CONFINS

O tempo social é influenciado pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar – uma defesa do tempo, Harold Innis

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UMA NOVA IMPRENSA

Como os jornais perderam o passo na era da informação virtual

RODRIGO MESQUITA

Publicado na Paiuí, junho de 2020

Rodrigo com o pai, Ruy Mesquita, no Alto Rio Negro, na Amazônia, em 1994: no ano seguinte, a <i data-recalc-dims=Newsweek, então a maior semanal do mundo, diria que a internet era coisa de lunáticos”/>

Rodrigo com o pai, Ruy Mesquita, no Alto Rio Negro, na Amazônia, em 1994: no ano seguinte, a Newsweek, então a maior semanal do mundo, diria que a internet era coisa de lunáticos

A imprensa cruzou os braços em 1995, quando a Web nascia. O mundo andou, e os gigantes da tecnologia conquistaram o seu mercado e dominaram o centro de uma estrutura construída pelos cientistas da década de Woodstock, ungidos pelo espírito libertário dos anos 1960, com o objetivo de que ninguém tivesse o controle da nova infraestrutura, que cresce ia pelas pontas e empodera a célula – ou seja, o indivíduo. Essa infraestrutura, que gerou a nova mídia, é a internet, cujos fluxos de informações, em função do domínio dos gigantes da tecnologia, estão apoiados e formatados pela publicidade, deixando a audiência exposta a operações de manipulação informativa num nível que acadêmicos, legisladores e mesmo jornalistas somente agora começam a entender de fato.

Em 2008, ano da crise financeira, quando já havia perdido o mercado de pequenos anúncios e começou a ficar sem os grandes anunciantes, a imprensa finalmente acordou. Mas acordou apenas para o potencial da rede de distribuir informação, atuando no novo ambiente midiático em formato broadcast – de um ponto para milhares, ignorando a via de retorno. Desconsiderou o fato de que tinha passado a atuar num novo ecossistema de informação, onde ninguém tem o domínio da opinião pública e todos podem interagir, articular, escrever, editar e publicar – um ecossistema muito diferente do antigo meio jornalístico, fechado e reservado a poucos nos seus predicados de interação e articulação.

Com isso, o campo ficou aberto para aventureiros na área da comunicação. Alguns deles desprovidos de ética e de responsabilidade social, capazes de recorrer a todos os recursos a fim de conquistar a atenção dos leitores para seus devaneios, valendo-se de processos de interação e articulação que têm como premissa as inseguranças e temores do público. Essas pessoas eram e são ainda uma ameaça à democracia.

Nasci num lugar que era como o anexo de uma redação, a casa do jornalista Ruy Mesquita, meu pai. Apaixonei-me pelo jornalismo ouvindo histórias sobre meu bisavô, Júlio Mesquita, publisher inovador, que revolucionou O Estado de S. Paulo ao priorizar o interesse público e desvinculá-lo de grupos políticos e econômicos, gestando assim o jornalismo moderno brasileiro. Era um homem consciente de que o público é sempre o protagonista e de que existe grande diferença entre o que almejamos para a sociedade e a dinâmica concreta da história. Tive também o prazer de conviver muitos anos com meu avô, Júlio Mesquita Filho, um jornalista que dedicou sua vida inteiramente ao Brasil.

Estudei e estudo a história tendo como perspectiva que o jornalismo é o primeiro registro do que somos e vivemos. Tive a sorte e o privilégio de começar a carreira profissional numa redação brilhante, que estava em sua melhor fase e sabia que o bom jornalismo é antes de tudo um exercício coletivo: a equipe do Jornal da Tarde. Essa redação não se teria destacado de outras do seu tempo se não tivesse havido ali um casamento positivo e profícuo entre governança e profissionais.

Todos os Mesquita da minha geração estavam fadados a trabalhar na empresa. Não almejava chegar à direção. Queria ser só jornalista e, como tal, conquistar o respeito dos profissionais. Desejava também fazer-me repórter especial: um jornalista que investigasse o que ocorre nos confins, que podem ser tanto as fronteiras de ocupação do planeta como uma esquina de São Paulo à qual poucos deram atenção.

