Eleição e civilização

Eleição e Civilização
Rodrigo Lara Mesquita, artigo publicado no Estadão, 16/9.

A computação, o software e as telecomunicações, cuja síntese é a Internet, tiraram o domínio do público das tradicionais empresas de informação e colocaram o indivíduo no centro do processo de comunicação. Situação que está subvertendo a arquitetura de todos os processos sociais, econômicos e políticos, neste início do século 21. Trazendo definitivamente para o dia a dia da sociedade um grau de insegurança sobre o futuro que nenhuma das gerações anteriores à nossa sofreu.

O teórico da comunicação Harold Innis, mentor de Marshall McLuhan, considerava que os impérios começavam a morrer quando sua “linguagem” se desestruturava em função de um movimento de inovação tecnológica, normalmente precedida de uma crise de suprimento da matéria prima dos meios de comunicação da época, da argila ao papiro e o papel.
Linguagem aqui no sentido de toda a sua estrutura, arquitetura e consequente dinâmica de comunicação. Dos impérios que precederam Grécia e Roma à nossa época da comunicação de massa, a partir da produção industrial do papel imprensa até chegar à Internet, que será o eixo principal da nova “linguagem do novo império” – a sociedade em rede – e está promovendo a nova ruptura.

Até 2025, estaremos vivendo num “ambiente computacional imersivo, invisível, ambiental e conectado, construído a partir da contínua proliferação de sensores inteligentes, câmeras, softwares, databases e imensos centros de dados em um tecido de informação que envolverá o planeta, chamado Internet das Coisas,” conforme avaliou um recente trabalho do PewResearch Internet Project (veja a apresentação em ppt da pesquisa na postagem abaixo), respeitado centro de pesquisa e think tank dos EUA, com pouco mais do que 2.500 cientistas pesquisadores, autores, editores, jornalistas, empreendedores, líderes de negócios, desenvolvedores de tecnologia, ativistas, futuristas, consultores, legisladores e advogados. Parte da elite norte-americana.

Neste contexto “imersivo” conviveremos com “aplicações de realidade aumentada sobre o mundo real, que serão percebidas através do uso de tecnologias portáteis/vestíveis/implantáveis.” E assistiremos “a ruptura dos modelos de negócios estabelecidos no século 20 (com maior impacto sobre as indústrias financeira, de entretenimento e a de educação).” A etiquetagem, catalogação e mapeamento analítico inteligente dos mundos físico e social serão uma realidade, que poderá ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

O Brasil está preparado para este cenário? Nossos governantes, políticos, empresários, cientistas, profissionais liberais, trabalhadores têm consciência deste processo irreversível?

Não conquistamos sequer os fundamentos da sociedade do século 20, que se vai. Educação, saneamento básico, segurança, infraestrutura e um arcabouço político minimamente preocupado com a sociedade e seu futuro são as reivindicações da sociedade que ainda não conquistou cidadania plena. Na campanha eleitoral, as bandeiras são estas questões e as promessas de governar com seriedade. Nada em relação a este futuro e seus processos de disrupção e reconstrução contínua. Esta eleição ainda não promoverá um movimento civilizatório.

A turbulenta próxima década da Internet é o título da pesquisa do PewInternet. E o universo pesquisado, os 2.500 cidadãos da nata da elite norte-americana, não é pessimista sobre o futuro. Têm consciência de que serão tempos difíceis, com “a Internet sendo ‘como a eletricidade’ — menos visível, mas mais profundamente inserida na vida das pessoas”, tanto em termos positivos como negativos. Um cenário que levará a melhorias na saúde, conveniência, produtividade, segurança e muito mais informações úteis ao mesmo tempo em que gerará mais ameaças à privacidade, expectativas irrealistas e alta complexidade tecnológica.

No trabalho da PewInternet são traçados horizontes pessimistas e otimistas sobre o nosso futuro. Vão do crescimento do abismo entre pobres e ricos à possibilidade de governos e corporações, pressionados pelas mudanças, tentarem reforçar seu poder, invocando segurança e normas culturais, no contexto pessimista, e, no otimista, passam por uma revolução na educação em função da rede criando mais oportunidades para todos, reforçando relacionamentos planetários e menos ignorância e vão à maior conscientização do nosso mundo e de nós mesmos gerando ações políticas pacíficas e o compartilhamento de informações integrado sem qualquer esforço à vida diária das pessoas.

Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões como cidadania e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

Parafraseando o historiador Fernand Braudel, “vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.”

É este o sentido civilizatório que nossas elites devem promover. A alternativa é o risco de caos, com momentos de anomia e conflito social.

os turbulentos próximos 10 anos da nossa história

ambiente global, imersivo, invisível, ambiente de rede de computação construído pela proliferação contínua de sensores inteligentes, câmeras, software, bancos de dados e centros de dados em massa numa tela de informações de amplitude mundial conhecida como a Internet das Coisas.

IBM se rende à sociedade em rede

Artigo de Rodrigo Kede, presidente da IBM Brasil, publicado no Valor sob o título O Poder em novas mãos fala na prática de como a revolução tecnológica que estamos vivendo está criando um novo ecossistema de negócios, com novos processos e papéis na nova dinâmica dos fluxos de informações.

