Jornal impresso não sobrevive cinco anos é o título do último artigo do jornalista Ethevaldo Siqueira, que apesar de trabalhar há dezenas de anos cobrindo a evolução das telecomunicações e tecnologias digitais para jornais está mais para conservador do que para visionário. Sempre cobriu com propriedade e acurácia sua área de interesse, mas foi sempre reservado a propostas mais avançadas como a de personagens como Nicholas Negroponte, que previu a convergência das mídias há 30 anos e lançou uma plataforma de educação tecnológica em 2005. Na época, Ethevaldo estava entre os que propugnavam que a tecnologia não tem nada a ver com educação.

Depois de tantos anos militando em jornais, Ethevaldo entra numa questão que, em função da evolução da internet, faz parte do nosso cotidiano: os jornais sobreviverão? Entra no tema e convida para um debate. Apesar de ter uma certa ideia de que este artigo tem endereço certo, aceitei o convite para debater o tema, o que se inicia neste texto do Confins. Como ele e todos que acompanham a crise dos meios broadcast, não tenho a resposta final. Tenho uma certa ideia de que mesmo atrasados os jornais podem encontrar seu espaço no novo ecossistema da informação em processo de construção. A notícia não será mais sua prioridade, mas existe espaço para eles criarem suas praças de debates, análises e reflexões de forma compartilhada com o público, para uma nova sociedade em formação.

Abaixo, vocês encontrarão o texto do Ethevaldo em itálico e negrito intermeado pelas minhas reflexões sobre a mesma questão.

Vale a pena refletir sobre os desafios da quebra de paradigmas tecnológicos que marcam a passagem do jornalismo impresso para o jornalismo eletrônico. O jornal impresso não tem mais do que cinco anos de vida. O modelo econômico e industrial em que ele se apoia está desmoronando sob o impacto simultâneo de quatro forças tecnológicas muito conhecidas do mundo econômico e empresarial: internet, mobilidade, computação em nuvem e redes sociais.

O jornal não é nosso, é do público

Jornal não é um calhamaço de papel. É uma plataforma de articulação da comunidade em que está inserido. A informação, editorial e comercial, é a ferramenta para articular públicos em torno de sonhos, idéias, problemas, consumo. As empresas jornalísticas, em toda a sua história, organizaram seu negócio e legitimaram-se junto ao público em função desta capacidade de articulação da sociedade em torno das questões que lhe concerniam. Muitos jornalistas, acho que o Ethevaldo está entre eles, e com certeza a maioria dos executivos de empresas de informação acreditam que o negócio dos jornais se dá em função da sua capacidade de distribuir informação. Erro primário, fruto de cerca de 40 anos de monopólio sobre o mercado e da burrice arrogante e esnobe que se impõe depois de processos, como este, monopolista.

Yochai Benkler : “O New York Times, o Washington Post, e o Wall Street Journal são todos jornais top-down, e veículos da elite, porque damos muito valor ao conhecimento e às ponderações cuidadosas. As elites da riqueza, da inteligência e do poder usam estes veículos para estabelecer uma conversa comum entre elas”.( de uma série de fóruns no MIT – Media Lab discutindo a questão Os Jornais Sobreviverão?, em setembro de 2006)

Alex de Tocqueville analisa esta questão no seu A Democracia na América. Os jornais locais contribuindo para que os cidadãos tivessem consciência de que são parte de uma comunidade local, que é parte de uma comunidade maior: a Nação que nascia. O jornalista e empresário Júlio Mesquita compra O Estado de S Paulo no início do século passado, rompe com o Partido Republicano e promove uma profunda reorganização editorial do jornal. Ninguém podia assinar matérias “porque o jornal não é nosso, é do público”. Se as matérias são assinadas, perdem valor. O papel do jornalista é articular a cidadania em torno das questões que a preocupam. Com sua reforma, Júlio Mesquita torna-se o patrono do jornalismo moderno brasileiro.

