Informação: dos jornais a um mundo sem fronteiras


Jornalista da família Mesquita fala sobre a função histórica dos jornais impressos, inclusive o do O Estado de S. Paulo, e das mudanças que a era da internet trouxe. Ele aborda como é possível fazer jornalismo nos novos tempos
 –  entrevista de julho de 2013 transcrita do página 22 da GV

 

Página 22 – Rodrigo,  você acredita na existência de uma crise dos meios jornalísticos provocada pelo descompasso entre a novíssima sociedade do conhecimento, revolucionada pelo digital, e as antigas estruturas da informação ?

Rodrigo – O apogeu da indústria de jornais acontece na década de 1940. A partir daí, este setor da indústria de comunicação social começa a envelhecer. Assim como as plataformas digitais atuais, os jornais também eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos.  Alexis de Tocqueville ( filósofo político francês, 1805-1859) aborda, na Democracia da América o papel dos jornais que estavam se estruturando no século 19 nos Estados Unidos. Para Tocqueville, os jornais contribuíam para  os cidadãos se sentirem parte de uma comunidade local, que por sua vez fazia parte de uma comunidade maior,  que era a nação americana nascendo. O jornal teve durante dezenas de anos o papel de plataforma de articulação das comunidades locais. Veja o caso do meu bisavô, Júlio Mesquita (jornalista, 1862-1927)…

Página 22 –  Júlio Mesquita foi o fundador do jornal “O Estado de S Paulo”?

Rodrigo – Não, meu bisavô foi um “self-made man” e não foi o fundador do Estadão.  O jornal  A Província de S Paulo foi fundado por um grupo de republicanos em 1875 com o objetivo promover a República e a abolição da escravatura.  Ele foi levado como colaborador para este jornal por Rangel Pestana (jornalista e político, 1839-1903) no final do século 19.  Para os republicanos, o jornal não era um negócio. Era uma ferramenta para se atingir seus objetivos. Depois de a República ter sido proclamada e a escravatura abolida, este grupo de republicanos perdeu o interesse no jornal. Ele não tinha mais nenhum valor para eles.

Meu bisavô, com a ajuda do pai imigrante português semi analfabeto e que escolheu o filho que iria estudar, começou a comprar as ações do jornal até adquirir 100%.  Neste processo, partiu para o rompimento dos laços do jornal com o Partido Republicano que o subsidiava. Desde a proclamação da República, o  nome do jornal tinha sido alterado  para O Estado de S Paulo. Concomitantemente ao  rompimento, promoveu uma profunda reforma editorial no jornal e fez uma série de inovações empresariais. Ninguém podia assinar textos no jornal, nem ele, “porque não é nosso, é do  público”. Com isso ele indicava que considerava o jornalismo uma atividade coletiva e colaborativa e começava a definir a missão do jornal.

Era um homem além do seu tempo, como fica claro nesta antevisão do que seria colaboração em rede.

Página 22 –  E qual era esta missão?

Rodrigo –  A missão do O Estado de S Paulo  (e de todos os jornais sérios e éticos) era levantar os problemas que preocupavam a comunidade de São Paulo e promover o debate destes problemas pela comunidade. Ele tinha uma frase que considero lapidar, verdadeira até hoje para as empresas jornalísticas e que mostra que suas ideias (de rede) continuam contemporâneas:  Jamais sonhei que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública de meu estado. Tudo o que eu fiz na minha vida foi sondar a opinião pública e me deixar  levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada.

Um exemplo disso foi a greve operária de 1917, liderada pelos operários anarquistas. O governo criou um comitê de arbitragem, que não chegava a uma solução. Aí chamaram o jornal para arbitrar o comitê de arbitragem. E O Estado de S Paulo ficou do lado dos operários anarquistas porque as condições dos trabalhadores eram desumanas. Nesta época, os jornais estavam tão inseridos  na vida das comunidades que podiam representar este papel: o de árbitro de uma crise da comunidade que serviam.

A partir do  final da década de 1940, o papel de articulação da sociedade do meio jornal começa a mudar. O jornal deixa de acompanhar proporcionalmente o crescimento da população, começa a enfrentar a concorrência de múltiplas plataformas de mídia, a explosão demográfica e o crescimento desmesurado das cidades, que fazem que o meio jornal comece a se distanciar do seu público.  A sociedade  vai ganhando um outro  grau de complexidade e vai se fragmentando de tal forma que começa ficar difícil para o meio jornal fazer a cobertura jornalística com a mesma amplitude e profundidade do início do século passado até meados da década de 40.

É bom lembrar que desde o final da década de 40 a comunidade científica acadêmica já estava estudando infraestruturas na direção da internet e prevendo a possibilidade de sistemas de comunicação distribuídos. Em 1968, o cientista  J.C. Licklider  já dizia que, em poucos anos, iríamos nos comunicar melhor através de uma máquina do que face a face.

Página 22 –  Mas se um afastamento de sua missão e novas formas de articulação já se formavam há tanto tempo, por que os jornais continuaram com o mesmo modelo?

Rodrigo – Os graves problemas que a indústria de jornais está enfrentando é resultado da sua acomodação. Esta crise não surgiu de repente. Os jornais tiveram o monopólio dos “classificados” das comunidades em que estavam inseridos durante cerca de meio século. Do início do século 20 aos anos 40, eram a Ágora política e comercial das cidades que serviam.  Todas as empresas que atingem uma posição monopolista emburrecem. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social. A maioria deles não tinha e não tem a visão empresarial dos patriarcas.

E isso ocorre até hoje. Por  isso, o que está em risco hoje é o jornal de papel. O papel do jornal, ser um instrumento de articulação para a sociedade, é um espaço que continua aberto para ser ocupado. A nova infraestrutura de comunicação abre espaço para o que chamamos de “jornalismo cidadão” e novos  players sem legados. No futuro, todo cidadão que tiver um compromisso com o processo institucional de alguma forma vai estar ligado ao que chamamos de jornalismo.  O  jornalista profissional será necessário para realizar a filtragem daquilo que tem consistência do que é besteira, bobagem.

Não existem dois mundos hoje. Um analógico, outro digital. O rejuvenescimento e revigoramento da economia analógica depende da evolução da economia digital, que é consequência da evolução da economia da era industrial e do gênio humano. Uma das principais áreas de cobertura jornalística hoje é a própria internet, na medida em que as fontes primárias estão presentes na rede e que o público, a cidadania, está lá num processo de conversação sem fim debatendo seus problemas, ansiedades, sonhos e perspectivas.

Hoje, todas as pessoas e todas as empresas são parte também do setor de informação. Até muito pouco tempo atrás, as empresas tradicionais de informação tinham o domínio da audiência.  E  qualquer pessoa que, por motivo político, econômico, institucional, comercial, quisesse se relacionar com o público, precisava fazer lobby sobre as estruturas jornalísticas e jornalistas para que a sua informação, a sua mensagem, chegasse ao público. Ou comprava espaço publicitário. Hoje isso não é mais necessário.  No futuro, a publicidade e o marketing serão substituídos por um processo de conversação contínuo das empresas, das pessoas, das entidades com o público na Web, na rede. Dentro de muito pouco tempo, não haverá mais barreiras entre conteúdo e mídia. Isso  estará inserido nos processos de cada profissional e de todas as empresas, nas redes sociais que elas paulatinamente estão construindo.

Página 22 – E as empresas de informação tem dificuldade em aceitar esta nova realidade?

Rodrigo – O  problema dos jornais e jornalistas é que se consideravam (e em alguns casos ainda se consideram) superiores aos mortais comuns e por isso, no início da internet como Web, eles não mergulharam nas peculiaridades da rede. E a principal peculiaridade da rede é que, por meio do algoritmo, ela permite a criação de comunidades sobre comunidades a partir do nada.

Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos. E contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política. Enfim, o papel do jornal era contribuir para articulação da sociedade para que ela fizesse valer seus interesses frente ao poder público e frente aos poderosos da sociedade. Se os jornais tivessem mergulhado na Web, rede, e procurado entendê-la desde o início, com certeza teriam encontrado caminhos para continuar cumprindo sua missão neste novo ambiente da informação, comunicação, articulação, este ambiente de conversação da sociedade.

Esse papel continua aberto para ser realizado e existem formas de monetizar isso oferecendo novas formas de serviços para pessoas, para empresas e para setores da economia que vão inexoravelmente entrar neste processo de digitalização da economia.  As empresas têm que organizar suas redes sociais nas mídias sociais. Elas têm que monitorar sua marca, entender como o público enxerga a empresa, o seu setor por meio da rede. Têm que estabelecer canais de conversação com seu público potencial, seus fornecedores e distribuidores.

O monitoramento se faz através de softwares, os processos de big data. A empresa tem que identificar quem é simpático a ela, saber quais são os problemas que ela enfrenta em relação à distribuição, ao preço, entender como sua marca é  vista, cumprir também com seu papel social.

O problema é que as empresas, ainda naturalmente com um pé na velha economia, têm medo do  que  estão vendo pela frente e não sabem como fazer isso. As agências de publicidade tradicionais também não sabem fazer isso, transferem processos analógicos para o mundo digital, fazendo no máximo buzz, quase um barulho inócuo. Existem, é claro, as exceções, empresas modernas que já estão fazendo isso e que deveriam ser vistas como exemplo.

Se existe participantes de um setor da velha economia que têm cultura para fazer isso são as empresas jornalísticas, desde que tenham humildade para olhar para o papel histórico delas, que é sua capacidade para articular públicos. A notícia, a informação comercial é um meio, não um fim.

Página 22 –  Isto está acontecendo?

Rodrigo – Não na dimensão que poderia ocorrer, mas há movimentos  nesta direção. O Nieman Journalism Lab, fundação voltada para o jornalismo da Harvard University, tem alguns trabalhos  nesta direção. Mas os Estados Unidos é prático demais. Para eles é a indústria do News Print. Pra mim, a notícia não tem sentido por si só, distribuída no etéreo. As empresas não fizeram dinheiro pela sua capacidade de distribuir informação. Numa perspectiva histórica, legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da  sua capacidade de articular públicos. É o conceito do meu amigo Walter Bender, que é uma  das minhas premissas sagradas:  Notícias não mudam o mundo. Elas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir. Elas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.

É também por isso que os processos de informação, comunicação e articulação na rede, na Web, impactaram e impactam as tradicionais estruturas das empresas jornalísticas e seus modelos de negócios. Invés de procurar um caminho neste novo mundo e mexer na sua estrutura e processos, as empresas jornalísticas estão mandando embora os jornalistas mais experientes e mais caros e contratando mão de obra inexperiente e barata.

A rede permite e fomenta novas formas de relacionamento de capital e trabalho e é sobre isso que todas as empresas (não  só as jornalísticas) deveriam estar refletindo.  As jornalísticas deveriam pegar diversos grupos de jornalistas experientes e criar condições para que estes pequenos grupos formassem suas ilhas jornalísticas, criassem pequenas empresas voltadas para fornecer notícias sobre um nicho, cobrir um nicho. Subsidiá-los por  um período curto. As velhas empresas jornalísticas criariam um canal de  relacionamento com eles e juntos desenvolveriam formas de monetização não exclusivas, mas parcerias. Um processo de satelização, consequência na nova infraestrutura da economia: a internet, a web, a rede.

Se você ficar em uma estratégia de cortar custos em função de queda da publicidade que está sendo registrada e que vai continuar sendo registrada, é a morte. Eu acho também que esses sistemas de “paywall” (acesso a conteúdo da internet apenas através de pagamento de uma tarifa) é uma barreira para a missão dos jornais, que vai além do informar. A informação que o jornal distribui tem sentido na medida que é um fator da articulação da sociedade e se você coloca limites se cria uma barreira também para sua atuação.

Faz sentido você ter sistemas de micropagamentos para informação superespecializada e setorizada, para pacotes específicos, mas não para o geral. Empresas que usam “paywall” como Wall Street Journal, Financial Times e New York Times estão fazendo pouco dinheiro e são brands globais na língua dominante. Sou mais pela abertura de novos caminhos trilhados pelo The Guardian, Forbes e outros. A Web é aberta e não adianta lutar contra isso. O núcleo principal da sua atividade não pode ser fechado, o modelo  de negócio tem que ser aberto.

Página 22 – Mas de onde virá a receita destas empresas?

Rodrigo – O processo de digitalização da economia  é irreversível. As empresas têm que procurar caminhos de monetização em função de serviços de articulação na rede e no processo de digitalização das empresas. Hoje você tem softwares que podem monitorar as informações que estão sendo publicadas nas diversas mídias/ferramentas sociais que estão dentro da internet, como Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, Pinterest, Path, Youtube, Tumblr, Orkut etc.  Você pode acompanhar as discussões de assuntos específicos ou de determinada indústria ou governo ou entidade, praticamente em tempo real, em cada uma dessas mídias e nas mídias tradicionais que  atuam na rede.  Por outro lado, estes softwares mostram apenas estatísticas que precisam ser analisadas em função do seu objetivo. E este papel de análise pode ser feito por jornalistas com a contribuição de outros profissionais.

