Informação: dos jornais a um mundo sem fronteiras


Jornalista da família Mesquita fala sobre a função histórica dos jornais impressos, inclusive o do O Estado de S. Paulo, e das mudanças que a era da internet trouxe. Ele aborda como é possível fazer jornalismo nos novos tempos
 –  entrevista de julho de 2013 transcrita do página 22 da GV

 

Página 22 – Rodrigo,  você acredita na existência de uma crise dos meios jornalísticos provocada pelo descompasso entre a novíssima sociedade do conhecimento, revolucionada pelo digital, e as antigas estruturas da informação ?

Rodrigo – O apogeu da indústria de jornais acontece na década de 1940. A partir daí, este setor da indústria de comunicação social começa a envelhecer. Assim como as plataformas digitais atuais, os jornais também eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos.  Alexis de Tocqueville ( filósofo político francês, 1805-1859) aborda, na Democracia da América o papel dos jornais que estavam se estruturando no século 19 nos Estados Unidos. Para Tocqueville, os jornais contribuíam para  os cidadãos se sentirem parte de uma comunidade local, que por sua vez fazia parte de uma comunidade maior,  que era a nação americana nascendo. O jornal teve durante dezenas de anos o papel de plataforma de articulação das comunidades locais. Veja o caso do meu bisavô, Júlio Mesquita (jornalista, 1862-1927)…

Página 22 –  Júlio Mesquita foi o fundador do jornal “O Estado de S Paulo”?

Rodrigo – Não, meu bisavô foi um “self-made man” e não foi o fundador do Estadão.  O jornal  A Província de S Paulo foi fundado por um grupo de republicanos em 1875 com o objetivo promover a República e a abolição da escravatura.  Ele foi levado como colaborador para este jornal por Rangel Pestana (jornalista e político, 1839-1903) no final do século 19.  Para os republicanos, o jornal não era um negócio. Era uma ferramenta para se atingir seus objetivos. Depois de a República ter sido proclamada e a escravatura abolida, este grupo de republicanos perdeu o interesse no jornal. Ele não tinha mais nenhum valor para eles.

Meu bisavô, com a ajuda do pai imigrante português semi analfabeto e que escolheu o filho que iria estudar, começou a comprar as ações do jornal até adquirir 100%.  Neste processo, partiu para o rompimento dos laços do jornal com o Partido Republicano que o subsidiava. Desde a proclamação da República, o  nome do jornal tinha sido alterado  para O Estado de S Paulo. Concomitantemente ao  rompimento, promoveu uma profunda reforma editorial no jornal e fez uma série de inovações empresariais. Ninguém podia assinar textos no jornal, nem ele, “porque não é nosso, é do  público”. Com isso ele indicava que considerava o jornalismo uma atividade coletiva e colaborativa e começava a definir a missão do jornal.

Era um homem além do seu tempo, como fica claro nesta antevisão do que seria colaboração em rede.

Página 22 –  E qual era esta missão?

Rodrigo –  A missão do O Estado de S Paulo  (e de todos os jornais sérios e éticos) era levantar os problemas que preocupavam a comunidade de São Paulo e promover o debate destes problemas pela comunidade. Ele tinha uma frase que considero lapidar, verdadeira até hoje para as empresas jornalísticas e que mostra que suas ideias (de rede) continuam contemporâneas:  Jamais sonhei que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública de meu estado. Tudo o que eu fiz na minha vida foi sondar a opinião pública e me deixar  levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada.

Um exemplo disso foi a greve operária de 1917, liderada pelos operários anarquistas. O governo criou um comitê de arbitragem, que não chegava a uma solução. Aí chamaram o jornal para arbitrar o comitê de arbitragem. E O Estado de S Paulo ficou do lado dos operários anarquistas porque as condições dos trabalhadores eram desumanas. Nesta época, os jornais estavam tão inseridos  na vida das comunidades que podiam representar este papel: o de árbitro de uma crise da comunidade que serviam.

A partir do  final da década de 1940, o papel de articulação da sociedade do meio jornal começa a mudar. O jornal deixa de acompanhar proporcionalmente o crescimento da população, começa a enfrentar a concorrência de múltiplas plataformas de mídia, a explosão demográfica e o crescimento desmesurado das cidades, que fazem que o meio jornal comece a se distanciar do seu público.  A sociedade  vai ganhando um outro  grau de complexidade e vai se fragmentando de tal forma que começa ficar difícil para o meio jornal fazer a cobertura jornalística com a mesma amplitude e profundidade do início do século passado até meados da década de 40.

É bom lembrar que desde o final da década de 40 a comunidade científica acadêmica já estava estudando infraestruturas na direção da internet e prevendo a possibilidade de sistemas de comunicação distribuídos. Em 1968, o cientista  J.C. Licklider  já dizia que, em poucos anos, iríamos nos comunicar melhor através de uma máquina do que face a face.

Página 22 –  Mas se um afastamento de sua missão e novas formas de articulação já se formavam há tanto tempo, por que os jornais continuaram com o mesmo modelo?

Rodrigo – Os graves problemas que a indústria de jornais está enfrentando é resultado da sua acomodação. Esta crise não surgiu de repente. Os jornais tiveram o monopólio dos “classificados” das comunidades em que estavam inseridos durante cerca de meio século. Do início do século 20 aos anos 40, eram a Ágora política e comercial das cidades que serviam.  Todas as empresas que atingem uma posição monopolista emburrecem. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social. A maioria deles não tinha e não tem a visão empresarial dos patriarcas.

E isso ocorre até hoje. Por  isso, o que está em risco hoje é o jornal de papel. O papel do jornal, ser um instrumento de articulação para a sociedade, é um espaço que continua aberto para ser ocupado. A nova infraestrutura de comunicação abre espaço para o que chamamos de “jornalismo cidadão” e novos  players sem legados. No futuro, todo cidadão que tiver um compromisso com o processo institucional de alguma forma vai estar ligado ao que chamamos de jornalismo.  O  jornalista profissional será necessário para realizar a filtragem daquilo que tem consistência do que é besteira, bobagem.