É possível que outros tipos de publicações impressas sobrevivam por mais tempo, como veículos de análise, tendências e debates, no formato de jornais ou revistas. Para as empresas jornalísticas, o maior desafio desse período de transição é viabilizar economicamente a passagem do jornal físico para o jornal virtual. A primeira impressão é de que cruzar esse abismo sem sucumbir é quase um milagre. Sou mais otimista. O que me parece absolutamente claro é que migração analógico-digital dos jornais não poderá ser realizada, de modo nenhum, com a degradação da qualidade que hoje ameaça a maioria das redações de jornais.

Expliquemos melhor: jornais medíocres morrerão mais cedo do que se espera. A causa mortis das maiores corporações jornalísticas não se origina apenas da falta de um novo modelo de negócios, mas, principalmente, do retrocesso nos padrões de qualidade da imprensa tradicional.

de um seminário, em 1998, no MIT – Media Lab

No século passado, os jornais conquistaram praticamente o monopólio dos classificados das cidades em que atuavam em função da sua capacidade de as articular como comunidades de interesses. A sociedade era muito menos complexa e fragmentada do que é hoje, os balcões dos supermercados, as portas de banheiros de bares e restaurantes, a cadeira de avião, os outdoors na ruas não eram porta mídias, o jornal era o principal canal de vendas das comunidades em que estavam inseridos. Do início do século até os anos 40/50, os jornais construíram poderosas redes de informação locais, nacionais e internacionais. Estas redes de informação permitiam que o jornal fizesse o link entre as questões que preocupavam uma determinada comunidade.

“As notícias”, comentava Walter Bender, em artigo de 1999, “nos dão uma nova informação e as ferramentas com as quais explorá-la — são uma fonte de modelos compartilhados sobre o mundo, As notícias não nos dizem o que pensar, mas nos ajudam a navegar na complexidade de nossas vidas. Estamos começando a ver uma mudança da tecnologia de um meio para melhorar o acesso de um indivíduo às notícias para veículos de engajamento ativo”.

É evidente que os jornais medíocres morreram primeiro, eles costumam ter vida efêmera desde sempre. Alguns jornalistas medíocres e venais conseguem sobreviver mais tempo do que seus similares empresariais, os esquemas são mais difíceis de serem detectados na empresa do que o praticado pelo indivíduo.

É claro que a morte do jornal impresso não significa o fim do jornalismo. Pelo contrário, como atividade cultural, política, econômica e industrial – o jornalismo nunca morrerá. Acho até que poderá revigorar-se e ganhar novos horizontes. Para tanto é essencial que as corporações que vão conduzi-lo cheguem vivas do outro lado do abismo, onde se encontra novo mundo digital.

O que inviabiliza o velho jornal

A maior ameaça à sobrevivência do velho jornal é, sem dúvida, a mudança de paradigmas tecnológicos e econômicos. É ela que condena ao desaparecimento, de forma inapelável, a imprensa tradicional, que tanto amamos, mas que se mostra tão lenta e incapaz de reinventar-se.

de um seminário, em 1998, no MIT – Media Lab

Muito antes de a Internet, a rede, emergir com as características que conhecemos hoje, a tradicional indústria da informação – todas as mídias broadcast, as que distribuem informação para muitos a partir de um ponto – começou a envelhecer. A circulação dos jornais deixou de crescer proporcionalmente à população a partir do início da década de 50 do século passado. A explosão demográfica e urbana, as conquistas da era industrial promoveram um processo contínuo de disrupção e fragmentação do mundo em que vivemos. É a crise que estamos atravessando desde a década de 70, que começa com a disparada dos preços do petróleo. A ponte do iceberg de um movimento muito mais profundo e de longa duração.

Na visão do historiador Fernand Braudel, as instituições criadas a partir de meados do século 19 não suportavam mais o “conjunto dos conjuntos”, que era a forma como ele definia a sociedade como um todo. Se a energia e sua rede distribuição significaram a base do desenvolvimento (até seu apogeu) da era industrial, a emersão da Internet, a rede, significa o início da construção da era do conhecimento. É um novo mundo, com uma nova ordem social em formação. Os caminhos estão na rede. É ela a arena, até mesmo para os meios tradicionais. A articulação social, econômica e política não prescindirá os meios que conhecemos e convivemos desde sempre, mas a nova síntese será consequência da rede, da internet e sua evolução. Com todo o respeito pelo Ethevaldo, se ele tem dificuldades para se adaptar às ferramentas digitais, está praticamente ausente delas (alguém publica seus textos no seu blog, não é ele que o faz), o que esperar das empresas que contam com centenas de Ethevaldos nos seus quadros?

