AE, urgente: a mídia somos nós

O Estado de S. Paulo, 23/02/05

O primeiro site de informação jornalística no Brasil – o da Agência Estado – começou a nascer em 1988. A visão de que o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, TICs, iriam determinar o futuro das tradicionais empresas jornalísticas, foi o mote para iniciar a transformação de uma unidade operacional do Grupo Estado numa inovadora empresa virtual de informação.

Estávamos em 1988 e o objetivo explícito era o de criar um serviço de informações econômicas em tempo real, visto que a comunidade financeira era a única, naquela época, em condições de sustentar uma empresa de informação com estas características. O objetivo implícito era iniciar o processo de conquista de conhecimento para, no futuro, contribuir para o processo de migração dos tradicionais negócios de uma empresa jornalística do papel para as redes de comunicação e os diversos displays que elas comportam.

A primeira rede de distribuição de informação da AE era estruturada num sistema que utilizava a sub-banda do FM. A Embratel era monopólio estatal e a alternativa para este sistema seria as linhas privadas que, em função da inexistência de um mercado competitivo, eram caras e de operação duvidosa. Era impossível imaginar que as TICs apresentariam a evolução geométrica que vêm ocorrendo desde aquela época. Muito menos que, no início do séc. XXI, as tecnologias não proprietárias estariam iniciando o processo de superação dos grandes monopólios que nasceram com o início desta nova aventura da humanidade.

A Agência, neste processo, atingiu um grau de excelência informativa que a levou a uma situação de referência de mercado. Talvez, seja a única empresa de informação brasileira cujos processos de captação, processamento e distribuição de informação tenham sido, sem exceção, estruturados em rede. Isso também foi verdadeiro para seus processos administrativos, comerciais e tecnológicos. Uma empresa organizada em rede – células de profissionais multidisciplinares com liberdade e responsabilidade para criar e preparar o futuro.

A abertura de caminho para conquistar outras formas de relação com o mercado, além do tradicional modelo de negócio sustentado por distribuição de informaçao, foi possível para a AE por causa desta organização funcional em rede e porque, também em função desta filosofia, a empresa nestes anos todos conquistou um profundo conhecimento das tecnologias de informação e comunicação e suas possibilidades, especialmente as de código aberto.

Por uma questão de custo x benefício, a empresa começou a desenvolver-se em cima do sistema operacional aberto Linux e de softwares livres (o ecosistema linux), a partir de 1996. A consciência dos profissionais da necessidade que tinham de criar novas plataformas de relacionamento com o público, aliada a uma postura aberta em relação à tecnologia, permitiu um primeiro grande avanço neste novo mundo. E daí começa a se explicar a liderança da Agência.

O porvir das tradicionais empresas de informação, está claro, dependerá da capacidade delas para, paulatinamente, desenvolverem novos modelos de negócios sustentados por operações de network. A Internet é muito mais do que um meio adequado para organizar e distribuir informação. É uma nova infra-estrutura que permeia todas as relações e atividades humanas. Como meio de comunicação, é o mais importante desde a prensa de Gutenberg. É um novo ecossistema para a humanidade explorar, abrir novos caminhos e construir novas oportunidades.

Ela contém todos os meios que vieram antes e, por ser rede, enriqueceu este conjunto com a convergência e a interatividade. Este novo ecossistema provoca a mudança, induz a rearticulação dos processos de produção de conteúdo e de riqueza. E com isso abre um novo caminho para o público e, pela primeira vez, com o público. Revirando e contrariando a maioria dos conceitos que assumíamos sobre mídia e sobre modelos de negócio em geral. No mundo da Internet, a rede, nós somos definidos pelo que sabemos e pelo que compartilhamos. Sem conhecimento e sem compartilhamento não se vai a parte alguma.