Não existem dois mundos hoje. Um analógico, outro digital. O rejuvenescimento e revigoramento da economia analógica depende da evolução da economia digital, que é consequência da evolução da economia da era industrial e do gênio humano. Uma das principais áreas de cobertura jornalística hoje é a própria internet, na medida em que as fontes primárias estão presentes na rede e que o público, a cidadania, está lá num processo de conversação sem fim debatendo seus problemas, ansiedades, sonhos e perspectivas.

Hoje, todas as pessoas e todas as empresas são parte também do setor de informação. Até muito pouco tempo atrás, as empresas tradicionais de informação tinham o domínio da audiência.  E  qualquer pessoa que, por motivo político, econômico, institucional, comercial, quisesse se relacionar com o público, precisava fazer lobby sobre as estruturas jornalísticas e jornalistas para que a sua informação, a sua mensagem, chegasse ao público. Ou comprava espaço publicitário. Hoje isso não é mais necessário.  No futuro, a publicidade e o marketing serão substituídos por um processo de conversação contínuo das empresas, das pessoas, das entidades com o público na Web, na rede. Dentro de muito pouco tempo, não haverá mais barreiras entre conteúdo e mídia. Isso  estará inserido nos processos de cada profissional e de todas as empresas, nas redes sociais que elas paulatinamente estão construindo.

Página 22 – E as empresas de informação tem dificuldade em aceitar esta nova realidade?

Rodrigo – O  problema dos jornais e jornalistas é que se consideravam (e em alguns casos ainda se consideram) superiores aos mortais comuns e por isso, no início da internet como Web, eles não mergulharam nas peculiaridades da rede. E a principal peculiaridade da rede é que, por meio do algoritmo, ela permite a criação de comunidades sobre comunidades a partir do nada.

Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos. E contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política. Enfim, o papel do jornal era contribuir para articulação da sociedade para que ela fizesse valer seus interesses frente ao poder público e frente aos poderosos da sociedade. Se os jornais tivessem mergulhado na Web, rede, e procurado entendê-la desde o início, com certeza teriam encontrado caminhos para continuar cumprindo sua missão neste novo ambiente da informação, comunicação, articulação, este ambiente de conversação da sociedade.

Esse papel continua aberto para ser realizado e existem formas de monetizar isso oferecendo novas formas de serviços para pessoas, para empresas e para setores da economia que vão inexoravelmente entrar neste processo de digitalização da economia.  As empresas têm que organizar suas redes sociais nas mídias sociais. Elas têm que monitorar sua marca, entender como o público enxerga a empresa, o seu setor por meio da rede. Têm que estabelecer canais de conversação com seu público potencial, seus fornecedores e distribuidores.

O monitoramento se faz através de softwares, os processos de big data. A empresa tem que identificar quem é simpático a ela, saber quais são os problemas que ela enfrenta em relação à distribuição, ao preço, entender como sua marca é  vista, cumprir também com seu papel social.

O problema é que as empresas, ainda naturalmente com um pé na velha economia, têm medo do  que  estão vendo pela frente e não sabem como fazer isso. As agências de publicidade tradicionais também não sabem fazer isso, transferem processos analógicos para o mundo digital, fazendo no máximo buzz, quase um barulho inócuo. Existem, é claro, as exceções, empresas modernas que já estão fazendo isso e que deveriam ser vistas como exemplo.

Se existe participantes de um setor da velha economia que têm cultura para fazer isso são as empresas jornalísticas, desde que tenham humildade para olhar para o papel histórico delas, que é sua capacidade para articular públicos. A notícia, a informação comercial é um meio, não um fim.

Página 22 –  Isto está acontecendo?

Rodrigo – Não na dimensão que poderia ocorrer, mas há movimentos  nesta direção. O Nieman Journalism Lab, fundação voltada para o jornalismo da Harvard University, tem alguns trabalhos  nesta direção. Mas os Estados Unidos é prático demais. Para eles é a indústria do News Print. Pra mim, a notícia não tem sentido por si só, distribuída no etéreo. As empresas não fizeram dinheiro pela sua capacidade de distribuir informação. Numa perspectiva histórica, legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da  sua capacidade de articular públicos. É o conceito do meu amigo Walter Bender, que é uma  das minhas premissas sagradas:  Notícias não mudam o mundo. Elas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir. Elas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.

É também por isso que os processos de informação, comunicação e articulação na rede, na Web, impactaram e impactam as tradicionais estruturas das empresas jornalísticas e seus modelos de negócios. Invés de procurar um caminho neste novo mundo e mexer na sua estrutura e processos, as empresas jornalísticas estão mandando embora os jornalistas mais experientes e mais caros e contratando mão de obra inexperiente e barata.

A rede permite e fomenta novas formas de relacionamento de capital e trabalho e é sobre isso que todas as empresas (não  só as jornalísticas) deveriam estar refletindo.  As jornalísticas deveriam pegar diversos grupos de jornalistas experientes e criar condições para que estes pequenos grupos formassem suas ilhas jornalísticas, criassem pequenas empresas voltadas para fornecer notícias sobre um nicho, cobrir um nicho. Subsidiá-los por  um período curto. As velhas empresas jornalísticas criariam um canal de  relacionamento com eles e juntos desenvolveriam formas de monetização não exclusivas, mas parcerias. Um processo de satelização, consequência na nova infraestrutura da economia: a internet, a web, a rede.

Se você ficar em uma estratégia de cortar custos em função de queda da publicidade que está sendo registrada e que vai continuar sendo registrada, é a morte. Eu acho também que esses sistemas de “paywall” (acesso a conteúdo da internet apenas através de pagamento de uma tarifa) é uma barreira para a missão dos jornais, que vai além do informar. A informação que o jornal distribui tem sentido na medida que é um fator da articulação da sociedade e se você coloca limites se cria uma barreira também para sua atuação.

Faz sentido você ter sistemas de micropagamentos para informação superespecializada e setorizada, para pacotes específicos, mas não para o geral. Empresas que usam “paywall” como Wall Street Journal, Financial Times e New York Times estão fazendo pouco dinheiro e são brands globais na língua dominante. Sou mais pela abertura de novos caminhos trilhados pelo The Guardian, Forbes e outros. A Web é aberta e não adianta lutar contra isso. O núcleo principal da sua atividade não pode ser fechado, o modelo  de negócio tem que ser aberto.