Valor, 11/08/2014

Impulsionado por essa conversão das novas tecnologias – mídia social, mobilidade, análise de dados e nuvem – o mercado de TI deve crescer, somente no Brasil, cerca de 10% e movimentar U$ 175 bilhões em 2014, segundo o Gartner. Essa revolução digital, que permite múltiplas conexões, o ecoar de diferentes vozes e faz com que as ideias circulem com uma liberdade ímpar, mudou os papéis dos principais atores na sociedade.

Clientes e cidadãos, que outrora eram coadjuvantes, pouco a pouco ganharam destaque. Basta um só post, um clique e pronto: é possível arranhar a imagem de uma empresa. O poder, que até então estava nas mãos de empresas e instituições, passou, respectivamente para a mão dos consumidores e cidadãos.

Quantas vezes não vemos uma empresa envolvida em uma crise por algo originado nas redes sociais? Antes o cliente ligava para o SAC, nem sempre era bem atendido e, salvo raras exceções, continuava com seu problema. Hoje o consumidor expõe sua insatisfação na internet e o problema, que era dele, é transferido para a empresa.

Para se ter uma ideia do tamanho desta geração digital, de acordo com uma pesquisa do Ibope/YouPix, 78% dos brasileiros que navegam na internet acessam algum tipo de rede social. Em relação ao Facebook, as estatísticas do Social Bakers apontam o Brasil como o terceiro país em número de usuários, com 87 milhões de membros por mês (segundo informação oficial da companhia).

A tecnologia deu poder ao cliente. Ao mesmo tempo em que ele pode prejudicar a reputação de uma marca, esse mesmo consumidor pode contribuir para o crescimento e desenvolvimento da empresa.

O cliente não quer mais ser tratado como segmento, mas sim como um indivíduo. A empresa do amanhã deve trazê-lo para perto, fazer dele um aliado. A maior parte dos grandes executivos já percebeu a importância de incorporar o consumidor aos seus negócios. Pesquisa feita pela IBM com 800 presidentes de grandes corporações ao redor do mundo mostra que 72% dos CEOs quer os clientes extremamente próximos – a ponto de permitir que colaborem ativamente, desde o lançamento de novos produtos e serviços até no desenvolvimento de uma estratégia. Pela primeira vez, quem comanda é o indivíduo. Não é mais a empresa que lança tendência, tampouco o mercado que dita as regras.

Vivemos um momento de ruptura, de quebra de paradigmas. Aqui no Brasil, os bancos e o varejo são alguns que saíram na frente nesse sentido. Apostam pesado nas possibilidades criadas por essas novas tecnologias e investem em soluções de análise de dados para extrair insights relevantes e direcionar suas ações. Entenderam que agradar o cliente não é mais suficiente. Agora é preciso surpreendê-los. Segundo a IDC, a projeção é de que os investimentos em “big data” e “analytics” no país atinjam U$ 426 milhões neste ano, sendo que a principal aplicação será o chamado “Socialytics”, para captura e análise de dados gerados nas redes sociais.

Outro dia, enquanto eu participava de um evento, fui abordado por uma consumidora. Ela disse que os serviços que um determinado setor oferecia, a fim de proporcionar conforto, agilidade e segurança, não eram mais suficientes. E foi além: “Eu quero que desenvolvam uma ação específica, customizada de acordo com o meu perfil. Não adianta mandar uma promoção para mim e para milhares de pessoas de um mesmo show. Quero uma promoção para assistir a apresentação da minha banda preferida”, disse.

Uma ação dessas é totalmente possível com tecnologia disponível hoje. Dá para saber exatamente quem é seu cliente. Sempre digo que os dados são o grande recurso natural do século XXI. O grande desafio é extrair as informações relevantes diante dessa avalanche de dados.

 

Hoje, através da análise de sentimentos, já é possível capturar e interpretar, em tempo real, o que milhões de pessoas postam nas redes sociais. Um sistema de alta tecnologia com inteligência artificial é treinado para aprender a interpretar qualquer tipo de reação – ainda que uma mesma palavra seja empregada com diferentes sentidos, como ironia, sarcasmo e linguagem coloquial.

Sempre digo para meu time: a chave para alcançar a inovação está na multiplicação das parcerias. Alguns serão os seus parceiros e outros seus concorrentes mais próximos. A concorrência está vindo de lugares inesperados.

Apenas para citar um exemplo, a indústria das próteses viu surgir um concorrente no que seria um cliente em potencial. Um carpinteiro que havia perdido os dedos num acidente de trabalho decidiu, por causa dos altos preços das próteses, trabalhar num protótipo para a reconstrução da sua mão. Na internet conheceu uma pessoa para ajudá-lo a aperfeiçoar seu projeto. Pronto! Meses depois, fruto dessa improvável parceria, nascia a Robohand. A empresa, que utiliza a impressão em 3D, foi responsável por baixar de forma significativa o custo das próteses.

As novas ameaças competitivas devem ser enfrentadas com a diversidade – de pessoas, de indústrias, de fundos, de regiões e até de gerações. É preciso priorizar a criação de espaços de experimentação, onde as pessoas possam pensar e interagir. Esses locais serão os ecossistemas de negócios, a evolução do antigo ambiente corporativo.

O gestor do amanhã tem que estar aberto a todas as possibilidades. Diante deste novo cenário, onde as empresas estão sob direção dos clientes, surgem dois grandes desafios: aprender a lidar com a ruptura e criar valores que possam ser compartilhados. Vocês estão prontos para esta revolução?