Em 1976, com 22 anos de idade, minha primeira experiência na redação foi na mesa de triagem de telegramas.  Comandava um grupo de contínuos que fazia a primeira separação de todo o material recebido da então maior rede brasileira de captação de informações nacionais, a da S.A. O Estado de S. Paulo, e das agências de notícias internacionais. Não havia melhor ponto de observação da redação, do comportamento dos jornalistas e de como tratavam a maçaroca que recebíamos diariamente. Pouco a pouco, comecei a ascensão profissional, passando por diversas editorias do Jornal da Tarde, na função de repórter, copidesque, subeditor, pauteiro, repórter especial e editor.

Tenho saudade dessa época e guardo o prazer de ter me envolvido, entre outros trabalhos, na cobertura (como repórter, pauteiro ou editor) da construção do trecho Rio-Santos da BR-101, responsável pelo deterioramento do litoral paulista. Também atuei na cobertura da campanha das Diretas Já, da ocupação do Planalto Central e Sul da Amazônia e na série de reportagens especiais do Jornal da Tarde – como Guerra aos que Querem Destruir Nosso Litoral, A República Socialista Soviética do Brasil e Os Guerrilheiros da Prosperidade Nacional. Como editor da área internacional do Jornal da Tarde, fui responsável pelo furo mundial sobre o início da Guerra das Malvinas, em 1982, que cobri como enviado especial, mesma função que me coube na cobertura da primeira fase da Guerra Irã-Iraque, em 1980, e da morte de Tancredo Neves, em 1985.

Todos esses trabalhos tiveram diversos desdobramentos ao longo dos anos. Os que causaram maior impacto em minha vida foram a cobertura da construção da BR-101 e a série de reportagens Guerra aos que Querem Destruir o Nosso Litoral. Esta última começou quando detectei, no início dos anos 1980, um processo de grilagem de 60 dos 90 km do litoral do Paraná, feito com uma violência desconhecida na região: homens armados comandados por um sujeito egresso de El Salvador, búfalos sendo usados para destroçar as roças das dezenas de vilas da região, que foram cercadas por arame farpado, e centenas de desmatadores desalojados das áreas inundadas de Itaipu que passaram a destruir as matas.

A apropriação das terras ia das praias às encostas da Serra do Mar, cuja altitude havia sido adulterada num processo em que o grupo empresarial responsável pela devastação conseguira financiamento do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que não existe mais, para reflorestamento de palmito-juçara. Piada de mau gosto: não havia nem há tecnologia para isso. A Companhia Agropastoril Litorânea do Paraná (Capela), subsidiária de um grande grupo empresarial com interesses na exploração siderúrgica em Minas Gerais e negócios no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, era a responsável pela operação de guerra. Naquele local, viviam as últimas comunidades caiçaras do litoral Sul do Brasil, e os céus desabavam sobre elas. Convivia com os caiçaras desde a infância e compartilhei do seu sentimento de fim de mundo e de sua revolta com a situação.

Fizemos centenas de reportagens, em quase dois anos de muito trabalho, com envolvimento direto meu, de Dirceu Pio, Randau Marques, Laurentino Gomes, Celia Romano e outros jornalistas do Grupo Estado. O movimento ambientalista era incipiente na época e mantinha uma aproximação forte com o Jornal da Tarde em função da cobertura que o diário fizera da reação da sociedade contra a construção de uma usina atômica na Jureia, no litoral paulista, e de um novo aeroporto para a capital paulista em Caucaia do Alto, no município de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. Tal aproximação acabou gerando um processo de articulação entre o jornal e aquele setor da sociedade civil, e por isso foi importante em minha vida: o jornalismo só tem sentido enquanto ferramenta de articulação da sociedade. Esse trabalho me jogou de braços abertos nessa direção.

Em 1986, a Capela foi obrigada a se retirar do litoral do Paraná – que, somado ao litoral Sul de São Paulo, é hoje o que resta da costa brasileira não destruída pela especulação imobiliária – e criamos a SOS Mata Atlântica, fundação para perpetuar os cuidados com o litoral e a província de Mata Atlântica. O primeiro presidente foi Fábio Feldmann, que ficou no cargo por cerca de seis meses. Na eleição de 1986, ele resolveu se candidatar a deputado federal. Acreditávamos que não conseguiria o cargo, mas seus eleitores acabariam ficando como o cabedal da fundação: houve uma enorme abstenção, e ele se elegeu.