Por seus custos industriais e logísticos – como os da matéria prima, da impressão e da distribuição – não pode, nem de longe, competir com a rapidez, a disponibilidade instantânea e a quase gratuidade da informação virtual. O jornal impresso em papel é, portanto, um modelo superado, obsoleto e inviável diante jornalismo eletrônico – cada dia mais ágil, mais barato e abrangente. Os jornais do futuro serão, também, exemplos perfeitos e acabados de ubiquidade, pois poderão ser acessados a qualquer hora, em qualquer lugar. Ou, para usar o jargão internacional, anytime, anywhere.

As quatro alavancas tecnológicas, mencionadas na abertura deste artigo – internet, mobilidade, nuvem e redes sociais – que hoje atuam, simultaneamente, sobre as empresas jornalísticas tradicionais inviabilizam seu velho modelo industrial e de negócios. Vejamos de que forma cada uma dessas alavancas impacta o jornalismo tradicional e suas corporações.

de um seminário, em 1998, no MIT – Media Lab

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Banda, download, bits, html, site, link, linguagem C, bookmarks, mercado virtual, hits, banner, real time, ftp, gopher, real audio, browser… Internet. O que é isso? O diabo que chegou para atrapalhar o nosso velho e conhecido negócio? Ou uma avenida em direção a infinitas oportunidades para alavancarmos posições no mercado de informações?”

Com este lead, abria um artigo para uma publicação interna da S.A. O Estado de Paulo em 1997. No mesmo texto, perguntava “e no futuro? Os jornais vão deixar de existir? Talvez, se a sociedade, pela primeira vez em sua história, deixar de ter necessidade de fóruns para debater, refletir e analisar seu passado, seu presente e seu futuro. Como é impossível imaginar este cenário nos dias atuais, devemos acalentar e alimentar a ideia de que conviveremos com todos os meios conhecidos para continuar desempenhando o papel clássico de uma empresa jornalística – norteador da opinião pública – e os novos, abertos pelos avanços das tecnologias de comunicação, que permitem a abertura de novas áreas de atuação para a empresa e que ajudam a instrumentalizar a opinião pública na direção de lutar pelos seus direitos. Isso significa, portanto, revitalizar toda a atuação da empresa de informação”.

 

A internet se tornou, em pouco mais de duas décadas, uma rede global cada dia mais densa e capilar, alcançando mais de 2,8 bilhões de seres humanos. No Brasil, eram apenas 1 milhão de internautas em 1994. Hoje, são mais de 100 milhões, dos quais, 80 milhões em banda larga. Mesmo com todas as deficiências e elevado preço dessa banda larga, esse alcance da internet significa um salto gigantesco, ocorrido após a privatização das telecomunicações em 1998.

A mobilidade é outra revolução em curso. Reflitamos um momento sobre seu impacto. Nos últimos 20 anos, o mundo tem vivido a explosão da comunicação móvel, que hoje alcança o total quase inimaginável de 6,4 bilhões de celulares em serviço, que corresponde a uma densidade de mais de 90% da população do planeta. E o Brasil? Com 265 milhões de telefones móveis, ou 134 celulares por 100 habitantes, este país detém o quinto mercado de telecomunicações sem fio do mundo: atrás apenas da China, Índia, Estados Unidos e Rússia.