 

Jornalismo: 19 anos depois, a mesma visão e a mesma certeza

Artigo publicado na edição deste mês na Revista de Jornalismo da ESPM, Edição Brasileira da Columbia Journalism Review

dois tempos de entendimento da rede

O ano era 94, o país o México, governado pelo corrupto Carlos Salinas, que tinha adotado uma política de ajuste do câmbio correlacionado às variáveis de inflação e juros, com uma desvalorização progressiva e controlada do peso atrelado ao dólar. Na campanha presidencial um dos candidatos é assassinado. Salinas passa o governo para Ernesto Zedillo, que em 20 de dezembro decide desvalorizar o peso para promover as exportações mexicanas. Todo o sistema desmorona fazendo o país entrar numa crise que durou anos e gerou o Efeito Tequila: uma crise de confiança do mercado financeiro internacional que afetou profundamente a economia brasileira e de toda a América Latina.

Foi neste contexto de crise que escrevi o artigo publicado em 26 de março de 95 no caderno de economia de O Estado de S Paulo sob o título nebuloso Tempo Real vai democratizar a informação e aqui republicado com o título finalmente revisado ytics . Desde 88, dirigia a Agência Estado, uma unidade operacional da empresa, com o os objetivos de transformá-la numa unidade de negócios e contribuir para que o Grupo Estado abraçasse o futuro do mundo da informação: o domínio das possibilidades do computador, dos softwares e das telecomunicações. Na AE, desde esta época, tínhamos consciência de que a emergência das TICs botaria o indivíduo no centro do processo. As empresas jornalísticas iriam perder o domínio do público.

Esta aventura fascinante, infelizmente abortada, tinha sido iniciada em 88 por um pequeno grupo de jornalistas que comungou minha visão de futuro desenvolvida em meados dos anos 80. No primeiro passo, reformulamos todos os processos informativos (prospecção, captação e distribuição) do Grupo Estado para que ele pudesse avançar no mercado como empresa de informação e não exclusivamente jornalística.

Além disso, fomos responsáveis pela especificação de um sistema eletrônico de recebimento e distribuição de informação desenvolvido in house. O Grupo Estado tinha iniciado seu processo de informatização, mas nas áreas editoriais só tinha contemplado das redações dos jornais para baixo. A entrada e saída da informação continuava dependendo de uma obsoleta e restritiva rede de telex. Ninguém na empresa tinha refletido e muito menos analisado este gargalo. Esta foi uma das vantagens competitivas da AE: nunca dependeu de sistemas centralizados com a inteligência fechada numa caixa preta.

Depois desta primeira arrancada para poder chegar ao mercado com eficácia, reorganizamos e desenvolvemos novos serviços para o mercado de jornais e revistas e lançamos serviços de informação empresariais e ambientais distribuídos por fax. Já éramos uma unidade de negócios. Uma receita marginal de 400 mil cruzados avançava para alguns milhões.

Em 92, depois de uma maratona atrás do que havia de mais avançado na indústria da informação, lançamos a Broadcast: o serviço de informações em tempo real do Grupo Estado para o mercado financeiro, que enfrentando Reuters, Bloomberg e a falecida Telerate da Dow Jones, então empresa proprietária do Wall Street Journal, já era líder de mercado em 94, posição que mantém até hoje. Os investimentos para a partida estavam pagos e a empresa faturava dezenas de milhões de reais, com uma margem muito maior do que a dos jornais porque fazer jornalismo no ambiente eletrônico tem um custo baixo graças à plataforma elwtrônica.

Desde o início, este grupo de profissionais que transformou a Agência Estado numa empresa referencial para o mercado tinha consciência que a Broadcast era uma plataforma de aprendizado e que no futuro próximo a base das receitas das tradicionais empresas jornalísticas, os classificados, seria roubada pelas telecomunicações (a internet que estava nas nossas portas), por ambientes criados por softwares e processados pela computação.

Tínhamos que começar em algum mercado e o único aparelhado e disposto a pagar por serviços nestes meios era o financeiro. Em 92, filiamo-nos ao então laboratório de mídia do MIT, o Media Lab. Foi lá, nos programas News in the Future, Information: Organized e Simplicity, que se consolidou a nossa visão de que daria certo neste novo mundo em constante beta e cada vez mais distribuído, descentralizado e descontínuo quem tivesse coragem de se perder na rede. Mais do que informar, o papel das empresas de informação foi e será sempre contribuir para os processos de articulação da sociedade. A notícia é um meio, não o fim. Elas não nos dizem o que fazer ou o que pensar, mas são um convite para a navegar, para a participação.

O processo de formação da opinião pública daqui para frente será cada vez mais fragmentado e autônomo, assim como a própria sociedade. A revolução tecnológica que estamos vivendo é muito mais profunda do que a do século 15, quando a reinvenção da prensa pelo mundo ocidental e outras inovações abriram o caminho para o processo que levou à revolução industrial. As tradicionais empresas jornalísticas, apesar de todos os problemas que enfrentam, continuam tendo todas as condições objetivas para gerarem novos caminhos e negócios. Falta conhecimento, visão e coragem.