A rede hoje em certa medida é uma balbúrdia. Você tem uma porcentagem muito grande do público, com certeza mais do que 50%, que não consegue fazer distinção entre informação estruturada, relevante, primária ou uma  análise fundamentada e com valor   da “informação” dos espertalhões que estão fazendo marketing no mau sentido, retrabalhando informações de terceiros sem acrescentar  nada, fazendo  barulho para pegar vítimas.  As tradicionais empresas jornalísticas, com a força de suas marcas e sua relação centenária com a cidadania, deveriam estar oferecendo este serviço também. De monitoramento, de curadoria da rede, de agregação temática e de público.  Com isso, se colocariam como um dos vetores do processo de debate e articulação da sociedade na rede.

Enquanto a velha indústria fica parada, veja o Google… Com menos de 15 anos de idade, fatura mais com publicidade que todos os grupos jornalísticos norte-americanos juntos.

Página 22 – E os jornalistas? Qual o futuro para estes profissionais?

Rodrigo –  Antes, o profissional de informação se preparava para fazer carreira em uma empresa que o ajudava a expô-lo para o público, ajudava a promovê-lo como jornalista. Agora, ele terá que encontrar seu próprio caminho. A Universidade de Stanford, Columbia e outras nos Estados Unidos estão discutindo como fomentar o empreendedorismo entre os estudantes da área jornalística.

Os novos jornalistas terão que criar sua própria estrutura de trabalho ou manter relações mais abertas com as empresas tradicionais que sobreviverem. As oportunidades são muitas, este campo nunca esteve tão aberto. É um momento de profunda e acelerada mudança. Os profissionais que já percorreram meio caminho de suas vidas na estrutura antiga sentem uma justificada insegurança. Tecnologia é tudo aquilo que inventaram depois  que você nasceu. Não está no seu córtex, você não sabe pensar naturalmente com aquilo, não  é ainda uma extensão  da sua inteligência, das suas possibilidades.

Para quem está começando agora, as oportunidades são infinitas. O futuro do jornalista está no empreendedorismo. E o futuro das tradicionais empresas jornalísticas está no processo de digitalização das empresas de todos os setores, que  abre um novo campo de receitas que pode ser tão importante quanto os classificados, o velho marketplace,  foi para o jornal de papel. Em outra dimensão, é importante frisar. A Ágora agora é  pública. Cada um de nós está no centro do processo na Web, na rede.

Página 22 – Ao criar um um sistema de informações econômico-financeiras em tempo real, o Broadcast, sucesso instantâneo no início dos anos 1990, você previa esta migração do jornal de papel para o eletrônico?

R – Minha visão, ainda no início dos anos 90, era que a empresa jornalística que ia dar certo nesta nova fase seria aquela que tivesse coragem de se “perder na rede”.  Quando criei, na Agência Estado, o serviço de informação em tempo real (pregões das bolsas, notícias e análises) Broadcast, a ideia era construir um bom negócio e a plataforma de aprendizado da S.A. O Estado de S Paulo para o mundo das telecomunicações, da computação e do software, para o mundo da economia digital, que batia nas nossas portas.

Em 1992, éramos líderes deste mercado, posição que a Agência Estado ainda ocupa mesmo com a competição de gigantes como Reuters e Bloomberg. Naquela época, desenvolvemos um serviço taylorizado para o mercado brasileiro em relação às bolsas e mercados usados pela maior parte dos agentes do setor financeiro e injetamos no  serviço uma competentíssima cobertura jornalística técnica do  mercado financeiro e de informações locais de cunho geral que impactavam os  mercados. Isso com um preço adequado. A Broadcast era o fuscão envenenado; o rolls royce era a Reuters. Hoje, o rolls royce é a Bloomberg, mas a Broad continua liderando o mercado.

Mas tanto a Broadcast quanto os  outros serviços que  criamos na Agência Estado estavam estruturados sobre o velho modelo de monetização a partir da sua capacidade de distribuir informação.  Quando propus para o Conselho do Grupo Estado o projeto Broadcast, entre os argumentos estava o de que os classificados iriam migrar para o resultado  da convergência entre telecomunicações, computação e software. O MIT – Media Lab,  foi um dos primeiros centros  de think tank do novo cenário que estava se desenhando e eu estava lá, desde o  início da década de 90.  Em 1997, escrevi um artigo que já previa o desenvolvimento do cenário que estamos vendo hoje.

Em termos empresariais, meu objetivo era vender o sistema Broadcast a partir do momento em que a internet estivesse mais estruturada e a banda larga mais disseminada no Brasil (isso ocorreu em meados dos anos 2000). E colocar o foco no varejo da economia brasileira, se voltar para setores como micro e pequenas empresas, agronegócio, tecnologia, educação. A informação jornalística seria uma cunha para entrarmos com  serviços de articulação de setores e mercados no processo de digitalização da economia. A receita viria de processos de gestão  de relacionamento e serviços,  não da venda de informação.

Era esse o plano porque estava claro para mim que o mercado financeiro é um mercado das empresas que estão nas capitais financeiras do mundo e por isso nasceram globais. Nova York (Bloomberg) e Londres (Reuters). Em termos locais, o mercado brasileiro, é um mercado pequeno. A capacidade de investimento das empresas globais  neste mercado é muito maior do que o nosso. Enquanto o mercado de articulação e digitalização do varejo da nossa economia tem um potencial muito maior e tem muito mais  a  ver com o papel histórico dos jornais: servir como plataforma de articulação  da sociedade. A notícia, a informação editorial e a comercial, é um meio, não o  fim. Sempre foi assim.

Página 22 –  Entendo que você levou adiante seu projeto de criar processos de articulação na rede.

 Rodrigo – Sim, desde 2002, quando profissionalizamos a gestão da “S.A. O Estado de S Paulo” e eu saí, desenvolvo projetos de gestão de relacionamento na Web, rede, para empresas, setores e entidades. Começamos em Biriguicom uma rede de colaboração, conhecimento e negócios para a capital do calçado infantil. Perdi  dinheiro, mas aprendi muito.

Depois disso, desenvolvemos dezenas de projetos.  Entre eles, a plataforma Peabirus, o TEIAmg, maior projeto de processos crowdsourcing do Brasil,  a Rede CIMPequenas Empresas & Grandes Negócios da Globo, Museu em Rede, O Milagre de Santa Luzia, Raio Brasil, a República Popular do Corínthians entre outros. Um longo caminho de aprendizado, da minha  adolescência e meu sonho  de ser o repórter dos confins às novas fronteiras do desenvolvimento da sociedade humana, a Web, a rede.

Breve, estaremos lançando novos projetos. Agora, com o objetivo de criar uma empresa de informação aberta na Web, na rede,  da qual não seremos  donos nem teremos  o controle, mas teremos o domínio e a gestão.

Página 22 – Confins, acompanho-o por meio deste blog e outros canais que você mantém na rede. Que objetivos você tem com eles?

Sou jornalista, com uma forte e acentuada tendência para o empreendedorismo. Acho que esta característica por causa das circunstâncias do tempo que vivi e vivemos e por  respeito, admiração e amor pelo meu bisavô, meu avô e acima de tudo pelo meu pai, o  jornalista Ruy Mesquita. Na S.A. O  Estado de S  Paulo fiz tudo o que pude para contribuir para a perpetuação da empresa, para abrir um novo caminho no novo  sertão, que é a fronteira da Web, da rede. Dei à empresa muito mais  do que recebi nos meus  quase 30 anos de dedicação exclusiva a ela.

O blog Confins é a minha landing page. Minha formação teórica é em História. Para desenvolver os meus projetos, tive que me debruçar sobre a cobertura jornalística da evolução do ecossistema de informação, comunicação e articulação da sociedade e procurar dominar as mídias/ferramentas que vão surgindo na Web, na rede. Daí, o jornal dos confins, o meu canal no rebel mouse, no google+, no linkedin, no  facebook, no youtube, no peabirus, no  twitter, no pinterest, no scoop.it, no scribd, no slideshare, no delicious, no instagran  e outros. Eles estão mais ou menos interligados e em todos é o mesmo foco de conversação: a evolução do ecossistema da informação… Além desta função, há a do aprendizado para usar estas ferramentas na construção  das nossas redes sociais de interesse específico.

Não trabalho sozinho, tenho sócios, somos um time. Eles são mais moços do que eu. Têm mais agilidade e conhecimento para o desenvolvimento dos ambientes de curadoria, agregação, articulação e governança que desenvolvemos, a partir de processos estruturados de monitoramento da rede. O new new new jornalismo. Eu trouxe esta visão que desenvolvi graças a ter “nascido dentro das redações” da “S A O Estado de S Paulo”, de ter sido primeiro sponsor de programas do MIT – Media  Lab e depois pesquisador afiliado, durante quase 15 anos, deste que foi naquele tempo a Escola de Sagres dos novos tempos. Além disso, puxo a articulação no mundo físico (analógico)  e digital.

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Sobre os impactos deste processo na sociedade como um todo ver o post A infraestrutura do futuro.

Nele, utilizando entrevistas em vídeo de Alvin Toffler, Yochai Benkler e Marshall McLuhan,  procuro tecer o quadro do  momento da transição de uma era para outra  que estamos vivendo.

Alvin TofflerAs nações estão perdendo seu poder relativo… a propagação não só de computadores, como também de outros sistemas de comunicação e redes de todo o gênero, com isso  vemos atividades ocorrerem à margem do sistema ou mesmo à margem, em muitos casos, do controle das nações.

Yochai BenklerA principal mudança que a internet criou é a radical descentralização dos meios básicos de produção  de informações e conhecimento e cultura… pela primeira vez desde a revolução industrial estes recursos estão nas nas mãos da maioria da população.

Marshall MacLuhanTodas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos (a internet, a web, a rede) são uma extensão do sistema nervoso central.  A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos. Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

 

Nó na Garganta

 mário marinho, um dos bons editores do JT, me enviou esta foto com ma provocação para contar sua história. contei. está na última página do jtsempre desta semana e aqui. nó na garganta

Me dá um puta nó na garganta olhar para esta foto do Rolando de Freitas, no porto da casa do seu Acyr, na foz do rio Real, no fundo da baía dos Pinheiros. Cortando madeira para o fogão de três pedras no chão deste velho e bom amigo caiçara que há pouco menos de um ano tinha sido surpreendido pelo grilo de 60 kms dos 90 kms do litoral do Paraná pela CAPELA, Companhia Agropastoril do Paraná.

Desde a minha adolescência costumava ir para esta região, que depois ficou conhecida como Lagamar de Iguape, Cananéia e Paranaguá, e me aboletar na casa de algum caiçara de uma das dezenas de vilas que até hoje resistem ao tempo. No início dos anos 80, fui estudar em Paris, onde fiquei um ano e meio. Quando voltei, assim que tive uma oportunidade fui para lá. E constatei o processo de grilagem: dezenas de vilas da ilha do Superagui, das Peças e do continente estavam cercadas pelo pessoal da CAPELA e por seus búfalos.

Estava voltando também para o Jornal da Tarde, onde aprendi o ofício do jornalismo e onde tive enorme prazer de trabalhar porque lá, nos meus primeiros anos de vida profissional, minha única responsabilidade era fazer jornalismo. O grilo caiu do céu para mim. Iria fazer deste o assunto da minha volta para o JT. Propus uma pauta e fui para lá com o Rolando para fazer um levantamento mais detalhado do grilo. Ficamos na casa do seu Acyr, eu dormindo na sua cama de esteira de palha, encima de uma armação de pau roliço. O Rolando na casa vizinha, do filho Maurício, recém casado com a Dina.

Rolando, que não sabia nadar, apavorado com as minhas saídas barra a fora para dar a volta completa nas ilhas com uma voadeira pouco apropriada para estas aventuras, costumava ficar na casa do seu Acyr nestas ocasiões mancomunando também piadas como a desta foto, que deveria ser uma provocação para mim que ele via como um ambientalista. Com certeza, o Rolando fez um material iconográfico sobre a vida do caiçara nesta viagem que repórter fotográfico nenhum do Brasil chegou aos pés. Um material espetacular e precioso.

Numa das matérias sobre o grilo, fiz o perfil do Acyr, que foi publicado como O Caiçara, um dos textos cuja construção me deu mais prazer. Desta matéria em 83 até o fim do grilo foram dois anos de trabalho do JT como um todo. Dirceu Pio, comandando Laurentino Gomes na sucursal de Curitiba, foi um dos pilares para conseguirmos tirar os grileiros da região. Eu, que nunca me pretendi ambientalista, acabei me articulando profundamente com esta comunidade em São Paulo e me envolvendo totalmente com a criação da Fundação SOS Mata Atlântica, junto com o Randau Marques. Acabei sendo seu primeiro presidente de fato. Foram 5 ou 6 anos. Parte deste tempo eu como editor chefe do JT.