E as redes móveis estão em rápida ascensão. Em 2015 – ou seja, nos próximos três anos – cerca de 25% do número total de celulares do Brasil e do mundo serão smartphones. Além deles, haverá centenas de milhões de tablets ou notebooks com capacidade de comunicação em banda larga, aptos a receber o conteúdo de filmes, de jornais, revistas, jogos, aplicativos de mil tipos nas áreas de comércio eletrônico e mobile-banking, entre outras.

de um seminário no MIT – Media Lab, com a participação do Murrow Center, Tufts University

Os desafios dos jornais vão além da sua inserção nos processos sociais de informação fomentados pelas tecnologias digitais. Se até agora, por se considerarem intelectualmente superiores aos meros mortais, se negaram a se debruçar sobre as peculiaridades da rede e compreenderem a principal delas, o algoritmo e sua propriedade de criarem comunidades sobre comunidades a partir do nada, terão que fazer isso de forma acelerada, assim como seus colaboradores. Mesmo com esta defasagem, as empresas jornalísticas ainda teem uma capacidade de filtrar, priorizar e contextualizar a informação superior à média do mercado. Num mundo em crise, em constante processo de disrupção e fragmentação, sua capacidade de interpretação, sua credibilidade e confiança junto ao público teem os requisitos básicos para permitir que elas sigam em frente, com ou sem profissionais do calibre de um Ethevaldo Siqueira.

Nos últimos anos, além dos processos apontados por ele, dois eixos de organização e estruturação da rede vêm se reforçando. Sistemas de monitoração das mídias/ferramentas da rede e sistemas de curadoria de informação. Não há dúvida de que hoje a rede é a principal plataforma da informação, comunicação e articulação da sociedade. A questão é que, além de permitir que qualquer um seja um comunicador, e se isso é positivo também significa um enorme espaço para os oportunistas de plantão, obriga que cada um de nós sejamos os editores do seu cardápio de informações.

Na interpretação do professor Antonio Mendes Ribeiro, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, “vivemos um dilúvio de informação ou mais precisamente de dados, pois não temos a capacidade de entendê-los completa e plenamente”. Mais adiante, ele complementa: “Precisamos, assim, assumir o papel de um Noé do novo século, selecionando espécies significativas de informação, colocando-as na nossa arca e com isso sobreviver no mundo do entendimento, da interpretação, da reflexão, o que é essencial para os nossos estudos e até negócios. Podemos dizer que a era de hoje da internet é dos letrados em informação”.

É este o espaço que está aberto para os jornais. O desafio é ter coragem para transformar o jornal de papel e seu espelho na rede em landing pages de processos contínuos de curadoria de temas discutidos pelo público e promover constantemente debates, reflexões e análises. O Ethevaldo é muito perspicaz nas suas observações sobre as empresas, apesar de sempre ter jogado numa posição solitária nas redações de jornais. Ele e só ele, a posição do repórter. A pegada de um editor, que trabalha um conjunto, é outra.

de um seminário de 95 no Murrow Center, Tufts University, com a participação do MIT – Media ab

Com o alcance planetário da internet, a informação virtual se torna ubíqua, a custos próximos de zero para o leitor ou internauta. Como dissemos, essa rede mundial tem hoje quase 3 bilhões de usuários. Em 10 anos, pode quebrar a barreira dos 6 bilhões –o que significará uma densidade próxima de 80% da população da Terra.

E a computação em nuvem? Pouca gente pensa hoje no impacto da nuvem. Em 2017, a maioria dos jornais e revistas virtuais estará na nuvem. Onde estivermos, baixaremos o conteúdo desses veículos em nossos tablets, notebooks ou smartphones.