RLM

A Tecnologia democratizará os processos de informação

olhando o futuro, 1995

É redundância dizer que estamos assistindo ao mais profundo, dramático e rápido processo de mudança que a humanidade já sofreu. Mas é necessário quando estamos falando de responsabilidade das empresas e profissionais empenhados em informar o mercado financeiro: o primeiro setor da nossa sociedade que se interligou em tempo real globalmente, subvertendo a ordem instituída e questionando a noção de soberania nacional.

Se isso já está claro há muito tempo para a pequena parcela da aldeia global que participa ativamente deste mercado, é uma grande novidade e fator de insegurança para os meros mortais que vêm de um dia para o outro a economia de um país – o México, e por consequência a de todo o nosso Continente – sofrer uma revolução em função da movimentação dos trilhões de dólares que alimentam o mercado financeiro internacional.

Até que ponto um fato como este é de responsabilidade dos protagonistas deste mercado, ou de políticas governamentais, ou de questões estruturais, como cultura protecionista e corrupção, não é objeto deste artigo. Nossa responsabilidade, empresas e profissionais dedicados a fornecer informações em tempo real para o mercado financeiro, é com a correção e acurácia da informação, com a certeza dos protagonistas do mercado de que não temos nenhum tipo de interesse ou posição no mercado. Mais do que isso, a certeza de que o grupo empresarial que hoje sustenta a operação não tem outro interesse econômico fora do setor de informação.

O nosso dia a dia é feito de sangue frio e responsabilidade. Sangue frio porque centenas de pessoas estão envolvidas num processo de captar, processar e enviar notícias, análises e dados para milhares de telas de computadores – em mesas de operação de bancos, corretoras, traders, scalpers, departamentos financeiros de empresas – e, por isso, a responsabilidade: são eles que movimentam os trilhões de dólares. Uma operação como essa envolve não só jornalistas. Envolve homens de tecnologia, de marketing, de relação comercial e de administração. É uma operação casada em tempo real, em que todos têm o mesmo nível de responsabilidade em relação à nossa missão: instrumentalizar os homens do mundo de negócios para tomar posições, graças a um trabalho jornalístico impecável.

Mas temos um paliativo: a certeza de que será este o processo da indústria da informação daqui para a frente. Houve um tempo em que o meio jornal tinha o monopólio da informação. Era o único canal entre a sociedade civil e o poder público. Representou, com o desenvolvimento da revolução industrial, a praça da cidade antiga: o ponto de encontro da coletividade. O lugar onde ela se encontrava para se informar, refletir e debater o seu próprio futuro. Depois, vieram o rádio e a televisão. Junto com eles, a massificação. A possibilidade de um grupo econômico interferir como nunca na evolução dos costumes e da cultura. Com o domínio da informática, que permite a um grande grupo tradicional de informação ter numa mesma base tudo o que captou por meios próprios ou de terceiros, e com o domínio da telecomunicação, que permite a este mesmo grupo fornecer a informação para os mais diversos públicos, pelos mais diversos meios, o jogo mudou.

A revolução da informação trouxe incerteza e insegurança. Trouxe a possibilidade de movimentos especulativos jamais sonhados. Mas trouxe também a possibilidade da democracia direta. Quanta tempo e a que custo chegaremos lá é outra questão. O fato é que a forma como hoje o mercado financeiro se informa, em tempo real globalmente, já é algo possível para os mortais comuns: a Internet e derivados representam a democratização da informação, que muito em breve transitará por ela em texto, imagem e som em tempo real. Agora, muito além do que entre todos os mercados, entre todas as pessoas, que estarão no centro do processo.

O desafio quese coloca para as empresas é perceber que todas as suas cartas estão nos recursos humanos: a tecnologia, o meio, será de todos com custos insignificantes. A futura (não tão futura assim) empresa de informação terá a possibilidade de oferecer ao público conhecimento agregado. Num processo que privilegia a horizontalização, o trabalho através de células comprometidas com o processo. Ao contrário do antigo processo industrial, que privilegiava estruturas piramidais e concentração de poder. O desafio dos profissionais da informação é manter o elo de confiança com o público em geral, conscientes de que no próximo milênio as grandes empresas de informação vão se atomizar em pequenas unidades. Estamos a um passo da aldeia global. O que estamos assistindo no mercado financeiro é só a ponta do iceberg. A democratização da produção e a disseminação da informação só se legitimarão na medida em que os agentes deste processo tenham consciência rigorosa da sua responsabilidade com o público.

Artigo publicado no O Estado de S Paulo em março de 1995, quando dirigia a Agência Estado. E republicado agora na Revista de Jornalismo da ESPM.  

A era das multiplataformas começará a se consolidar

olhando para o futuro, 2014

Considerando que nos próximos 10 anos a tecnologia estará integrada nos ambientes e em cada um de nós – não será mais algo que você liga e desliga – e que isso mudará totalmente a experiência humana de viver, vejo os avanços das multiplataformas (sistemas integrados em rede) de atuação na rede como a principal tendência em 2014.

Monitoramento, curadoria e agregação, articulação e governança são os processos provocados na sociedade pela linguagem, pela informação. E assumidos como técnica pelo jornalismo. Da linguagem oral à eletrônica, que promete, se não o retorno, a valorização da cultura oral. Mídias sociais como Twitter, google+, facebook, linkedin, pinterest, tumblr, youtube, paper.li, rebelmouse, instagram, scoop.it, flipboard, meddle etc são plataformas pontuais, ferramentas, mídias. É neste ecossistema que se pratica hoje o jornalismo.