O nó na garganta é porque do JT fui para a Agência Estado, na minha cabeça com a missão de trazer o JT, O Estado e toda a empresa para os novos tempos dos fluxos de informação fragmentados para uma sociedade cada vez mais fragmentada. Procurando trabalhar a edição nos ambientes fluidos da rede com a mesma técnica e força que aprendi no JT. Não deu tempo. A melhor e mais séria escola de jornalismo no final do século 20 no Brasil não deixou herdeiros. Acabou. Sendo bisneto, neto e filho de quem sou seria um filho da puta se não tivesse este sentimento. Mas continuo na luta procurando caminhos na rede.

Na encruzilhada do futuro do presente

Durmo preocupado por imaginar que perdi algumas notícias e informações.

(post de 26 de outubro de 2012, às 15:19)

Todos nós vivemos com a sensação do Toninho, empresário  do setor de mídia e comunicação. Na bela definição de Alan Kay, tecnologia é algo que foi inventado depois que você nasceu. Por isso, nossa dificuldade de se relacionar com a internet, a rede, e seus predicados. Ela ainda não foi absorvida pelo nosso córtex, não pensamos com ela, não é uma extensão das nossas possibilidades. Mas não está longe o dia em que estar conectado –  viver no mundo envolvido (ou estendido) pela mais rica invenção do gênio humano, a internet, – será tão natural quanto respirar.

Na minha perspectiva, – a de um jornalista de 58 anos de idade que escrevia em máquinas de escrever, que chegou a transmitir matérias por telex e que reza pela cartilha de que os jornais foram (e deveriam trabalhar para ser no novo ambiente)  plataformas de articulação das comunidades em que estão inseridos, – a rede é o novo ecossistema da informação, da comunicação e dos processos de articulação da cidadania. E, é claro, a principal plataforma de publicação e de fonte de informações.

Foi esta perspectiva que me levou a pedir para o Toninho, estudantes, profissionais em início de carreira e outros com vasta quilometragem seus depoimentos sobre como se informam para ficarem ligados e não perecerem com a moribunda economia da era industrial. Abro cada um dos tópicos deste post com um extrato do depoimento deles, uma imagem com significados  e uma referência destes tempos confusos da mais profunda e dramática transição de uma época para outra que a humanidade enfrentou em toda a sua história. A rede é a infraestrutura do futuro, um novo ambiente, um novo ecossistema, que vai determinar a reformulação das instituições e de todo o jogo das práticas sociais, econômicas e políticas da nova sociedade que se está formando.

Lembro como se fosse ontem a primeira vez que acessei a rede, foi o exato momento em que a TV, o jornal e todas as minhas revistas se tornaram obsoletas.

Não sei se o Henrique concebe que vive num mundo onde a aquisição do conhecimento faz parte da navegação. Numa sociedade que se auto-organiza em sistemas que se parecem muito mais com a relação que encontramos na natureza do que com as formas rígidas e hierarquizadas da era industrial, na formulação genial e futurista de mais de 10 anos atrás do Nicholas Negroponte. Tenho a impressão que isso para ele é intuitivo e natural. Não é um corte como para  a geração dos que nasceram na época da educação enciclopédica e de modelos de negócios e ideologias estáveis.

Para o historiador Fernand Braudel, a História convive com o tempo passado, o tempo presente e o tempo futuro. Quando falo na moribunda era industrial, não significa que todo um conjunto de processos e arquiteturas de relações sociais, políticas e econômicas, que amadureceram e deram o tom ao século 20, acabou ou vai acabar de um dia para o outro. Como Avin Toffler aponta,  estamos vivendo a agonia do industrialismo e a sua substituição por uma ordem social e uma economia com base no conhecimento, radicalmente diferentes, com novos conceitos de sexo, raça e idade, novas estruturas familiares e novas formas organizacionais e culturais. Como diria McLuhan,  há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante.

E agora? Em primeiro lugar, há tanta coisa online que temos de esquecer tudo exceto aquilo que é realmente essencial. Tanto a sintaxe quanto a semântica do termo “essencial” (não apenas neste caso) ficam problemáticas.

Conheço  o Silvio Meira há pelo menos 20 anos. Faz muito tempo que ele se informa exclusivamente por meio da internet e propaga aos quatro ventos o fim dos tempos dos jornais. No seu recente texto sobre o processo de destruição criativa [ou criadora], que na visão de Schumpeter, é o processo pelo qual um conjunto de mecanismos [até então inexistentes] afeta equilíbrios até então existentes no mercado, causando um número de efeitos que eliminam, ao mesmo tempo, produtores [de alguma coisa], o que eles produziam [a coisa, em si] e práticas de consumo que, no mercado, geravam renda para os produtores…., ele (Silvio) argumenta mais uma vez nesta direção: os jornais estão mortos.

Numa super-simplificação (para ir um pouco  mais fundo, clique aqui) , para o economista (sociólogo e filósofo) Joseph Alois Shumpeter, o capitalismo se legitima porque, por meio da inovação e do empreendedorismo, promove  e fomenta  a geração de riqueza como nenhum outro  sistema, ao mesmo tempo em que dá à sociedade uma dinâmica na qual a sua arquitetura social está sempre em movimento,  elevando o nível de vida da base da pirâmide social.

Na época em que ele viveu, 1883 a 1950, este movimento se dava no tempo de vida de duas a três gerações (avô rico, filho nobre, neto pobre). Hoje, tempo da rede, o processo de destruição criativa é contínua. Quem para, morre. Isso é verdadeiro para todas as indústrias e todos os profissionais (será que também para as operadoras de telecomunicações, que detêm hoje mais poder do que a maioria dos Estados nacionais (esta é uma pergunta que gostaria que o silvio me respondesse. e a todos nós, é claro. é uma informação que o público precisa ter. e ninguém melhor do que o silvio para dá-la consubstanciadamente).

Mas, muitas vezes, recebo excelentes dicas de ouvintes e telespectadores da Band, entre tantos que me procuram (e que atendo sempre que posso).

Um dos motivos (não o único) que me levaram a trabalhar em torno de tecnologias de informação e novas possibilidades de interação do e com o público, desde 1988, foi a minha solidariedade com os jornalistas, especialmente os do Jornal da Tarde de meados da década de 70 até 88. Era uma redação brilhante, inovadora e corajosa. Tenho muitas saudades desta época, a mais divertida e muito rica em termos de aprendizado da minha vida profissional. Aprendi com eles, a geração do JT, que chegou à direção do jornal em meados da década de 70, o que é a profissão voltada para o jornalismo.

A empresa da minha família vivia em crises recorrentes. A única estratégia era cortar custos – suspender a circulação dos cadernos de classificados na edição nacional, depois na edição estadual , depois a estrutura de cooptação de informação nacional e assim por diante. Resolvi abandonar o meu sonho de vir a ser o repórter dos confins para empreender. Não me dei mal na Agência Estado, que foi uma referência para o jornalismo brasileiro na década de 90. Mas não me deram tempo para ir até o fim do projeto: da informação setorizada para a gestão de processos de relacionamento de setores da economia nacional por meio de redes sociais de nicho.

Fui foca do Mitre. Ele me ensinou que a função receptora (ouvir) é mais importante do que a emuladora (falar) na arte do diálogo para os jornalistas e para qualquer mortal. Tenho, como confesso acima, enorme respeito por todos os jornalistas que passaram pelo Jornal da Tarde, que está vivo nas milhares de histórias que nos contou (e contava história como ninguém).O Mitre foi o melhor de todos eles, o mais competente, o mais talentoso. Quando assumiu a função de editor chefe, representava a geração que tinha entrado no jornal com 17/18 anos. Os meninos que ajudaram a fundar o JT, em 66, tinham amadurecido, enriquecido seu conhecimento e assumiam o poder. A fase mais brilhante do JT foi durante a gestão desta geração sob a hábil condução do Mitre, que meu avô morreu pensando ser parente do Bartolomé Mitre Martinez, jornalista que foi presidente da Argentina entre 1862 e 1868.

 

Para me informar, costumo ler as chamadas de capa dos dois jornais que assino (Estadão e Folha) de manhã antes de ir para a faculdade de Relações Internacionais. Eles ficam sobre a mesa onde o café da manhã é servido. Sim, ainda sou adepta aos jornais impressos.

Compromisso com a verdade; servir o interesse público em primeiro lugar; monitorar os poderosos e oferecer voz aos sem voz; fornecer um fórum para comentário, crítica e compromisso; empregar um método ético de verificação; manter independência de facções; fazer notícias engajadoras e relevantes; manter as notícias abrangentes e proporcionais.

 Estes são os princípios fundamentais do jornalismo (versão da Nieman Journalism Foundation), dos jornalistas e dos empreendimentos ligados a esta atividade. Ontem, hoje e amanhã e que podem justificar a opção da Catrina , que é fruto de uma família  de jornalistas e com certeza uma exceção na sua geração. Mas num mundo em que os governos começam a olhar para plataforma abertas de aprendizado, em que Harvard, a Universidade mais antiga dos Estados Unidos, abre seus cursos para a rede e em duas semanas tem mais de 100 mil alunos inscritos, em que um grupo de investidores cria uma plataforma como a Coursera, na qual mais de um milhão de alunos de cerca de 30 países estão matriculados em cursos de dezenas de universidades norte-americanas, terá sentido o jornal como historicamente fomos aculturados? E a revolução no setor de educação está só começando. Esta indústria de trilhões de dólares também vai sofrer profundas mudanças, nos próximos anos, acelerando ainda mais a rzevoluçaõ  que estamos sofrendo.

 

Gostaria de melhor representar a sociedade moderna, mas não é o caso.  Obtenho minha dose de informações diárias consultando um jornal impresso e suas ramificações online: o New York Times.    

Corajoso é o homem que questiona se há futuro para dirigentes de empresas de mídia, quando está à mesa com três dos maiores líderes deste setor. Com esta afirmação, a ZDNet UK abria uma entrevista com o Andrew Lippman, pesquisador MIT – Media Lab , em 2006, sobre mídia aberta, software livre e direitos autorais. Lippman tinha participado uma semana antes de uma mesa redonda com os principais executivos da MTV NetworksSaatchi and Saatchi e Magna Global Worldwide. Nesta entrevista, argumentou que em breve os próprios consumidores poderiam criar e publicar seu conteúdo, com a mesma facilidade das grandes distribuidoras de mídia; em tais circunstâncias, qual seria a necessidade de um grande executivo de uma empresa de mídia, ou mesmo de empresas de mídia em si?

Lippman liderava os programas Viral Communications e Organic Networks, no MIT – Media Lab, no início deste século. Na justificativa do Viral Communications ele argumentava: As comunicações estão prestes a se tornar características pessoais e embutidas no mundo que nos cerca. As novas tecnologias nos permitem construir dispositivos com e sem fio, que são cada vez mais instalados e presentes, praticamente sem limites. Não precisam de um backbone ou infraestrutura para funcionar. Ao invés disso, utilizam vizinhos para improvisar tanto a distribuição de bits como a geo-localização. Isto redistribui o domínio das comunicações, de um provedor integrado verticalmente, para o usuário final ou dispositivo final, segregando a distribuição de bits e os serviços.  As comunicações podem ser tornar algo que você faz, ao invés de algo que você compra (e aí Silvio Meira? você ajuda a gente a entender porque o Andrew Lippman parou de bater nesta tecla tão cara às operadoras de telecomunicações?).

 

Recebo também vários informativos por email, principalmente de centros de estudos internacionais, como Stratfor e Ifes, que além de análises incluem também notícias do dia.  Nos fins de semana, leio o Estado nas Digital Pages ou compro na banca e ouço bastante rádio, quando estou dirigindo. 

Três de anos atrás, nem 50% das 500 maiores empresas listadas pela revista Forbes usavam alguma ferramenta de mídia social para atuar na rede. Hoje, a proporção é a apontada no gráfico acima. 94% usa alguma ferramenta e mais de 58% percebe a utilidade. Isso não quer dizer que elas estejam estruturando suas redes sociais por meio destas ferramentas. São poucas as que fazem isso, apesar de que  as que estão estejam tendo resultados fantásticos. É o natural conservadorismo das estruturas de poder da velha economia.

Fazendo contraste com este comportamento das empresas, Lourival Sant Anna sem dúvida um dos melhores repórteres do mercado, tem corrido o mundo para trazer para as páginas de O Estado de S Paulo as questões mais diversas dos  mais diferentes pontos do globo. Ele sozinho  tem o peso informativo de uma rede social. Usa a internet também (como vocês verão no seu depoimento de como se informa no seu dia a dia), mas com a propriedade dos jornalistas veteranos que não pararam no tempo. Vai direto aos pontos em que tem interesse e que precisa acompanhar continuamente para fazer o seu trabalho, que é nos informar com começo, meio e fim, dando o contexto e apresentando alguma perspectiva.