As empresas jornalísticas tradicionais, no entanto, ainda não despertaram plenamente para este fato. Junto com os outros meios de massa broadcast – a TV aberta e o rádio – detinham, até o advento da Web, praticamente o monopólio de distribuição de informação para uma determinada comunidade, num espaço físico específico. Talvez por isso mesmo esta indústria tenha restringido sua atuação, neste primeiro momento do novo ambiente em construção, a procurar emular seu modelo de negócio, que historicamente se sustenta em função da franquia que deteve até recentemente de distribuição de informaçao editorial e comercial, para o mundo da Internet.

Isso contribuiu para que a rede seja entendida pelo público quase que exclusivamente como uma enorme biblioteca digital composta por sites ou portais, com maior ou menor volume de informação, mais ou menos dinâmicos e com ferramentas melhores ou piores, para manusear e usar a informação. Sua enorme capacidade de organização e publicação de qualquer tipo de conteúdo acabou dando o tom, nestes primeiros anos. Talvez não poderia ter sido diferente, mas mesmo assim não foram poucas as mudanças que ela gerou e vem fomentando nas nossas vidas.

Aspas, uma confissão

Não acredito que os blogs ou os wikis (softwares de publicação de facílima utilização que permitem o desenvolvimento de conteúdos individualmente ou coletivamente), como estão conformados hoje, vão substituir o jornalismo tradicional. A única certeza que tenho é que o processo de formação de opinião daqui para a frente será cada vez mais autônomo, difuso, fragmentado, complexo e sofisticado.

Vejo a internet como uma infraestrutura para articular qualquer tipo de relação humana. Sejam elas de cunho econômico, político ou social. A rede não é só um novo meio de comunicação, apesar de neste primeiro momento ter servido antes de tudo para organizar e distribuir informação. Ela é antes de tudo fator de rearticulação de processos, privilegiando as possibilidades de cooperação, colaboração e compartilhamento.

As tradicionais empresas jornalísticas ignoram estes fatos e, também por isso, vêm perdendo mercado há anos. Suas estratégias são exclusivamente defensivas: jornais populares, jornais gratuitos, tablóides e reformas editoriais clássicas. Nenhum movimento estratégico para procurar explorar as possibilidades de network.

O mundo mudou. Na Idade Média quem dominava a informação era Igreja e o poder temporal. Com a Renascença e o conjunto de inovações que a impulsionaram, entre elas a criação da prensa por Gutenberg, a Igreja e seus aliados perderam este monopólio. A burguesia ascendente teve acesso ao conhecimento e à possibilidade de publicar e vender suas idéias e valores.

Em meados do séc. XIX, o jornalismo começou a virar negócio. As publicações deixaram de ser panfletos de vida efêmera para se tornarem perenes e gerarem uma plataforma de negócios. O apogeu disso ocorreu entre as duas grande guerras. Hoje, com a infra-estrutura de redes, o modelo de negócio baseado exclusivamente em distribuição de informação morreu (não é morte súbita, é um definhar lento e dolorido.). Sempre será mais fácil entender a crise que o declínio.

Em 1930, São Paulo tinha 800 mil habitantes e o principal jornal da cidade circulava com 100 mil exemplares. Seus classificados eram a principal rede de vendas da cidade. Não existiam cadeias de lojas ou de supermercados. Os jornais aqui e em cidades semelhantes eram os principais canais de vendas de uma enorme gama de produtos e serviços – uma plataforma de relacionamento ajustada e adequada para a época como nenhuma outra em todos os tempos. Isso permitiu que os jornais desenvolvessem em todo mundo um jornalismo caro e sofisticado.

Fechas aspas, o mundo em rede

Este tempo acabou. Vivemos num mundo interconectado em tempo real. A minha geração, que foi surpreendida por este processo no meio do caminho, não terá tempo para reaprender a pensar, num contexto tão profundamente modificado por novas ferramentas e possibilidades. Sua responsabilidade é a de facilitar o caminho para as gerações que se seguirão. Estas viverão num tempo em que a conexão será uma commodity, um direito tão fundamental quanto o de votar. Assim como o equipamento para se conectar.