Sobrou para mim, que não ambicionava ser presidente da SOS Mata Atlântica por causa da minha atividade jornalística. Sempre tive preocupação com a questão ambiental, mas meu único ativismo é o jornalismo, e meu envolvimento com os ambientalistas ocorreu em função da minha solidariedade aos caiçaras ameaçados pela Capela. Criamos a campanha “Estão tirando o verde da nossa terra”, conseguimos uma doação de 400 mil dólares da Fundação MacArthur e, a partir daí, estruturamos a entidade durante meus seis anos como presidente, em trabalho voluntário, sem nunca termos recorrido a ela para nos promovermos e sempre em respeito pelo conselho da entidade, que representava de fato a sociedade civil.

Em 1984, assumi a função de editor-chefe, ou secretário de Redação, do Jornal da Tarde por aspiração e delegação da própria redação. Foi um período duro. A empresa vinha promovendo cortes contínuos havia anos, em função de um empréstimo em dólares para construir seu novo prédio e da primeira grande desvalorização do cruzeiro por Delfim Netto, em 1979. Assumi a redação no momento que Fernando Mitre saía para criar a revista Afinal, levando consigo o primeiro homem de cada editoria. Eu buscava na indústria jornalística movimentos que indicassem a criação de novas oportunidades e acabei me fixando nas atividades da Reuters, que, depois de passar por uma situação ruim nos anos 1960, tinha se voltado para as novas tecnologias e lançado para o mercado financeiro o primeiro serviço de informações econômicas em tempo real.

Em 1988, o Grupo Estado sofreu uma profunda reestruturação, e fui para a Agência Estado, unidade operacional do grupo fundada em 1970 para aglutinar toda a estrutura de captação de informação da empresa – historicamente a sua força e grande diferencial competitivo –, servindo aos dois jornais (O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde) e à rádio Eldorado, também parte da empresa. A Agência Estado era um túmulo para os aspirantes ao vedetismo.

Comandada pelos jornais, essa plataforma funcionava conforme o deadline das redações do Estado e do JT. Em São Paulo, tinha um gestor e meia dúzia de jornalistas que caçavam matérias nas redações para distribuir a vários jornais brasileiros. A essa altura, a Reuters já tinha virado o jogo e se transformado em uma empresa pós-moderna de jornalismo internacional, oferecendo serviços tradicionais para os meios de comunicação e novos para o mercado financeiro.

Aproximei-me de Enrique Jara, jornalista uruguaio que comandava a Reuters na América Latina, a partir de Buenos Aires, onde na época ficava o principal escritório da empresa no continente. Aprofundamos as prospecções e os estudos sobre novos serviços para a nova empresa que estávamos criando. A equipe liderada por mim reformulou toda a cadeia de captação de informação do Grupo Estado, na época a rede de maior capilaridade do jornalismo brasileiro. Com seus processos renovados, deixou de trabalhar em função do deadline dos jornais e abraçou um novo sistema, compatível com a necessidade de uma empresa de informação que servia dois jornais, uma rádio e o mercado consumidor de informações, abrindo oportunidades para todos os envolvidos. Naquele início nos servíamos da Arpanet (rede de computadores que precedeu a internet) ao fax, passando pelo telex, para distribuir os serviços.

Mergulhamos em seguida nos mistérios das novas telecomunicações, com toda a sua parafernália de computadores e softwares, e os desvendamos, ou pelo menos perdemos o medo deles. Tanto jornalistas quanto profissionais da área comercial do tempo do papel se tornaram capazes de especificar softwares junto ao pessoal da tecnologia.

O objetivo era criar um serviço de informação econômica em tempo real para o mercado financeiro, na época o único segmento da sociedade aparelhado para recebê-lo e disposto a pagar por isso. E um software para esse mercado precisa de alguma sofisticação. Não existe de fato serviço de notícia em tempo real, mas entregávamos o pregão das Bolsas usadas pelo mercado brasileiro com um delay de, no máximo, um segundo e meio (o “tempo real”), com uma cobertura jornalística técnica, que incluía notícias que afetavam os mercados, análises, o diabo. Para se ter ideia, distribuímos num dia um volume de informações equivalente ao publicado em um ano pelo Estado de S. Paulo. E cada uma das telas dos nossos clientes era totalmente personalizável, nenhum deles via exatamente os mesmos dados, e cada um podia montar suas telas em função dos mercados em que trabalhava e do público a que servia.

