Eleição e civilização

Eleição e Civilização
Rodrigo Lara Mesquita, artigo publicado no Estadão, 16/9.

A computação, o software e as telecomunicações, cuja síntese é a Internet, tiraram o domínio do público das tradicionais empresas de informação e colocaram o indivíduo no centro do processo de comunicação. Situação que está subvertendo a arquitetura de todos os processos sociais, econômicos e políticos, neste início do século 21. Trazendo definitivamente para o dia a dia da sociedade um grau de insegurança sobre o futuro que nenhuma das gerações anteriores à nossa sofreu.

O teórico da comunicação Harold Innis, mentor de Marshall McLuhan, considerava que os impérios começavam a morrer quando sua “linguagem” se desestruturava em função de um movimento de inovação tecnológica, normalmente precedida de uma crise de suprimento da matéria prima dos meios de comunicação da época, da argila ao papiro e o papel.
Linguagem aqui no sentido de toda a sua estrutura, arquitetura e consequente dinâmica de comunicação. Dos impérios que precederam Grécia e Roma à nossa época da comunicação de massa, a partir da produção industrial do papel imprensa até chegar à Internet, que será o eixo principal da nova “linguagem do novo império” – a sociedade em rede – e está promovendo a nova ruptura.

Até 2025, estaremos vivendo num “ambiente computacional imersivo, invisível, ambiental e conectado, construído a partir da contínua proliferação de sensores inteligentes, câmeras, softwares, databases e imensos centros de dados em um tecido de informação que envolverá o planeta, chamado Internet das Coisas,” conforme avaliou um recente trabalho do PewResearch Internet Project (veja a apresentação em ppt da pesquisa na postagem abaixo), respeitado centro de pesquisa e think tank dos EUA, com pouco mais do que 2.500 cientistas pesquisadores, autores, editores, jornalistas, empreendedores, líderes de negócios, desenvolvedores de tecnologia, ativistas, futuristas, consultores, legisladores e advogados. Parte da elite norte-americana.

Neste contexto “imersivo” conviveremos com “aplicações de realidade aumentada sobre o mundo real, que serão percebidas através do uso de tecnologias portáteis/vestíveis/implantáveis.” E assistiremos “a ruptura dos modelos de negócios estabelecidos no século 20 (com maior impacto sobre as indústrias financeira, de entretenimento e a de educação).” A etiquetagem, catalogação e mapeamento analítico inteligente dos mundos físico e social serão uma realidade, que poderá ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

O Brasil está preparado para este cenário? Nossos governantes, políticos, empresários, cientistas, profissionais liberais, trabalhadores têm consciência deste processo irreversível?

Não conquistamos sequer os fundamentos da sociedade do século 20, que se vai. Educação, saneamento básico, segurança, infraestrutura e um arcabouço político minimamente preocupado com a sociedade e seu futuro são as reivindicações da sociedade que ainda não conquistou cidadania plena. Na campanha eleitoral, as bandeiras são estas questões e as promessas de governar com seriedade. Nada em relação a este futuro e seus processos de disrupção e reconstrução contínua. Esta eleição ainda não promoverá um movimento civilizatório.

A turbulenta próxima década da Internet é o título da pesquisa do PewInternet. E o universo pesquisado, os 2.500 cidadãos da nata da elite norte-americana, não é pessimista sobre o futuro. Têm consciência de que serão tempos difíceis, com “a Internet sendo ‘como a eletricidade’ — menos visível, mas mais profundamente inserida na vida das pessoas”, tanto em termos positivos como negativos. Um cenário que levará a melhorias na saúde, conveniência, produtividade, segurança e muito mais informações úteis ao mesmo tempo em que gerará mais ameaças à privacidade, expectativas irrealistas e alta complexidade tecnológica.

No trabalho da PewInternet são traçados horizontes pessimistas e otimistas sobre o nosso futuro. Vão do crescimento do abismo entre pobres e ricos à possibilidade de governos e corporações, pressionados pelas mudanças, tentarem reforçar seu poder, invocando segurança e normas culturais, no contexto pessimista, e, no otimista, passam por uma revolução na educação em função da rede criando mais oportunidades para todos, reforçando relacionamentos planetários e menos ignorância e vão à maior conscientização do nosso mundo e de nós mesmos gerando ações políticas pacíficas e o compartilhamento de informações integrado sem qualquer esforço à vida diária das pessoas.

Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões como cidadania e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

Parafraseando o historiador Fernand Braudel, “vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.”

É este o sentido civilizatório que nossas elites devem promover. A alternativa é o risco de caos, com momentos de anomia e conflito social.

os turbulentos próximos 10 anos da nossa história

ambiente global, imersivo, invisível, ambiente de rede de computação construído pela proliferação contínua de sensores inteligentes, câmeras, software, bancos de dados e centros de dados em massa numa tela de informações de amplitude mundial conhecida como a Internet das Coisas.

IBM se rende à sociedade em rede

Artigo de Rodrigo Kede, presidente da IBM Brasil, publicado no Valor sob o título O Poder em novas mãos fala na prática de como a revolução tecnológica que estamos vivendo está criando um novo ecossistema de negócios, com novos processos e papéis na nova dinâmica dos fluxos de informações.