Num mundo que a cada dia ganha maiores índices de complexidade e fragmentação atuar de forma isolada com uma ou outra destas mídias é inócuo. Indivíduos, profissionais e empresas que atuam com propriedade e objetividade no novo ecossistema da informação vêm avançando na construção de suas multiplataformas com o conjunto de ferramentas que lhes parecem mais apropriadas para seus objetivos.

Rede social existe desde a idade da pedra. É a base de relacionamento de indivíduos, de entidades, de empresas, de setores da economia, de partidos políticos, de sindicatos, de qualquer organização humana. No mundo digital, na economia social, esta base de relacionamento tem que estar organizada na rede para lhe dar mais organicidade e objetividade.

Consolida-se aí o conceito de multiplataforma (e viabilizam-se as redes sociais, as redes de interesse específico, as redes de nicho), que requer ainda processos de monitoramento (Big Data) e a inter-relação com landing pages apropriadas para fazer andar o processo de comunicação e articulação frente a um ou uma gama de objetivos. Além, é claro, da integração com as mídias tradicionais, os antigos ambientes do jornalismo. Há e haverá por um bom tempo uma forte interdependência entre os dois mundos, que são um só.

A tendência tecnológica é reforçada pela demanda da sociedade. A tecnologia, suas ferramentas e processos vão contribuir para dar vazão às necessidades de uma sociedade muito mais complexa e fragmentada da que foi regida pelas tecnologias da era industrial. Esta percepção já é latente na sociedade contemporânea atônita com o contexto e surpreendida pelos novos processos da informação, comunicação e articulação num mundo em profunda transformação. Neste cenário, o do avanço das multiplataformas de atuação, estão contidos também o cloud, a mobilidade e o analytics.

RLM

Nó na Garganta

 mário marinho, um dos bons editores do JT, me enviou esta foto com ma provocação para contar sua história. contei. está na última página do jtsempre desta semana e aqui. nó na garganta

Me dá um puta nó na garganta olhar para esta foto do Rolando de Freitas, no porto da casa do seu Acyr, na foz do rio Real, no fundo da baía dos Pinheiros. Cortando madeira para o fogão de três pedras no chão deste velho e bom amigo caiçara que há pouco menos de um ano tinha sido surpreendido pelo grilo de 60 kms dos 90 kms do litoral do Paraná pela CAPELA, Companhia Agropastoril do Paraná.

Desde a minha adolescência costumava ir para esta região, que depois ficou conhecida como Lagamar de Iguape, Cananéia e Paranaguá, e me aboletar na casa de algum caiçara de uma das dezenas de vilas que até hoje resistem ao tempo. No início dos anos 80, fui estudar em Paris, onde fiquei um ano e meio. Quando voltei, assim que tive uma oportunidade fui para lá. E constatei o processo de grilagem: dezenas de vilas da ilha do Superagui, das Peças e do continente estavam cercadas pelo pessoal da CAPELA e por seus búfalos.

Estava voltando também para o Jornal da Tarde, onde aprendi o ofício do jornalismo e onde tive enorme prazer de trabalhar porque lá, nos meus primeiros anos de vida profissional, minha única responsabilidade era fazer jornalismo. O grilo caiu do céu para mim. Iria fazer deste o assunto da minha volta para o JT. Propus uma pauta e fui para lá com o Rolando para fazer um levantamento mais detalhado do grilo. Ficamos na casa do seu Acyr, eu dormindo na sua cama de esteira de palha, encima de uma armação de pau roliço. O Rolando na casa vizinha, do filho Maurício, recém casado com a Dina.

Rolando, que não sabia nadar, apavorado com as minhas saídas barra a fora para dar a volta completa nas ilhas com uma voadeira pouco apropriada para estas aventuras, costumava ficar na casa do seu Acyr nestas ocasiões mancomunando também piadas como a desta foto, que deveria ser uma provocação para mim que ele via como um ambientalista. Com certeza, o Rolando fez um material iconográfico sobre a vida do caiçara nesta viagem que repórter fotográfico nenhum do Brasil chegou aos pés. Um material espetacular e precioso.

Numa das matérias sobre o grilo, fiz o perfil do Acyr, que foi publicado como O Caiçara, um dos textos cuja construção me deu mais prazer. Desta matéria em 83 até o fim do grilo foram dois anos de trabalho do JT como um todo. Dirceu Pio, comandando Laurentino Gomes na sucursal de Curitiba, foi um dos pilares para conseguirmos tirar os grileiros da região. Eu, que nunca me pretendi ambientalista, acabei me articulando profundamente com esta comunidade em São Paulo e me envolvendo totalmente com a criação da Fundação SOS Mata Atlântica, junto com o Randau Marques. Acabei sendo seu primeiro presidente de fato. Foram 5 ou 6 anos. Parte deste tempo eu como editor chefe do JT.

O nó na garganta é porque do JT fui para a Agência Estado, na minha cabeça com a missão de trazer o JT, O Estado e toda a empresa para os novos tempos dos fluxos de informação fragmentados para uma sociedade cada vez mais fragmentada. Procurando trabalhar a edição nos ambientes fluidos da rede com a mesma técnica e força que aprendi no JT. Não deu tempo. A melhor e mais séria escola de jornalismo no final do século 20 no Brasil não deixou herdeiros. Acabou. Sendo bisneto, neto e filho de quem sou seria um filho da puta se não tivesse este sentimento. Mas continuo na luta procurando caminhos na rede.