A segmentação da informação, que é possível hoje graças ao poder de distribuição cada vez mais barata e rápida, leva naturalmente à formação das comunidades, e de comunidades dentro de comunidades, e a atenção compartilhada dá um centro de gravidade a elas. A interatividade que a rede traz leva às tecnologias de colaboração, de compartilhamento e de geração de novos espaços de conexão humanos, e cria todo um novo modelo de produção de conteúdo e de riqueza. É esta a mudança mais profunda e radical e, neste contexto, as empresas de informação deixaram de ser o centro.

O cidadão, o usuário, passa neste novo mundo em construção a ser ativo, respondendo on line aos estímulos de atenção e recriando-os. Ele é o centro de geração e ampliação da atenção e dos estímulos. Não mais uma antena, mas um roteador. Não mais um elemento em linha, mas um processador em paralelo. O cidadão é único e fundamental, mas varia na intensidade de sua participação e não pode ser discriminado, é um comunitário. Não podemos menosprezar a quantidade de informação (e, eventualmente, qualidade) que blogs, wikis e outras ferramentas de publicação, que serão desenvolvidas, aportam e aportarão cada vez mais ao processo. São milhões de repórteres com celulares e câmaras, num processo em rede que mal se iniciou e que vai amadurecer.

As tradicionais empresas de informação poderiam ocupar espaços importantes neste processo. A conectividade, enquanto pensamos com o modelo velho na cabeça, implica gradação: ilhas (jornais), arquipélagos (meios de
maior alcance, rádio, tv), o planeta ligado (conectividade ilimitada,
dispersão instantânea da informação, potencialização de nichos e
comunidades isoladas).O que gera necessidade de centros referenciais da busca pela informação, que é global e irrestrita. O Google, neste sentido, é um exemplo que poderia ser referência para os jornais.

Ninguém mais pode controlar as possibilidades de criação, de comerciar, de distribuir, de achar e de interagir dos cidadãos. A barreira de entrada para a mídia foi demolida. A transmissão de informação deixou de ser monodirecional para se transformar num ‘pool’ aberto. Isso muda tudo: as inter-relações, a equação econômica, a estrutura de poder.

Neste mundo novo, o controle está mudando para as mãos do cidadão. O futuro da mídia está nas mãos do público. As tradicionais empresas jornalísticas, os políticos, o governo e o marketing das corporações distanciaram-se da sua dimensão humana ao se colocarem em pedestais frente ao público. Não admitem erro. Por isso resistem em entrar em processos de conversação e têm enorme dificuldade para perceberem que a notícia não acaba quando é impressa e difundida.

Não percebem que o verdadeiro ciclo da história começa aí, quando o público levanta questões, acrescenta fatos e corrige erros, levando a uma nova perspectiva mais próxima da verdade.

O objetivo primordial da mídia talvez seja o seu mais tradicional e valoroso, que vem a ser a defesa da civilização, da democracia e da ética, mas agora na velocidade deste novo tempo. Por isso é primordial que se busque estabilizar este grande e impulsivo criar de comunidades por meio de uma plataforma de valores humanos geradora de confiança entre as pessoas.

É esta a lição que se começou a receber e se poderia aprender, na construção da história da Agência Estado. Os 10 anos de atuação na rede com um portal de informação aceleraram e aprofundaram o processo de aprendizagem. E com certeza ainda há muito mais que aprender do que usufruir.

Rodrigo Lara Mesquita

Reuters Institute Digital News Report 2013: Pontos Chave

O Reuters Institute Digital News Report revela novos insights sobre o consumo de notícias digital baseado em uma pesquisa representativa dos consumidores de notícias online no Reino Unido, EUA, Alemanha, França, Itália, Espanha, Brasil, Japão e Dinamarca.

news_pagas_quem

A pesquisa está neste link com dados exclusivos e análises sobre a ascensão de tablets e smartphones, as diferenças de consumo em função de gerações e do país de uso da mídia, o crescimento do pagamento notícias digitais e o papel da marca e confiança em um mundo multi-plataforma cada vez mais competitivo.

O futuro em nossas mãos

rodrigo lara mesquita, 1997

Banda, download, bits, html, site, link, linguagem C, bookmarks, mercado virtual, hits, banner, real time, ftp, gopher, real audio,
browser… Internet.