Página 22 – Mas de onde virá a receita destas empresas?

Rodrigo – O processo de digitalização da economia  é irreversível. As empresas têm que procurar caminhos de monetização em função de serviços de articulação na rede e no processo de digitalização das empresas. Hoje você tem softwares que podem monitorar as informações que estão sendo publicadas nas diversas mídias/ferramentas sociais que estão dentro da internet, como Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, Pinterest, Path, Youtube, Tumblr, Orkut etc.  Você pode acompanhar as discussões de assuntos específicos ou de determinada indústria ou governo ou entidade, praticamente em tempo real, em cada uma dessas mídias e nas mídias tradicionais que  atuam na rede.  Por outro lado, estes softwares mostram apenas estatísticas que precisam ser analisadas em função do seu objetivo. E este papel de análise pode ser feito por jornalistas com a contribuição de outros profissionais.

A rede hoje em certa medida é uma balbúrdia. Você tem uma porcentagem muito grande do público, com certeza mais do que 50%, que não consegue fazer distinção entre informação estruturada, relevante, primária ou uma  análise fundamentada e com valor   da “informação” dos espertalhões que estão fazendo marketing no mau sentido, retrabalhando informações de terceiros sem acrescentar  nada, fazendo  barulho para pegar vítimas.  As tradicionais empresas jornalísticas, com a força de suas marcas e sua relação centenária com a cidadania, deveriam estar oferecendo este serviço também. De monitoramento, de curadoria da rede, de agregação temática e de público.  Com isso, se colocariam como um dos vetores do processo de debate e articulação da sociedade na rede.

Enquanto a velha indústria fica parada, veja o Google… Com menos de 15 anos de idade, fatura mais com publicidade que todos os grupos jornalísticos norte-americanos juntos.

Página 22 – E os jornalistas? Qual o futuro para estes profissionais?

Rodrigo –  Antes, o profissional de informação se preparava para fazer carreira em uma empresa que o ajudava a expô-lo para o público, ajudava a promovê-lo como jornalista. Agora, ele terá que encontrar seu próprio caminho. A Universidade de Stanford, Columbia e outras nos Estados Unidos estão discutindo como fomentar o empreendedorismo entre os estudantes da área jornalística.

Os novos jornalistas terão que criar sua própria estrutura de trabalho ou manter relações mais abertas com as empresas tradicionais que sobreviverem. As oportunidades são muitas, este campo nunca esteve tão aberto. É um momento de profunda e acelerada mudança. Os profissionais que já percorreram meio caminho de suas vidas na estrutura antiga sentem uma justificada insegurança. Tecnologia é tudo aquilo que inventaram depois  que você nasceu. Não está no seu córtex, você não sabe pensar naturalmente com aquilo, não  é ainda uma extensão  da sua inteligência, das suas possibilidades.

Para quem está começando agora, as oportunidades são infinitas. O futuro do jornalista está no empreendedorismo. E o futuro das tradicionais empresas jornalísticas está no processo de digitalização das empresas de todos os setores, que  abre um novo campo de receitas que pode ser tão importante quanto os classificados, o velho marketplace,  foi para o jornal de papel. Em outra dimensão, é importante frisar. A Ágora agora é  pública. Cada um de nós está no centro do processo na Web, na rede.

Página 22 – Ao criar um um sistema de informações econômico-financeiras em tempo real, o Broadcast, sucesso instantâneo no início dos anos 1990, você previa esta migração do jornal de papel para o eletrônico?

R – Minha visão, ainda no início dos anos 90, era que a empresa jornalística que ia dar certo nesta nova fase seria aquela que tivesse coragem de se “perder na rede”.  Quando criei, na Agência Estado, o serviço de informação em tempo real (pregões das bolsas, notícias e análises) Broadcast, a ideia era construir um bom negócio e a plataforma de aprendizado da S.A. O Estado de S Paulo para o mundo das telecomunicações, da computação e do software, para o mundo da economia digital, que batia nas nossas portas.

Em 1992, éramos líderes deste mercado, posição que a Agência Estado ainda ocupa mesmo com a competição de gigantes como Reuters e Bloomberg. Naquela época, desenvolvemos um serviço taylorizado para o mercado brasileiro em relação às bolsas e mercados usados pela maior parte dos agentes do setor financeiro e injetamos no  serviço uma competentíssima cobertura jornalística técnica do  mercado financeiro e de informações locais de cunho geral que impactavam os  mercados. Isso com um preço adequado. A Broadcast era o fuscão envenenado; o rolls royce era a Reuters. Hoje, o rolls royce é a Bloomberg, mas a Broad continua liderando o mercado.

Mas tanto a Broadcast quanto os  outros serviços que  criamos na Agência Estado estavam estruturados sobre o velho modelo de monetização a partir da sua capacidade de distribuir informação.  Quando propus para o Conselho do Grupo Estado o projeto Broadcast, entre os argumentos estava o de que os classificados iriam migrar para o resultado  da convergência entre telecomunicações, computação e software. O MIT – Media Lab,  foi um dos primeiros centros  de think tank do novo cenário que estava se desenhando e eu estava lá, desde o  início da década de 90.  Em 1997, escrevi um artigo que já previa o desenvolvimento do cenário que estamos vendo hoje.

Em termos empresariais, meu objetivo era vender o sistema Broadcast a partir do momento em que a internet estivesse mais estruturada e a banda larga mais disseminada no Brasil (isso ocorreu em meados dos anos 2000). E colocar o foco no varejo da economia brasileira, se voltar para setores como micro e pequenas empresas, agronegócio, tecnologia, educação. A informação jornalística seria uma cunha para entrarmos com  serviços de articulação de setores e mercados no processo de digitalização da economia. A receita viria de processos de gestão  de relacionamento e serviços,  não da venda de informação.

