basic Books, 1981)
  • “Friend and Foe: The Platform Press at the Heart of Journalism,” Tow Center for Digital Journalism report
  • Weapons of Math Destruction: How Big Data Increases Inequality and Threatens Democracy by Cathy O’Neil (Broadway Books 2016)
  • “Grappling with the Weirdness of Advertising” Data & Society Points blog post by Caroline Jack (Data & Society Points Blog)

O TEXTO ORIGINAL DESTE GUIA, COM LINKS E NOTAS DE RODAPÉ, PODE VER SER VISTO AQUI:

https://www.cjr.org/tow_center_reports/the-guide-to-advertising-technology.php/#citations

(Tradução e edição: Sergio Kulpas)

O tempo passou na janela. Só Carolina não viu.

“ESTAMOS NA METADE DA CRISE MUNDIAL”

menina

A crise brasileira reflete a morte da democracia representativa no Ocidente e corremos o risco de assistir “a ascensão de democracias não liberais ou de ditaduras plebiscitárias escancaradas, nas quais o líder eleito exerceria controle tanto sobre o Estado quanto sobre os capitalista”.

Abro este post com um lead criado a partir do título do artigo publicado por Fernando Henrique Cardoso, no último dia 8, no Huffington Post em língua inglesa, e da frase que sintetiza o alerta que o mais arguto articulista da imprensa econômica no mundo, Martin Wolf do Financial Times, vem dando às elites globais há dois anos em seus artigos sobre a globalização, as políticas concentracionistas que vem beneficiando só as minorias mais ricas nos países de todo o mundo e o descontentamento global dos “perdedores econômicos”.

Fernando Henrique, o último estadista do século 20, menciona no seu artigo as grandes transformações econômicas e tecnológicas, responsáveis pelo enfraquecimento dos Estados nacionais, em sociedades cada vez mais fragmentadas e expostas a tensões e desequilíbrios de uma crescente diversidade cultural.

Vivo assustado há anos. Nasci mergulhado no mundo da comunicação. Na minha andança, bati em muitos teóricos. Mas acabei abraçado no Harold Innis. Um economista canadense que começou a vida estudando a relação dos países periféricos com os centrais. Canadá era provedor de matérias primas para os EUA. Não sei bem como, ele evoluiu para o estudo das sociedades, dos impérios, em função da sua estrutura de linguagem no lato sensu (discurso, escrita, arquivos, distribuição). Da escrita na pedra e a oralidade grega, ao papel e à invenção da bobina e das rotativas, que marca o início da comunicação de massa. Tudo que veio depois foi basicamente aceleração. Isso até o corte da rede, o marco de início da Era Elétrica, na qual o sistema de comunicação da sociedade é uma extensão do nosso sistema nervoso.

Innis é o pai da escola de comunicação de Toronto e o mentor do McLuhan. No livro O viés da comunicação, ele defende em síntese que “o tempo social é definido pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar”. Tanto ele quanto McLuhan defendem a tese de que o que molda a sociedade é forma como ela se informa, o ambiente tecnológico pelo qual ela se informa e não o conteúdo que ele carrega. Estou nesta viagem desde meados da década de 80 e confesso que tenho certo temor em relação aos próximos anos, que não serão breves. Se sobrevivermos, chegaremos à democracia perfeita.

Nos últimos dois anos, este meu temor aumentou em função do que estamos assistindo em função da crise global que convivemos e a forma como as elites globais têm reagido a este quadro. Sou leitor do Martin Wolf, do FT, o melhor analista dos movimentos dos mercados e seus impactos na sociedade. Desde o aniversário da 1ª Grade Guerra ele vem de tempos em tempos publicando artigos sobre isso. Copio abaixo os títulos e os links dos artigos publicados no UOL.

Recentemente, o caderno de leitura do Valor saiu com um bela entrevista do economista francês Robert Boyer. Em resumo ele dizia que estamos na metade da crise, que ela é global, que as instituições estão desajustadas,os sindicatos fracos e os bancos cada vez mais especulativos, frisando que não podemos esquecer que a saída para a Grande Depressão de 1929 só foi possível depois da 2ª Guerra Mundial. Para ele, “o desafio é encontrar uma solução que leve em conta três fatores principais: a recuperação dos EUA, o dinamismo da China e o esgotamento de recursos naturais”.

Bato na mesma tecla dele desde os anos 80, influenciado por Fernand Braudel. Me formei em História e, é claro, nunca parei de estudar a História. Considero o Braudel o grande historiador da nossa época. No final dos anos 70 ou início dos 80, ele deu uma entrevista de fôlego que tinha como ponto de partida a primeira grande crise do petróleo. Ele fazia uma análise do quadro que vivíamos argumentando que aquela crise era só a ponta do iceberg, que estávamos entrando numa crise de longa duração, uma “onda longa”, os ciclos de Kondratiev. E ia mais fundo do que o Robert Boyer coloca na boa entrevista ao Valor sobre o estado de “envelhecimento” e desajuste das instituições.

Para Braudel, o conjunto dos conjuntos das estruturas, que era como ele falava da sociedade ou de uma época no lato sensu, tinha ido à frente das instituições que regulam a sociedade e que, as do nosso tempo, amadureceram a partir das revoluções na Europa em meados do século 19. E argumentava que já nos anos 80, elas não sustentavam uma sociedade muito mais complexa, fragmentada e com uma dinâmica infinitamente mais rápida do que a da sociedade do tempo em que elas se conformaram. Depois de tecer uma argumentação muito bem estruturada sobre este processo, terminava a entrevista dizendo que os políticos, os economistas, as lideranças dos processos institucionais iriam dizer que a crise iria passar. E comentava que estão no papel deles, têm que passar esta mensagem para o público, mas a crise está aí para ficar. Ela terá seus ciclos, momentos piores e melhores, mas vai durar um bom tempo. A formação das instituições é um processo. Não se trata de uma troca de camisa.

Isso foi bem no início dos anos 80. De lá pra cá rolou o que sabemos até coroar com a emergência da internet, marcando o início da Era Elétrica, prevista e estudada por uma série de pensadores voltados para os impactos dos processos de comunicação na sociedade. Das trilhas (peabirus) do passado e suas possibilidades à velocidade da rede, a extensão do nosso sistema nervoso, e seus impactos em tudo nas nossas vidas.

Fracasso das elites é ameaça para o nosso futuro

Os perdedores econômicos estão se revoltando contra as elites

Tragam nossas elites para mais perto do povo

Uma elite à mercê daquilo que ela mesma criou

A ira populista deveria servir de alerta às elites do planeta

Informação: dos jornais a um mundo sem fronteiras


Jornalista da família Mesquita fala sobre a função histórica dos jornais impressos, inclusive o do O Estado de S. Paulo, e das mudanças que a era da internet trouxe. Ele aborda como é possível fazer jornalismo nos novos tempos
 –  entrevista de julho de 2013 transcrita do página 22 da GV

Página 22 – Rodrigo,  você acredita na existência de uma crise dos meios jornalísticos provocada pelo descompasso entre a novíssima sociedade do conhecimento, revolucionada pelo digital, e as antigas estruturas da informação ?

Rodrigo – O apogeu da indústria de jornais acontece na década de 1940. A partir daí, este setor da indústria de comunicação social começa a envelhecer. Assim como as plataformas digitais atuais, os jornais também eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos.  Alexis de Tocqueville ( filósofo político francês, 1805-1859) aborda, na Democracia da América o papel dos jornais que estavam se estruturando no século 19 nos Estados Unidos. Para Tocqueville, os jornais contribuíam para  os cidadãos se sentirem parte de uma comunidade local, que por sua vez fazia parte de uma comunidade maior,  que era a nação americana nascendo. O jornal teve durante dezenas de anos o papel de plataforma de articulação das comunidades locais. Veja o caso do meu bisavô, Júlio Mesquita (jornalista, 1862-1927)…

Página 22 –  Júlio Mesquita foi o fundador do jornal “O Estado de S Paulo”?

Rodrigo – Não, meu bisavô foi um “self-made man” e não foi o fundador do Estadão.  O jornal  A Província de S Paulo foi fundado por um grupo de republicanos em 1875 com o objetivo promover a República e a abolição da escravatura.  Ele foi levado como colaborador para este jornal por Rangel Pestana (jornalista e político, 1839-1903) no final do século 19.  Para os republicanos, o jornal não era um negócio. Era uma ferramenta para se atingir seus objetivos. Depois de a República ter sido proclamada e a escravatura abolida, este grupo de republicanos perdeu o interesse no jornal. Ele não tinha mais nenhum valor para eles.

Meu bisavô, com a ajuda do pai imigrante português semi analfabeto e que escolheu o filho que iria estudar, começou a comprar as ações do jornal até adquirir 100%.  Neste processo, partiu para o rompimento dos laços do jornal com o Partido Republicano que o subsidiava. Desde a proclamação da República, o  nome do jornal tinha sido alterado  para O Estado de S Paulo. Concomitantemente ao  rompimento, promoveu uma profunda reforma editorial no jornal e fez uma série de inovações empresariais. Ninguém podia assinar textos no jornal, nem ele, “porque não é nosso, é do  público”. Com isso ele indicava que considerava o jornalismo uma atividade coletiva e colaborativa e começava a definir a missão do jornal.

Era um homem além do seu tempo, como fica claro nesta antevisão do que seria colaboração em rede.

Página 22 –  E qual era esta missão?

Rodrigo –  A missão do O Estado de S Paulo  (e de todos os jornais sérios e éticos) era levantar os problemas que preocupavam a comunidade de São Paulo e promover o debate destes problemas pela comunidade. Ele tinha uma frase que considero lapidar, verdadeira até hoje para as empresas jornalísticas e que mostra que suas ideias (de rede) continuam contemporâneas:  Jamais sonhei que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública de meu estado. Tudo o que eu fiz na minha vida foi sondar a opinião pública e me deixar  levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada.

Um exemplo disso foi a greve operária de 1917, liderada pelos operários anarquistas. O governo criou um comitê de arbitragem, que não chegava a uma solução. Aí chamaram o jornal para arbitrar o comitê de arbitragem. E O Estado de S Paulo ficou do lado dos operários anarquistas porque as condições dos trabalhadores eram desumanas. Nesta época, os jornais estavam tão inseridos  na vida das comunidades que podiam representar este papel: o de árbitro de uma crise da comunidade que serviam.

A partir do  final da década de 1940, o papel de articulação da sociedade do meio jornal começa a mudar. O jornal deixa de acompanhar proporcionalmente o crescimento da população, começa a enfrentar a concorrência de múltiplas plataformas de mídia, a explosão demográfica e o crescimento desmesurado das cidades, que fazem que o meio jornal comece a se distanciar do seu público.  A sociedade  vai ganhando um outro  grau de complexidade e vai se fragmentando de tal forma que começa ficar difícil para o meio jornal fazer a cobertura jornalística com a mesma amplitude e profundidade do início do século passado até meados da década de 40.

É bom lembrar que desde o final da década de 40 a comunidade científica acadêmica já estava estudando infraestruturas na direção da internet e prevendo a possibilidade de sistemas de comunicação distribuídos. Em 1968, o cientista  J.C. Licklider  já dizia que, em poucos anos, iríamos nos comunicar melhor através de uma máquina do que face a face.