Valor, 11/08/2014

Impulsionado por essa conversão das novas tecnologias – mídia social, mobilidade, análise de dados e nuvem – o mercado de TI deve crescer, somente no Brasil, cerca de 10% e movimentar U$ 175 bilhões em 2014, segundo o Gartner. Essa revolução digital, que permite múltiplas conexões, o ecoar de diferentes vozes e faz com que as ideias circulem com uma liberdade ímpar, mudou os papéis dos principais atores na sociedade.

Clientes e cidadãos, que outrora eram coadjuvantes, pouco a pouco ganharam destaque. Basta um só post, um clique e pronto: é possível arranhar a imagem de uma empresa. O poder, que até então estava nas mãos de empresas e instituições, passou, respectivamente para a mão dos consumidores e cidadãos.

Quantas vezes não vemos uma empresa envolvida em uma crise por algo originado nas redes sociais? Antes o cliente ligava para o SAC, nem sempre era bem atendido e, salvo raras exceções, continuava com seu problema. Hoje o consumidor expõe sua insatisfação na internet e o problema, que era dele, é transferido para a empresa.

Para se ter uma ideia do tamanho desta geração digital, de acordo com uma pesquisa do Ibope/YouPix, 78% dos brasileiros que navegam na internet acessam algum tipo de rede social. Em relação ao Facebook, as estatísticas do Social Bakers apontam o Brasil como o terceiro país em número de usuários, com 87 milhões de membros por mês (segundo informação oficial da companhia).

A tecnologia deu poder ao cliente. Ao mesmo tempo em que ele pode prejudicar a reputação de uma marca, esse mesmo consumidor pode contribuir para o crescimento e desenvolvimento da empresa.

O cliente não quer mais ser tratado como segmento, mas sim como um indivíduo. A empresa do amanhã deve trazê-lo para perto, fazer dele um aliado. A maior parte dos grandes executivos já percebeu a importância de incorporar o consumidor aos seus negócios. Pesquisa feita pela IBM com 800 presidentes de grandes corporações ao redor do mundo mostra que 72% dos CEOs quer os clientes extremamente próximos – a ponto de permitir que colaborem ativamente, desde o lançamento de novos produtos e serviços até no desenvolvimento de uma estratégia. Pela primeira vez, quem comanda é o indivíduo. Não é mais a empresa que lança tendência, tampouco o mercado que dita as regras.

Vivemos um momento de ruptura, de quebra de paradigmas. Aqui no Brasil, os bancos e o varejo são alguns que saíram na frente nesse sentido. Apostam pesado nas possibilidades criadas por essas novas tecnologias e investem em soluções de análise de dados para extrair insights relevantes e direcionar suas ações. Entenderam que agradar o cliente não é mais suficiente. Agora é preciso surpreendê-los. Segundo a IDC, a projeção é de que os investimentos em “big data” e “analytics” no país atinjam U$ 426 milhões neste ano, sendo que a principal aplicação será o chamado “Socialytics”, para captura e análise de dados gerados nas redes sociais.

Outro dia, enquanto eu participava de um evento, fui abordado por uma consumidora. Ela disse que os serviços que um determinado setor oferecia, a fim de proporcionar conforto, agilidade e segurança, não eram mais suficientes. E foi além: “Eu quero que desenvolvam uma ação específica, customizada de acordo com o meu perfil. Não adianta mandar uma promoção para mim e para milhares de pessoas de um mesmo show. Quero uma promoção para assistir a apresentação da minha banda preferida”, disse.

Uma ação dessas é totalmente possível com tecnologia disponível hoje. Dá para saber exatamente quem é seu cliente. Sempre digo que os dados são o grande recurso natural do século XXI. O grande desafio é extrair as informações relevantes diante dessa avalanche de dados.

 

Hoje, através da análise de sentimentos, já é possível capturar e interpretar, em tempo real, o que milhões de pessoas postam nas redes sociais. Um sistema de alta tecnologia com inteligência artificial é treinado para aprender a interpretar qualquer tipo de reação – ainda que uma mesma palavra seja empregada com diferentes sentidos, como ironia, sarcasmo e linguagem coloquial.

Sempre digo para meu time: a chave para alcançar a inovação está na multiplicação das parcerias. Alguns serão os seus parceiros e outros seus concorrentes mais próximos. A concorrência está vindo de lugares inesperados.

Apenas para citar um exemplo, a indústria das próteses viu surgir um concorrente no que seria um cliente em potencial. Um carpinteiro que havia perdido os dedos num acidente de trabalho decidiu, por causa dos altos preços das próteses, trabalhar num protótipo para a reconstrução da sua mão. Na internet conheceu uma pessoa para ajudá-lo a aperfeiçoar seu projeto. Pronto! Meses depois, fruto dessa improvável parceria, nascia a Robohand. A empresa, que utiliza a impressão em 3D, foi responsável por baixar de forma significativa o custo das próteses.

As novas ameaças competitivas devem ser enfrentadas com a diversidade – de pessoas, de indústrias, de fundos, de regiões e até de gerações. É preciso priorizar a criação de espaços de experimentação, onde as pessoas possam pensar e interagir. Esses locais serão os ecossistemas de negócios, a evolução do antigo ambiente corporativo.

O gestor do amanhã tem que estar aberto a todas as possibilidades. Diante deste novo cenário, onde as empresas estão sob direção dos clientes, surgem dois grandes desafios: aprender a lidar com a ruptura e criar valores que possam ser compartilhados. Vocês estão prontos para esta revolução?