Era esse o plano porque estava claro para mim que o mercado financeiro é um mercado das empresas que estão nas capitais financeiras do mundo e por isso nasceram globais. Nova York (Bloomberg) e Londres (Reuters). Em termos locais, o mercado brasileiro, é um mercado pequeno. A capacidade de investimento das empresas globais  neste mercado é muito maior do que o nosso. Enquanto o mercado de articulação e digitalização do varejo da nossa economia tem um potencial muito maior e tem muito mais  a  ver com o papel histórico dos jornais: servir como plataforma de articulação  da sociedade. A notícia, a informação editorial e a comercial, é um meio, não o  fim. Sempre foi assim.

Página 22 –  Entendo que você levou adiante seu projeto de criar processos de articulação na rede.

 Rodrigo – Sim, desde 2002, quando profissionalizamos a gestão da “S.A. O Estado de S Paulo” e eu saí, desenvolvo projetos de gestão de relacionamento na Web, rede, para empresas, setores e entidades. Começamos em Biriguicom uma rede de colaboração, conhecimento e negócios para a capital do calçado infantil. Perdi  dinheiro, mas aprendi muito.

Depois disso, desenvolvemos dezenas de projetos.  Entre eles, a plataforma Peabirus, o TEIAmg, maior projeto de processos crowdsourcing do Brasil,  a Rede CIMPequenas Empresas & Grandes Negócios da Globo, Museu em Rede, O Milagre de Santa Luzia, Raio Brasil, a República Popular do Corínthians entre outros. Um longo caminho de aprendizado, da minha  adolescência e meu sonho  de ser o repórter dos confins às novas fronteiras do desenvolvimento da sociedade humana, a Web, a rede.

Breve, estaremos lançando novos projetos. Agora, com o objetivo de criar uma empresa de informação aberta na Web, na rede,  da qual não seremos  donos nem teremos  o controle, mas teremos o domínio e a gestão.

Página 22 – Confins, acompanho-o por meio deste blog e outros canais que você mantém na rede. Que objetivos você tem com eles?

Sou jornalista, com uma forte e acentuada tendência para o empreendedorismo. Acho que esta característica por causa das circunstâncias do tempo que vivi e vivemos e por  respeito, admiração e amor pelo meu bisavô, meu avô e acima de tudo pelo meu pai, o  jornalista Ruy Mesquita. Na S.A. O  Estado de S  Paulo fiz tudo o que pude para contribuir para a perpetuação da empresa, para abrir um novo caminho no novo  sertão, que é a fronteira da Web, da rede. Dei à empresa muito mais  do que recebi nos meus  quase 30 anos de dedicação exclusiva a ela.

O blog Confins é a minha landing page. Minha formação teórica é em História. Para desenvolver os meus projetos, tive que me debruçar sobre a cobertura jornalística da evolução do ecossistema de informação, comunicação e articulação da sociedade e procurar dominar as mídias/ferramentas que vão surgindo na Web, na rede. Daí, o jornal dos confins, o meu canal no rebel mouse, no google+, no linkedin, no  facebook, no youtube, no peabirus, no  twitter, no pinterest, no scoop.it, no scribd, no slideshare, no delicious, no instagran  e outros. Eles estão mais ou menos interligados e em todos é o mesmo foco de conversação: a evolução do ecossistema da informação… Além desta função, há a do aprendizado para usar estas ferramentas na construção  das nossas redes sociais de interesse específico.

Não trabalho sozinho, tenho sócios, somos um time. Eles são mais moços do que eu. Têm mais agilidade e conhecimento para o desenvolvimento dos ambientes de curadoria, agregação, articulação e governança que desenvolvemos, a partir de processos estruturados de monitoramento da rede. O new new new jornalismo. Eu trouxe esta visão que desenvolvi graças a ter “nascido dentro das redações” da “S A O Estado de S Paulo”, de ter sido primeiro sponsor de programas do MIT – Media  Lab e depois pesquisador afiliado, durante quase 15 anos, deste que foi naquele tempo a Escola de Sagres dos novos tempos. Além disso, puxo a articulação no mundo físico (analógico)  e digital.

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Sobre os impactos deste processo na sociedade como um todo ver o post A infraestrutura do futuro.

Nele, utilizando entrevistas em vídeo de Alvin Toffler, Yochai Benkler e Marshall McLuhan,  procuro tecer o quadro do  momento da transição de uma era para outra  que estamos vivendo.

Alvin TofflerAs nações estão perdendo seu poder relativo… a propagação não só de computadores, como também de outros sistemas de comunicação e redes de todo o gênero, com isso  vemos atividades ocorrerem à margem do sistema ou mesmo à margem, em muitos casos, do controle das nações.

Yochai BenklerA principal mudança que a internet criou é a radical descentralização dos meios básicos de produção  de informações e conhecimento e cultura… pela primeira vez desde a revolução industrial estes recursos estão nas nas mãos da maioria da população.

Marshall MacLuhanTodas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos (a internet, a web, a rede) são uma extensão do sistema nervoso central.  A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos. Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

 

O papel do jornal

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado.  Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça  de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações  continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa)  relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social  com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela  frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro.  Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida  para a articulação  da sociedade em torno dos seus  interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração  de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que  a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação  tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

um esboço de modelo

Não é  mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do  de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

 

As mudanças extraordinárias do jornalismo!

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O início da revolução

por Dirceu Pio

Há pouco mais de 20 anos, saímos do tempo diferido e entramos de  cabeça no tempo real; agora, somos forçados a esquecer o analógico e entrar de sola no digital. E o jornalismo ganha configurações jamais imaginadas!

        Tive o privilégio de pertencer à equipe que, sob a batuta de Rodrigo Mesquita, implantou o tempo real (realtime) no Brasil; tudo ocorreu nos anos 1990 através do projeto da Agência Estado – empresa do Grupo do Jornal O Estado de São Paulo – que saía da condição de agência de notícias para se transformar em agência de informações (enquanto a primeira abastecia de notícias os jornais de todo o país, a segunda começava a abastecer os mercados com informações para orientar o trabalho das mesas financeiras).

A troca de cultura que se irradiou a partir do projeto da Nova AE – como a Agência Estado era chamada por suas inovações – foi uma verdadeira epopeia: o jornalismo de então estava baseado num regime secular – captar uma informação, redigi-la, editá-la e publicá-la dentro de um prazo de 24 horas ou, quando menos, contemplando os interesses da TV, de oito a dez horas!