Como dizia Enrique Jara, tínhamos a obrigação de focar nisso não só porque era um bom negócio, mas porque os classificados – que eram a base de sustentação de todos os jornais do mundo – acabariam por migrar inexoravelmente para os novos sistemas. Foi recorrendo a essa argumentação que defendi o investimento junto ao conselho da empresa em 1990. Seria o primeiro passo para entendermos o que era trabalhar em rede, sem o domínio do público, sem barreiras de entrada, num mundo com vias de duas mãos em que todas as pessoas são publishers.

AReuters tinha o “Rolls-Royce”: um serviço desenhado para o topo do mercado global, pelo qual a agência firmava contratos leoninos e cobrava preços estratosféricos. Construímos o Fuscão envenenado: um serviço desenhado para a média do mercado brasileiro, com preços razoáveis, contratos amigáveis e – a grande inovação – meios alternativos de distribuição. Além de linhas telefônicas privadas da Embratel, que não garantia qualidade nem escala, utilizávamos para a distribuição dos serviços, de forma pioneira em todo o mundo, a sub-banda de radiotransmissão (faixa em geral ociosa e algumas usadas para carregar bits) das rádios FMs. E nasceu então a Broadcast, empresa que em pouco tempo conquistou o mercado brasileiro, mostrando à Reuters que esse mercado era maior do que imaginava a agência internacional.

Lançamos a Broadcast em 1991. Três anos depois, os investimentos estavam pagos. Com esse serviço e outros igualmente inovadores, mas com menos tecnologia agregada, a Agência Estado começou a caminhar para uma liderança inequívoca do mercado. Para os envolvidos em todas as áreas da empresa, foi um prazer construir a nova Agência Estado, uma unidade de negócios aberta ao mercado, e atuar nela. Tínhamos liberdade para criar, trabalhar e muita responsabilidade, sem os cacoetes e vícios dos jornais e sem a pretensão de sermos os xerifes da razão. Nosso objetivo era interagir com o público e, assim, servi-lo, como no início da história moderna dos jornais.

Quando assumimos a unidade operacional, ela faturava cerca de 400 mil reais por ano, valor que não se realizava integralmente por desleixo na cobrança. Na realidade a agência estava totalmente voltada para os veículos da casa. Entregamos uma nova empresa com mais de 100 milhões de reais de faturamento, com margem de lucro de quase 30%, líder do mercado de informação financeira e de todos os outros em que atuava – uma empresa focada nos clientes, entre os quais se incluíam, é claro, os jornais da casa. Situação que perdura até hoje, apesar de não ter sido feita nenhuma inovação substancial.

O aprendizado estava só começando. No início dos anos 1990, fui convidado pela Innovation International Media para um encontro de jornalistas da América Latina na Universidade Harvard. Apresentei no seminário minha visão sobre o futuro das empresas de informação. Na plateia, estava Jerome Rubin, chairman do programa News in the Future (Notícias no futuro). O programa fazia parte do Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Rubin tinha fundado e depois vendido a primeira grande empresa eletrônica de informações jornalísticas, o LexisNexis, uma base de dados dinâmica da jurisprudência norte-americana que indexava diariamente cem dos maiores jornais dos Estados Unidos. Terminado o seminário, Rubin, que com o tempo se tornou meu pai norte-americano, disse que tinha gostado da apresentação e que eu deveria participar como representante do Grupo Estado no News in the Future.

Convenci o Grupo Estado e fui. Minha vida profissional já tinha mudado radicalmente. Não imaginava que poderia ser muito diferente do que era. Mas mudou outra vez e me trouxe a esperança de, no futuro, voltar a atuar como repórter dos confins. Agora não numa esquina de São Paulo ou nos limites da Amazônia, mas cobrindo o processo de ocupação da última fronteira da humanidade nos confins da rede formada pela internet, que deflagrou o processo de inovação mais radical e violento já vivido pelo ser humano.