A nuvem é, na verdade, muito mais do que um sistema de armazenamento de capacidade ilimitada. Só o Google já guarda mais de 800 trilhões de páginas em milhares de data centers em todo o mundo. Melhor seria compararmos a nuvem a um imenso computador virtual, à nossa disposição, como sugere o canadense Don Tapscott. E as redes sociais? Mesmo sabendo que o Facebook já alcança mais de 1 bilhão de usuários, ainda há quem duvide do poder dessas redes. O fato essencial é que elas multiplicam por mil a capacidade de interação das pessoas. Tenho mais de 5 mil amigos que interagem comigo no Facebook, quase todos os dias. Mais de 80% das empresas do mundo desenvolvido já utilizam intensamente essas redes – Facebook, Twitter, Linkedin, Flickr, Orkut, MySpace, Twitter, Badoo e outras. O essencial nesse processo é pensarmos na ação simultânea e no poder de transformação dessas quatro forças tecnológicas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Yochai Benkler, professor de direito em Harvard e pesquisador da economia em rede, fala nesta entrevista no fórum e-G8 sobre a radical descentralização dos meios de criação de informação, conhecimento e cultura que a internet trouxe para a sociedade e, com isso, a inovação para as mãos do público. Na visão dele, nos próximos anos vamos continuar assistindo uma batalha entre a velha e a nova indústria. A internet móvel, na opinião dele, pode indicar o futuro. Se vencer o controle das Telecons em vez do fator ubíquo (a inteligência nas pontas, a descentralização) da rede, a sociedade e a democracia serão as perdedoras. Nada de novo embaixo do Equador, além de mágoas e ressentimentos.

Confesso, meus amigos, que atualmente só assino jornais impressos por puro saudosismo. Ou sentimentalismo profissional. Querem o exemplo mais recente da impossibilidade de competição entre o jornal impresso e o digital? Às 7 horas da manhã desta quarta-feira, dia 7 de novembro de 2012, no momento em que eu escrevia este artigo, nenhum grande jornal brasileiro havia dado a notícia mais relevante do dia: a reeleição de Barack Obama, como presidente dos Estados Unidos, notícia, aliás, que milhões de pessoas já haviam lido quatro horas antes na internet. Nessa passagem crucial do mundo analógico para o digital, o velho jornal parece um avião que perde altura em meio à maior turbulência e corre o risco de espatifar-se contra uma montanha em lugar de pousar suavemente. Esse desastre pode até acontecer diante da conjuntura de fatores adversos que inclui desconhecimento da rota, baixa visibilidade, falha de instrumentos, panes sucessivas e o maior de todos, o despreparo do piloto.

Mais do que nunca, nestes tempos de profundas mudanças tecnológicas e de outros paradigmas, a sobrevivência da empresa jornalística está profundamente ligada à qualidade de seus veículos. Muito mais do que no passado, a vitalidade e a sobrevivência do jornal decorre da credibilidade de seu noticiário e de seus editoriais. São essas características que podem assegurar uma transição relativamente segura do jornal impresso para o jornal digital.

a imagem representa a rede, cada um de nós um dos pontos de conexão

A internet é um protocolo de comunicação. Este protocolo junto com o url: o http:// e o hypertexto viabilizam a Web, que é a teia mundial, uma nova infraestrutura de atuação. Dominante, como foi a eletricidade no passado. Agora é o tempo da informaticidade. E pela primeira vez na história, a inteligência de uma infraestrutura é distribuída. Os jornais estão aí e continuarão aí. Os melhores ou mais inteligentes sobreviverão e saberão se transformar com o tempo. Mas não são mais o meio adequado para a complexidade da sociedade (o mundo) que vivemos. Eles ainda desempenham um papel importante, mas são veículos para as elites, e vêm de cima para baixo; nós valorizamos conhecimento e elites. E as mídias desempenharam e desempenham o papel de plataforma para que as elites compartilhem idéias. Esta função não desaparecerá.

Como negócio, os jornais não se sustentam como no passado porque a base das suas receitas foram irremediavelmente perdidas para a computação e a rede. É mais barato, prático e eficiente distribuir pequenos anúncios de diversas formas na rede. O problema dos jornais não é informação gratuita. Isso é bobagem, ignorância, uma tentativa de tapar o sol com a peneira. O problema, como bem nota o Ethevaldo, é a disseminação da banda larga e seus predicados. É isso que que permite a construção da nova infraestrutura, que não é linear e fomenta a construção de novas arquiteturas de relacionamento social, político e econômico.

É claro que, além da qualidade do jornal, o sucesso das empresas jornalísticas nessa transição depende também de novas estratégias econômicas e de mercado – como a diversificação dos meios (crossmedia) em busca não apenas de um novo modelo de negócios, mas de novos produtos e serviços de informação, com a maior credibilidade e a confiabilidade. Embora pareça muito difícil, essa passagem é viável.