State of the News Media 2014 – Seis grandes tendências

1) Trinta das maiores organizações jornalísticas totalmente digitais reúnem cerca de 3.000 profissionais e uma das áreas de investimento é a cobertura global. A Vice Media tem 35 sucursais ao redor do mundo; o Huffington Post pretende passar de 11 para 15 edições internacionais este ano; O BuzzFeed contratou um editor de internacional para supervisionar a expansão em locais como Mumbai, Cidade do México, Berlim e Tóquio. A revista financeira online Quartz, que completou dois anos, tem repórteres em Londres, Bangcoc e Hong Kong, e sua equipe editorial fala 19 línguas diferentes. Isso ocorre em um momento de cortes de investimentos na cobertura internacional por parte da mídia tradicional. O tempo de transmissão nos telejornais sobre eventos internacionais em 2013 foi menos da metade do que era nos anos 1980. Com as marcas digitais de mídia aumentando suas equipes, os EUA podem ver o primeiro crescimento na cobertura internacional em décadas.

 

2) Até o momento, o impacto de novos fluxos de capital na indústria se concentra mais na criação de novos métodos de cobertura e envolvimento do público, e menos na criação de uma nova estrutura sustentável de faturamento. A indústria jornalística dos EUA gera pouco mais de US$ 60 bilhões anuais, de acordo com estimativas do estudo. A publicidade, no momento, representa cerca de dois terços do total, e a maior parte desse valor advém de modelos tradicionais. O faturamento com a audiência representa um quarto do total, e está crescendo tanto em valor financeiro como em share. Mas esse faturamento também emerge de um grupo de contribuidores que é menor e de baixo crescimento. Novas fontes incluem promoção de eventos e consultorias, que representam cerca de 7%, enquanto investimentos de fontes como “venture capital” e filantropia atingem apenas 1% do total. Uma parte da equação que merece ser explorada são os tipos de economias realizadas pelas startups de notícias, que surgem livres de infraestruturas herdadas, mas assumem custos novos como o desenvolvimento e manutenção de tecnologias.

 

3) Redes sociais e aparelhos móveis estão fazendo mais do que atrair consumidores para o processo — estão mudando a dinâmica do processo em si. Novos dados da pesquisa mostram que metade (50%) dos usuários das redes sociais compartilha ou repostam notícias, artigos, imagens e vídeos, enquanto quase a metade (46%) discute temas e eventos jornalísticos nas redes sociais. Com o crescimento na adoção de aparelhos móveis, os cidadãos estão agindo como importantes testemunhas de fatos jornalísticos como o atentado em Boston ou a crise na Ucrânia. Cerca de 1 a cada 10 usuários de redes sociais postaram vídeos de conteúdo jornalístico que eles mesmos produziram, segundo a pesquisa. E 11% de todos os consumidores de notícias online enviaram seus próprios conteúdos (incluindo vídeos, fotos, artigos ou textos opinativos) para sites de notícias e blogs. Mas também são muito relevantes as transformações em como as notícias funcionam nesses espaços. Em muitos sites sociais e em vários sites de notícias puramente digitais, as notícias são combinadas com todos os outros tipos de conteúdos — as pessoas “esbarram” nas notícias enquanto fazem outras coisas online. Esse “esbarrar” significa que existem oportunidades para as notícias atingirem pessoas que talvez não prestassem atenção a elas, mas essa função ficaria menos dependente das empresas jornalísticas. Apenas um terço das pessoas que veem notícias no Facebook acompanha uma empresa jornalística ou profissional específico. E poucos visitantes do Facebook, segundo outro estudo do Pew sobre tráfego de sites de notícias, vão depois visitar o site de notícias diretamente. Para os produtores jornalísticos, isso quer dizer que uma estratégia digital única não será o suficiente — tanto em termos de conquistar a audiência como criar uma base viável de faturamento.

 

4) Novos meios de narrativa (“storytelling”) oferecem oportunidades e desafios. Uma área em expansão em 2013 foi o vídeo de notícias online. O faturamento publicitário ligado aos vídeos online de forma geral (nenhuma empresa oferece dados específicos sobre os vídeos de notícias) cresceu 44% de 2012 a 2013, e deve continuar em crescimento. Atualmente, porém, a escala ainda é pequena, representando apenas 10% do faturamento publicitário digital nos EUA. O YouTube representa sozinho 20% desse faturamento, e o Facebook também entrou no mercado publicitário de vídeos online e deve atingir rapidamente uma fatia significativa desse setor. Em termos de alcance de audiência, um terço dos adultos nos EUA assistem vídeos de notícias online, mas o crescimento desacelerou consideravelmente. Depois de um pico de 27% entre 2007 e 2009, os quatro anos seguintes registraram crescimento de apenas 9%. Grandes distribuidores como YouTube e Facebook já abocanham uma parcela considerável desse público. Mesmo assim, alguns fornecedores menores estão realizando investimentos dignos de nota. O Huffington Post comemorou o primeiro aniversário do HuffPost Live, o Texas Tribune promoveu uma campanha via Kickstarter para gerar fundos para a cobertura em vídeo da sucessão ao governo do Texas, e a Vice lançou um portal multimídia para notícias em vídeo.