O que é isso? O diabo que chegou para atrapalhar o nosso velho e conhecido negócio? Ou uma avenida em direção a infinitas oportunidades para alavancarmos posições no mercado de informações?

Os dois. O diabo para os acomodados sobre verdades ultrapassadas pelo desenvolvimento do mercado e um mar de oportunidades
para as empresas e profissionais que se deixam instigar pelas tendências deste mesmo mercado. É o caso do Grupo Estado, que desde 1988 vem investindo no desenvolvimento de negócios e aquisição de conhecimento sobre o mundo virtual sem deixar de investir na área tradicional dos nossos negócios, que hoje são os pilares da operação de todo o Grupo.

E no futuro? Os jornais vão deixar de existir? Talvez, se a sociedade, pela primeira vez em sua história, deixar de ter necessidade de fóruns para debater, refletir e analisar seu passado, seu presente e seu futuro. Como é impossível imaginar este cenário nos dias atuais, devemos acalentar e alimentar a ideia de que conviveremos com todos os meios conhecidos para continuar desempenhando o papel clássico de uma empresa jornalística – norteador da opinião pública – e os novos, abertos pelos avanços das tecnologias de comunicação, que permitem a abertura de novas áreas de atuação para a empresa e que ajudam a instrumentalizar a opinião pública na direção de lutar pelos seus direitos. Isso significa, portanto, revitalizar toda a atuação da empresa de informação.

Por ter consciência de tudo isso, o Grupo Estado é hoje membro de diversos fóruns nacionais e internacionais que se dedicam
exclusivamente ao estudo e desenvolvimento de ferramentas para as empresas de informação atuarem com propriedades neste novo cenário que se está desenhando. O principal deles, é o Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusets.

Estamos em boa companhia lá. New York Times, Los Angeles Times, Knight Ridder, IBM, Reuters, Sony… dezenas de empresas de todos os setores da nossa indústria – do conteúdo ao hardware – competitivas e preocupadas com sua competitividade futura. E quase todos têm algumas certezas: a natureza do nosso negócio não muda.

Por dezenas de anos, teremos ações complementares entre o papel e os meios virtuais, ‘as estruturas novas – exemplo: AE – não substituirão as antigas – exemplo: O Estado. O que muda é o espectro de público a ser atingido e o padrão de qualidade de toda a nossa operação. E, se num primeiro momento a causa disso tudo é a evolução das tecnologias, num segundo, perene, o motor deste processo é o que o ser humano pode fazer em função dessas tecnologias. E com isso quem se valoriza, além do público, é o profissional, desde que tenha capacidade para responder ao desafio percebido com competência pelo Grupo Estado.

 

Jornais: o que está em crise é a forma como eles pensam o negócio

See on Scoop.itJournalism and the WEB

What’s the right way to respond when technology disrupts the position of an established business? The Harvard Business School professor has lessons for the news business from other industries.

 

Rodrigo Mesquita‘s insight:

Even the newspaper business is in a growth industry…It’s just their way of thinking  about the industry that is in decline

See on www.niemanlab.org

O Espírito da Rede

do Demi Getschko

A Internet na versão que conhecemos, que usa o conjunto de protocolos TCP/IP, completará 30 anos em 1 de janeiro de 2013, daqui a poucos dias. O DoD, Departamento de Defesa dos EUA, havia estabelecido janeiro de 1983 como data limite da migração da ARPANET para TCP/IP. E exatamente do nome deste protocolo (Transmission Control Protocol/Internet Protocol) que derivou o nome da rede toda: Internet.

A ARPANET desenvolveu-se com recursos do DoD, o que nos levaria a pensar em inspiração puramente militar. O que se esquece é que os envolvidos em sua criação, pesquisadores provenientes da melhores universidades na área de Tecnologia (MIT, UCLA, SRI, UCSB, Utah), compartilhavam de ideias libertários dos anos 70, como livre cooperação, compartilhamento e autonomia. E eles somavam-se a requisitos de solidez para o projeto ARPANET como não haver pontos únicos de falha: “nada que tenha um ´centro de controle´ é suficientemente resistente num caso de problema técnico ou de ataque”. Chegou-se a uma concepção de rede distribuída, sem controle central, em que a adesão era espontânea e voluntária.