Mesmo tendo o café e o jornal à mão, começo a minha rotina passando os olhos pelos meus emails – na maioria das vezes, algum amigo enviou um link para alguma matéria recomendada. 

 Walter Bender dirigia, em 92 no  MIT – Media Lab, o programa News in the Future, que no decorrer dos anos se transformou no Information: Organized e depois no Simplicity. Ele era um entusiasta das oportunidades que os jornais viriam a ter com a emergência das TICs. Não podia imaginar que o conservadorismo destas empresas e uma certa arrogância, que as faz se imaginarem (junto com seus profissionais) intelectualmente superiores aos meros mortais, iria  impedi-las de mergulharem nas peculiaridades da rede, a principal delas o agoritmo que permite que se criem comunidades sobre comunidades a partir do nada. Também por isso, estas empresas, estão ameaçadas de perder o bonde da história.

Bender foi adiante, está conectado com a História. Em 2004, fundou com Nicholas Negroponte e Seymour Papert a OLPC. Entidade sem fins lucrativos com a missão de  projetar, fabricar e distribuir laptops que sejam suficientemente baratos para proporcionar a cada criança do mundo acesso ao conhecimento e modernas formas de educação. Projeto, que entre outros resultados, inverteu o drive de investimentos das empresas de hardware que até então só pensavam em máquinas cada vez mais caras. Hoje, é diretor do Sugar Labs que desenvolve o sistema operacional do  XO, o laptop da plataforma de educação da OLPC. E, apesar  da arrogância dos jornais, continua tendo eles como sua primeira leitura. 

Não costumo ler jornais impressos com frequência, nem assistir aos telejornais da televisão, acredito que a Internet supre todas as necessidades de ler jornais ou assisti-los, pela quantidade de informações que são disponibilizadas.

Victor Barros é um garoto que estuda no Colégio Graham Bell, dirigido pela educadora Denise Villardo, que desde o início deste século se deixou fascinar pelos processos de redes sociais. Muito antes, portanto, de o público atuar na miríade de ferramentas/mídias que temos hoje a disposição para estruturar nossas redes sociais na internet e também antes de a mídia tradicional tachar ferramentas como o Facebook, uma ferramenta, como a maior rede social. Victor não quer conversa. Ele se informa na rede e ponto. Além de tudo, diz ele, na rede tem acesso a mais opiniões, não fica na mão de ninguém (cá comigo tenho minhas dúvidas se esta manipulação não é mais variada e sofisticada na rede, onde todo mundo é consultor, especialista em auto-ajuda, jornalista cidadão e outros bichos. É claro que há profissionais e cidadãos sérios (e não são poucos) na rede atuando com propriedade, mas qualquer ambiente de informação está aberto à manipulação).

Foi só parar para pensar na sua pergunta – sobre como me informo – que, descobri, ela é muito mais complexa de responder do que achei no primeiro momento. Por isso mesmo, é uma pergunta instigante.

Quem fala sobre a complexidade da pergunta (como se informa para ficar ligado no seu dia a dia para não perder o bonde), neste mundo onde tudo é social, é o Pedro Doria. Como eu e diversos outros deste post, que por vício da minha origem tem mais jornalistas do que deveria ter, ele vive mergulhado, entupido de informação desde o tempo do NO, que ele editava para uma série de figurões que escreviam para este site de relevância no início da internet no Brasil. Hoje, é editor executivo e colunista de tecnologia do jornal O Globo, além de colunista do Jornal das Dez, da GloboNews. Como ele diz, pertencer a este nosso tempo é parte do trabalho.

Uso uma combinação de Flipboard e Twitter para me atualizar nas tendências, além do Google Alerts para reunir informações que possa estar monitorando. Sempre que surge um novo sistema – seja Currents ou Zite – eu o testo, que é mais uma maneira de me manter atualizado sobre como devemos desenvolver novos sistemas para ficar à frente das coisas. 

John Maeda é design gráfico e um monte de outras coisas, além de genial e cativante numa conversa pessoal ou numa apresentação (How art, technology and design inform creative leaders). Apesar de todo o seu trabalho estar relacionado com o processo de enredamento da sociedade que estamos vivendo, ele sempre lembra – como todos nós sabemos – que nada substitui o contato pessoal, olho no olho, pé de ouvido.

Prefiro o básico, quando o assunto é obter informações pela internet. Mais do que nunca, sinto que meu tempo é precioso, e não quero perder tempo procurando novas coisas.  

Se a educação é essencial, os sistemas educacionais estão em xeque, argumentava David Cavallo nos seminários que serviram para preparar a vinda do Nicholas Negroponte ao Brasil, em julho de 2005, para propor um projeto para revolucionar nossa educação (e a do mundo).  É crucial promover a criatividade e a invenção na sala de aula. O ambiente criativo torna as crianças mais interessadas. Deve-se abandonar posturas tradicionais no modo de ensinar (separar as crianças por faixa etária, por exemplo, ou desconstruir e fragmentar os conteúdos).

David Cavallo, pupilo de Seymour Pappert , que na década de 60 já desenvolvia projetos com tecnologia e educação na África, elegeu o  Brasil como seu segundo lar. Foi ele, o grande articulador do projeto de educação da OLPC por aqui. Em junho de 2005, Walter Bender e David promoveram dois seminários para apresentar o projeto para o PSDB, no iFHC, e para o governo do Lula, no NAE. A relação com o PSDB não evoluiu. Lula recebeu Nicholas Negroponte e Seymour Pappert  no mês de julho. Criou um grupo de trabalho, liderado por Cezar Alvarez, para consubstanciar e validar o projeto. Deste processo nasceu o programa Um Computador para Todos e o UCA, Um Computador por Aluno.

Precisamos, assim, assumir o papel de um Noé do novo século, selecionando espécies significativas de informação, colocando-as na nossa arca e com isso sobreviver no mundo do entendimento, da interpretação, da reflexão, o que é essencial para os nossos estudos e até negócios.

Se não inovarmos, não conseguiremos sobreviver, não aproveitaremos as oportunidades que aparecerem, seremos ultrapassados pelos concorrentes. Para assumirmos o papel de um agente de inovação em rede, entre outros fatores necessitamos de informação de qualidade, no momento exato. Um dos fatores que nos impede que nos apropriemos da informação, é a sua própria abundância. Richard Wurman autor americano, mesmo antes da internet estourar, já prévia a síndrome dos nossos tempos, a Ansiedade de Informação, um componente do stress do dia a dia das pessoas, o buraco negro entre os dados disponibilizados e o conhecimento.

 Antônio Mendes Ribeiro, responsável pela afirmação acima, é professor do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e o internauta com mais didática para ensinar aos inciantes os meandros e sutilezas da rede. Ele contribuiu para a estruturação do projeto TEIAmg – Tecnologia Empreendedorismo e Inovação Aplicadas -, que realizamos em Minas Gerais, sob a liderança do então secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Alberto Portugal. O TEIA é até hoje o maior projeto de crowdsourcing do Brasil, fomentou inovação em mais de 600 municípios mineiros e criou cultura de rede em diversas instâncias do governo mineiro.

Leio mais livros impressos do que nunca …. poque tenho pouco tempo. E durmo com o iPhone na mesinha de cabeceira, meu despertador e minha nova caixa de pandora informativa.

La transición digital de los medios impresos no es fácil pero tampoco imposible. Si se ponen los medios. La gente. Y los recursos. Por ejemplo, los desarrolladores. Profesionales que hasta ahora trabajaron confinados en los departamentos de IT. Aislados de las redacciones. Como si fueran unos apestados. Cuando en realidad son unos virtuosos de los lenguajes multimedia imprescindibles. Pongámoslos a trabajar codo con codo con el resto de periodistas. Porque no trabajan “para” nosotros sino que son “como” nosotros. Hacen periodismo por otros medios. Como los diseñadores. Los fotógrafos. Los infografistas. O los ilustradores. Que también son periodistas. Y no esclavos de los plumillas. 

Juan Antonio Giner, autor da confissão de escravidão ao iPhone e do texto acima, é um apaixonado pelo meio jornal. Não interessa em que mídia. Analógica ou digital. Dá o devido valor ao papel institucional do jornal como plataforma de articulação da comunidade em que está inserido, sem menosprezar a obrigação das empresas que os abrigam em se abrirem a todas plataformas que as tecnologias digitais proporcionam para diversificar seus serviços e relacionamento com a sociedade. Desde o final da década de 80, por meio do que é hoje a Innovation in Newspapers, desenvolve este trabalho evangelizador juntos às centenas de tradicionais empresas jornalísticas que contrataram  os serviços desta consultoria apontada pelo Financial Times como a McKinsey da indústria da informação, anos atrás.

No cotidiano, do começo ao fim do dia, as informações mais relevantes eu conto que as pessoas de convívio me tragam, via email ou presencialmente.

Já que me inflamei tão solenemente com o papo, vou encerrar com uma homenagem ao inventor da WWW, Tim Berners-Lee, citando a frase com que ele termina seu livro, Weaving the Web, editado pela HarperSanFrancisco no fim do ano passado: “A experiência de ver a Web decolar através do esforço de milhares de pessoas comuns me dá a esperança de que se tivermos a vontade individual, nós podemos fazer deste mundo, o que quisermos. Tesão, né ? Vamos nessa, amigo. É bom estar com você nessa parada.

 Ricardo Guimarães  inventou o branding no Brasil. Era um homem de rede muito antes da rede.

Ao longo do dia, basta o Twitter para me deixar absolutamente atualizada. 

A grande questão que se coloca é saber se é possível uma empresa de comunicação ter um modelo de negócio baseado em redes sociais, em agenciamentos. Hoje, os jornais simulam o crowdsourcing. Não fazem parte dele. Como seria sua interface, uma vez descoberto esse modelo? Manteria a tradição ou romperia como fez corajosamente Bill Paley ao assumir a CBS ?  Até agora, a história mostra que na Web as reformas se alternam entre colocar e tirar fios (ó você aí, Leão Serva).  Mesmo aqueles que ganham dinheiro com o protocolo de Berners-Lee ou com aplicativos. (Lucina Moherdaui)

Quem, o quê, quando e onde é uma commodity hoje no jornalismo, graças à riqueza das informações que encontramos na rede a qualquer momento. Não tem mais valor como mantra para o repórter. Luciana Moherdaui sabe disso e está muito adiante na procura cotidiana  de contexto e perspectiva, na tentativa de relatar como, por que e o que significa, que deveria ser a nova missão dos jornalistas e das empresas jornalísticas na sua relação cotidiana com o público, com o objetivo também de fomentar a criação de comunidades ao redor das notícias e informações. Sua tese de doutorado em comunicação é uma referência para quem não quer se afogar na rede .

 

No mais, entendo que a informação está em toda parte, o tempo todo, e não reconheço mais nenhum meio ou veículo específico como A minha fonte. Funciono hoje como um radar e, mais importante, validando tudo o tempo todo.

Bob Wollheim, CEO da Appies.com e Sixpix, está na lista dos 50 profissionais mais inovadores do mercado digital brasileiro.

 

O fato de escrever o tempo todo me mantém ligada a tudo o que é online, mas ainda não consegui aderir ao Twitter. Sou “analfabeta” em Cultura, mas simplesmente adoro o tabloide EU & FIM DE SEMANA do Valor. Ainda uso o velho e bom PC, iPad e Blackberry.

Várias forças globais alteraram aos poucos, às vezes de maneira quase sub-reptícia, o mundo conhecido. A mais visível para quase todos nós, de maneira quase diária, tem sido a adoção cada vez mais intensa de novas tecnologias….Estas novas tecnologias não só descortinaram novos horizontes para as telecomunicações de baixo custo, mas também facilitaram avanços em finanças, que ampliaram em muito nossa capacidade de direcionar poupanças escassas para investimentos de capital produtivos, fator crítico para a rápida expansão da globalização e da prosperidade (gostaria de ler uma análise do Alan Greenspan sobre operações com derivativos e hedges e não uma reflexão no rastro da exuberância irracional como este extrato da introdução do seu livro Na Era da Turbulência, que não dou o link porque não merece).

A primeira mercadoria a se globalizar totalmente foi o capital, em função do contínuo desenvolvimento do comércio e como consequência da exponenciação dos processos de interação social que a rede permite e fomenta. Nunca tive a oportunidade de conversar com a jornalista Angela Bittencourt sobre este processo, apesar de ter trabalhado com ela durante muitos anos. Gostaria de conhecer a opinião dela sobre a visão do Greenspan, antes da crise de 2008: nas últimas décadas, a economia americana se tornou mais resiliente a choques. A desregulamentação dos mercados financeiros, a maior flexibilidade dos mercados de trabalho e, mais recentemente, os grandes avanços das tecnologias de informação aumentaram a nossa capacidade de absorver rupturas e de nos recuperarmos do choque. É isso ou o problema é a incapacidade das autoridades monetárias em todo o mundo regulamentarem um mercado conectado em tempo real, Angela?

você sabe, a pressão por informação começa cedo para mim. Faço o “Começando o Dia” na CulturaFM  a partir das 8 hs. da manhã de 2ª a 6ª . Às 6 hs. estou na rádio e tenho uma hora e meia para escrever o programa.