Página 22 –  Mas se um afastamento de sua missão e novas formas de articulação já se formavam há tanto tempo, por que os jornais continuaram com o mesmo modelo?

Rodrigo – Os graves problemas que a indústria de jornais está enfrentando é resultado da sua acomodação. Esta crise não surgiu de repente. Os jornais tiveram o monopólio dos “classificados” das comunidades em que estavam inseridos durante cerca de meio século. Do início do século 20 aos anos 40, eram a Ágora política e comercial das cidades que serviam.  Todas as empresas que atingem uma posição monopolista emburrecem. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social. A maioria deles não tinha e não tem a visão empresarial dos patriarcas.

E isso ocorre até hoje. Por  isso, o que está em risco hoje é o jornal de papel. O papel do jornal, ser um instrumento de articulação para a sociedade, é um espaço que continua aberto para ser ocupado. A nova infraestrutura de comunicação abre espaço para o que chamamos de “jornalismo cidadão” e novos  players sem legados. No futuro, todo cidadão que tiver um compromisso com o processo institucional de alguma forma vai estar ligado ao que chamamos de jornalismo.  O  jornalista profissional será necessário para realizar a filtragem daquilo que tem consistência do que é besteira, bobagem.

Não existem dois mundos hoje. Um analógico, outro digital. O rejuvenescimento e revigoramento da economia analógica depende da evolução da economia digital, que é consequência da evolução da economia da era industrial e do gênio humano. Uma das principais áreas de cobertura jornalística hoje é a própria internet, na medida em que as fontes primárias estão presentes na rede e que o público, a cidadania, está lá num processo de conversação sem fim debatendo seus problemas, ansiedades, sonhos e perspectivas.

Hoje, todas as pessoas e todas as empresas são parte também do setor de informação. Até muito pouco tempo atrás, as empresas tradicionais de informação tinham o domínio da audiência.  E  qualquer pessoa que, por motivo político, econômico, institucional, comercial, quisesse se relacionar com o público, precisava fazer lobby sobre as estruturas jornalísticas e jornalistas para que a sua informação, a sua mensagem, chegasse ao público. Ou comprava espaço publicitário. Hoje isso não é mais necessário.  No futuro, a publicidade e o marketing serão substituídos por um processo de conversação contínuo das empresas, das pessoas, das entidades com o público na Web, na rede. Dentro de muito pouco tempo, não haverá mais barreiras entre conteúdo e mídia. Isso  estará inserido nos processos de cada profissional e de todas as empresas, nas redes sociais que elas paulatinamente estão construindo.

Página 22 – E as empresas de informação tem dificuldade em aceitar esta nova realidade?

Rodrigo – O  problema dos jornais e jornalistas é que se consideravam (e em alguns casos ainda se consideram) superiores aos mortais comuns e por isso, no início da internet como Web, eles não mergulharam nas peculiaridades da rede. E a principal peculiaridade da rede é que, por meio do algoritmo, ela permite a criação de comunidades sobre comunidades a partir do nada.

Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos. E contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política. Enfim, o papel do jornal era contribuir para articulação da sociedade para que ela fizesse valer seus interesses frente ao poder público e frente aos poderosos da sociedade. Se os jornais tivessem mergulhado na Web, rede, e procurado entendê-la desde o início, com certeza teriam encontrado caminhos para continuar cumprindo sua missão neste novo ambiente da informação, comunicação, articulação, este ambiente de conversação da sociedade.

Esse papel continua aberto para ser realizado e existem formas de monetizar isso oferecendo novas formas de serviços para pessoas, para empresas e para setores da economia que vão inexoravelmente entrar neste processo de digitalização da economia.  As empresas têm que organizar suas redes sociais nas mídias sociais. Elas têm que monitorar sua marca, entender como o público enxerga a empresa, o seu setor por meio da rede. Têm que estabelecer canais de conversação com seu público potencial, seus fornecedores e distribuidores.

O monitoramento se faz através de softwares, os processos de big data. A empresa tem que identificar quem é simpático a ela, saber quais são os problemas que ela enfrenta em relação à distribuição, ao preço, entender como sua marca é  vista, cumprir também com seu papel social.

O problema é que as empresas, ainda naturalmente com um pé na velha economia, têm medo do  que  estão vendo pela frente e não sabem como fazer isso. As agências de publicidade tradicionais também não sabem fazer isso, transferem processos analógicos para o mundo digital, fazendo no máximo buzz, quase um barulho inócuo. Existem, é claro, as exceções, empresas modernas que já estão fazendo isso e que deveriam ser vistas como exemplo.

Se existe participantes de um setor da velha economia que têm cultura para fazer isso são as empresas jornalísticas, desde que tenham humildade para olhar para o papel histórico delas, que é sua capacidade para articular públicos. A notícia, a informação comercial é um meio, não um fim.

Página 22 –  Isto está acontecendo?

Rodrigo – Não na dimensão que poderia ocorrer, mas há movimentos  nesta direção. O Nieman Journalism Lab, fundação voltada para o jornalismo da Harvard University, tem alguns trabalhos  nesta direção. Mas os Estados Unidos é prático demais. Para eles é a indústria do News Print. Pra mim, a notícia não tem sentido por si só, distribuída no etéreo. As empresas não fizeram dinheiro pela sua capacidade de distribuir informação. Numa perspectiva histórica, legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da  sua capacidade de articular públicos. É o conceito do meu amigo Walter Bender, que é uma  das minhas premissas sagradas:  Notícias não mudam o mundo. Elas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir. Elas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.

É também por isso que os processos de informação, comunicação e articulação na rede, na Web, impactaram e impactam as tradicionais estruturas das empresas jornalísticas e seus modelos de negócios. Invés de procurar um caminho neste novo mundo e mexer na sua estrutura e processos, as empresas jornalísticas estão mandando embora os jornalistas mais experientes e mais caros e contratando mão de obra inexperiente e barata.

A rede permite e fomenta novas formas de relacionamento de capital e trabalho e é sobre isso que todas as empresas (não  só as jornalísticas) deveriam estar refletindo.  As jornalísticas deveriam pegar diversos grupos de jornalistas experientes e criar condições para que estes pequenos grupos formassem suas ilhas jornalísticas, criassem pequenas empresas voltadas para fornecer notícias sobre um nicho, cobrir um nicho. Subsidiá-los por  um período curto. As velhas empresas jornalísticas criariam um canal de  relacionamento com eles e juntos desenvolveriam formas de monetização não exclusivas, mas parcerias. Um processo de satelização, consequência na nova infraestrutura da economia: a internet, a web, a rede.

Se você ficar em uma estratégia de cortar custos em função de queda da publicidade que está sendo registrada e que vai continuar sendo registrada, é a morte. Eu acho também que esses sistemas de “paywall” (acesso a conteúdo da internet apenas através de pagamento de uma tarifa) é uma barreira para a missão dos jornais, que vai além do informar. A informação que o jornal distribui tem sentido na medida que é um fator da articulação da sociedade e se você coloca limites se cria uma barreira também para sua atuação.

Faz sentido você ter sistemas de micropagamentos para informação superespecializada e setorizada, para pacotes específicos, mas não para o geral. Empresas que usam “paywall” como Wall Street Journal, Financial Times e New York Times estão fazendo pouco dinheiro e são brands globais na língua dominante. Sou mais pela abertura de novos caminhos trilhados pelo The Guardian, Forbes e outros. A Web é aberta e não adianta lutar contra isso. O núcleo principal da sua atividade não pode ser fechado, o modelo  de negócio tem que ser aberto.

Página 22 – Mas de onde virá a receita destas empresas?

Rodrigo – O processo de digitalização da economia  é irreversível. As empresas têm que procurar caminhos de monetização em função de serviços de articulação na rede e no processo de digitalização das empresas. Hoje você tem softwares que podem monitorar as informações que estão sendo publicadas nas diversas mídias/ferramentas sociais que estão dentro da internet, como Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, Pinterest, Path, Youtube, Tumblr, Orkut etc.  Você pode acompanhar as discussões de assuntos específicos ou de determinada indústria ou governo ou entidade, praticamente em tempo real, em cada uma dessas mídias e nas mídias tradicionais que  atuam na rede.  Por outro lado, estes softwares mostram apenas estatísticas que precisam ser analisadas em função do seu objetivo. E este papel de análise pode ser feito por jornalistas com a contribuição de outros profissionais.

A rede hoje em certa medida é uma balbúrdia. Você tem uma porcentagem muito grande do público, com certeza mais do que 50%, que não consegue fazer distinção entre informação estruturada, relevante, primária ou uma  análise fundamentada e com valor   da “informação” dos espertalhões que estão fazendo marketing no mau sentido, retrabalhando informações de terceiros sem acrescentar  nada, fazendo  barulho para pegar vítimas.  As tradicionais empresas jornalísticas, com a força de suas marcas e sua relação centenária com a cidadania, deveriam estar oferecendo este serviço também. De monitoramento, de curadoria da rede, de agregação temática e de público.  Com isso, se colocariam como um dos vetores do processo de debate e articulação da sociedade na rede.

Enquanto a velha indústria fica parada, veja o Google… Com menos de 15 anos de idade, fatura mais com publicidade que todos os grupos jornalísticos norte-americanos juntos.

Página 22 – E os jornalistas? Qual o futuro para estes profissionais?

Rodrigo –  Antes, o profissional de informação se preparava para fazer carreira em uma empresa que o ajudava a expô-lo para o público, ajudava a promovê-lo como jornalista. Agora, ele terá que encontrar seu próprio caminho. A Universidade de Stanford, Columbia e outras nos Estados Unidos estão discutindo como fomentar o empreendedorismo entre os estudantes da área jornalística.

Os novos jornalistas terão que criar sua própria estrutura de trabalho ou manter relações mais abertas com as empresas tradicionais que sobreviverem. As oportunidades são muitas, este campo nunca esteve tão aberto. É um momento de profunda e acelerada mudança. Os profissionais que já percorreram meio caminho de suas vidas na estrutura antiga sentem uma justificada insegurança. Tecnologia é tudo aquilo que inventaram depois  que você nasceu. Não está no seu córtex, você não sabe pensar naturalmente com aquilo, não  é ainda uma extensão  da sua inteligência, das suas possibilidades.

Para quem está começando agora, as oportunidades são infinitas. O futuro do jornalista está no empreendedorismo. E o futuro das tradicionais empresas jornalísticas está no processo de digitalização das empresas de todos os setores, que  abre um novo campo de receitas que pode ser tão importante quanto os classificados, o velho marketplace,  foi para o jornal de papel. Em outra dimensão, é importante frisar. A Ágora agora é  pública. Cada um de nós está no centro do processo na Web, na rede.

Página 22 – Ao criar um um sistema de informações econômico-financeiras em tempo real, o Broadcast, sucesso instantâneo no início dos anos 1990, você previa esta migração do jornal de papel para o eletrônico?

R – Minha visão, ainda no início dos anos 90, era que a empresa jornalística que ia dar certo nesta nova fase seria aquela que tivesse coragem de se “perder na rede”.  Quando criei, na Agência Estado, o serviço de informação em tempo real (pregões das bolsas, notícias e análises) Broadcast, a ideia era construir um bom negócio e a plataforma de aprendizado da S.A. O Estado de S Paulo para o mundo das telecomunicações, da computação e do software, para o mundo da economia digital, que batia nas nossas portas.