Assim nasceu a Internet. Sem uma “chave de desligamento” central, sem um ponto vulnerável específico e sem um “centro de controle”, integrada pelas redes autônomas que aceitassem seguir seus padrões tecnológico, mas sem terem que abdicar de sua administração própria e específica

Aliás, a forma de gerar esses padrões é outra característica marcante e disruptiva em relação ao ambiente de telecomunicações da época. Se a UIT, União Internacional das Telecomunicações, definia padrões de telefonia em reuniões controladas e fechadas, a Internet congregava três vezes ao ano uma comunidade aberta, disforme, sem filiação definida, interessada em discutir padrões. A difícil busca pelo consenso dentro da comunidade do IETF (Internet Engeneering Task Force) é que permitiria a uma proposta específica subir de nível até chegar, eventualmente, a ser ungida como padrão proposto. O documentos que o IETF gera, significativamente, denominam-se RFC (Request for Comments) , ou seja “pedidos para comentários”…

Outro aspecto tecnológico foi igualmente disruptivo: a rede seria baseada em “comutação de pacotes” e não mais em “comutação de circuitos”. Na prática isso marcava um afastamento essencial da telefonia, onde para uma conexão se estabelecer é necessária a definição a priori de um “caminho” entre originador e destinatário: o circuito. Na Internet, qualquer mensagem é quebrada em pacotes que são jogados na rede e seguem pelos diversos caminhos possíveis e dinâmicos, até serem reagrupados no destino final. Isso além de aprimorar a solidez da rede, quebrava a maneira de cobrança da antiga telefonia, definida pela duração e pelo comprimento do circuito alocado à conexão.

E dez anos após o estabelecimento da Internet, outra revolução surge: a WWW (Word Wide Web) que estimulou a participação direta e ativa de todos os internautas no uso e criação de conteúdos, que tornou acessível publicar na rede. Os repositórios de informação e de conhecimento coletivos, as redes sociais e toda a riqueza que vemos hoje, somados a uma barreira de entrada muito baixa, permitem a qualquer um, munido de uma boa idéia e de conhecimentos suficientes, propor um novo serviço na rede.

Esse rompimento com o mundo tradicional das telecomunicações foi perfeitamente percebido no Brasil. Conectamo-nos à Internet em 1991 e já em 1995 foi criado o Comitê Gestor da Internet no Brasil, não para regular ou controlar a rede, mas para disseminar seus conceitos e características, recomendar boas práticas e levantar dados sobre sua evolução e penetração no País. À época discutia-se a privatização das telecomunicações e a Anatel, recém-criada como regulador, já distinguia claramente SVA (Serviços de Valor Adicionado) de Serviços de Telecomunicações propriamente ditos. Os SVA estavam fora de sua esfera de regulação. O mesmo estabeleceu a Lei Geral das Telecomunicações, em 1997.

A Internet no Brasil nascia aberta, livre, não regulada, sem barreiras de entrada e com uma perspectiva, então ainda não suficientemente avaliada, de tornar-se numa verdadeira revolução, cuja extensão sequer conseguimos avaliar adequadamente trinta anos após seu estabelecimento mundial. Provedores de acesso surgiram no Brasil do dia para a noite, conteúdo em português foi rapidamente gerado e em profusão, os brasileiros aceitaram a rede instantaneamente e em poucos anos passamos a estar entre os que mais tempo dedicavam a ela.

Na infra-estrutura, rede de cobre e coaxiais cederam o passo a redes ópticas que trouxeram bandas imensas de transmissão a baixo custo. Se em 1991 o Brasil inteiro conectava-se à Internet por uma única linha de 64 Kb/s (quilobits por segundo), hoje esse valor seria inaceitável até para a conexão caseira de um único indivíduo à rede. A disseminação de fibra óptica em várias capitais permite modalidades de assinatura de acesso à rede com velocidades acima de 100 Mb/s por assinante, mais de mil vezes a conexão do Brasil inteiro em 1991!