O tempo real quebrava esse ciclo na espinha forçando a divulgação instantânea das notícias… o marketing das grandes agências de informações mundiais (Reuters, Knight-Rider, Dow Johnes, Nikkei),  para conquista de novos assinantes nas mesas financeiras, baseava-se na velocidade com que as notícias importantes eram divulgadas… sair na frente em quatro ou cinco segundos fazia grande diferença!

Planejado pela Nova AE, o treinamento de jornalistas do Grupo Estado para assimilar a nova cultura foi uma guerra! Envolveu os melhores consultores nacionais e internacionais especializados na preparação das pessoas para receber uma novidade que iria mexer com vigor em hábitos sedimentados, práticas mais do que centenárias, formas consolidadas de apurar, escrever e divulgar uma informação! E o tempo real revolvia tudo, forçava mudanças vigorosas no jeito de produzir e fazer, uma nova cultura!

Em poucos meses, começávamos a colher os primeiros resultados… lembro-me do dia em que um dos repórteres do Grupo Estado assustou o CEO de uma grande corporação do Rio de Janeiro;  durante entrevista coletiva, ele fora informado por assessores que as informações que acabara de transmitir já repercutiam no mercado, divulgadas por celular pelo repórter que pioneiramente se engajara na cultura do realtime…

Não é fácil remover uma cultura sedimentada e substituí-la por outra nova… o novo tem de ser robusto para se impor… enfrentará resistência, reações em cadeia, intolerância, reprovação!

O AE News – o serviço informativo da Agência Estado em tempo real – entrou com tamanha força no mercado brasileiro que em menos de um ano de sua implantação foi capaz de alavancar a empresa, transformando-a em “case de sucesso” e líder absoluta do setor de divulgação de informações para mercados na América Latina…

“Isso vai virar uma coqueluche”, reagiu com acerto o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ao ser apresentado a um terminal da Nova AE… E o AE News nascia junto com um novo jornalista, bem mais veloz na divulgação de seus escritos, bem mais consciente de suas responsabilidades frente à informação por saber que agora, ao invés de escrever para o público em geral, uma entidade quase abstrata, passava a escrever para mercados e para um tipo de usuário que iria ganhar dinheiro com sua informação…

NOVA MUDANÇA É MUITO MAIS ASSUSTADORA

Esses pouco mais de 20 anos que separam a introdução do realtime  dos dias atuais com certeza não foram suficientes para preparar o jornalista para a mudança em curso – da passagem do jornalismo analógico para o jornalismo digital… Esta sim é uma verdadeira mudança, avassaladora!

O mais assustador nestas transformações é saber que a mudança está em curso e não se vislumbra um prazo para que ela se apresente por inteiro, com começo, meio e fim! O terreno onde o jornalista atua hoje é movediço, traiçoeiro, fluido! Nada do que é hoje pode ser também amanhã!

Mas vamos pensar um pouco: afinal, o que essencialmente mudou? O jornalista por acaso não é mais aquele profissional que capta uma informação, destila e a divulga? A resposta pode ser sim e ao mesmo tempo ser não!

Ah, quer dizer que o jornalista também não é mais aquele que tem e cultiva fontes exclusivas? A resposta também pode ser sim e não!

Afinal que diabo faz o jornalista nessa nova atmosfera na qual a internet introduziu as redes sociais, a interatividade, a possibilidade de transmissão de qualquer tipo de arquivo – leve, pesado, com documentos, sem documentos, com imagens estáticas, com imagens em movimento – e a possibilidade de acompanhar e captar, importar, compartilhar informações do mundo inteiro, em tempo diferido e em tempo real?

Boa pergunta, mas sinto dizer que não sei respondê-la e acho improvável que exista no mundo alguém que tenha uma resposta plausível! O que vejo é o pipocar de zilhões de experimentos em toda parte, o que, diga-se de passagem, é algo extraordinário!

No meio dessa tsunami de inovações e experimentos, o que eu faço? Experimento também, tateio, avanço, recuo, ouso não ouso, observo, sobretudo observo!

A inflexibilidade soberana no analógico tem de dar lugar a uma condescendência responsável no digital, pois neste o mundo se abriu para a colaboração, para a provocação, para a análise, para o humor, para o desabafo! Basta dizer que somos, os jornalistas, produtores, divulgadores editores ou mesmo compartilhadores de informações!

Nesses avanços e recuos proporcionados pelo que eu chamo de “nova atmosfera” temos grandes perdas e grandes ganhos; quando a internet liquida com os meios impressos e agora já ameaça acabar também com a TV aberta, perdemos!

Quando a internet nos oferece mil canais de divulgação para as coisas que produzimos, ganhamos! Quando a internet nos permite acesso a informações qualificadas dos mais diferentes sites e blogs, também ganhamos – e muito! A certeza que aflora é que tudo vai piorar muito antes de voltar a melhorar !

A internet, como eu já disse, é a grande maravilha do século XXI !

Ainda hoje pela manhã ao ligar a TV e ser informado que o Reino Unido ainda não saiu da União Europeia, indignado, postei: “Vou dar prazo de uma semana… e se até lá o Reino Unido não tiver saído da União Europeia, vou lá e tiro no tapa!”

Ganhei de leitores brasileiros inúmeros kkkkkkkkk e de minha sobrinha, a jornalista Fabiana Pio, que mora em Londres, uma frase enigmática: “Não faça isso, deixe assim !”

O PAPEL DO JORNAL

por Rodrigo Mesquita

A AE, Dirceu Pio, começou a trabalhar com a rede em 92, na véspera da ECO 92. Era ainda a APARNET. O seu artigo é sobre o início do desafio de criar uma nova cultura de envolvimento com os fluxos de informação.

Os fluxos se tornam mais complexos e fluidos conforme a sociedade humana evolui na conquista do espaço em que está inserida, que sempre foi analógico e “digital”, este antes restrito às ondas de idéias, do imaginário, dos sonhos.