Em 1992, éramos líderes deste mercado, posição que a Agência Estado ainda ocupa mesmo com a competição de gigantes como Reuters e Bloomberg. Naquela época, desenvolvemos um serviço taylorizado para o mercado brasileiro em relação às bolsas e mercados usados pela maior parte dos agentes do setor financeiro e injetamos no  serviço uma competentíssima cobertura jornalística técnica do  mercado financeiro e de informações locais de cunho geral que impactavam os  mercados. Isso com um preço adequado. A Broadcast era o fuscão envenenado; o rolls royce era a Reuters. Hoje, o rolls royce é a Bloomberg, mas a Broad continua liderando o mercado.

Mas tanto a Broadcast quanto os  outros serviços que  criamos na Agência Estado estavam estruturados sobre o velho modelo de monetização a partir da sua capacidade de distribuir informação.  Quando propus para o Conselho do Grupo Estado o projeto Broadcast, entre os argumentos estava o de que os classificados iriam migrar para o resultado  da convergência entre telecomunicações, computação e software. O MIT – Media Lab,  foi um dos primeiros centros  de think tank do novo cenário que estava se desenhando e eu estava lá, desde o  início da década de 90.  Em 1997, escrevi um artigo que já previa o desenvolvimento do cenário que estamos vendo hoje.

Em termos empresariais, meu objetivo era vender o sistema Broadcast a partir do momento em que a internet estivesse mais estruturada e a banda larga mais disseminada no Brasil (isso ocorreu em meados dos anos 2000). E colocar o foco no varejo da economia brasileira, se voltar para setores como micro e pequenas empresas, agronegócio, tecnologia, educação. A informação jornalística seria uma cunha para entrarmos com  serviços de articulação de setores e mercados no processo de digitalização da economia. A receita viria de processos de gestão  de relacionamento e serviços,  não da venda de informação.

Era esse o plano porque estava claro para mim que o mercado financeiro é um mercado das empresas que estão nas capitais financeiras do mundo e por isso nasceram globais. Nova York (Bloomberg) e Londres (Reuters). Em termos locais, o mercado brasileiro, é um mercado pequeno. A capacidade de investimento das empresas globais  neste mercado é muito maior do que o nosso. Enquanto o mercado de articulação e digitalização do varejo da nossa economia tem um potencial muito maior e tem muito mais  a  ver com o papel histórico dos jornais: servir como plataforma de articulação  da sociedade. A notícia, a informação editorial e a comercial, é um meio, não o  fim. Sempre foi assim.

Página 22 –  Entendo que você levou adiante seu projeto de criar processos de articulação na rede.

 Rodrigo – Sim, desde 2002, quando profissionalizamos a gestão da “S.A. O Estado de S Paulo” e eu saí, desenvolvo projetos de gestão de relacionamento na Web, rede, para empresas, setores e entidades. Começamos em Biriguicom uma rede de colaboração, conhecimento e negócios para a capital do calçado infantil. Perdi  dinheiro, mas aprendi muito.

Depois disso, desenvolvemos dezenas de projetos.  Entre eles, a plataforma Peabirus, o TEIAmg, maior projeto de processos crowdsourcing do Brasil,  a Rede CIMPequenas Empresas & Grandes Negócios da Globo, Museu em Rede, O Milagre de Santa Luzia, Raio Brasil, a República Popular do Corínthians entre outros. Um longo caminho de aprendizado, da minha  adolescência e meu sonho  de ser o repórter dos confins às novas fronteiras do desenvolvimento da sociedade humana, a Web, a rede.

Breve, estaremos lançando novos projetos. Agora, com o objetivo de criar uma empresa de informação aberta na Web, na rede,  da qual não seremos  donos nem teremos  o controle, mas teremos o domínio e a gestão.

Página 22 – Confins, acompanho-o por meio deste blog e outros canais que você mantém na rede. Que objetivos você tem com eles?

Sou jornalista, com uma forte e acentuada tendência para o empreendedorismo. Acho que esta característica por causa das circunstâncias do tempo que vivi e vivemos e por  respeito, admiração e amor pelo meu bisavô, meu avô e acima de tudo pelo meu pai, o  jornalista Ruy Mesquita. Na S.A. O  Estado de S  Paulo fiz tudo o que pude para contribuir para a perpetuação da empresa, para abrir um novo caminho no novo sertão, que é a fronteira da Web, da rede. Dei à empresa muito mais  do que recebi nos meus  quase 30 anos de dedicação exclusiva a ela.

O blog Confins é a minha landing page. Minha formação é em História. Para desenvolver os meus projetos, tive que me debruçar sobre a cobertura jornalística da evolução do ecossistema de informação, comunicação e articulação da sociedade e procurar dominar as mídias/ferramentas que vão surgindo na Web, na rede. Daí, o jornal dos confins, o meu canal no rebel mouse, no google+, no linkedin, no  facebook, no youtube, no peabirus, no  twitter, no pinterest, no scoop.it, no scribd, no slideshare, no delicious, no instagran  e outros. Eles estão mais ou menos interligados e em todos é o mesmo foco de conversação: a evolução do ecossistema da informação… Além desta função, há a do aprendizado para usar estas ferramentas na construção  das nossas redes sociais de interesse específico.

Não trabalho sozinho, tenho sócios, somos um time. Eles são mais moços do que eu. Têm mais agilidade e conhecimento para o desenvolvimento dos ambientes de curadoria, agregação, articulação e governança que desenvolvemos, a partir de processos estruturados de monitoramento da rede. O new new new jornalismo. Eu trouxe esta visão que desenvolvi graças a ter “nascido dentro das redações” da “S A O Estado de S Paulo”, de ter sido primeiro sponsor de programas do MIT – Media  Lab e depois pesquisador afiliado, durante quase 15 anos, deste que foi naquele tempo a Escola de Sagres dos novos tempos. Além disso, puxo a articulação no mundo físico (analógico)  e digital.

#

Sobre os impactos deste processo na sociedade como um todo ver o post A infraestrutura do futuro.

Nele, utilizando entrevistas em vídeo de Alvin Toffler, Yochai Benkler e Marshall McLuhan,  procuro tecer o quadro do  momento da transição de uma era para outra  que estamos vivendo.

Alvin TofflerAs nações estão perdendo seu poder relativo… a propagação não só de computadores, como também de outros sistemas de comunicação e redes de todo o gênero, com isso  vemos atividades ocorrerem à margem do sistema ou mesmo à margem, em muitos casos, do controle das nações.

Yochai BenklerA principal mudança que a internet criou é a radical descentralização dos meios básicos de produção  de informações e conhecimento e cultura… pela primeira vez desde a revolução industrial estes recursos estão nas nas mãos da maioria da população.

Marshall MacLuhanTodas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos (a internet, a web, a rede) são uma extensão do sistema nervoso central.  A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos. Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

FB, twitter, google+, instagram, tumblr, youtube, nem o diabo são donos da minha rede social.

O jornal não é nosso, é do público

O jornal não é nosso. É do público.

 

As redes sociais ainda não têm maturidade para serem tão orgânicas  quanto poderão vir a ser. A ética deste novo mundo ainda está sendo gestada no âmago de todos nós. E a expansão da sociedade analógica para sua extensão digital é muito recente.

Abstraindo isso, os fundamentos institucionais, convivemos com o imponderável do antrópico algoritmo das plataformas sociais (FB, twitter, youtube, tumblr, flipboard, google+ etc etc etc), regidas pelos objetivos comerciais de cada uma das empresas que as mantêm.

Como se fosse preciso intrincar um pouco mais o cenário, a maioria dos usuários e mesmo analistas dos fenômenos de articulação do público e da opinião pública por meio da internet confundem ferramentas (FB, twitter, youtube, tumblr, flipboard, google+ etc etc etc) com processos.

Rede social é processo, não as ferramentas que são usadas na estruturação dos processos digitais de conversação e compartilhamento de informação. Verdadeira ou falsa. Os fluxos de informação das redes sociais que participo em função da base das minhas amizades, dos meus interesses, dos meus sonhos, eticamente sustentados.

As redes sociais são tão orgânicas quanto a maturidade digital de quem as utiliza

As redes sociais são tão orgânicas quanto a maturidade digital de quem as utiliza

 

As redes sociais nasceram quando o homem se tornou um animal gregário e foram se sofisticando conforme a sociedade humana foi evoluindo e se tornando mais complexa. A internet, a rede, exponenciou esta complexidade ao permitir que todos nós estruturássemos nossas redes sociais, a base de relacionamento de cada um de nós (indivíduos, partidos políticos, entidades, setores da economia etc) digitalmente.

Quando e se a imprensa tradicional entender isso e por isso se inserir de forma coerente nos fluxos de informação das redes sociais e criticar com conhecimento de causa a responsabilidade das empresas que mantêm plataformas pelo pandemônio que ajudam a formar nos processos de comunicação contemporânea , graças aos seus algoritmos manipuladores regidos exclusivamente por seus objetivos comerciais, poderá haver um renascimento do Quarto Poder.

Yochai Benkler, Robert Faris, Hal Roberts e Ethan Zuckerman, cientistas da comunicação apontam isso em recente estudo que foi objeto desta matéria https://www.cjr.org/…/breitbart-media-trump-harvard-study.p… da Columbia Journalism Review . Abaixo, a conclusão do estudo resumido no artigo do centro mantido Columbia University.

“Reconstruir a base sobre a qual os americanos podem formar uma crença compartilhada sobre o que está acontecendo é uma pré-condição da democracia. Esta é a tarefa mais importante da imprensa daqui para frente.

Nossos dados sugerem fortemente que a maioria dos americanos, incluindo aqueles que acessam notícias através de redes sociais, continuam a prestar atenção à mídia tradicional, seguindo as práticas jornalísticas profissionais e cruzando referências com o que lêem em sites partidários com o que lêem em sites de mídia de massa.

Para conseguir isso, a mídia tradicional precisa se reorientar, e não pelo desenvolvimento de conteúdos virais para competir no ambiente de mídia social, mas por reconhecer que ele está operando em um ambiente de propaganda e rico em desinformação.

É este, não os adolescentes da Macedônia ou ou o Facebook, o verdadeiro desafio dos próximos anos. Vencendo este desafio poderá conquistar uma nova era de ouro para o Quarto Poder”.

A brilhante síntese de McLuhan sobre a crise global

“A cultura literária é visual e separada (ou alienada). Ela cria o homem civilizado, o homem “destribalizado”. O homem que não está envolvido. E o efeito da Revolução Elétrica (esta que estamos vivendo) é criar novamente um envolvimento que é integral.

Por que de repente a arte a cultura se tornaram grandes negócios, como é a grande ciência?. Os motivos para isso estão relacionados com o fato de que vivemos em uma Era da Informação. Quando se vive em uma Era da Informação, a cultura se torna um grande negócio, a educação se torna um grande negócio, e a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios”

E uma advertência: a crise está só no seu início.