Organizações jornalísticas devem continuar a fornecer notícias para indivíduos e conhecimento enciclopédico sobre suas comunidades. Mas também devem reconhecer o papel dos consumidores como produtores. O futuro do setor é tanto de construção quanto de consumo. O impacto de “ser digital” é a emergência de uma nova relação entre editores e seu público: tornar as notícias mais relevantes ao construir conexões entre fornecedores de notícias e consumidores…. Notícias não mudam o mundo, mas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la – uma fonte de modelos compartilhados a respeito do mundo. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir, mas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação. (Walter Bender, num texto para a ANJ, Associação de Jornais do Brasil, em 1999)

O jornalista Alexandre Machado  é mais um escravo da informação. Madruga todos os dias para entrar no ar no seu Começando o Dia, na CulturaFM, com notícias frescas. Tem consciência de que a notícia não acaba quando é difundida. O verdadeiro ciclo da história começa aí, quando o público levanta questões, acrescenta fatos e corrige erros, levando a uma nova perspectiva mais próxima da verdade. Como todo bom jornalista (aqueles que não são caga regras, metidos a autoridade, guardinhas de trânsito), é um missionário desta verdade absoluta.

Mas também gosto de ler jornal impresso, ver os telejornais, pois sempre, em cada um, percebemos um ponto de vista diferente dos demais.

Nosso Colégio tem como foco principal o Ensino Técnico, nos níveis Médio e pós-Médio, nas áreas de Informática, Telecomunicações e Eletrônica. Participamos de Projetos em parceria com outras Instituições – públicas e privadas – das Áreas já mencionadas, com elaboração de materiais pedagógicos específicos; atendimento a demandas das empresas, (re)qualificando profissionais – e atuação docente. Nossa organização se dá através de uma Cooperativa de Profissionais de Ensino, criada em março/2004, para administrar o Colégio Graham Bell. Contamos, atualmente, com cerca de 40 profissionais cooperados. Esses profissionais organizam-se por meio das Coordenações Pedagógica; Administrativa e Projetos e Parcerias estratégicas. É nosso interesse, também, fomentar continuamente discussões na Área da Educação. Nesse momento, o Peabirus para nós é mais do que uma Rede de Relacionamentos, ele passa a fazer parte do desenvolvimento pedagógico/curricular de nossos alunos. 

Clarissa é mais uma estudante adolescente que teve a sorte de encontrar a Denise Villardo no colégio Grahm Bell, no Rio de Janeiro. Denise também vê a rede como a nova plataforma de articulação da sociedade. E trabalha isso na escola: Nossa primeira proposta de atividade é que vocês se apresentem utilizando a web, ou seja, quero conhecê-los mais profundamente através dos links dos sites que vocês gostam de utilizar, ou que são referência para vocês. Podem postar também vídeos, fotos ou outras apresentações que queiram fazer. (Dêem uma olhadinha nos links que eu já coloquei, para também me conhecerem melhor).

Minha “receita de informação” tem a maior cara de  cross media, ou de convergência, ou similares…

Mais que isso. Algumas coisas vão acontecer no ciberespaço, mas várias outras coisas estarão digitalizadas e vão envolver a lógica digital, de trocas, de bits. Um jornal impresso, hoje, se faz com meios digitais. A lógica digital é o grande chapéu do processo de comunicação. Uma parte do processo é o meio digital puro. Relacionamento com o público: o que vai fazer a diferença é se a relação é unilateral, bilateral, multilateral. O que vejo hoje é que se delimita o relacionamento no mundo virtual como se ele não se misturasse com os demais. Não acredito nisso. Tem que se misturar. Se você se propõe a entrar nas redes sociais, e abrir conta no twitter, no facebook, esse processo vai desembocar em outros processos não são tão virtuais assim. Existe toda uma integração que ainda não está clara. As pessoas acham que o que está no virtual ficará no virtual. Mas não é assim (ver mais aqui).

Conheci a Beth Saad quando armava a aventura abortada da Agência Estado. Na época, ela ainda não era Diretora de estratégias digitais da Digital Happenings, e professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. Se não estou enganado, estava se preparando para seu doutorado. Como tantos outros ficou fascinada com projeto AE, que a partir de uma plataforma, a Broadcast, lançada em 92, para levar informação em tempo real para o mercado financeiro,  tinha como objetivo chegar a um modelo de negócios baseado em gestão de relacionamento e não em distribuição de informação. Ela nos acompanhou muitos anos em diversas viagens de prospecção (na verdade, sempre como coparticipante do projeto), que sempre passavam pelo MIT – Media Lab, pelo mercado norte-americano. Hoje, na academia, é uma personagem referencial do mundo digital, uma extensão natural do analógico.

O Grande problema hoje é a questão “Urgente x Importante”. A internet aumentou a rapidez de transmissão das notícias supostamente Urgentes, que eu preciso saber.

As sociedades sempre foram mais moldadas pela natureza dos meios usados pelas pessoas para se comunicarem do que pelo conteúdo dessa comunicação. Todas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos são uma extensão do sistema nervoso central. (McLuhan) O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação?

A pergunta não é  para você, Stephen Kanitz. É uma provocação para uma reflexão sua e de todos nós. O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação (aqui, este texto na íntegra).

Vigio, ainda, a guerra dos blogs. Os chamados progressistas e os de direita. A maioria não me agrada. 

Uma nova economia surgiu em escala global nas duas últimas décadas. Chamo-a de informacional e global para identificar suas características fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidade ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos.

O texto, Marcia, é do Manuel Castells. O extrato está na pág 87 da edição da Paz e Terra do A Sociedade em Rede e me faz pensar no se faz sentido neste novo mundo que está emergindo esta classificação, direita e esquerda, do século passado: É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. É informacional e global porque, sob novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação. E ela surgiu no último quartel do século XX, porque a Revolução da Tecnologia da Informação fornece a base material indispensável para essa nova economia. É a conexão histórica entre a base de informação/conhecimento da economia, seu alcance global e a Revolução da Tecnologia da Informação que cria um novo sistema econômico distinto…

A Wired é uma das poucas revistas que ainda leio regularmente no papel. Assino a Technology Review e o New York Review of Books no Kindle.

Enquanto a linha de montagem do processo industrial acelerou o processo de produção, ela também embutiu os trabalhadores mais profundamente dentro da máquina de manufatura corporativa. De fato, essa foi a grande inovação da fábrica do século XX: as máquinas, ao invés dos trabalhadores, impulsionavam a produção. Com o código aberto, as pessoas estão de volta ao poder. Através da colaboração distribuída, uma legião de trabalhadores pode atacar um problema, todos de uma vez. A velocidade é ainda maior – mas a liberdade também. É uma indústria de vilarejo em ritmo de Internet. É um trecho do artigo Código Aberto em Toda Parte, do Thomaz Goetz, publicado na Wired em novembro de 2003, Renato (o texto, meu caro, que também me fez leitor desta revista. estamos longe do sonho, mas estamos  navegando. a íntegra está neste link).

Na verdade considero o jornal o veículo mais abrangente e mais agradável de se manusear

Jamais  ousei imaginar que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública do meu Estado. Tudo o que fiz na minha vida foi procurar sondar  a opinião pública e me deixar levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada. (Júlio Mesquita 1862-1927, na foto na redação de O Estado o 1º a esquerda)

Um presente para você, Renné. Um pouco da história do pai do jornalismo do século 20 no Brasil, que como você pode ver acima, tinha uma cabeça de rede no século 19. Se ele tivesse nascido na nossa geração, estaria atuando no jornal de papel e na rede com a mesma intensidade. O texto que se segue é do historiador Jorge Caldeira (aqui, a íntegra). O exercício desta combinação entre isenção e engajamento, no entanto, se baseia numa arte de equilíbrio: supõe tolerância e capacidade de distinguir a todo momento entre o desejo, sempre grande, e sua possibilidade de realização, sempre limitada. Exige também uma modéstia básica: jamais se pode acreditar que os princípios se realizarão plenamente, e eles devem ser sempre submetidos à realidade dos fatos (tenho ele, meu bisavô, como referência de jornalismo/rede – possibilidades de interação do e com o público – desde sempre)

recentemente tenho adotado resumos diários do conteúdo mais trocado/repassado pelas pessoas que eu escolhi seguir no twitter. isso me faz sentir menos por fora daquilo que supostamente é importante neste que é o meu principal campo de atuação. 

O profissional se torna o veículo – jornalistas já estão usando a plataforma de diversas formas: para divulgar notícias em primeira mão, para encontrar fontes de informação e para monitorar a repercussão e os desdobramentos de suas matérias e de veículos concorrentes. É uma ferramenta que em pouco tempo se tornou vital para a realização de reportagens e ainda – muito especialmente – para promover a aproximação entre leitores e veículos, mas essa novidade também está provocando tensão nas redações. O texto é do Juliano Spyer, que está mergulhado em antropologia digital para nos ajudar a perder o medo do abismo no fim dos mares: Há anos empresas são pressionadas a participar da “revolução digital.Elas investem em ambientes sociais pela promessa de usufruir da “colaboração nas redes”. Não refletem sobre a pertinência do projeto para seu público e, quando a iniciativa naufraga, escondem o resultado e tentam de novo. Veja mais aqui.

Last but not least, pessoas são sempre uma fonte inesgotável de informação. Então conhecer e conviver com muitas pessoas é muito bom para ficar informado, além de ser divertido. 

Marion Strecker não cita Humberto Eco no seu depoimento, mas suas reflexões sobre o excesso de informação numa entrevista à revista Época completam muito bem as ilações dela: A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais.

O que parece é que depois que montar esse “aparato na nuvem” eu não procuro informações e notícias, mas sim elas vêm até mim. 

Sergio Parreiras Pereira, Engenheiro Agrônomo, Mestre em Fitotecnia e Pesquisador Cientifico do Instituto Agronômico – IAC, Coordenador do Núcleo de Manejo da Lavoura Cafeeira do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café é o mediador da Comunidade Manejo da Lavoura Cafeeira, na plataforma Peabirus, que na prática é a base da Rede Social do Café. A rede congrega o sistema agroindustrial do Café.

O Sergio poderia dar aula para muitos jornalistas sobre como montar um “aparato na nuvem” para fazer as informações e notícias chegarem até eles afim de que as processassem e as levassem ao público. É o que ele faz com maestria, modéstia e humildade na sua comunidade do Peabirus, que na prática se transformou na principal landing page desta fundamental rede de informações para o setor.

Desde que me mudei para Santos, assino A Tribuna, para acessar informações locais e leio outros jornais distribuídos nas ruas com notícias da cidade.

Supõe que sou (Rodrigo Svazoni) um tipo encantado com o papel do artista engajado, como Gil, Chico e Caetano, que não se recusavam a subir gratuitamente num palco para manifestar suas posições em relação ao mundo…

Supõe que estamos em 2012, já na segunda década do século 21, que as pessoas estão conectadas por redes e dispositivos digitais e que essas tecnologias fortalecem a possibilidade de acelerar as relações e os processos políticos;

Supõe. Apenas supõe.

O The Guardian é uma fonte constante de informação, já que, acredito, eles têm um trabalho excelente na internet. Realmente, estão pensando em novas formas de se fazer jornalismo, ao contrário do que vem sendo feito no Brasil.

André Oliveira, jovem jornalista, tem razão: o The Guardian, jornal inglês fundado por John Edward Taylor, é um dos jornais mais audazes na rede. Envolve seu público na elaboração  de matérias, cria espaço de interação, analisa a crise dos meios impressos som seriedade,  é uma referência. Hoje, o jornal é propriedade do Scott Trust Limited, que foi criado para manter sua independência e sua linha liberal. Vem operando no vermelho há alguns anos.

Tentar compreender a repercussão da notícia em universos sem jornalistas e  políticos é tão importante quanto buscar informação. É uma receita que uso para não perder o sentido do meu trabalho. 

Hoje o conhecimento não está mais concentrado em certos locais como antigamente ( bibliotecas, enciclopédias ). Ele está fragmentado por todo lado ( nas redes ). Para conhecer necessitamos da habilidade de conectar, recombinar e recriar. Podemos fazer isso em várias mídias (escrita, áudio, vídeo ) e vários contextos ( blogs, redes sociais ). As pequenas peças do conhecimento, espalhadas pela rede, podem ser recriadas de forma personalizada, de forma a darmos significado próprio às mesmas.. Na medida que estamos debatendo, colocando nossas idéias, podemos combinar e recriar o conhecimento de várias maneiras, da forma que desejarmos, sem ficarmos restritos ao nosso campo de atuação. Qualquer peça do conhecimento que adquiramos tem valor no momento dessa aquisição, em função da nossa habilidade de trabalhar com a mesma: reconhecer o seu valor, refazê-la, combiná-la, estendê-la (do professor Antonio Mendes Ribeiro).