Voce foi e continua sendo uma referência neste processo de evolução, com profundas rupturas, do ecossistema de informação e comunicação da sociedade. Ninguém tem a formula do futuro, que será sempre beta daqui pra frente, se é que não foi desde sempre, desde a escrita na pedra.

Os caminhos, os peabirus, são muitos. O meu está refletido neste artigo de 2013.

um grande abraço, companheiro de viagem.

O PAPEL DO JORNAL

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa) relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro. Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

Não é mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

IBM se rende à sociedade em rede

Artigo de Rodrigo Kede, presidente da IBM Brasil, publicado no Valor sob o título O Poder em novas mãos fala na prática de como a revolução tecnológica que estamos vivendo está criando um novo ecossistema de negócios, com novos processos e papéis na nova dinâmica dos fluxos de informações.

Valor, 11/08/2014

Impulsionado por essa conversão das novas tecnologias – mídia social, mobilidade, análise de dados e nuvem – o mercado de TI deve crescer, somente no Brasil, cerca de 10% e movimentar U$ 175 bilhões em 2014, segundo o Gartner. Essa revolução digital, que permite múltiplas conexões, o ecoar de diferentes vozes e faz com que as ideias circulem com uma liberdade ímpar, mudou os papéis dos principais atores na sociedade.

Clientes e cidadãos, que outrora eram coadjuvantes, pouco a pouco ganharam destaque. Basta um só post, um clique e pronto: é possível arranhar a imagem de uma empresa. O poder, que até então estava nas mãos de empresas e instituições, passou, respectivamente para a mão dos consumidores e cidadãos.

Quantas vezes não vemos uma empresa envolvida em uma crise por algo originado nas redes sociais? Antes o cliente ligava para o SAC, nem sempre era bem atendido e, salvo raras exceções, continuava com seu problema. Hoje o consumidor expõe sua insatisfação na internet e o problema, que era dele, é transferido para a empresa.

Para se ter uma ideia do tamanho desta geração digital, de acordo com uma pesquisa do Ibope/YouPix, 78% dos brasileiros que navegam na internet acessam algum tipo de rede social. Em relação ao Facebook, as estatísticas do Social Bakers apontam o Brasil como o terceiro país em número de usuários, com 87 milhões de membros por mês (segundo informação oficial da companhia).

A tecnologia deu poder ao cliente. Ao mesmo tempo em que ele pode prejudicar a reputação de uma marca, esse mesmo consumidor pode contribuir para o crescimento e desenvolvimento da empresa.

O cliente não quer mais ser tratado como segmento, mas sim como um indivíduo. A empresa do amanhã deve trazê-lo para perto, fazer dele um aliado. A maior parte dos grandes executivos já percebeu a importância de incorporar o consumidor aos seus negócios. Pesquisa feita pela IBM com 800 presidentes de grandes corporações ao redor do mundo mostra que 72% dos CEOs quer os clientes extremamente próximos – a ponto de permitir que colaborem ativamente, desde o lançamento de novos produtos e serviços até no desenvolvimento de uma estratégia. Pela primeira vez, quem comanda é o indivíduo. Não é mais a empresa que lança tendência, tampouco o mercado que dita as regras.

Vivemos um momento de ruptura, de quebra de paradigmas. Aqui no Brasil, os bancos e o varejo são alguns que saíram na frente nesse sentido. Apostam pesado nas possibilidades criadas por essas novas tecnologias e investem em soluções de análise de dados para extrair insights relevantes e direcionar suas ações. Entenderam que agradar o cliente não é mais suficiente. Agora é preciso surpreendê-los. Segundo a IDC, a projeção é de que os investimentos em “big data” e “analytics” no país atinjam U$ 426 milhões neste ano, sendo que a principal aplicação será o chamado “Socialytics”, para captura e análise de dados gerados nas redes sociais.

Outro dia, enquanto eu participava de um evento, fui abordado por uma consumidora. Ela disse que os serviços que um determinado setor oferecia, a fim de proporcionar conforto, agilidade e segurança, não eram mais suficientes. E foi além: “Eu quero que desenvolvam uma ação específica, customizada de acordo com o meu perfil. Não adianta mandar uma promoção para mim e para milhares de pessoas de um mesmo show. Quero uma promoção para assistir a apresentação da minha banda preferida”, disse.

Uma ação dessas é totalmente possível com tecnologia disponível hoje. Dá para saber exatamente quem é seu cliente. Sempre digo que os dados são o grande recurso natural do século XXI. O grande desafio é extrair as informações relevantes diante dessa avalanche de dados.

 

Hoje, através da análise de sentimentos, já é possível capturar e interpretar, em tempo real, o que milhões de pessoas postam nas redes sociais. Um sistema de alta tecnologia com inteligência artificial é treinado para aprender a interpretar qualquer tipo de reação – ainda que uma mesma palavra seja empregada com diferentes sentidos, como ironia, sarcasmo e linguagem coloquial.

Sempre digo para meu time: a chave para alcançar a inovação está na multiplicação das parcerias. Alguns serão os seus parceiros e outros seus concorrentes mais próximos. A concorrência está vindo de lugares inesperados.

Apenas para citar um exemplo, a indústria das próteses viu surgir um concorrente no que seria um cliente em potencial. Um carpinteiro que havia perdido os dedos num acidente de trabalho decidiu, por causa dos altos preços das próteses, trabalhar num protótipo para a reconstrução da sua mão. Na internet conheceu uma pessoa para ajudá-lo a aperfeiçoar seu projeto. Pronto! Meses depois, fruto dessa improvável parceria, nascia a Robohand. A empresa, que utiliza a impressão em 3D, foi responsável por baixar de forma significativa o custo das próteses.

As novas ameaças competitivas devem ser enfrentadas com a diversidade – de pessoas, de indústrias, de fundos, de regiões e até de gerações. É preciso priorizar a criação de espaços de experimentação, onde as pessoas possam pensar e interagir. Esses locais serão os ecossistemas de negócios, a evolução do antigo ambiente corporativo.

O gestor do amanhã tem que estar aberto a todas as possibilidades. Diante deste novo cenário, onde as empresas estão sob direção dos clientes, surgem dois grandes desafios: aprender a lidar com a ruptura e criar valores que possam ser compartilhados. Vocês estão prontos para esta revolução?