AE, urgente: a mídia somos nós

O Estado de S. Paulo, 23/02/05

O primeiro site de informação jornalística no Brasil – o da Agência Estado – começou a nascer em 1988. A visão de que o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, TICs, iriam determinar o futuro das tradicionais empresas jornalísticas, foi o mote para iniciar a transformação de uma unidade operacional do Grupo Estado numa inovadora empresa virtual de informação.

Estávamos em 1988 e o objetivo explícito era o de criar um serviço de informações econômicas em tempo real, visto que a comunidade financeira era a única, naquela época, em condições de sustentar uma empresa de informação com estas características. O objetivo implícito era iniciar o processo de conquista de conhecimento para, no futuro, contribuir para o processo de migração dos tradicionais negócios de uma empresa jornalística do papel para as redes de comunicação e os diversos displays que elas comportam.

A primeira rede de distribuição de informação da AE era estruturada num sistema que utilizava a sub-banda do FM. A Embratel era monopólio estatal e a alternativa para este sistema seria as linhas privadas que, em função da inexistência de um mercado competitivo, eram caras e de operação duvidosa. Era impossível imaginar que as TICs apresentariam a evolução geométrica que vêm ocorrendo desde aquela época. Muito menos que, no início do séc. XXI, as tecnologias não proprietárias estariam iniciando o processo de superação dos grandes monopólios que nasceram com o início desta nova aventura da humanidade.

A Agência, neste processo, atingiu um grau de excelência informativa que a levou a uma situação de referência de mercado. Talvez, seja a única empresa de informação brasileira cujos processos de captação, processamento e distribuição de informação tenham sido, sem exceção, estruturados em rede. Isso também foi verdadeiro para seus processos administrativos, comerciais e tecnológicos. Uma empresa organizada em rede – células de profissionais multidisciplinares com liberdade e responsabilidade para criar e preparar o futuro.

A abertura de caminho para conquistar outras formas de relação com o mercado, além do tradicional modelo de negócio sustentado por distribuição de informaçao, foi possível para a AE por causa desta organização funcional em rede e porque, também em função desta filosofia, a empresa nestes anos todos conquistou um profundo conhecimento das tecnologias de informação e comunicação e suas possibilidades, especialmente as de código aberto.

Por uma questão de custo x benefício, a empresa começou a desenvolver-se em cima do sistema operacional aberto Linux e de softwares livres (o ecosistema linux), a partir de 1996. A consciência dos profissionais da necessidade que tinham de criar novas plataformas de relacionamento com o público, aliada a uma postura aberta em relação à tecnologia, permitiu um primeiro grande avanço neste novo mundo. E daí começa a se explicar a liderança da Agência.

O porvir das tradicionais empresas de informação, está claro, dependerá da capacidade delas para, paulatinamente, desenvolverem novos modelos de negócios sustentados por operações de network. A Internet é muito mais do que um meio adequado para organizar e distribuir informação. É uma nova infra-estrutura que permeia todas as relações e atividades humanas. Como meio de comunicação, é o mais importante desde a prensa de Gutenberg. É um novo ecossistema para a humanidade explorar, abrir novos caminhos e construir novas oportunidades.

Ela contém todos os meios que vieram antes e, por ser rede, enriqueceu este conjunto com a convergência e a interatividade. Este novo ecossistema provoca a mudança, induz a rearticulação dos processos de produção de conteúdo e de riqueza. E com isso abre um novo caminho para o público e, pela primeira vez, com o público. Revirando e contrariando a maioria dos conceitos que assumíamos sobre mídia e sobre modelos de negócio em geral. No mundo da Internet, a rede, nós somos definidos pelo que sabemos e pelo que compartilhamos. Sem conhecimento e sem compartilhamento não se vai a parte alguma.

As empresas jornalísticas tradicionais, no entanto, ainda não despertaram plenamente para este fato. Junto com os outros meios de massa broadcast – a TV aberta e o rádio – detinham, até o advento da Web, praticamente o monopólio de distribuição de informação para uma determinada comunidade, num espaço físico específico. Talvez por isso mesmo esta indústria tenha restringido sua atuação, neste primeiro momento do novo ambiente em construção, a procurar emular seu modelo de negócio, que historicamente se sustenta em função da franquia que deteve até recentemente de distribuição de informaçao editorial e comercial, para o mundo da Internet.

Isso contribuiu para que a rede seja entendida pelo público quase que exclusivamente como uma enorme biblioteca digital composta por sites ou portais, com maior ou menor volume de informação, mais ou menos dinâmicos e com ferramentas melhores ou piores, para manusear e usar a informação. Sua enorme capacidade de organização e publicação de qualquer tipo de conteúdo acabou dando o tom, nestes primeiros anos. Talvez não poderia ter sido diferente, mas mesmo assim não foram poucas as mudanças que ela gerou e vem fomentando nas nossas vidas.

Aspas, uma confissão

Não acredito que os blogs ou os wikis (softwares de publicação de facílima utilização que permitem o desenvolvimento de conteúdos individualmente ou coletivamente), como estão conformados hoje, vão substituir o jornalismo tradicional. A única certeza que tenho é que o processo de formação de opinião daqui para a frente será cada vez mais autônomo, difuso, fragmentado, complexo e sofisticado.

Vejo a internet como uma infraestrutura para articular qualquer tipo de relação humana. Sejam elas de cunho econômico, político ou social. A rede não é só um novo meio de comunicação, apesar de neste primeiro momento ter servido antes de tudo para organizar e distribuir informação. Ela é antes de tudo fator de rearticulação de processos, privilegiando as possibilidades de cooperação, colaboração e compartilhamento.

As tradicionais empresas jornalísticas ignoram estes fatos e, também por isso, vêm perdendo mercado há anos. Suas estratégias são exclusivamente defensivas: jornais populares, jornais gratuitos, tablóides e reformas editoriais clássicas. Nenhum movimento estratégico para procurar explorar as possibilidades de network.

O mundo mudou. Na Idade Média quem dominava a informação era Igreja e o poder temporal. Com a Renascença e o conjunto de inovações que a impulsionaram, entre elas a criação da prensa por Gutenberg, a Igreja e seus aliados perderam este monopólio. A burguesia ascendente teve acesso ao conhecimento e à possibilidade de publicar e vender suas idéias e valores.

Em meados do séc. XIX, o jornalismo começou a virar negócio. As publicações deixaram de ser panfletos de vida efêmera para se tornarem perenes e gerarem uma plataforma de negócios. O apogeu disso ocorreu entre as duas grande guerras. Hoje, com a infra-estrutura de redes, o modelo de negócio baseado exclusivamente em distribuição de informação morreu (não é morte súbita, é um definhar lento e dolorido.). Sempre será mais fácil entender a crise que o declínio.

Em 1930, São Paulo tinha 800 mil habitantes e o principal jornal da cidade circulava com 100 mil exemplares. Seus classificados eram a principal rede de vendas da cidade. Não existiam cadeias de lojas ou de supermercados. Os jornais aqui e em cidades semelhantes eram os principais canais de vendas de uma enorme gama de produtos e serviços – uma plataforma de relacionamento ajustada e adequada para a época como nenhuma outra em todos os tempos. Isso permitiu que os jornais desenvolvessem em todo mundo um jornalismo caro e sofisticado.

Fechas aspas, o mundo em rede

Este tempo acabou. Vivemos num mundo interconectado em tempo real. A minha geração, que foi surpreendida por este processo no meio do caminho, não terá tempo para reaprender a pensar, num contexto tão profundamente modificado por novas ferramentas e possibilidades. Sua responsabilidade é a de facilitar o caminho para as gerações que se seguirão. Estas viverão num tempo em que a conexão será uma commodity, um direito tão fundamental quanto o de votar. Assim como o equipamento para se conectar.

A segmentação da informação, que é possível hoje graças ao poder de distribuição cada vez mais barata e rápida, leva naturalmente à formação das comunidades, e de comunidades dentro de comunidades, e a atenção compartilhada dá um centro de gravidade a elas. A interatividade que a rede traz leva às tecnologias de colaboração, de compartilhamento e de geração de novos espaços de conexão humanos, e cria todo um novo modelo de produção de conteúdo e de riqueza. É esta a mudança mais profunda e radical e, neste contexto, as empresas de informação deixaram de ser o centro.

O cidadão, o usuário, passa neste novo mundo em construção a ser ativo, respondendo on line aos estímulos de atenção e recriando-os. Ele é o centro de geração e ampliação da atenção e dos estímulos. Não mais uma antena, mas um roteador. Não mais um elemento em linha, mas um processador em paralelo. O cidadão é único e fundamental, mas varia na intensidade de sua participação e não pode ser discriminado, é um comunitário. Não podemos menosprezar a quantidade de informação (e, eventualmente, qualidade) que blogs, wikis e outras ferramentas de publicação, que serão desenvolvidas, aportam e aportarão cada vez mais ao processo. São milhões de repórteres com celulares e câmaras, num processo em rede que mal se iniciou e que vai amadurecer.

As tradicionais empresas de informação poderiam ocupar espaços importantes neste processo. A conectividade, enquanto pensamos com o modelo velho na cabeça, implica gradação: ilhas (jornais), arquipélagos (meios de
maior alcance, rádio, tv), o planeta ligado (conectividade ilimitada,
dispersão instantânea da informação, potencialização de nichos e
comunidades isoladas).O que gera necessidade de centros referenciais da busca pela informação, que é global e irrestrita. O Google, neste sentido, é um exemplo que poderia ser referência para os jornais.

Ninguém mais pode controlar as possibilidades de criação, de comerciar, de distribuir, de achar e de interagir dos cidadãos. A barreira de entrada para a mídia foi demolida. A transmissão de informação deixou de ser monodirecional para se transformar num ‘pool’ aberto. Isso muda tudo: as inter-relações, a equação econômica, a estrutura de poder.

Neste mundo novo, o controle está mudando para as mãos do cidadão. O futuro da mídia está nas mãos do público. As tradicionais empresas jornalísticas, os políticos, o governo e o marketing das corporações distanciaram-se da sua dimensão humana ao se colocarem em pedestais frente ao público. Não admitem erro. Por isso resistem em entrar em processos de conversação e têm enorme dificuldade para perceberem que a notícia não acaba quando é impressa e difundida.

Não percebem que o verdadeiro ciclo da história começa aí, quando o público levanta questões, acrescenta fatos e corrige erros, levando a uma nova perspectiva mais próxima da verdade.

O objetivo primordial da mídia talvez seja o seu mais tradicional e valoroso, que vem a ser a defesa da civilização, da democracia e da ética, mas agora na velocidade deste novo tempo. Por isso é primordial que se busque estabilizar este grande e impulsivo criar de comunidades por meio de uma plataforma de valores humanos geradora de confiança entre as pessoas.

É esta a lição que se começou a receber e se poderia aprender, na construção da história da Agência Estado. Os 10 anos de atuação na rede com um portal de informação aceleraram e aprofundaram o processo de aprendizagem. E com certeza ainda há muito mais que aprender do que usufruir.

Rodrigo Lara Mesquita

Uma visão da crise e um alerta às elites

 A cultura literária é visual e separada (ou alienada). Ela cria o homem civilizado, o homem “destribalizado’. O homem que não está envolvido. E o efeito da Revolução Elétrica (esta que estamos vivendo) é criar novamente um envolvimento que é integral.
Por que de repente a arte a cultura se tornaram grandes negócios, como é a grande ciência? Os motivos para isso estão relacionados com o fato de que vivemos em uma Era da Informação. Quando se vive em uma Era da Informação, a cultura se torna um grande negócio, a educação se torna um grande negócio, e a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios.