Leonencio NossaAli morava a matriarca da família, uma senhora de 93 anos. “É uma pena. Se você tivesse chegado cinco meses antes, falaria com mamãe. Ela não conversa mais”, disse Oneide, filha dela. Tatá, a matriarca, sofrera um derrame. Era a pessoa que eu buscava para conhecer a história da espada que fascinava gerações de ribeirinhos. Ao longo de dez anos de pesquisas sobre a Guerrilha do Araguaia passei a enxergar na arma um possível elo do conflito que envolveu o Exército e os militantes do PCdoB, nos anos 1970, com outras disputas na região.  

Prefiro plataformas hierarquizadas e “curadas” à agregadores.

Não sei se o José Papa Neto gosta e conhece das diversas ferramentas de curadoria (gosto muito do Scoop.it) que estão surgindo em torno da rede. Estas ferramentas junto com as de monitoramento das mídias sociais vão com certeza levar o entendimento da Web a um outro patamar por boa parte das pessoas que consideram a conversação global uma balbúrdia. O problema, ainda mal percebido e mal explicado pelo e para o público, é que, além de transformar cada um de nós em publishers, a rede exige que sejamos os editores das nossas receitas informativas no dia a dia, não se deixar levar pela confusão, saber escolher os caminhos. É um dos papéis que cabe aos jornalistas, organizar o caos para seus leitores. Mas mesmo nesta categoria de profissionais são poucos os que acharam o caminho.

Em pouco tempo todos os meus amigos, parentes, colegas de trabalho, autores dos meus blogs favoritos, instituições, o governo, governantes e candidatos, e até pessoas públicas que admiro, todas elas, passariam a compor um grande filtro de relevância para mim! Viraram meus editores chefes! Todos, o tempo todo, trabalham na minha redação!

Se eles nasceram em 85, em 95 estavam jogando na lan house. Então os professores novos que estão entrando agora, eles são games, eles nasceram na era da internet. Nós durante algum tempo vamos ver saindo da escola por aposentadoria, por migração, porque vão passar para administração simplesmente, a geração não games, a geração de não web, a geração excluída digitalmente… Para mim isso vai revolucionar a escola ao seguinte ponto, assumindo a mesma de 1985, e assumindo que a gente vai ter um presidente da república com 40 anos de idade em 2025, ele terá sido game também. Ele vai ter vindo de um laptop de classe média ou de classe rica, sei lá, ou vai ter vindo da lan house, mas em 2025 (Silvio Meira).

 Mariana S. Oliveira é de uma geração um pouco mais velha, mas sua perspectiva é da geração que o Silvio fala. Os processos (São Paulo hoje e no século 18, na imagem) não param.

Por fim, sempre tem aquele elemento do acaso. Sem planejar a gente cruza com alguém lendo algo interessante. Fico sempre de olho nos jornais e livros dos outros no metrô…

O jornalismo tem sido uma palestra – nós passamos as notícias para vocês, e vocês acreditam ou não. O processo agora está tornando-se algo parecido com um diálogo; e a primeira regra do diálogo é ouvir. Os jornalistas não teem sido especialmente habilidosos neste aspecto, embora na época que eu escrevia sobre tecnologia no Vale do Silício, na Califórnia, em meados dos anos 90, rapidamente tomei consciência que meus leitores sabiam mais que eu. Isto, em si, não é ruim; representa uma oportunidade para fazer um jornalismo melhor. (Dan Gilmor, no seminário O Nascimento da Mídia Cidadã, 2006)

Lembro de um texto do Ivan Illich, que li há muitos anos, no qual ele dizia que um dos segredos para se realizar na vida era se manter aberto ao acaso, Magda. Não se fechar às suas verdades nem se submeter ao peso dos anos. O acaso está nas ruas e na rede. Podemos cruzar com pessoas nos dois ambientes Quando pedi para todos que estão aqui um depoimento sobre como se informam, um dos objetivos era abrir uma discussão, uma conversa, sobre isso tendo em perspectiva a rede, que é para muitos de nós algo intrusivo, não amigável por ser muito novo. Você concorda?

Para terminar, dou uma olhadinha no Instagram, afinal, é sempre bom estar perto das pessoas que você gosta ou admira, mesmo que do outro lado do mundo.

A geração de ideias é um processo colaborativo, o Conrado está nesta viagem. É  de uma geração mais nova . Vai gostar desta citação do professor Ladislaw DowborNão por opção ideológica ou fundamentalismo de qualquer cor política, mas pela natureza das ideias. A internet não teria surgido sem as iniciativas dos pequisadores militares do DARPA, mas se materializou como sistema planetário através do www criado pelo britânico Tim Berners-Lee, que não o teria criado se não fosse o processo colaborativo do centro europeu de pesquisas nucleares (CERN) onde tinha de fazer conversar pesquisadores de diversos países e gerar sinergia entre as próprias pesquisas. 

 Apesar de razoavelmente antenado no que acontece à minha volta optei por não usar o Facebook. Tenho uma conta aberta, zero amigos, não a mantenho. Confesso que, no fundo, não tenho tempo ou paciência para todos os rituais FB e me preocupo muito com a questão da privacidade.

O artigo 3º do projeto de lei 2.112 (o Marco Civil da Internet), que disciplina o usoda internet no Brasil tem os seguinte princípios:i) garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição; ii)  proteção da privacidade; iii)  proteção aos dados pessoais, na forma da lei; iv) preservação e garantia da neutralidade da rede; v)  preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas; vi)  responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei; e vii) preservação da natureza participativa da rede.

Mas o Rainer tem razão em relação à sua privacidade. Quem usa as redes sociais, especialmente o Facebook, tem a sua privacidade devassada. E chegará o dia em que teremos um chip instalado em alguma parte do nosso corpo. Estaremos monitorados 24 horas por dia.

Vivemos em uma época de super-reprodução. Tudo é reproduzido centenas de vezes até de fato ser saturado. As notícias, as imagens, o conteúdo relevante etc…

Uma nova referência do que significa melhorar de vida viabilizará, permanentemente, um número muito superior de pessoas na Terra. Uma população 40 vezes superior à de todos os tempos, até o início da Revolução Industrial, só será possível, entretanto, com o fim do crescimento econômico como o conhecemos. O crescimento baseado na expansão do consumo de bens materiais está no seu capítulo final. (André Lara Resende, no artigo Os novos limites do possível)

Pietro Queiroz reflete o sentimento de uma geração que é vítima do processo analisado pela André Lara Resende no artigo citado. Por ele e pelo Eduardo Giannetti da Fonseca nesta entrevista da qual publico um trecho: Lamentavelmente, o ambiente não vai aceitar indefinidamente esse desaforo, ainda mais com 1 bilhão de indianos e chineses entrando na corrida armamentista do consumo. O limite virá de fora. Adoraria que viesse do amadurecimento ético, com as pessoas ganhando uma nova consciência e outros valores. Duvido muito. O mundo está se estreitando dentro de um padrão democrático monetário americano dominante. Mas o limite ambiental, que não é de escolha humana, vai se impor.

 

Assim que acordo, utilizo meu iPhone ainda na cama. Ele dormiu ao meu lado enquanto recuperava a carga mais uma vez. Através de um e-mail exclusivo onde recebo o clipping, confiro as principais notícias do dia.

 Quem está envolvido em mídia cívica, perguntou Henry Jenkins? Os blogueiros, os jornalistas colegiais, fontes de notícias étnicas, pessoas que participam de atividades transgeracionais (compartilhamento de experiências digitais) – podem formar as bases do engajamento cívico. Segundo Jenkins, o desafio é a necessidade de a democracia ser mais do que um evento especial que acontece uma vez ao ano. Precisa se tornar um desafio e atividade diária; e todos devem perguntar-se quais tecnologias ajudam a criar esse sentido de engajamento. (do seminário O que é a mídia cívica?, 2007, MIT Communications Forum).

Tenho certeza que esta é uma das reflexões do Gabriel Azevedo. Por isso e pela complementariedade do que se está discutindo nesta postagem, o trecho de uma matéria sobre o seminário com o dev ido link para quem quiser ir mais fundo.

E nesse ponto surge algo muito curioso e interessante, a mesma notícia, lida através do mesmo canal por pessoas diferentes, geram percepções absurdamente diferentes.

Os donos de “lan houses”, afirma o Mário Brandão, são nanoempresários atuando na economia informal. Não recebem qualquer tipo de suporte oficial para cumprir esse papel, o que limita sua atuação na introdução de seus clientes para a utilização das ferramentas mais úteis na internet: redes sociais como ferramentas de empreendedorismo, e-mails como instrumento de empregabilidade, segunda via de taxas, tributos e contas de consumo, consultas a processos judiciais, emissão de certidões, acompanhamento de documentos oficiais, entre dezenas de outros serviços prestados hoje pela internet.

Líder do setor, preside a ABCID, Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital. Há anos batalha para conseguir uma legislação que não imponha barreiras ao funcionamento destes empreendimentos que ainda são fundamentais para o processo de inclusão digital no Brasil, segundo as pesquisas do NIC.br. É ele quem afirma que continua sob risco o fundamental trabalho de formalização das “lan houses” como prestadoras de serviços indispensáveis ao cidadão contemporâneo, nos rincões menos favorecidos pela atuação do Estado.

O twitter constitui um mundo de notícias. Muitas vezes, nem os sites publicaram. É interessante acompanhar o twitter porque, ao longo do dia e parte da noite, tudo gira por alí.

Beatriz Abreu é jornalista e deve concordar que o twitter é uma plataforma de comunicação, um meio. É uma forma de acesso de interação e de troca de informação. É sem dúvida útil para jornalistas e para jornais. Poderá mesmo ser o lead das notícias, um meio para contactar as fontes e mesmo uma boa fonte de informação. Não será um complemento mas mais uma ferramenta que bem usada poderá ser muito proveitosa, como analisa neste entrevista a pesquisadora Patricia Couto.

Depois tomo Rivotril. Se não, com tanta informação, não há Cristo que durma.

Uso excessivo de computador deveria ser considerado um vício e incluído na lista de distúrbios clínicos reconhecidos oficialmente, segundo o psiquiatra  Jerald Block, da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, em editorial no American Journal of Psychiatry. Segundo o especialista, o vício em Internet tem quatro componentes principais: uso excessivo, freqüentemente associado à perda da noção do tempo ou negligência de impulsos básicos; sentimentos de irritação, tensão ou depressão caso o computador esteja inacessível; necessidade de computadores melhores, mais software ou mais horas de uso; e reações negativas como brigas, isolamento social e fadiga ligados ao uso do computador.

Tutinha é dono e CEO da Rádio Jovem Pan, da Bacanas Records, da marca Pânico. Ele e todos os outros que me deram seus depoimentos sobre como se informam no dia a dia para ficarem ligados., assim como eu, somos viciados na rede e corremos o risco de sofrermo distúrbios clínicos conhecidos. A alternativa é perder o bonde da História: Uma poderosa conversação global começou. Através da Internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante. Como um resultado direto, mercados estão ficando mais espertos—e mais espertos que a maioria das empresas. Estes mercados são conversações. Seus membros se comunicam em uma linguagem que é natural, aberta, honesta, direta, engraçada e muitas vezes chocante. Quer seja explicando ou reclamando, brincando ou séria, a voz humana é genuína. Ela não pode ser falsificada. (Do Cluetrain Manifesto)

As inovações causam mudanças dinâmicas que demoram a ser absorvidas. No século XIX, quando os motores elétricos começaram a substituir as máquinas a vapor, a produção como um todo nos EUA caiu por 10 anos. A questão é que grandes máquinas a vapor foram substituídas por pequenos motores – mudou a forma de distribuição do trabalho. Meu amigo David Cavallo complementaria, “a inovação coloca no centro o pensamento das pessoas, no eixo da participação democrática”.

Agora, sou eu, Rodrigo, terminando aqui este convite para um diálogo a todos os que me deram seu depoimento sobre como se informam no dia a dia para não perderem o bonde da História, cuja íntegra de cada um deles começo a publicar amanhã, e aos eventuais leitores que chegaram até este ponto deste texto.

Vivemos o fim de um tempo, de uma era. Convivemos com esta situação ao mesmo tempo que assistimos ao nascimento de novas estruturas sociais, novas arquiteturas econômicas, novas formas de organização política. Uma nova sociedade, um novo mundo emergindo.