 

Jornais: alguma luz no fim do túnel

See on Scoop.itJournalism and the WEB

The Pew Center’s latest report on the state of the media shows the financial woes affecting the traditional news business continue, and this is having an effect on consumers — but there are a few bright spots as well.

Rodrigo Mesquita‘s insight:

state of the media: as boas notícias: + demanda por notícias, sucesso em assinaturas, acesso direto às fontes, emergência de novas fomas de se anunciar

See on paidcontent.org

Os norte-americanos estão mais distantes das notícias

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Rodrigo Mesquita‘s insight:

state fo the media 2013: a queda da amplitude e qualidade de cobertura jornalistica das tradicionais empresas de informação, que não foi complementada pela ação dos puros players, vem afastando os norte-americanos das notícias.

que consequências este processo terá para a democracia e economia de mercado?

“Notícias não mudam o mundo, mas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la – uma fonte de modelos compartilhados a respeito do mundo. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir, mas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.”

“Organizações jornalísticas devem continuar a fornecer notícias para indivíduos e conhecimento enciclopédico sobre suas comunidades. Mas também devem reconhecer o papel dos consumidores como produtores. O futuro do setor é tanto de construção quanto de consumo. O impacto de “ser digital” é a emergência de uma nova relação entre editores e seu público: tornar as notícias mais relevantes ao construir conexões entre fornecedores de notícias e consumidores.”

Walter Bender

See on stateofthemedia.org

A campanha presidencial nos EUA x as novas mídias

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What did the presidential campaign in 2012 reveal about the press? Was the tone of coverage negative or positive, and what messages were conveyed by both the…

Rodrigo Mesquita‘s insight:

State of the News Media 2013: um balanço de onde estamos nestes tempos de disrupção do ecossistema da informação, comunicação e articulação do público numa análise da mídia e a úlltima campanha eleitoral dos Estados Unidos.

See on www.youtube.com

Navegando pelo passado de uma reflexão sobre o futuro

Navegando pela internet, nesta quinta-feira, dia 28 de fevereiro, fui bater nesta entrevista dada no final da década de 90, quando dirigia a Agência Estado. Apesar de não usar a palavra disrupção, hoje tão comum nos meios que acompanahm a indústria da informação, ela está nas entrelinhas das minhas respostas. Iniciei  o projeto AE – transformar uma unidade operacional de O Estado de S Paulo numa moderna turbina informativa para o mercado – em 88. Já naquela época, tinha consciência de que os jornais iriam perder o domínio sobre os classificados – os pequenos anúncios de empregos, imóveis, carros, oportunidades – para a computação e as telecomunicações. Tudo isso e mais a visão de que o futuro do modelo de negócios seria moldado sobre processos de gestão de relacionamento de setores e segmentos da sociedade, está nesta entrevista. Por isso, não resisti em republicá-la no meu blog.

Rodrigo Mesquita

Diretor da Agência de Noticias Estado do grupo O Estado de São Paulo

Entrevista concedida a Eugênio Araújo

Título: O futuro das agências de notícias e negócios

Fonte: Site Máster em jornalismo/Universidade de Navarra

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Cada um dos meios de informação – o jornal, as rádios, as TVs e as agências com seus conjuntos de serviços – é uma plataforma de relacionamento com o público. A Agência Estado trabalha com dezenas de plataformas diferentes, com características específicas, conforme o mercado/comunidade que ela vem procurando desenvolver (veja em Estadão). Hoje, o negócio que menos cresce da AE é o seu serviço voltado para o mercado tradicional das agências de notícias – o mercado de meios: jornais, revistas, rádios e TVs. Apesar disso, a AE considera esta plataforma de negócios estratégica em função das oportunidades sinérgicas que ela lhe abre em relação aos demais serviços que oferece aos diversos mercados/comunidades que vem desenvolvendo e procurando fidelizar: financeiro, nove setores da indústria brasileira, o agronegócio – do setor financeiro à produção – e os players do mercado/comunidade mídia.

Hoje, quase 100% da nossa receita é conseqüência de assinatura. Mas trabalhamos com a perspectiva de que, no futuro, a receita será conseqüência da geração de negócios para as comunidades que servimos. Quero ressaltar com isso que, no momento, sinto uma tendência no mercado de fechamento de serviços de informação com real valor agregado. Para citar um só exemplo, falemos do FT.com (Financial Times), um serviço que nasceu aberto e custou cerca de US$ 200 milhões de perda para a Pearson e que recentemente foi fechado e cujo modelo de negócio vem sendo reconstruído.

Master em Jornalismo – Qual é o papel e quais são as estratégias das agências perante os novos meios e as novas tecnologias? A Internet é a saída natural e a ferramenta do futuro para as agências de notícias?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Na minha visão de futuro, o jornal de papel está condenado, o papel do jornal é perene. Quero dizer com isso que não vejo a Internet/Redes como um novo meio que compete com os que conhecemos. Vejo a Internet/Redes e seus sucedâneos como uma nova infra-estrutura que permeará e sustentará todos os meios de comunicação social num movimento convergente. Qual é o papel do jornal? Ele representa, em última instância, o ponto de encontro das comunidades que serve para refletir, analisar e debater sobre os problemas que lhe afligem. O jornal tem que cobrir os movimentos macro da história traduzidos no dia-a-dia, com a missão de fornecer para o leitor a perspectiva, a interpretação isenta, o contexto, a análise.

Os serviços que a AE vem desenvolvendo nos últimos 15 anos para desenvolver e fidelizar novos mercados/comunidades têm outra função. A função destes serviços/plataforma de relacionamento – compostos por informação e tecnologia – é instrumentalizar o cidadão enquanto agente econômico e contribuir para que cada uma das cadeias econômicas destas comunidades seja mais eficaz e competitiva em níveis locais e globais.