A crise brasileira reflete a morte da democracia representativa no Ocidente” e corremos o risco de assistir “a ascensão de democracias não liberais (uma plutocracia mundial) ou de ditaduras plebiscitárias escancaradas, nas quais o líder eleito exerceria controle tanto sobre o Estado quanto sobre os capitalistas“.

Fernando Henrique Cardoso, autor do artigo cujo título abre o lead deste, é o último estadista da nossa época. Em seu artigo aponta “as grandes transformações econômicas e tecnológicas, responsáveis pelo enfraquecimento dos Estados nacionais, em sociedades cada vez mais fragmentadas e expostas a tensões e desequilíbrios de uma crescente diversidade cultural”, como fatores críticos da crise.

Martin Wolf do Financial Times, autor da advertência sobre a ameaça que ronda todas as democracias ocidentais que fecha o lead deste artigo, é o mais arguto analista da imprensa econômica mundial. Faz anos que vem publicando periodicamente artigos chamando a atenção das elites globais sobre sua responsabilidade em relação à crise que estamos atravessando: instituições desajustadas, políticas econômicas concentracionistas, bancos cada vez mais especulativos e descontentamento global dos “perdedores econômicos”. Para ele, não foi surpresa a vitória de Trump  nas eleições norte-americanas, mera consequência (No final deste artigo, links para uma série de análises deste quadro do  Martin Wolf).

No início do ano, o caderno de leitura do Valor publicou uma entrevista do economista francês Robert Mayer na qual referendava tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Martin Wolf. Mas, além disso, argumentava que, no plano teórico, o maior empecilho para superarmos a crise financeira é a “incapacidade da própria ciência econômica de explicar as razões da crise e solucioná-la com as ferramentas até então disponíveis em seus manuais”.

Faltou para os três, e acredito que é por isso que ninguém consegue explicar as razões da crise, uma análise da ruptura mais profunda que a sociedade humana sofreu em todos os tempos: a dramática mudança do seu ecossistema de informação de processos broadcast para processos em rede, a primeira descentralizada e sem controle da História da humanidade,  na qual cada um de nós está no centro, o que não contribui para a cooperação e colaboração. Ao contrário, polariza o debate social e fomenta uma sociedade narcisista e egoísta.

Harold Innis, economista canadense que começou sua vida acadêmica analisando a relação dos países periféricos com os centrais, se tornou a maior referência da escola de comunicação de Toronto em função de seus estudos das sociedades, dos impérios, em função da sua “estrutura de linguagem” (discurso, escrita, arquivo, distribuição). Da escrita na pedra, cuneiforme e a oralidade grega ao papel e à invenção da bobina e das rotativas, que marca o início da comunicação de massa. Tudo que veio depois foi basicamente aceleração e ampliação. Isso até o corte da rede, o marco de início da Era Elétrica, na qual o sistema de comunicação da sociedade é uma extensão do nosso sistema nervoso.

Innis, mentor de Marshall McLuhan, no livro O viés da comunicação, argumenta em síntese que “o tempo social é definido pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar”. Tanto ele quanto McLuhan defendem a tese de que o que molda a sociedade é a forma como ela se informa, o ambiente tecnológico pelo qual ela se informa e não o conteúdo que ele carrega.

Robert Boyer na entrevista ao Valor, adverte que não podemos esquecer que a saída para a Grande Depressão de 1929 só foi possível depois da 2ª Guerra Mundial. Para ele, “o desafio é encontrar uma solução que leve em conta três fatores principais: a recuperação dos EUA, o dinamismo da China e o esgotamento dos recursos naturais”.

Bato nesta tecla desde os anos 80, influenciado por Fernand Braudel, o grande historiador da nossa época, que no final dos anos 70, numa entrevista de fôlego com o ponto de partida na primeira grande crise do petróleo,  fazia uma análise do quadro que vivíamos argumentando que aquela crise era só a ponta do iceberg, que estávamos entrando numa crise de longa duração, uma “onda longa”, os ciclos de Kondratiev. E ia mais fundo do que o Robert Boyer argumenta na boa entrevista ao Valor sobre o estado de “envelhecimento” e desajuste das instituições.

Para Braudel, o conjunto dos conjuntos das estruturas avançou à frente das instituições que regulam a sociedade, as do nosso tempo amadurecidas a partir das revoluções burguesas na Europa em meados do século 19. Na entrevista, argumentava que já nos anos 80 não sustentavam uma sociedade muito mais complexa, fragmentada e com uma dinâmica infinitamente mais rápida do que a da sociedade do tempo em que elas se conformaram.

Depois de uma rápida viagem pelos tempos da história e suas rupturas, terminava a entrevista dizendo que os políticos, os economistas, as lideranças dos processos institucionais iriam dizer que a crise iria passar. E comentava que estavam no papel deles, têm que passar esta mensagem para o público, mas a crise está aí para ficar. Ela terá seus ciclos, momentos piores e melhores, mas vai durar um bom tempo. A formação das instituições é um processo lento consequência de um amplo pacto social.

Isso foi bem no início dos anos 80. De lá para cá rolou o que sabemos até a emergência da internet, marcando o início da Era Elétrica, prevista e estudada por uma série de pensadores voltados para os impactos dos processos de comunicação na sociedade. Das trilhas do passado e suas possibilidades à velocidade da rede, a extensão do nosso sistema nervoso, e seus impactos em tudo nas nossas vidas e no arcabouço cognitivo dos indivíduos e da sociedade.

A crise política brasileira torna-se dramática neste contexto. Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões referentes ao conceito de cidadania dos séculos 19 e 20 e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

A alternativa é caminhar para o caos, com momentos de anomia e conflito social. Talvez sem caminho de volta.

 

Fracasso das elites é ameaça para o nosso futuro

Os perdedores econômicos estão se revoltando contra as elites

Tragam nossas elites para mais perto do povo

Uma elite à mercê daquilo que ela mesma criou

A ira populista deveria servir de alerta às elites do planeta

 

 

O papel do jornal

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado.  Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça  de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações  continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa)  relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social  com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela  frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro.  Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida  para a articulação  da sociedade em torno dos seus  interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração  de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que  a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação  tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

um esboço de modelo

Não é  mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do  de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

 

As mudanças extraordinárias do jornalismo!

julio_ousadia

O início da revolução

por Dirceu Pio

Há pouco mais de 20 anos, saímos do tempo diferido e entramos de  cabeça no tempo real; agora, somos forçados a esquecer o analógico e entrar de sola no digital. E o jornalismo ganha configurações jamais imaginadas!

        Tive o privilégio de pertencer à equipe que, sob a batuta de Rodrigo Mesquita, implantou o tempo real (realtime) no Brasil; tudo ocorreu nos anos 1990 através do projeto da Agência Estado – empresa do Grupo do Jornal O Estado de São Paulo – que saía da condição de agência de notícias para se transformar em agência de informações (enquanto a primeira abastecia de notícias os jornais de todo o país, a segunda começava a abastecer os mercados com informações para orientar o trabalho das mesas financeiras).

A troca de cultura que se irradiou a partir do projeto da Nova AE – como a Agência Estado era chamada por suas inovações – foi uma verdadeira epopeia: o jornalismo de então estava baseado num regime secular – captar uma informação, redigi-la, editá-la e publicá-la dentro de um prazo de 24 horas ou, quando menos, contemplando os interesses da TV, de oito a dez horas!

O tempo real quebrava esse ciclo na espinha forçando a divulgação instantânea das notícias… o marketing das grandes agências de informações mundiais (Reuters, Knight-Rider, Dow Johnes, Nikkei),  para conquista de novos assinantes nas mesas financeiras, baseava-se na velocidade com que as notícias importantes eram divulgadas… sair na frente em quatro ou cinco segundos fazia grande diferença!

Planejado pela Nova AE, o treinamento de jornalistas do Grupo Estado para assimilar a nova cultura foi uma guerra! Envolveu os melhores consultores nacionais e internacionais especializados na preparação das pessoas para receber uma novidade que iria mexer com vigor em hábitos sedimentados, práticas mais do que centenárias, formas consolidadas de apurar, escrever e divulgar uma informação! E o tempo real revolvia tudo, forçava mudanças vigorosas no jeito de produzir e fazer, uma nova cultura!

Em poucos meses, começávamos a colher os primeiros resultados… lembro-me do dia em que um dos repórteres do Grupo Estado assustou o CEO de uma grande corporação do Rio de Janeiro;  durante entrevista coletiva, ele fora informado por assessores que as informações que acabara de transmitir já repercutiam no mercado, divulgadas por celular pelo repórter que pioneiramente se engajara na cultura do realtime…

Não é fácil remover uma cultura sedimentada e substituí-la por outra nova… o novo tem de ser robusto para se impor… enfrentará resistência, reações em cadeia, intolerância, reprovação!

O AE News – o serviço informativo da Agência Estado em tempo real – entrou com tamanha força no mercado brasileiro que em menos de um ano de sua implantação foi capaz de alavancar a empresa, transformando-a em “case de sucesso” e líder absoluta do setor de divulgação de informações para mercados na América Latina…

“Isso vai virar uma coqueluche”, reagiu com acerto o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ao ser apresentado a um terminal da Nova AE… E o AE News nascia junto com um novo jornalista, bem mais veloz na divulgação de seus escritos, bem mais consciente de suas responsabilidades frente à informação por saber que agora, ao invés de escrever para o público em geral, uma entidade quase abstrata, passava a escrever para mercados e para um tipo de usuário que iria ganhar dinheiro com sua informação…

NOVA MUDANÇA É MUITO MAIS ASSUSTADORA

Esses pouco mais de 20 anos que separam a introdução do realtime  dos dias atuais com certeza não foram suficientes para preparar o jornalista para a mudança em curso – da passagem do jornalismo analógico para o jornalismo digital… Esta sim é uma verdadeira mudança, avassaladora!

O mais assustador nestas transformações é saber que a mudança está em curso e não se vislumbra um prazo para que ela se apresente por inteiro, com começo, meio e fim! O terreno onde o jornalista atua hoje é movediço, traiçoeiro, fluido! Nada do que é hoje pode ser também amanhã!

Mas vamos pensar um pouco: afinal, o que essencialmente mudou? O jornalista por acaso não é mais aquele profissional que capta uma informação, destila e a divulga? A resposta pode ser sim e ao mesmo tempo ser não!

Ah, quer dizer que o jornalista também não é mais aquele que tem e cultiva fontes exclusivas? A resposta também pode ser sim e não!

Afinal que diabo faz o jornalista nessa nova atmosfera na qual a internet introduziu as redes sociais, a interatividade, a possibilidade de transmissão de qualquer tipo de arquivo – leve, pesado, com documentos, sem documentos, com imagens estáticas, com imagens em movimento – e a possibilidade de acompanhar e captar, importar, compartilhar informações do mundo inteiro, em tempo diferido e em tempo real?