 

5) A televisão local, que atinge cerca de 9 em cada 10 adultos nos EUA, passou por grandes mudanças em 2013 — a maioria delas mal foi detectada pelo radar geral. Quase 300 canais de TV mudaram de mãos em 2013, por um valor total acima de US$ 8 bilhões. O número de estações vendidas foi 205% maior que em 2012 e o valor foi 367% maior, com grandes proprietários se tornando ainda maiores. Se todos os negócios forem aprovados, a Sinclair Broadcasting será dominante com 167 canais em 77 mercados dos EUA, atingindo quase 40% da população do país. David Smith, CEO da Sinclair, disse em um encontro da UBS em dezembro passado que a empresa quer crescer ainda mais — Smith gostaria que a Sinclair atingisse 80 ou 90% do território. Um dos grandes motivadores desses negócios é o aumento nos “fees” que as emissoras locais estão cobrando das operadoras de cabo pela retransmissão da programação. Os grupos Meredith (que possui 13 emissoras) e Scripps (que tem 19) disseram que seu faturamento com retransmissão quase triplicou nos últimos 3 anos. Em termos de programação, um resultado claro é que mais estações no mesmo mercado estão operando em conjunto e compartilhando mais conteúdo. No começo de 2014, os acordos de serviço comum já estavam presentes em metade dos 210 mercados locais dos EUA, comparado com apenas 55 em 2011. E um número menor de canais está produzindo seus próprios telejornais. O impacto final sobre o espectador é difícil de avaliar, mas os benefícios econômicos para as empresas são indiscutíveis.

 

6) Mudanças dramáticas na composição populacional dos EUA vão causar forte impacto sobre o jornalismo nos EUA, e os hispânicos são um grupo populacional que exemplifica essa transformação. A população hispânica nos EUA cresceu 50% de 2000 a 2012 –atinge hoje 53 milhões de pessoas. A maior parte desse crescimento se deve a nascimentos dentro dos próprios Estados Unidos do que novos imigrantes, revertendo a tendência de décadas anteriores. Como consequência, um percentual crescente dos hispânicos é nativo dos EUA, e fala inglês fluentemente. Diante dessa tendência, grandes grupos como ABC, NBC, Fox e Huffington Post lançaram áreas voltadas para os consumidores hispânicos. Desde 2010, seis empresas jornalísticas hispânicas foram criadas, todas controladas ou com parceria com um grande grupo de mídia geral do país. Algumas delas não tiveram sucesso — NBC Latino e CNN Latino são alguns dos fracassos mais destacados nesse setor. O site Fusion, uma parceria entre a ABC e a rede hispânica Univision, foi lançado inicialmente para a geração “millenial” hispânica, mas se expandiu para essa geração como um todo — atualmente, é o maior e mais diversificado grupo populacional nos EUA. Com os avanços dessas mudanças demográficas, também deve crescer o impacto sobre o ecossistema do jornalismo.

(Traduzido e editado pro Sergio Kulpas  a partir do site http://www.journalism.org/2014/03/26/state-of-the-news-media-2014-overview/)    

 

Quando as elites falham, a ameaça é o colapso político

Leaders richly rewarded for mediocrity cannot be relied upon when things go wrong

Martin Wolf, Financial Times

In 2014, Europeans commemorate the 100th anniversary of the start of the first world war. This calamity launched three decades of savagery and stupidity, destroying most of what was good in the European civilisation of the beginning of the 20th century. In the end, as Churchill foretold in June 1940, “the New World, with all its power and might”, had to step “forth to the rescue and the liberation of the old”.

The failures of Europe’s political, economic and intellectual elites created the disaster that befell their peoples between 1914 and 1945. It was their ignorance and prejudices that allowed catastrophe: false ideas and bad values were at work. These included the atavistic belief, not just that empires were magnificent and profitable, but that war was glorious and controllable. It was as if a will to collective suicide seized the leaders of great nations.

Complex societies rely on their elites to get things, if not right, at least not grotesquely wrong. When elites fail, the political order is likely to collapse, as happened to the defeated powers after first world war. The Russian, German and Austrian empires vanished, bequeathing weak successors succeeded by despotism. The first world war also destroyed the foundations of the 19th century economy: free trade and the gold standard. Attempts to restore it produced more elite failures, this time of Americans as much as Europeans. The Great Depression did much to create the political conditions for the second world war. The cold war, a conflict of democracies with a dictatorship sired by the first world war, followed.

The dire results of elite failures are not surprising. An implicit deal exists between elites and the people: the former obtain the privileges and perquisites of power and property; the latter, in return, obtain security and, in modern times, a measure of prosperity. If elites fail, they risk being replaced. The replacement of failed economic, bureaucratic and intellectual elites is always fraught. But, in a democracy, replacement of political elites at least is swift and clean. In a despotism, it will usually be slow and almost always bloody.

This is not just history. It remains true today. If one looks for direct lessons from the first world war for our world, we see them not in contemporary Europe but in the Middle East, on the borders of India and Pakistan and in the vexed relationships between a rising China and its neighbours. The possibilities of lethal miscalculation exist in all these cases, though the ideologies of militarism and imperialism are, happily, far less prevalent than a century ago. Today, powerful states accept the idea that peace is more conducive to prosperity than the illusory spoils of war. Yet this does not, alas, mean the west is immune to elite failures. On the contrary, it is living with them. But its failures are of mismanaged peace, not war.