Master em Jornalismo – O êxito será das agências globais, as grandes, ou será das pequenas e mais flexíveis? Que papel tem a especialização? Quais as vantagens e inconvenientes se se tem em conta exemplos como os da Reuters e sua atual situação?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me sinto capaz para responder sua pergunta. O que posso dizer é que a AE é líder no mercado/comunidade financeira no Brasil – temos 60% deste mercado contra Reuters, Bloomberg e mais três pequenas empresas locais. Por quê isso ocorre? Porque Reuters e Bloomberg trabalham com o mesmo produto distribuído em todo o mundo. O mercado financeiro tem necessidades de uma cobertura que vai além da sua tecnicidade. Nosso acompanhamento dos movimentos da macroeconomia brasileira e dos impactos da política nacional sobre os mercados e a economia fazem a diferença. Se Reuters e Bloomberg resolverem fazer esta cobertura no Brasil, o negócio deles ficaria inviável em função dos custos. Além disso, por causa da escala e nossas especificidades, trabalhamos com preços competititivos.

A AE pretende dar uma contribuição para a competitividade da economia brasileira como um todo. Sua lógica operacional não tem nada a ver com a de empresas de informação globais. Sua plataforma de relacionamento para o mercado/comunidade financeira acaba sendo o filtro de todo este esforço de cobertura. É isso, junto às competências tecnológicas e comerciais que conquistamos em função das especificidades do mercado brasileiro, que  permite a AE ser competitiva em relação à Reuters e Bloomberg.

Acredito que a evolução da Internet/Redes e seus sucedâneos abrirá espaço no futuro para uma infinidade de negócios pequenos e grandes – não só na indústria da informação. O movimento de concentração/monopolização – em certa medida, conseqüência da “idade da pedra” no mundo das redes – já sofreu seus primeiros impactos negativos.

Master em Jornalismo – Também se fala muito de redações multimídia. Que realidades apresenta a Agência Estado neste sentido? Que importância tem conseguir uma verdadeira redação multimídia e uma convergência real? O que se está fazendo na sua empresa neste sentido?

Rodrigo Lara Mesquita – A AE é pioneira na montagem de uma estrutura de produção editorial integrada em seus diversos níveis. Construiu uma redação capaz de gerar conteúdos em formatos diversos e destinados a públicos também diferenciados. Mais recentemente, incorporamos à nossa redação os instrumentos necessários para a produção de conteúdos de aúdio e vídeo, o que nos permitirá abranger todo o ciclo de produção jornalística. Para nós, conceitos como convergência e multimídia já são plena realidade.

Temos uma única redação composta por cerca de 150 jornalistas e um único sistema editorial. Considero que somos uma turbina informativa adequada para o momento que vivemos. A AE tem consciência de que a dinâmica das atuais redações deve acompanhar as possibilidades que a tecnologia nos abre todos os dias.

Master em Jornalismo – Em quê se diferencia a Agência Estado de outras agências? Detalhes peculiares e definitivos.

Rodrigo Lara Mesquita – O foco da AE na economia brasileira define sua principal peculiaridade. A consciência de que, a médio prazo, a relação com as comunidades econômicas que vimos desenvolvendo devem caracterizar a AE como uma empresa de network e não de business information definem as demais peculiaridades. A AE, uma empresa totalmente virtual, é um planeta com dezenas de satélites ligados virtualmente a ela. Se considerarmos os dados dos pregões das bolsas, cerca de 90% dos conteúdos que distribuimos em nossas plataformas de relacionamento são de terceiros, de parceiros da AE. Considerando só conteúdos-texto, cerca de 60% dos conteúdos são nossos. O resto é de terceiros.

Vivemos uma época de revolucionários avanços tecnológicos que levaram o ambiente de negócios a se caracterizar pelo que o laboratório de mídia do MIT (Media Lab) e a Solan School of Business definiram como “o movimento das grandes convergências”. São elas: a convergência entre pesquisa e desenvolvimento; a convergência entre redes de comunicação e mercados, cada vez mais difíceis de se distinguir; a convergência entre precificação e mecanismos de relação comercial com o mercado; a convergência entre design e engenharia; a convergência entre produto e serviço; a convergência entre conteúdos e transações; e a convergência entre front e back office.

É evidente que estes movimentos têm impactos ainda impossíveis de serem mensurados em toda a sua magnitude na estrutura da economia conhecida. Para Walter Bender, diretor do Media Lab, “há duas revoluções fermentando. A primeira é uma revolução de comunicação interpessoal. A segunda revolução não é de tecnologia, mas de epistemologia e aprendizado. Construcionismo, aprender fazendo; é a revolução de Dewey, Piaget e Papert. O aprendizado acontece melhor não no espaço formal da sala de aula. Ele acontece em aplicações concretas. Eis porque devemos buscar construir ambientes para fazer”.

Não é esta a lógica do mundo tradicional de negócios, mundo acostumado com empreendimentos com break-even point e pay backs previsíveis. A consciência de que tem que construir uma empresa que lhe permita aprender fazendo (e renumerando o capital social) disseminada pelos profissionais que compõem o negócio faz a diferença. Os profissionais da AE sabem que a empresa terá que se reinventar a cada dia, na medida em que as tecnologias de informação forem se desenvolvendo e que o público for se aculturando a elas. É este o fator determinante do processo, o aculturamento do público às possibilidades ainda restritas do mundo em rede.

Além disso tudo, a AE é detentora de uma certa cosmovisão. Herança positiva de uma empresa familiar e, na minha opinião, fator decisivo para o sucesso de uma empresa de informação. Considero a Agência Estado uma empresa única.

Jornais: o que está em crise é a forma como eles pensam o negócio

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What’s the right way to respond when technology disrupts the position of an established business? The Harvard Business School professor has lessons for the news business from other industries.

 

Rodrigo Mesquita‘s insight:

Even the newspaper business is in a growth industry…It’s just their way of thinking  about the industry that is in decline

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Um novo jornalismo digital e os riscos da balburdia opinativa

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The survival of quality news calls for a new approach to writing and reporting. Inspiration could come from blogging and magazine.

O risco é enterrarmos de vez o jornalismo investigativo e independente para privilegiar a opinião de blogueiros sobre o que devemos pensar sobre as coisas

Rodrigo Mesquita‘s insight:

uma nova infraestrutura tecnológica, um novo ecossistema da informaçao, uma nova sociedade e os velhos jornais

See on www.mondaynote.com