Boa pergunta, mas sinto dizer que não sei respondê-la e acho improvável que exista no mundo alguém que tenha uma resposta plausível! O que vejo é o pipocar de zilhões de experimentos em toda parte, o que, diga-se de passagem, é algo extraordinário!

No meio dessa tsunami de inovações e experimentos, o que eu faço? Experimento também, tateio, avanço, recuo, ouso não ouso, observo, sobretudo observo!

A inflexibilidade soberana no analógico tem de dar lugar a uma condescendência responsável no digital, pois neste o mundo se abriu para a colaboração, para a provocação, para a análise, para o humor, para o desabafo! Basta dizer que somos, os jornalistas, produtores, divulgadores editores ou mesmo compartilhadores de informações!

Nesses avanços e recuos proporcionados pelo que eu chamo de “nova atmosfera” temos grandes perdas e grandes ganhos; quando a internet liquida com os meios impressos e agora já ameaça acabar também com a TV aberta, perdemos!

Quando a internet nos oferece mil canais de divulgação para as coisas que produzimos, ganhamos! Quando a internet nos permite acesso a informações qualificadas dos mais diferentes sites e blogs, também ganhamos – e muito! A certeza que aflora é que tudo vai piorar muito antes de voltar a melhorar !

A internet, como eu já disse, é a grande maravilha do século XXI !

Ainda hoje pela manhã ao ligar a TV e ser informado que o Reino Unido ainda não saiu da União Europeia, indignado, postei: “Vou dar prazo de uma semana… e se até lá o Reino Unido não tiver saído da União Europeia, vou lá e tiro no tapa!”

Ganhei de leitores brasileiros inúmeros kkkkkkkkk e de minha sobrinha, a jornalista Fabiana Pio, que mora em Londres, uma frase enigmática: “Não faça isso, deixe assim !”

O PAPEL DO JORNAL

por Rodrigo Mesquita

A AE, Dirceu Pio, começou a trabalhar com a rede em 92, na véspera da ECO 92. Era ainda a APARNET. O seu artigo é sobre o início do desafio de criar uma nova cultura de envolvimento com os fluxos de informação.

Os fluxos se tornam mais complexos e fluidos conforme a sociedade humana evolui na conquista do espaço em que está inserida, que sempre foi analógico e “digital”, este antes restrito às ondas de idéias, do imaginário, dos sonhos.

Voce foi e continua sendo uma referência neste processo de evolução, com profundas rupturas, do ecossistema de informação e comunicação da sociedade. Ninguém tem a formula do futuro, que será sempre beta daqui pra frente, se é que não foi desde sempre, desde a escrita na pedra.

Os caminhos, os peabirus, são muitos. O meu está refletido neste artigo de 2013.

um grande abraço, companheiro de viagem.

O PAPEL DO JORNAL

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa) relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro. Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

Não é mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

Jornalismo? Não. O compromisso do Facebook é com a balbúrdia.

O publisher mais poderoso do  mundo, dono de um dos impérios do século 21, é um craque do entretenimento e uma farsa em todos os outros sentidos. Seu projeto de jornalismo é uma demonstração cabal de que não tem nenhum compromisso além de fazer dinheiro.

Zuckerberg entende de códigos e acertou na mosca nos seus primeiros passos. Um fenômeno de momentos de ruptura tecnológica, com seus impactos na economia, na política e nos  processos sociais. Mas não  tem noção do  que  seja cultura e muito menos processos culturais. É irresponsável  neste sentido e vai dar ainda uma enorme contribuição para a aumentar a complexidade da crise que estamos atravessando, que tem na mudança da lógica do  sistema de comunicação da sociedade um dos seus principais eixos.

Hoje, cada  um de nós está no  centro do sistema de comunicação, que se transformou gostemos  ou não numa extensão do nosso sistema nervoso. Isso – também em função da fragmentação da rede em APPs e ambientes fechados –  promove naturalmente um fechamento para o acaso, para a surpresa, para o necessário debate e abertura ao controverso de uma sociedade civilizada. A tendência é promover o próprio ego fomentando uma sociedade ególatra.

Meu primeiro contato com o que viria a ser a Web, na época ainda em gestação, foi no MIT – Media Lab, com o cientista Walter Bender, em 92. Como ele, alimentei a esperança de que “a mídia digital estava longe de engendrar um mundo fragmentado habitado por míopes preocupados com seus próprios interesses. Em vez disso, estava liberando em cada um de nós nosso o desejo básico de compartilhar, o que às vezes se traduz num compartilhamento de informações, idéias políticas e sociais ou bens e serviços. O processo já começou e é de fato uma mudança paradigma”. 

A Web emergiu poucos anos depois. Era aberta, livre de espaços que se valem deste início de novos tempos e, por isso, do desconhecimento do  público  das suas possibilidades, para desvirtuar os propósitos humanistas com que a rede foi criada. Continuei com os meus laços estreitos com o Media Lab até 2006. APPs e ambientes restritos como o Facebook batem de frente com o sonho de Tim Berners-Lee e toda a comunidade científica que contribuiu para a construção da rede. 

O artigo  que transcrevo abaixo é do Frederic Filloux, do Monday Note, um especialistas das mídias tradicionais e das novas e que como Walter Bender e eu consideramos que “as notícias nos dão uma nova informação e as ferramentas com as quais explorá-la. Uma fonte de modelos compartilhados sobre o mundo. Elas não nos dizem o que pensar, mas nos ajudam a navegar na complexidade de nossas vidas”. Esperávamos que a mudança provocada pela tecnologia no ecossistema de comunicação da sociedade fosse um meio para melhorar o acesso dos indivíduos às notícias para veículos de engajamento ativo. No artigo de Filloux, transcrito abaixo, uma explicação didática e objetiva da balbúrdia que Zuckerberg promove de forma cínica do o seu Facebook.

Arriscaria dizer que Zuckerberg como empresário do mundo digital se equivale a Trump como presidente do país mais rico e a democracia mais sólida do Ocidente. Para eles, a verdade é maleável, instrumental, subjetiva. É tudo sobre eles. É sempre sobre eles. Ególatras e a única contribuição  que podem dar para a humanidade é acirrar ainda mais os ânimos das pessoas de uma sociedade estressada pelo  processo  mais delicado e dramático  de mudança que a História já assistiu. E é claro promover os idiotas da objetividade, seus semelhantes.

Rodrigo Mesquita

PS: a versão para o português é do meu amigo e companheiro de viagem Sergio Kulpas.

O Facebook precisava fazer alguma coisa pelo ecossistema de notícias. Mas sua liberdade de movimentos é limitada pela própria estrutura de faturamento da empresa. Assim surge um projeto que combina cinismo e ingenuidade.

Frderic Filloux

 

O Facebook  tomou duas medidas significativas a respeito de sua postura em relação ao jornalismo. A primeira foi no dia 6 de janeiro, com a contratação de Campbell Brown, ex-âncora da NBC e da CNN, no cargo de “diretor de parcerias jornalísticas”. A segunda foi em 11 de janeiro, com anúncio do Facebook Journalism Project.

 

A respeito da primeira ação, é de fato uma boa ideia contratar uma mulher para esse cargo; é um sinal claro para um setor conhecido por sua relutância em colocar mulheres em cargos executivos (os dados que indicam isso estão no estudo Status of Women in the in the U.S. Media)

 

Apesar disso, para estabelecer relacionamentos com chefes de redações, esperava-se um profissional muito tarimbado. Não há escassez de jornalistas experientes com capacidade para reforçar a credibilidade do Facebook. Uma âncora de telejornal não é a pessoa mais indicada. E para enfatizar ainda mais a fragilidade da contratação, o Facebook deu a entender que Campbell Brown não vai lidar com conteúdo.

 

O lançamento do Facebook Journalism Project teve muito mais peso. Segundo explica Fidji Simo, diretor de produtos do Facebook, o projeto se apoia em três pilares:

1 – “Desenvolvimento colaborativo de produtos noticiosos”, como novos formatos de storytelling, iniciativas para notícias locais e novos modelos de negócios, e “hackathons”;

2 – “Treinamentos e ferramentas para jornalistas”;

3 – “Treinamentos e ferramenta para todos”, o que inclui um conjunto não definido de medidas contra as fake news.

 

Muito bem. Colaboração, treinamento de jornalistas, ferramentas… parece familiar? Realmente é – reproduz ao pé da letra a declaração de princípios do Digital News Initiative do Google. O DNI foi lançado há dois anos pelo Google com oito publishers europeus. Como representante de um desses publishers, eu estava muito envolvido no projeto. Graças ao DNI, o Google foi capaz de estabelecer (e em alguns casos restaurar) boas relações com muitos publishers ao redor do mundo. É óbvio que o Facebook Journalism é uma resposta ao Google, nos níveis tático e político (leia-se geopolítico). O Facebook cita um relacionamento próximo com vários publishers alemães que estão às turras com o Google há muito tempo. Axel Springer e outros vivem enviando informações negativas sobre a atuação do Google em seus mercados para Comissão Europeia.

 

Além da percepção, está uma pergunta: até que ponto as ações do Facebook poderiam realmente ajudar o combalido ecossistema das notícias?

 

Em primeiro lugar, o Facebook precisaria fazer algo a respeito das notícias. A rede social enfrenta dificuldades em duas frentes diferentes: uma é a questão das fake news, problema que foi abordado de modo fraco por Mark Zuckerberg e sua equipe, para dizer o mínimo. O segundo problema é a crescente insatisfação dos publishers: eles se sentem enganados pelo que veem como uma tendência do Facebook de sequestrar o valor econômico de seu conteúdo. Depois de sucumbir à miragem do Instant Articles, os publishers chegaram a uma conclusão desagradável: os números de audiência eram ótimos, mas a monetização generosa esperada se mostrou na verdade um mero conta-gotas (Semana passada, para piorar, o Facebook cortou os subsídios dados a um pequeno grupo de publishers para a produção de vídeos ao vivo)

 

E se é impossível separar cinismo de ingenuidade aqui, o Facebook Journalism Project contém pérolas do ridículo. Vejamos duas delas.

 

Segundo a explicação de Fidji Simo, o Facebook está comprometido a “promover o alfabetismo para notícias”:

“Vamos trabalhar com outras organizações para melhor entender e promover o alfabetismo noticioso dentro e fora de nossa plataforma para ajudar as pessoas em nossa comunidade a ter as informações que precisam para decidir em quais fontes confiar.”

 

Não é piada. Se você conseguir engolir essa sentença com dezenas de palavras sem vírgulas, ela diz algo como “McDonald’s adota menu de baixas calorias” ou “A Monsanto compra a rede de produtos orgânicos Whole Foods”. Palavras cheias de gás, desconectadas da realidade.

 

Uma das “outras organizações” que vão fazer parte do time do Facebook chama-se “News Literacy Project”, que destaca o apoio do Facebook como se fosse uma medalha de honra:

fbjornalismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No box roxo está escrito: “aprenda a navegar pelas fontes de informação na internet de modo mais cético”. Curtindo ou não (perdão pelo trocadilho), o Facebook está exatamente no extremo oposto da nobre ideia da NLP. O sistema inteiro do Facebook é construído em torno da ideia de fechar seus usuários dentro de um ambiente “amigável”, totalmente blindado contra conteúdos que não reflitam suas ideias, opiniões, crenças, afiliações, etc… No mundo do Facebook, clique após cliques, todos erguemos nossos muros e reforçamos essas barreiras cognitivas. O mecanismo está no coração do modelo de negócios faminto por pageviews do Facebook: trata-se de reforçar sua sustentabilidade. O Facebook precisa manter seus usuários pelo maior tempo possível dentro de seus serviços. É por isso que o algoritmo é programado para evitar expor um usuário de “esquerda” a conteúdos de “direita”, e vice-versa.