E é bom lembrar que jornal impresso em papel é apenas um formato. Não é esse material que caracteriza a essência do jornalismo. Como veículo noticioso e informativo, o jornal não precisa ser de papel de celulose, papel eletrônico ou qualquer outro material. Pode ser intangível e virtual.

Os maiores jornais do mundo já chegaram à conclusão inelutável de que o velho jornal impresso não terá condições de sobrevivência até o final desta década. Mais de dois milhões de pessoas leem exclusivamente a versão digital do New York Times em todo o mundo. A grande luta desse grande jornal é a busca de um modelo de negócios que viabilize sua economia no mundo digital. O pior caminho para todos os jornais que lutam por sobreviver como empresas é aceitar a queda de qualidade – ou a mediocrização – como consequência supostamente inevitável da redução de custos operacionais. É essa política que leva à mortalidade precoce das maiores empresas jornalísticas e nos impõem uma solução terrível – que é a ascensão de empresas virtuais gigantescas – como o Google – sem tradição ética nem compromisso com os valores consagrados pelo jornalismo. Outro risco é a murdochização da imprensa em todo o mundo. É claro que me refiro ao magnata Rupert Murdoch. E saibam que ele já ronda o mercado brasileiro. O maior perigo que ameaça as grandes empresas jornalísticas no Brasil é morrer na praia e não viabilizar sobrevivência desembarcar no novo mundo do jornalismo eletrônico, virtual, global, local, ubíquo, instantâneo, online. Já disse e repito aqui que o maior prejuízo para o Brasil e para o mundo civilizado é a falência das corporações responsáveis pelos jornais que ainda circulam. Essa falência significa, acima de tudo, a dispersão das melhores equipes profissionais, a perda da maioria de seus talentos e a desestruturação de um setor.

 

Quem sabe o veterano Ethevaldo Siqueira se disponha neste seu tempo de “aposentadoria” abrir uma nova consultoria. Agora para ajudar as velhas e tradicionais empresas de informação, para as quais ele deve tanto apesar de toda a mágoa, para ajudá-las a se armarem para os novos tempos.

Eu pelo meu lado, continuarei na minha viagem.

“Diante do sertão, como diante do mar, é o mesmo assombro, é a mesma impressão de infinito e de eternidade, é a mesma vertigem”, escreveu José de Alcântara Machado, no seu Vida e Morte do Bandeirante.

O autor deste clássico da História do Brasil falava do ímpeto do sertanista de São Paulo, falava do processo do bandeirismo. A ponta de lança para a conquista do espaço territorial do Brasil. O fascínio, o desafio está agora nas novas arquiteturas sociais, econômicas e políticas que a WEB nos proporciona.

Para as empresas jornalísticas não suicidas, o desafio é terem em seus quadros profissionais que estejam mergulhados na rede. Em toda a sua governança: conselho e suas instâncias de poder, alta direção e quadros médios de gestão de todos os setores. Não só os jornalísticos. A empresa inteira precisar abraçar e conhecer a rede, sem mágoas, sem ressentimentos, de forma objetiva.

O novo espaço a conquistar, com novas armas e com novas perspectivas é a rede e o mercado que ela representa e abarca. Ambos frutos do desenvolvimento e conhecimento agregado em função do processo histórico que nos trouxe até aqui por meio da velha economia, que todos os idiotas que manejam com destreza uma planilha excel teoricamente conhecem.

A rede cria uma holografia sobre a Terra e o conjunto de ecossistemas que o homem ajudou a construir. É aí que estão as novas fronteiras, é aí que estão os novos espaços para construir uma História que valha a pena. A Web é a nova plataforma de articulação da sociedade e das empresas que detêm know how para abrir e construir caminhos neste novo ecossistema global em formação. Tanto do ponto de vista editorial quanto comercial.

Falta querer ou reconhecer a incapacidade para fazer e, neste caso, abrir espaço para quem sabe.

Vamos debater mais esse tema?
A minha contribuição para este debate, do qual participo desde o final do anos 80, consciente de que o velho mundo dos jornais estava morrendo, está dada.