O objetivo do Confins é cobrir jornalisticamente este processo, com uma perspectiva de conquista dos novos sertões: o “enredamento” da sociedade contemporânea, com sua exponencial evolução tecnológica, seu frenético processo de dirupção e inovação, seus novos processos de informação, comunicação e articulação. Acompanhar o nascimento da sociedade da chamada era do conhecimento, que ainda não entrou na sua primeira infância e a estruturação da Internet, que é muito mais do que um meio de informação. É a infraestrutura do futuro.

Na década de 70, no primeiro choque do petróleo, o historiador Fernand Braudel (1902 – 1985) dizia que estávamos entrando numa crise de longa duração. Na sua visão, as instituições criadas a partir do nascimento do Estado nacional, em meados do século 19, não suportavam mais mais o conjunto dos conjuntos, a sociedade.  Os políticos, os economistas, dizia ele, vão dizer que a crise está  passando. Estão no papel deles e a crise terá momentos mais críticos e outros menos críticos, mas é um movimento de longa duração. Ele argumentava que o Estado nacional, as instituições que regulamentam as relações entre os Estados, a economia global não suportavam o  mundo que emergiu e se estruturou a partir do século 19. E que as mudanças ocorreriam no tempo da História.  

É dele também, no seu Escritos sobre a História, o texto com o qual termino esta postagem, com a consciência da nossa relatividade e a convicção que temos que lutar até o fim por um mundo equânime e justo. um mundo melhor:

Vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.

Mas ao lado do tempo que passa, há o tempo que permanece, esse passado profundo no qual, sem que nós habitualmente saibamos, a nossa vida é apanhada.

PS:  Mídias Sociais & Jornalismo

O Brasil profundo e sua marca estão emergindo graças à rede

Qual é a sua impressão de uma marca chamada Brasil?

depoimento para http://100degreesofbrazil.wordpress.com/

(English version below)

O Brasil profundo e sua marca estão emergindo graças à rede

Em relação ao mundo contemporâneo, vejo uma encruzilhada quando penso o Brasil. Somos a 8ª economia do mundo, houve um significativo processo de ascensão social desde que o governo Fernando Henrique Cardoso acabou com perverso processo inflacionário, com o qual convivemos dezenas de anos, e deu fundamentos para a economia. Lula e sua sucessora Dilma se beneficiaram disso e ampliaram as políticas sociais, mas menosprezaram a obrigação de continuar as reformas necessárias para conquistarmos um crescimento orgânico. E todos os brasileiros estão pagando por isso, como ficou claro nas manifestações e protestos por todo o país neste mês de julho.

Existe algum paradigma, alguma visão para a Humanidade?

alvin toffler

Entendo que vivemos uma crise global. O Estado nacional, os partidos políticos, as instituições que regulamentam as relações globais ficaram velhos para os desafios que tempos pela frente. A globalização, predicava Nicholas Negroponte anos atrás, privilegia antes de tudo o ‘glocal’. E argumentava: ‘Hoje, é óbvia a tendência de a internet modificar o papel que as pessoas exercem, mesclando a separação entre vendedor e consumidor, entre editor e leitor. Todas as coisas digitais são grandes e pequenas ao mesmo tempo – um paradoxo, não uma contradição. Redes descentralizadas irão substituir hierarquias, e os controles centrais serão substituídos por sistemas auto-organizáveis que se parecerão muito mais com a relação entre o homem e a natureza do que com relações institucionais.’

A cultura, e consequente organização social, política e econômica dominante na sociedade contemporânea, ainda é aquela que começou a nascer no século 16, quando um conjunto de inovações tecnológicas num contexto histórico favorável contribuiu para o início do enterro do Antigo Regime, no qual a Terra estava no centro do universo, a ordem social era imutável e a Igreja, junto com o poder absolutista, tinha o monopólio da informação.

A prensa de Gutenberg estava entre as inovações tecnológicas que contribuíram para a ascensão do mundo burguês. E os seus principais produtos – o livro e o jornal – foram entendidos durante muitos anos pela ordem dominante como ferramentas subversivas. Esta subversão gestou e gerou o mundo em que vivemos. Um mundo onde a iniquidade social ainda incomoda e assusta, mas no qual todas as barreiras para a geração de riqueza e de conhecimento foram derrubadas, num processo que também gerou a onda de inovação que estamos vivendo e a possibilidade de darmos o próximo salto.

Pela primeira vez na história desde a revolução industrial, como nota Yochai Benkler, os meios básicos de criação de informação, conhecimento e cultura estão nas mãos da maioria da população do planeta. Nos últimos anos ocorreu uma radical descentralização destes meios. Com isso, tivemos uma radical descentralização dos processos de inovação, tivemos grande descentralização da criatividade, tivemos uma radical descentralização da participação democrática. Você não precisa mais ser dono de um jornal ou rádio nem fazer parte dos afortunados para participar da política, como aponta Yochai Benkler.

Os tremendos e revolucionários impactos da internet na sociedade

yochai  benkler

É este contexto que me faz ser otimista em relação a um futuro que não vou ver. E especialmente otimista em relação ao Brasil. Somos um país continental, sofremos colonização de todas as partes do mundo e soubemos nos abrir a este processo miscigenando raças e culturas de uma forma razoavelmente harmônica. Vivemos nas grandes cidades, que estão no olho do furacão, tensos com o início desta revolução promovida pela internet, a web, a rede. Tensos com a imaturidade do processo e o conflito entre o novo e o velho, entre a economia industrial e a nova economia, que por enquanto destrói empregos no chão de fábrica e agora em setores que usam a inteligência: jornalismo, medicina, advocacia, educação etc.

Mas se o processo não for abortado ou atrasado pelas empresas de telecomunicações, que tem o monopólio do acesso à nova infraestrutura da sociedade, vamos criar com certeza um novo mundo, com novos fundamentos e referências sobre a relação capital trabalho, novos fundamentos e referências sobre os processos políticos, novos fundamentos e referências sobre os processos de produção de informação, conhecimento, cultura, bens de consumo e riqueza.

O Brasil não é um continente envelhecido olhando o seu passado, não é os países asiáticos disciplinados pela miséria e não é os países do Norte da América estressados por dezenas de anos liderando a revolução industrial e seu processo de inovação, que fomentou e construiu a infraestrutura do futuro: a internet, a web, a rede. São nas pequenas cidades do interior do Brasil, nos confins das muitas regiões de florestas nativas e nos nossos sertões que estão as raízes dos brasileiros. Quando todos forem inseridos na sociedade do conhecimento e participarem do processo, ofereceremos ao mundo um novo mundo, transformando e revigorando a marca Brasil e a forma como nos vêm lá fora, num mundo no qual o nacionalismo tenderá a desaparecer.

O Brasil dos confins, das periferias, das pequenas cidades

ditão virgílio, o saci e as chuvas.

São pessoas simples que trabalham o seu dia a dia sem as infinitas perspectivas dos centros do mundo. Eles, os habitantes das periferias, das pequenas cidades, das comunidades da amazônia, os caiçaras, os índios, a maioria dos brasileiros agregarão outros valores e seus humores aos processos institucionais da nossa sociedade. Será um mundo mais aberto, fluido e oxigenado. E a marca Brasil refletirá o seu povo, com o seu colorido, com o seu folclore, com a sua música, com a sua diversificada cultura, as suas praias paradisíacas, as suas florestas misteriosas. Com cordialidade, disposição de conviver com o controverso, sua esperança e frustrações: a marca Brasil dos Confins.

What is your impression about a brand called Brazil?

testimony to http://100degreesofbrazil.wordpress.com/

 

The deep Brazil and its brand are emerging thanks to the network

In relation to the contemporary world, I see a crossroads when I think of Brazil. We are the eighth economy in the world, there has been a significant social ascension process since Fernando Henrique Cardoso’s government ended with the perverse inflationary process, which we lived with for dozens of years, and gave grounds for the economy. Lula and his successor, Dilma, were benefited with that and expanded the social policies, but despised the obligation to continue the necessary reforms to achieve organic growth. And all Brazilians are paying for it, as it became clear during the demonstrations and protests throughout the country this July.

Is there any paradigm, any vision for humanity?

alvin toffler

I understand we live a global crisis. The national State, the political parties, the institutions that govern the global relations got old to the challenges that we will face ahead. The globalization, Nicholas Negroponte used to say years ago, emphasizes above all the “glocal” (global + local). And he argued: “Today, the trend is obvious from the Internet to change the role that people exercise, combining the separation between seller and consumer, between publisher and reader. All digital things are large and small at the same time – a paradox, not a contradiction. Decentralized networks will replace hierarchies and central controls will be replaced by self-organizing systems that will seem much more with the relationship between man and nature than with institutional relations.

The culture, and the consequent social, political, and economic organization dominant in the contemporary society, is still the one that started at the 16th century, when a set of technological innovations in a favorable historical context contributed to the beginning of the burial of the old Regime, in which the Earth was at the center of the universe, the social order was immutable and the Church, along with the absolutist power, had the monopoly of information.

The Gutenberg’s press was among the technological innovations that have contributed to the rise of the bourgeois world. And its main products – the book and the newspaper – have been understood for many years by the dominant order as subversive tools. This subversion nurtured and created the world in which we live. A world where social inequity still bothers and scares, but in which all barriers to the generation of wealth and knowledge were torn down, in a process which also generated a wave of innovation that we are living and the possibility to take the next leap.

For the first time in history since the industrial revolution, as Yochai Benkler notes, the basic means of creating information, knowledge and culture are in the hands of the majority of the world population. In recent years there has been a radical decentralization of these means. With that, we had a radical decentralization of innovation processes, a great decentralization of creativity, a radical decentralization of democratic participation. You no longer need to own a newspaper or a radio or be part of the “fortunate ones” to participate in politics, as Yochai Benkler says.

The tremendous and revolutionary impacts of the Internet on society

yochai  benkler

It is this context that makes me optimistic about a future that I will not see. And I’m especially optimistic about Brazil. We are a continental country, we suffered colonization from all parts of the world and we knew how to open ourselves to this process mixing races and cultures in a reasonably harmonious manner. We live in big cities, which are in the eye of the hurricane, tense with the beginning of this revolution promoted by the internet, the web, the network.  We are tense with the immaturity of the process and the conflict between the new and the old, between the industrial economy and the new economy, which so far destroys jobs on the factory floor and now in sectors that use intelligence: journalism, medicine, law, education, etc.

But if the process is not terminated or delayed by telecommunication companies, that has a monopoly on access to the new infrastructure of society, we will certainly create a new world, with new foundations and references on the capital-work relation, new foundations and references on political processes, new foundations and references on production processes of information, knowledge, culture, consumer goods and wealth.

Brazil is not an aged continent looking at its past, it is not the Asian countries disciplined by misery and it is not the countries from North America stressed for dozens of years leading the industrial revolution and its innovation process, which fostered and built the infrastructure of the future: the internet, the web, the network. It is in the small cities in the interior of Brazil, in the wilds of the many regions of native forests and in our hinterlands that are the roots of the Brazilians. When all is inserted in the knowledge society and participating in the process, we will offer the world a new world, transforming and reinvigorating the “brand Brazil” and how they see us out there (abroad), in a world in which nationalism will tend to disappear.

Brazil of the confines, the peripheries, the small towns

ditão virgílio, o saci e as chuvas.

They are simple people who work their day to day without the infinite perspectives of the centers of the world. They, the inhabitants of the suburbs, small towns, the communities of the Amazon, the native population, the Indians, most Brazilians will add other values and their moods to the institutional processes of our society. It will be a more open, fluid and oxygenated world. And the “brand Brazil” will reflect its people, with its colorful, with its folklore, with its music, with its diverse culture, its heavenly beaches, its mysterious forests. With friendliness, with willingness to live with the controversial, its hopes and frustrations: the “brand Brazil” of the Confines.

rodrigo mesquita

A entrevista do Paulo Bernardo no Estadão, um exercício de desinformação

Não dá para considerar como  entrevista (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,brasil-exigira-respeito-a-privacidade-na-rede,1053264,0.htm): os entrevistadores dão o microfone para o entrevistado, nosso ministro das comunicações, fazer o seu jogo. Entrevista ocorre quando há perguntas fundamentadas e contrapontos e contestações quando é necessário.

Vamos à entrevista ou, melhor, exercício de desinformação: Paulo Bernardo fala que vai exigir explicações do governo norte-americano sobre a espionagem em massa que foi feita no Brasil. Até aí, tudo bem. É a obrigação do seu ministério.

Em seguida, ele argumenta que o órgão que regulamenta a internet globalmente, sem citar o nome, Icann (http://en.wikipedia.org/wiki/ICANN), é ligado ao departamento de comércio dos EUA, procurando levar o leitor desavisado acreditar que se trata de uma uma extensão do governo norte-americano e que defende exclusivamente seus interesses.