Mas nem tudo são boas notícias e a rede tem sido ameaçada. O Comitê Gestor da Internet gerou em 2009 um decálogo de princípios que visam a preservar os conceitos que fizeram a Internet ser a ferramenta valiosa que é hoje. Um ambiente legal que protegesse a Internet e os internautas era necessário: surgiu a proposta de um Marco Civil, onde se consolidam os princípios que nortearam sua criação e se busca proteção a direitos como livre expressão e defesa da privacidade. O Brasil, que granjeou admiração mundial pelo decálogo do CGI e pela sua gestão da Internet, entretanto, demora-se em aprovar o Marco Civil. Há nuvens no horizonte que podem indicar procelas. Esperemos que o Espírito da Rede sobrenade…

20121227-210358.jpg

O admirável novo mundo, o desafio. Um caminho sem volta.

A World Wide Web é o universo da informação acessível através da rede, a personificação do conhecimento humano. Tim Berners-Lee, o inventor da Web  e fundador do the World Wide Web Consortium (W3C).

 

Nestes infográficos, você tem uma síntese do que é hoje a plataforma dominante de informação, comunicação e articulaçãoda sociedade contemporânea. Ela não é causa da crise que estamos vivendo, que vai muito além da economia. Mas é um dos seus eixos: sua expansão e seu domínio pela sociedade é condição para o amadurecimento da era do conhecimento, com suas estruturas econômicas, sociais e políticas.

No livro Uma breve história do futuro, o economista e historiador Jacques Atalli reflete sobre este momento de transição que vivemos, com os agentes do mercado financeiro – bancos, seguradoras, empresas de cartão de crédito – com um poder desmesurado sobre a sociedade e sem regras claras de responsabilidade, mal reguladas também por causa da rede e da social media. Do fim da era industrial à democracia plena, se sobrevivermos.

Sinopse: Aproximadamente em 2060, ou mais cedo – a menos que a humanidade desapareça sob um dilúvio de bombas -, nem o Império Norte-Americano, nem o hiperconflito serão toleráveis. Novas forças, altruístas e universalistas, já atuantes hoje, tomarão o poder mundialmente, devido a uma premência ecológica, ética, econômica, cultural e política. Elas se rebelarão contra as exigências da vigilância, do narcisismo e das normas. Conduzirão, progressivamente, a um novo equilíbrio, dessa vez planetário, entre o mercado e a democracia a hiperdemocracia. Instituições mundiais e continentais organizarão a vida coletiva, graças a novas tecnologias. Fixarão limites ao artefato comercial, à modificação da vida e à valorização da natureza. O objetivo deste livro é mostrar que essa é, no entanto, a cara mais verossímil do futuro.

Se você ficou intrigado com esta edição desta matéria do Brian Solys, especialista em marketing na social media, vai gostar do livro do Atalli. Outra sugestão é McLuhan por McLuhan, da Edioro.

Sinopse: Uma seleção de conferências e entrevistas inéditas de McLuhan em livro. Permitem ao leitor acompanhar o desenvolvimento das idéias do profeta da globalização. Da criação do primeiro alfabeto fonético, uma mídia, e o fim da soceidade tribal à sua volta, num mundo de tal foma conectado que somos levados a surfar, numa cultura oral.  As opiniões que McLuhan nutria a respeito de sua própria obra e do mundo são complementos valiosos para as suas publicações. Com introdução de Tom Wolfe, convidado de honra da Bienal 2005, esta coletânea ajuda a entender a visão de McLuhan de que “as sociedades sempre foram mais moldadas pela natureza dos meios usados pelas pessoas para se comunicarem do que pelo conteúdo dessa comunicação”.

Se não conseguir comprar na Cultura ou na Edioro (links nos títulos), o sebo Estante Virtual é uma boa alternativa.