 

Como disse um amigo especialista em tecnologia e mídia, “o Facebook é acima de tudo uma plataforma de entretenimento. Essa plataforma quer que você permaneça no ambiente a todo custo. Assim, no que se refere a notícias, se o seu perfil estabelece que você precisa de 20% de informações em seu newsfeed, é isso que você vê. Para outra pessoa, o algoritmo pode decidir que “notícias” não é o melhor meio de mantê-la dentro do ambiente da rede social, então vai reduzir essa proporção para 3 ou 4% — tudo cuidadosamente filtrado”. Na verdade, os usuários não veem mais do que 10% do conteúdo jornalístico que assinaram em suas timelines simplesmente porque notícias não representam o item que gera mais cliques em um feed do Facebook. Eu trato desse assunto neste artigo: Facebook’s Walled Wonderland Is Inherently Incompatible With News.

 

Outra ideia exótica do Facebook Journalism Project é usar a empresa recém-adquirida CrowdTangle, que define seu propósito como “oferecer análises críticas de mídias sociais para auxiliar publishers ao redor do mundo a avaliar seu desempenho em redes sociais e identificar reportagens de impacto”. Em outras palavras, a empresa ajuda a avaliar e promover o jornalismo segundo as necessidades do Facebook.

 

Aqui estão exemplos extraídos do interessante compêndio “The Top 10 Local News Post on Facebook in 2016”. Estão prontos?

 

  • “Um cachorro resgatado na Humane Society Silicon Valley muda a vida de um homem com excesso de peso, ajudando-o a se tornar uma pessoa mais ativa” — 920.000 interações.
  • “Um grupo de irmãos adolescentes contribui com a comunidade aparando gramados DE GRAÇA” – 961.500 interações.
  • “Um preview do Kitten Summer Games da Hallmark” – 1,05 milhão de interações.
  • “Um juiz da Georgia fala sem rodeios para um grupo de jovens sobre as consequências de uma juventude criminosa” – 1,08 milhão de interações.
  • “É um cachorro? É um cavalo? Um casal de Nevada acredita possuir o cão mais alto do mundo” – 1,17 milhão de interações.
  • “Cadela passa de assustada a feliz ao se ver reunida com seus filhotes” – 1,45 milhão de interações.
  • “Policiais ficam do lado do pai de um garotinho no primeiro dia de escola” – 1,5 milhão de interações.

 

Pode respirar agora. Tudo bem, são histórias de grande interesse humano (e animal), capazes de comover grandes multidões.

 

Mas elas representam a visão do Facebook sobre o jornalismo? Quero dizer – perdão pelo acesso de conservadorismo jornalístico – o tipo de jornalismo que educa, expande as mentes, ajuda as pessoas a formar sua opinião sobre questões importantes como atendimento de saúde ou os riscos do Estado Islâmico, o tipo de notícias que ajuda a entender complexas questões sociais?

 

É ESSA a visão do Facebook sobre um sistema de informações equilibrado?

 

https://mondaynote.com/facebook-journalism-project-is-nothing-but-a-much-needed-pr-stunt-c756744acec1#.a8azp28sb

Uma década muito turbulenta pela frente

At the World Future Society WorldFuture 2014 event, Lee Rainie discussed an extensiveroster of expert predictions about the internet in the coming decade. He discussed what happens to people’s behavior when the internet is everywhere, how new social and cultural divides will emerge, how deeply education will be disrupted, and how a different mix of companies will influence the Internet.

Este trabalho foi publicado originalmente PewResearchCenter com este título The internet’s turbulent next decade e a abertura que está acima. A apresentação abaixo é uma tradução e montagem minha. Abaixo dela, artigo meu publicado no Estado na véspera das eleições presidenciais cobrando dos nossos políticos e elites atenção para este processo. Estamos avançando no século 21 olhando para trás. E mais uma vez pagaremos um preço alto por esta omissão.

 

Eleição e Civilização

Publicado no Estado de S.Paulo
em setembro de 2014, a propósito
das eleições presidenciais no Brasil

A computação, o software e as telecomunicações, cuja síntese é a Internet, tiraram o domínio do público das tradicionais empresas de informação e colocaram o indivíduo no centro do processo de comunicação. Situação que está subvertendo a arquitetura de todos os processos sociais, econômicos e políticos, neste início do século 21. Trazendo definitivamente para o dia a dia da sociedade um grau de insegurança sobre o futuro que nenhuma das gerações anteriores à nossa sofreu.

O teórico da comunicação Harold Innis, mentor de Marshall McLuhan, considerava que os impérios começavam a morrer quando sua “linguagem” se desestruturava em função de um movimento de inovação tecnológica, normalmente precedida de uma crise de suprimento da matéria prima dos meios de comunicação da época, da argila ao papiro e o papel.

Linguagem aqui no sentido de toda a sua estrutura, arquitetura e consequente dinâmica de comunicação. Dos impérios que precederam Grécia e Roma à nossa época da comunicação de massa, a partir da produção industrial do papel imprensa até chegar à Internet, que será o eixo principal da nova “linguagem do novo império” – a sociedade em rede – e está promovendo a nova ruptura.

Até 2025, estaremos vivendo num “ambiente computacional imersivo, invisível, ambiental e conectado, construído a partir da contínua proliferação de sensores inteligentes, câmeras, softwares, databases e imensos centros de dados em um tecido de informação que envolverá o planeta, chamado Internet das Coisas,” conforme avaliou um recente trabalho do PewResearch Internet Project, respeitado centro de pesquisa e think tank dos EUA, com pouco mais do que 2.500 cientistas pesquisadores, autores, editores, jornalistas, empreendedores, líderes de negócios, desenvolvedores de tecnologia, ativistas, futuristas, consultores, legisladores e advogados. Parte da elite norte-americana.

Neste contexto “imersivo” conviveremos com “aplicações de realidade aumentada sobre o mundo real, que serão percebidas através do uso de tecnologias portáteis/vestíveis/implantáveis.” E assistiremos “a ruptura dos modelos de negócios estabelecidos no século 20 (com maior impacto sobre as indústrias financeira, de entretenimento e a de educação).” A etiquetagem, catalogação e mapeamento analítico inteligente dos mundos físico e social serão uma realidade, que poderá ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

O Brasil está preparado para este cenário? Nossos governantes, políticos, empresários, cientistas, profissionais liberais, trabalhadores têm consciência deste processo irreversível?

Não conquistamos sequer os fundamentos da sociedade do século 20, que se vai. Educação, saneamento básico, segurança, infraestrutura e um arcabouço político minimamente preocupado com a sociedade e seu futuro são as reivindicações da sociedade que ainda não conquistou uma cidadania plena. Na campanha eleitoral, as bandeiras são estas questões e as promessas de governar com seriedade. Nada em relação a este futuro e seus processos de disrupção e reconstrução contínua. Esta eleição ainda não promoverá um movimento civilizatório.

A turbulenta próxima década da Internet é o título da pesquisa do PewInternet. E o universo pesquisado, os 2.500 cidadãos da nata da elite norte-americana, não é pessimista sobre o futuro. Têm consciência de que serão tempos difíceis, com “a Internet sendo ‘como a eletricidade’ — menos visível, mas mais profundamente inserida na vida das pessoas”, tanto em termos positivos como negativos. Um cenário que levará a melhorias na saúde, conveniência, produtividade, segurança e muito mais informações úteis ao mesmo tempo em que gerará mais ameaças à privacidade, expectativas irrealistas e alta complexidade tecnológica.

No trabalho da PewInternet são traçados horizontes pessimistas e otimistas sobre o nosso futuro. Vão do crescimento do abismo entre pobres e ricos à possibilidade de governos e corporações, pressionados pelas mudanças, tentarem reforçar seu poder, invocando segurança e normas culturais, no contexto pessimista, e, no otimista, passam por uma revolução na educação em função da rede criando mais oportunidades para todos, reforçando relacionamentos planetários e menos ignorância e vão à maior conscientização do nosso mundo e de nós mesmos gerando ações políticas pacíficas e o compartilhamento de informações integrado sem qualquer esforço à vida diária das pessoas.

Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões como cidadania e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

Parafraseando o historiador Fernand Braudel, “vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.”

É este o sentido civilizatório que nossas elites devem promover. A alternativa é o risco de caos, com momentos de anomia e conflito social.

Rodrigo Lara Mesquita é jornalista e diretor da NetNexus

@rmesquita

rmesquita@netnexus.com.br

Os cavaleiros do apocalipse

O Facebook está devorando o mundo

 

(Por Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism na Columbia Journalism School)

 

“Algo muito dramático está acontecendo com nosso ambiente de mídia, a esfera pública e nossa indústria jornalística, passando quase totalmente despercebida e certamente sem o nível de escrutínio público e debate que merece. Nosso ecossistema de notícias mudou de modo mais dramático nos últimos cinco anos dos que nos quinhentos anos anteriores. Estamos testemunhando grandes saltos técnicos – realidade virtual, vídeo ao vivo, “bots” jornalísticos com inteligência artificial, mensagens instantâneas e apps de bate-papo. Estamos vendo imensas mudanças nos controles e nas finanças, colocando o futuro do setor de publishing na mão de alguns poucos, que agora controlam o destino de muitos.

 

As redes sociais não engoliram apenas o jornalismo – elas engoliram tudo. Engoliram campanhas políticas, o sistema bancário, histórias pessoais, a indústria do lazer, o varejo, até governos e segurança. O telefone no bolso é nosso portal para o mundo. Traz muitas oportunidades, mas também vários riscos existenciais.

 

O jornalismo é uma pequena atividade secundária dentro do negócio central das plataformas sociais, mas é uma atividade de grande interesse para os cidadãos.

 

A internet e as redes sociais permitem que os jornalistas façam melhor o seu trabalho, mas ao mesmo tempo tornam o publishing uma atividade não econômica.

 

Duas coisas importantes já aconteceram, e não prestamos atenção suficiente a elas:

 

Em primeiro lugar, os publishers jornalísticos perderam o controle sobre a distribuição.

 

Redes sociais e empresas de plataformas ocuparam o espaço que os publishers não poderiam ter construído, mesmo se quisessem. Agora, as notícias são filtradas por meio de plataformas e algoritmos que são opacos e imprevisíveis. A atividade jornalística está abraçando essa tendência, e novos players puramente digitais como BuzzFeed, Vox e Fusion estabeleceram suas presenças sobre a premissa de que estão trabalhando DENTRO desse sistema, e não contra ele.

 

Em segundo, o resultado inevitável dessa situação é o aumento de poder das empresas de redes sociais.