Mais do que de invenções, como ocorreu na Revolução Industrial, o resultado prático – em termos de produtividade, criação e distribuição de riqueza – depende agora do entendimento da sociedade sobre o que é a rede das redes, do amadurecimento de sua visão a respeito dessa tecnologia e do modo de usufruir dela. É um trabalho para essa geração e as futuras. Ainda está no início de sua expansão esse emaranhado de sistemas criado pela internet, com as invenções que nela se dependuram e dela dependem, ampliando os limites e possibilidades das sociedades com novos caminhos de interação e articulações de todo tipo: sociais, políticas e econômicas.

Era esse o foco do programa do Media Lab: ajudar a indústria jornalística a entrar com o pé direito no tempo das redes, que são uma extensão do mundo analógico e sua única possibilidade de rejuvenescimento. Todas as grandes empresas e grandes veículos do jornalismo norte-americano estavam lá, do New York Times à Time Warner. Também marcava presença o McCann Worldgroup, agência internacional de publicidade.

Em outros programas específicos, estavam as operadoras de telefonia, a indústria de software e games, entidades médicas e governamentais, além de empresas de vários outros setores, de todo o mundo. O Media Lab tinha sido fundado por Nicholas Negroponte e Jerome B. Wiesner em 1980. Wiesner, que fora conselheiro científico de John Kennedy e presidente do MIT, deu guarida ao jovem Negroponte, que havia previsto no final dos anos 1970 a convergência das mídias. Juntos, eles criaram o laboratório de tecnologias digitais do MIT, que teve enorme responsabilidade na gestação da revolução tecnológica. Com certeza, de todos os setores da economia que participavam dos programas do Media Lab, o mais reticente e arrogante era a indústria da informação. Em grande parte por causa de seu domínio, de mais de um século, sobre a opinião pública.

Seria uma digressão expor aqui parte do que aprendi sobre o mundo atual e os caminhos futuros durante dezesseis anos de convivência (dez deles como representante do Grupo Estado e os últimos seis como pesquisador afiliado) com esse centro de pesquisas e estudos de excelência mundial. Mas não posso deixar de mencionar dois ensinamentos que viraram totens para mim.

Hoje, todos nós temos consciência de que vivemos num mundo “em beta”, ou seja, envolvido num processo de mudança contínuo e em alta velocidade. Naquela época era diferente, mesmo lá no Media Lab não se falava nisso com a contundência de hoje, mas estava muito enraizada a certeza de que vinham sendo fermentadas duas revoluções, como disse o cientista Walter Bender: “A primeira, uma revolução de comunicação interpessoal. A segunda, não uma revolução da tecnologia, mas da epistemologia e do aprendizado. Construcionismo, aprender fazendo, a revolução de Dewey, Piaget e Papert. Nela, o aprendizado acontece melhor não no espaço formal da sala de aula. Acontece em aplicações concretas. Eis porque devemos buscar construir ambientes para aprender fazendo.”

Ao analisar a segunda revolução, Bender antevia com clareza que a sociedade teria pela frente uma nova arquitetura cognitiva, um novo ambiente cognitivo, que com o tempo seria dominante. Daí a necessidade de construir ambientes que permitam fazer. O cientista dirigia o programa News in the Future, e poucos anos depois se tornaria o braço direito de Nicholas Negroponte na direção operacional de todo o Media Lab. Bender desenvolveu também as primeiras pesquisas sobre redes sociais, que no Media Lab eram chamadas “redes orgânicas”.

Entrei nesse think tank em 1994 e ter me conscientizado de que eram duas, e não uma, as revoluções em processo – a tecnológica e a epistemológica – foi algo fundamental para poder armar e desenvolver o projeto da Agência Estado, que não parou de inovar. Outra noção importante foi a de que software é informação, pois compõe e alavanca a informação jornalística e qualquer outra. Isso aprendi com os cientistas do Media Lab e com brasileiros como Demi Getschko, figura fundamental no desenvolvimento da Agência Estado.