Não diz que é uma instituição do mundo científico global, com brasileiros no board, e responsável até agora pela liberdade e neutralidade da rede, que desde o início vem sendo ameaçada pelas empresas de telecomunicações de todo o mudo, que têm um poder desmesurado  por terem o monopólio do acesso à internet e que lutam com todas as suas forças, maior que a maioria dos governos do planeta, para acabarem com a neutralidade da internet para poderem lucrar ainda mais com a rede. E os entrevistadores do #Estadão? Deixam o ministro com o microfone e não fazem nenhuma das perguntas obrigatórias sobre esta questão.

Além, de não fazerem as perguntas obrigatórias, aceitam a argumentação do ministro de que a reunião da União Internacional das Telecomunicações, UIT, um braço das empresas de Telecomunicações, sem nenhum compromisso com a liberdade de neutralidade da rede, em Dubai, abriu a discussão sobre uma forma de tirar o poder dos EUA sobre a internet.

China, Irã e a Líbia do facínora Kadafi, junto com o Brasil do PT, foram alguns dos governos de países que se aliaram às empresas de Telecomunicações. Evidentemente, não porque estão comprometidos com o a liberdade e a neutralidades da internet e o processo de inovação que ela desencadeou. Porque querem controlar a internet e ter o domínio da informação contra os interesses dos cidadãos das nações que deveriam representar e servir.

Mas o jogo de desinformação do ministro, com a cumplicidade da ignorância e falta de profissionalismo dos pseudos jornalistas do #Estadao não para aí. Paulo Bernardo fala da instituição brasileira responsável pela gestão da internet aqui, o Comitê Gestor da Internet, que tem uma “minoria de representantes do governo”, como se isso fosse um erro, um defeito. E não um mérito, algo extremamente positivo e necessário para o futuro da liberdade e da neutralidade da rede. A cidadania está representada, as teles estão representadas, os agentes da economia estão representados e o governo de forma minoritária, como deve ser. Desta forma, o órgão não está nas mãos do governo, seja lá quem for que detenha o poder.

Pra terminar, os pseudos jornalistas do #Estadao, não fazem nenhuma pergunta sobre o Marco Civil da Internet, que está para ser votado pelo nosso medíocre Congresso e que em função dos interesses do Paulo Bernardo (contribuir para a  eleição de sua mulher como governadora do Paraná), da falta de compromisso com o interesse público dos nossos deputados e senadores e do poderoso lobby das empresas de Telecomunicações corre o risco de sofrer adendos que podem transformar num frankenstein uma lei considerada exemplar em todo o mundo e que já passou por todos os processos de debate público. Deveria ser aprovada como está e ponto final.

É isso aí: o #Estadao graças à falta de profissionalismo e ignorância dos seus jornalistas fazendo o jogo do Brasil da parte mais sórdida do PT em função de um jogo de poder global que sempre existiu e deve ser combatido. Mas com inteligência, seriedade e profissionalismo. É triste e dolorido ver isso num jornal com a história do #Estadão.

Navegando pelo passado de uma reflexão sobre o futuro

Navegando pela internet, nesta quinta-feira, dia 28 de fevereiro, fui bater nesta entrevista dada no final da década de 90, quando dirigia a Agência Estado. Apesar de não usar a palavra disrupção, hoje tão comum nos meios que acompanahm a indústria da informação, ela está nas entrelinhas das minhas respostas. Iniciei  o projeto AE – transformar uma unidade operacional de O Estado de S Paulo numa moderna turbina informativa para o mercado – em 88. Já naquela época, tinha consciência de que os jornais iriam perder o domínio sobre os classificados – os pequenos anúncios de empregos, imóveis, carros, oportunidades – para a computação e as telecomunicações. Tudo isso e mais a visão de que o futuro do modelo de negócios seria moldado sobre processos de gestão de relacionamento de setores e segmentos da sociedade, está nesta entrevista. Por isso, não resisti em republicá-la no meu blog.

Rodrigo Mesquita

Diretor da Agência de Noticias Estado do grupo O Estado de São Paulo

Entrevista concedida a Eugênio Araújo

Título: O futuro das agências de notícias e negócios

Fonte: Site Máster em jornalismo/Universidade de Navarra

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Cada um dos meios de informação – o jornal, as rádios, as TVs e as agências com seus conjuntos de serviços – é uma plataforma de relacionamento com o público. A Agência Estado trabalha com dezenas de plataformas diferentes, com características específicas, conforme o mercado/comunidade que ela vem procurando desenvolver (veja em Estadão). Hoje, o negócio que menos cresce da AE é o seu serviço voltado para o mercado tradicional das agências de notícias – o mercado de meios: jornais, revistas, rádios e TVs. Apesar disso, a AE considera esta plataforma de negócios estratégica em função das oportunidades sinérgicas que ela lhe abre em relação aos demais serviços que oferece aos diversos mercados/comunidades que vem desenvolvendo e procurando fidelizar: financeiro, nove setores da indústria brasileira, o agronegócio – do setor financeiro à produção – e os players do mercado/comunidade mídia.

Hoje, quase 100% da nossa receita é conseqüência de assinatura. Mas trabalhamos com a perspectiva de que, no futuro, a receita será conseqüência da geração de negócios para as comunidades que servimos. Quero ressaltar com isso que, no momento, sinto uma tendência no mercado de fechamento de serviços de informação com real valor agregado. Para citar um só exemplo, falemos do FT.com (Financial Times), um serviço que nasceu aberto e custou cerca de US$ 200 milhões de perda para a Pearson e que recentemente foi fechado e cujo modelo de negócio vem sendo reconstruído.

Master em Jornalismo – Qual é o papel e quais são as estratégias das agências perante os novos meios e as novas tecnologias? A Internet é a saída natural e a ferramenta do futuro para as agências de notícias?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Na minha visão de futuro, o jornal de papel está condenado, o papel do jornal é perene. Quero dizer com isso que não vejo a Internet/Redes como um novo meio que compete com os que conhecemos. Vejo a Internet/Redes e seus sucedâneos como uma nova infra-estrutura que permeará e sustentará todos os meios de comunicação social num movimento convergente. Qual é o papel do jornal? Ele representa, em última instância, o ponto de encontro das comunidades que serve para refletir, analisar e debater sobre os problemas que lhe afligem. O jornal tem que cobrir os movimentos macro da história traduzidos no dia-a-dia, com a missão de fornecer para o leitor a perspectiva, a interpretação isenta, o contexto, a análise.

Os serviços que a AE vem desenvolvendo nos últimos 15 anos para desenvolver e fidelizar novos mercados/comunidades têm outra função. A função destes serviços/plataforma de relacionamento – compostos por informação e tecnologia – é instrumentalizar o cidadão enquanto agente econômico e contribuir para que cada uma das cadeias econômicas destas comunidades seja mais eficaz e competitiva em níveis locais e globais.

Master em Jornalismo – O êxito será das agências globais, as grandes, ou será das pequenas e mais flexíveis? Que papel tem a especialização? Quais as vantagens e inconvenientes se se tem em conta exemplos como os da Reuters e sua atual situação?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me sinto capaz para responder sua pergunta. O que posso dizer é que a AE é líder no mercado/comunidade financeira no Brasil – temos 60% deste mercado contra Reuters, Bloomberg e mais três pequenas empresas locais. Por quê isso ocorre? Porque Reuters e Bloomberg trabalham com o mesmo produto distribuído em todo o mundo. O mercado financeiro tem necessidades de uma cobertura que vai além da sua tecnicidade. Nosso acompanhamento dos movimentos da macroeconomia brasileira e dos impactos da política nacional sobre os mercados e a economia fazem a diferença. Se Reuters e Bloomberg resolverem fazer esta cobertura no Brasil, o negócio deles ficaria inviável em função dos custos. Além disso, por causa da escala e nossas especificidades, trabalhamos com preços competititivos.

A AE pretende dar uma contribuição para a competitividade da economia brasileira como um todo. Sua lógica operacional não tem nada a ver com a de empresas de informação globais. Sua plataforma de relacionamento para o mercado/comunidade financeira acaba sendo o filtro de todo este esforço de cobertura. É isso, junto às competências tecnológicas e comerciais que conquistamos em função das especificidades do mercado brasileiro, que  permite a AE ser competitiva em relação à Reuters e Bloomberg.

Acredito que a evolução da Internet/Redes e seus sucedâneos abrirá espaço no futuro para uma infinidade de negócios pequenos e grandes – não só na indústria da informação. O movimento de concentração/monopolização – em certa medida, conseqüência da “idade da pedra” no mundo das redes – já sofreu seus primeiros impactos negativos.

Master em Jornalismo – Também se fala muito de redações multimídia. Que realidades apresenta a Agência Estado neste sentido? Que importância tem conseguir uma verdadeira redação multimídia e uma convergência real? O que se está fazendo na sua empresa neste sentido?

Rodrigo Lara Mesquita – A AE é pioneira na montagem de uma estrutura de produção editorial integrada em seus diversos níveis. Construiu uma redação capaz de gerar conteúdos em formatos diversos e destinados a públicos também diferenciados. Mais recentemente, incorporamos à nossa redação os instrumentos necessários para a produção de conteúdos de aúdio e vídeo, o que nos permitirá abranger todo o ciclo de produção jornalística. Para nós, conceitos como convergência e multimídia já são plena realidade.

Temos uma única redação composta por cerca de 150 jornalistas e um único sistema editorial. Considero que somos uma turbina informativa adequada para o momento que vivemos. A AE tem consciência de que a dinâmica das atuais redações deve acompanhar as possibilidades que a tecnologia nos abre todos os dias.

Master em Jornalismo – Em quê se diferencia a Agência Estado de outras agências? Detalhes peculiares e definitivos.

Rodrigo Lara Mesquita – O foco da AE na economia brasileira define sua principal peculiaridade. A consciência de que, a médio prazo, a relação com as comunidades econômicas que vimos desenvolvendo devem caracterizar a AE como uma empresa de network e não de business information definem as demais peculiaridades. A AE, uma empresa totalmente virtual, é um planeta com dezenas de satélites ligados virtualmente a ela. Se considerarmos os dados dos pregões das bolsas, cerca de 90% dos conteúdos que distribuimos em nossas plataformas de relacionamento são de terceiros, de parceiros da AE. Considerando só conteúdos-texto, cerca de 60% dos conteúdos são nossos. O resto é de terceiros.

Vivemos uma época de revolucionários avanços tecnológicos que levaram o ambiente de negócios a se caracterizar pelo que o laboratório de mídia do MIT (Media Lab) e a Solan School of Business definiram como “o movimento das grandes convergências”. São elas: a convergência entre pesquisa e desenvolvimento; a convergência entre redes de comunicação e mercados, cada vez mais difíceis de se distinguir; a convergência entre precificação e mecanismos de relação comercial com o mercado; a convergência entre design e engenharia; a convergência entre produto e serviço; a convergência entre conteúdos e transações; e a convergência entre front e back office.

É evidente que estes movimentos têm impactos ainda impossíveis de serem mensurados em toda a sua magnitude na estrutura da economia conhecida. Para Walter Bender, diretor do Media Lab, “há duas revoluções fermentando. A primeira é uma revolução de comunicação interpessoal. A segunda revolução não é de tecnologia, mas de epistemologia e aprendizado. Construcionismo, aprender fazendo; é a revolução de Dewey, Piaget e Papert. O aprendizado acontece melhor não no espaço formal da sala de aula. Ele acontece em aplicações concretas. Eis porque devemos buscar construir ambientes para fazer”.

Não é esta a lógica do mundo tradicional de negócios, mundo acostumado com empreendimentos com break-even point e pay backs previsíveis. A consciência de que tem que construir uma empresa que lhe permita aprender fazendo (e renumerando o capital social) disseminada pelos profissionais que compõem o negócio faz a diferença. Os profissionais da AE sabem que a empresa terá que se reinventar a cada dia, na medida em que as tecnologias de informação forem se desenvolvendo e que o público for se aculturando a elas. É este o fator determinante do processo, o aculturamento do público às possibilidades ainda restritas do mundo em rede.

Além disso tudo, a AE é detentora de uma certa cosmovisão. Herança positiva de uma empresa familiar e, na minha opinião, fator decisivo para o sucesso de uma empresa de informação. Considero a Agência Estado uma empresa única.

Jornais: o que está em crise é a forma como eles pensam o negócio

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What’s the right way to respond when technology disrupts the position of an established business? The Harvard Business School professor has lessons for the news business from other industries.

 

Rodrigo Mesquita‘s insight:

Even the newspaper business is in a growth industry…It’s just their way of thinking  about the industry that is in decline

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Todas as empresas fazem parte da indústria da informação

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The Obama administration has shown what is possible when a government becomes a media entity in its own right. But is that good or bad for a free press and for society in general?

Rodrigo Mesquita‘s insight:

empresas de qualqur setor, governos, forças armadas, somos todos empresas de mídia. isso é bom para a democracia?

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