Here are three visible failures.

First, the economic, financial, intellectual and political elites mostly misunderstood the consequences of headlong financial liberalisation. Lulled by fantasies of self-stabilising financial markets, they not only permitted but encouraged a huge and, for the financial sector, profitable bet on the expansion of debt. The policy making elite failed to appreciate the incentives at work and, above all, the risks of a systemic breakdown. When it came, the fruits of that breakdown were disastrous on several dimensions: economies collapsed; unemployment jumped; and public debt exploded. The policy making elite was discredited by its failure to prevent disaster. The financial elite was discredited by needing to be rescued. The political elite was discredited by willingness to finance the rescue. The intellectual elite – the economists – was discredited by its failure to anticipate a crisis or agree on what to do after it had struck. The rescue was necessary. But the belief that the powerful sacrificed taxpayers to the interests of the guilty is correct.

Second, in the past three decades we have seen the emergence of a globalised economic and financial elite. Its members have become ever more detached from the countries that produced them. In the process, the glue that binds any democracy – the notion of citizenship – has weakened. The narrow distribution of the gains of economic growth greatly enhances this development. This, then, is ever more a plutocracy. A degree of plutocracy is inevitable in democracies built, as they must be, on market economies. But it is always a matter of degree. If the mass of the people view their economic elite as richly rewarded for mediocre performance and interested only in themselves, yet expecting rescue when things go badly, the bonds snap. We may be just at the beginning of this long-term decay.

Third, in creating the euro, the Europeans took their project beyond the practical into something far more important to people: the fate of their money. Nothing was more likely than frictions among Europeans over how their money was being managed or mismanaged. The probably inevitable financial crisis has now spawned a host of still unresolved difficulties. The economic difficulties of crisis-hit economies are evident: huge recessions, extraordinarily high unemployment, mass emigration and heavy debt overhangs. This is all well known. Yet it is the constitutional disorder of the eurozone that is least emphasised. Within the eurozone, power is now concentrated in the hands of the governments of the creditor countries, principally Germany, and a trio of unelected bureaucracies – the European Commission, the European Central Bank and the International Monetary Fund. The peoples of adversely affected countries have no influence upon them. The politicians who are accountable to them are powerless. This divorce between accountability and power strikes at the heart of any notion of democratic governance. The eurozone crisis is not just economic. It is also constitutional.

None of these failures matches in any way the follies of 1914. But they are big enough to cause doubts about our elites. The result is the birth of angry populism throughout the west, mostly the xenophobic populism of the right. The characteristic of rightwing populists is that they kick down. If elites continue to fail, we will go on watching the rise of angry populists. The elites need to do better. If they do not, rage may overwhelm us all.

 

 

A era das plataformas se consolidará em 2014

Considerando que nos próximos 10 anos a tecnologia estará integrada nos ambientes e em cada um de nós – não será mais algo que você liga e desliga – e que isso mudará totalmente a experiência humana de viver, vejo os avanços das plataformas de atuação na rede como a principal tendência em 2014.

Monitoramento, curadoria e agregação, articulação e governança são os processos provocados na sociedade pela linguagem, pela informação. Da linguagem oral à eletrônica, que promete, se não o retorno, a valorização da cultura oral. Mídias sociais como Twitter, google+, facebook, linkedin, pinterest, tumblr, youtube, paper.li, rebelmouse, instagram, scoop.it, flipboard, meddle etc  são plataformas pontuais, ferramentas, mídias.

Num mundo que a cada dia ganha maiores índices de complexidade e fragmentação atuar de forma isolada com uma ou outra destas mídias é inócuo. Indivíduos, profissionais e empresas que atuam com propriedade e objetividade no novo ecossistema da informação vêm avançando na construção de suas plataformas com o conjunto de ferramentas que lhes parecem mais apropriadas para seus objetivos.

Rede social existe desde a idade da pedra. É a base de relacionamento de indivíduos, de entidades, de empresas, de setores da economia, de partidos políticos, de sindicatos, de qualquer organização humana. No mundo digital, na economia social, esta base de relacionamento tem que ser organizada na rede para lhe dar mais organicidade e objetividade. Consolida-se aí o conceito de plataforma (e viabilizam-se as redes sociais, as redes de interesse específico), que requer ainda processos de monitoramento e a inter-relação com landing pages apropriadas para fazer  andar o processo de comunicação e articulação frente a um ou uma gama de objetivos. Além, é claro, de uma boa integração com as mídias tradicionais, pois há e haverá por um bom tempo uma forte interdependência entre os dois  mundos, que são um só.

A tendência  tecnológica é reforçada pela demanda da sociedade. A tecnologia, suas ferramentas e processos vão contribuir para dar vazão às necessidades de uma sociedade muito mais complexa e fragmenta da que foi regida pelas tecnologias da era industrial. Esta percepção já é latente na sociedade contemporânea  atônita com o contexto e surpreendida pelos novos processos da informação, comunicação e articulação num mundo em profunda transformação.  Neste cenário, o do avanço das plataformas de atuação, estão contidos também o cloud, a mobilidade e o analytics.