 

As maiores empresas de redes sociais e plataformas – Google, Apple, Facebook, Amazon, e até empresas de segundo escalão como Twitter, Snapchat e novos apps de bate-papo – se tornaram extremamente poderosas no sentido de controlar quem publica o que e para quem, e como essa publicação gera dinheiro.

 

Existe hoje uma concentração de poder nesse aspecto maior do que em qualquer momento no passado. As redes preferem economias de escala, e portanto nossa cuidadosa curadoria da pluralidade em mercados de mídia como o Reino Unido, desaparece num instante, e as dinâmicas de mercado e leis antitruste usadas pelos EUA para resolver essas anomalias não estão dando conta do recado.

A revolução móvel está por trás de boa parte dessa situação.

 

Devido à revolução dos aparelhos móveis, explodiram o tempo que gastamos online, o número de atividades que fazemos online e a atenção que dedicamos às plataformas.

 

O design e as capacidades dos nossos telefones (obrigado, Apple) favorecem os apps, que estimulam comportamentos diferentes. O Google fez uma pesquisa sobre sua plataforma Android, mostrando que apesar de termos uma média de 25 apps em nossos celulares, usamos apenas quatro ou cinco apps todos os dias, e entre esses de uso intenso, a maioria do nosso tempo é gasta no app de uma rede social. E no momento, o alcance do Facebook é muito maior do que qualquer outra plataforma social.

 

A maioria dos adultos americanos usa o Facebook, e a maioria desses usuários recebe algum tipo de notícia via Facebook. Segundo o Pew Research Center, 40% dos adultos nos EUA consideram o Facebook como uma fonte de notícias.

 

Vamos recapitular:

 

As pessoas estão usando cada vez mais seus smartphones para tudo.

Elas fazem isso usando apps, especialmente apps sociais e de bate-papo, como Facebook, WhatsApp, Snapchat e Twitter.

A concorrência para se tornar um desses apps se tornou intensa. A vantagem competitiva das plataformas se baseia na capacidade de manter os usuários dentro do app. Quanto mais tempo os usuários passam dentro do seu aplicativo, mais você sabe sobre eles, mas informações podem ser usadas para vender publicidade, e mais alto é seu faturamento.

 

A competição por atenção é acirrada. Os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” (Google, Facebook, Apple e Amazon – cinco, se você adicionar a Microsoft) estão em uma longa e intensa guerra sobre quais tecnologias, plataformas e até ideologias serão vencedoras.

 

No ano passado, jornalistas e publishers se viram inesperadamente beneficiados por esse conflito.

 

No ano passado, o Snapchat lançou o Discover App, criando canais para marcas como Vice, BuzzFeed, Wall Street Journal, Cosmo, e Daily Mail. O Facebook lançou o Instant Articles, e anunciou que o serviço estará disponível para todos os publishers a partir de abril. Apple e Google seguiram o exemplo, lançando Apple News e Accelerated Mobile Pages, respectivamente. O Twitter lançou o Moments, um agregador de conteúdos em trending topics para oferecer reportagens completas sobre os eventos.

 

É uma ótima notícia que empresas de plataformas com muitos recursos estão criando sistemas para distribuir conteúdo jornalístico. Mas ao mesmo tempo que uma porta se abre, outra se fecha.

 

Ao mesmo tempo em que os publishers estão sendo atraídos para publicar diretamente nos apps e novos sistemas, que rapidamente aumentam suas audiências móveis, a Apple anunciou que ia incluir software bloqueador de anúncios na sua loja App Store.

 

Em outras palavras, se para o publisher a migração para uma plataforma de distribuição era uma esperança de faturar com publicidade móvel, qualquer usuário de iPhone pode bloquear todos os anúncios e também os softwares de monitoração dos publishers. Artigos que são publicados dentro das plataformas, como o Discover do Snapchat ou Instant Articles do Facebook, são em boa parte imunes contra ad-blockers. Desse modo, a pequena fatia de publicidade digital móvel que os publishers conseguem de modo independente está correndo sério risco. É claro que pode-se argumentar que os publishers são culpados por encher suas páginas de anúncios invasivos que ninguém quer ver.

 

Há três alternativas para os publishers comerciais.

 

Uma é publicar ainda mais conteúdo em um app como o Facebook no serviço Instant Articles, onde o bloqueio de anúncios não é impossível mas é mais difícil do que nos browsers. Um publisher me disse que “vemos o quanto podemos faturar com o mobile, e suspeitamos que mesmo que entreguemos tudo direto para o Facebook, poderíamos nos dar bem”. Porém, os riscos de depender do faturamento e do tráfego de um único distribuidor são muito altos.

 

A segunda opção é criar outros negócios e modelos de faturamento fora do alcance das plataformas de distribuição. Aceitar o fato de que buscar uma grande audiência através de plataformas de terceiros não apenas não ajuda como prejudica seu jornalismo, e mudar para uma métrica de engajamento da audiência, em vez de escala.

 

Assinaturas e “membership” são comumente considerados nesse contexto. Ironicamente, os pré-requisitos para esses métodos são ter uma forte identidade de marca, que desperte a afinidade dos assinantes. Em um mundo onde o conteúdo é amplamente distribuído, isso se torna muito mais difícil de conseguir do que com produtos impressos. Mesmo nos poucos casos onde as assinaturas estão funcionando, elas não são suficientes para compensar a queda na publicidade.

 

A terceira opção é criar publicidade que não parece publicidade, assim os ad-blockers não vão conseguir detectar. Era uma tática chamada “advertorial” ou “sponsorship”, mas agora chama-se “native advertising” e já representa quase um quarto de todos os anúncios digitais nos EUA. Empresa digitais nativas como BuzzFeed e Voz, e híbridas como a Vice, romperam com o fracassado modelo de publicidade do setor de publishing se tornando praticamente agências de publicidade – que por sua vez, também correm o risco de extinção. O que quero dizer é que esses publishers lidam diretamente com os anunciantes, e produzem os vídeos virais e GIFs que vemos espalhadas pelas páginas do Facebook, e publicam esse material para todas as pessoas que deram “like” ou compartilharam outros artigos daquele publisher.

 

A saída lógica encontrada por muitos publishers para boa parte dessa situação é investir em seus próprios apps. Mas já vimos que mesmo o app próprio deve se conformar aos padrões de outros apps para poder funcionar. E investir na manutenção de sua presença própria é complicado no momento onde a publicidade (especialmente no impresso) está sob pressão, e a publicidade online não cresce o suficiente. O equilíbrio crítico entre destino e distribuição é possivelmente a mais difícil decisão de investimento que os publishers devem fazer agora.

 

Os publishers estão informando que o Instant Articles está dando até três ou quatro vezes mais tráfego do que eles esperavam. Está cada vez mais forte a tentação para os publishers de “mergulhar de cabeça” nas plataformas de distribuição, e criar reportagens que “funcionem” nas redes sociais. Posso imaginar empresas jornalísticas abandonando sua capacidade produtiva, sua capacidade tecnológica e até seus departamentos de publicidade, e delegar tudo isso para plataformas de terceiros, em uma tentativa de se manter no azul.

 

Essa é uma estratégia de alto risco: você perde controle sobre o relacionamento com seus leitores e espectadores, seu faturamento e até o caminho que suas matérias fazer até chegar ao seu destino.

 

Com bilhões de usuários e centenas de milhares de artigos, fotos e vídeos chegando todos os dias, as plataformas sociais precisam usar algoritmos para tentar selecionar o que é importante, recente e popular, e decidir quem deveria ver o quê. E não temos outra opção, senão confiar a eles essa tarefa.

 

Na verdade, não temos quase nenhum insight a respeito de como cada empresa está selecionando as notícias. Se o Facebook decidir, por exemplo, que matérias em vídeo são melhores que artigos escritos, não conseguimos ver isso, a não ser que eles nos digam isso ou nós mesmo observemos isso. Esse é um campo sem regulamentação. Não existe transparência a respeito do funcionamento interno desses sistemas.

 

Há grandes vantagens em termos uma nova classe de pessoas tecnicamente capazes, socialmente conscientes, bem sucedidas em termos financeiros e altamente energéticas como Mark Zuckerberg assumindo funções e tomando o poder econômico dos intermediários acomodados, politicamente envolvidos e ocasionalmente corruptos que tivemos no passado. Mas devemos nos conscientizar de que essa transição cultural, econômica e política é muito profunda.

 

Estamos entregando os controles de partes importantes de nossas vidas públicas e privadas para um grupo muito pequeno de pessoas, que não eleitas e não estão abertas a escrutínio público.

 

Precisamos de regulamentação para assegurar que todos os cidadãos tenham acesso igual às redes de oportunidade e serviços que precisam. Também precisamos saber que todas as expressões e discursos públicos terão tratamento transparente, mesmo que não possam ser tratados igualmente. Esse é um requisito básico para o funcionamento de uma democracia.

 

Para que isso ocorra, é preciso no mínimo algum acordo a respeito das responsabilidades em mudança nessa área. As pessoas que criaram essas empresas de plataformas não o fizeram com a intenção de assumir as responsabilidades de uma imprensa livre. Na verdade, estão preocupadas que esse seja o resultado de seu sucesso com a engenharia.

 

Para serem sustentáveis, empresas de notícias e jornalismo vão precisar mudar radicalmente sua base de custos.

 

Uma das críticas atuais a essas empresas de tecnologia é que elas selecionaram as partes lucrativas do processo de publishing e desconsideraram o negócio mais dispendioso de realmente criar jornalismo de qualidade. Se os experimentos iniciais como o Instant Articles levarem a uma relação mais integrada com o jornalismo, é possível que vejamos também uma transição significativa dos custos de produção, particularmente na área de tecnologia e vendas de publicidade.

 

A reintermediação da informação, que muitos pensaram que se tornaria totalmente democratizada pelo progresso da Web aberta, tem o potencial de piorar os mecanismos de financiar o jornalismo antes de melhorá-los. Considerando os prospectos da publicidade móvel e as metas agressivas de crescimento que Apple, Facebook, Google e outros devem atingir para satisfazer Wall Street, é possível dizer que a não ser que as plataformas sociais deem um retorno monetário muito maior para a fonte, a produção de notícias será uma atividade não-lucrativa em vez de ser um motor do capitalismo.

 

Para ser sustentável, empresas jornalísticas devem mudar radicalmente sua base de custos. Parece muito provável que a próxima geração de empresas jornalísticas será criada em torno do conceito de estúdio, gerenciando diferentes matérias, talentos e produtos em uma vasta gama de aparelhos e plataformas. Durante esse processo, postar jornalismo diretamente no Facebook se tornará a regra e não a exceção. Até o website pode ser abandonado, para favorecer a hiper-distribuição. As distinções entre publishers e plataformas vão desaparecer completamente.

 

Mesmo que você se veja como uma empresa de tecnologia, você está tomando decisões críticas sobre tudo, incluindo acesso às plataformas, o formato do jornalismo ou do discurso, a inclusão ou exclusão de certos conteúdos, a aceitação ou rejeição de vários publishers.

 

O que vai acontecer com a atual classe de publishers é uma questão muito menos importante do que a questão de que tipo de sociedade de notícias e informações queremos criar, e como podemos ajudar em sua formação.”

                                                                                                                         (Traduzido e editado por Sergio Kulpas)

Page 1 of 26

Desenvolvido por SELVA/LAB