Hoje, não tenho dúvida de que a ignorância a respeito desses dois fatores de grande parte da indústria jornalística e, por consequência, de jornalistas teve enorme responsabilidade na dimensão que alcançou a crise no setor quando a web emergiu. Vivi e assisti a isso de dentro do Media Lab e também do Grupo Estado, do qual sou acionista. Em 1995, a Newsweek, então a revista de maior tiragem impressa de todo o mundo, publicou um texto chamado The Internet? Bah. O subtítulo era menos agressivo, mas talvez mais arrogante: Why Cyberspace Isn’t and Will Never  Be Nirvana (Por que o ciberespeaço não é e nunca será o nirvana). Nicholas Negroponte era apresentado como um lunático, e o Media Lab, como um local de formulação de delírios.

Entre os tópicos analisados sem nenhum fundamento pelo autor do artigo na Newsweek estava a possibilidade de realizar vendas por meio da rede de computadores. Ele argumentava que era uma alucinação imaginar que a internet iria acabar com a célula mater do capitalismo: o vendedor. Na empresa de minha família, questionavam se eu estava querendo dizer que nosso negócio iria acabar. Tentava explicar, sem sucesso, que o negócio não iria acabar, mas que sofreria profundas mudanças, como toda a sociedade, e que, caso não nos preparássemos para isso, iríamos ter sérios problemas pela frente. Deveríamos começar a nos preparar para enfrentar o tsunami bem equipados e iniciando já naquela época a adaptação dos processos clássicos do jornalismo para uma sociedade ativa na rede e com canal de volta. Mas ficamos isolados na Agência Estado. O Grupo Estado e sua direção continuaram vinculados à era industrial.

A maioria da indústria jornalística, acomodada em já fragilizados oligopólios locais, se confortou com a arrogante e desacertada visão do artigo da Newsweek, sem se preocupar em estudar o que significava sair de um ecossistema de informação broadcast, no qual tinha domínio sobre o público, e entrar em um ecossistema em rede, o ambiente midiático da era da informação, onde já não teriam domínio sobre ninguém. Enquanto isso, empresas como a Google, hoje da Alphabet, começavam a refletir sobre como fariam dinheiro. Realizar vendas foi o primeiro objetivo.

Ora, vendas, tanto no ecossistema analógico broadcast quanto no ecossistema em rede, têm como premissa provocar emoção e desprezam totalmente a razão. O algoritmo tem a capacidade de formar redes a partir do nada e aprender com o tempo. E o tempo corria a favor dos novos entrantes. Nenhuma empresa do setor jornalístico se dispôs a refletir nem um minuto sequer sobre a possibilidade de provocar, fomentar e mediar processos de formação de redes em torno das questões básicas da vida das pessoas – educação, saúde, infraestrutura, segurança, saneamento, ciência e tecnologia –, em suas interações e articulações com o conjunto dos problemas sociais, políticos e econômicos.

Enquanto empresas como a The New York Times Company jogavam dinheiro no lixo comprando por 1,1 bilhão de dólares o Boston Globe para vender anos depois por 70 milhões de dólares, enquanto a imprensa e os jornalistas continuavam convencidos, como parecem estar até hoje, de que com suas marcas e nomes continuariam donos da opinião pública, os novos entrantes desenvolviam com algoritmos (e, junto, botsmalwares e outros bichos do mesmo naipe) as próprias redes, tendo a emoção na base dessa construção e com o objetivo de realizar vendas.

Por isso, hoje, quem domina a internet – e manda nela – são as tecnologias publicitárias, como demonstrou o Tow Center da Universidade Columbia no documento Guide to Advertising Technology (Guia para a tecnologia publicitária), publicado em dezembro de 2018. Por isso, o debate cívico em todas as plataformas sociais e nas redes que se formam em torno delas é regido pela lógica das vendas. Essa não é a única explicação para o processo contínuo de desinformação que nos assola – muito bem descrito no documento Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policy Making (A desordem da informação: rumo a um arcabouço interdisciplinar de pesquisa e formulação de políticas públicas), encomendado pelo Conselho da Europa, que está servindo de base para o início da regulamentação da ação dos gigantes da tecnologia –, mas é um dos bons motivos.

O que determina a formação da opinião pública nesse novo ecossistema – o planeta expandido pela rede das redes e as possibilidades que ela abre com seus novos caminhos de interação e articulação de todos os tipos de relação humana – são os fluxos de informações e as narrativas que carregam, responsáveis pelos fluxos de atenção. Estou falando das redes sociais, autônomas ou estimuladas, que precisam ser cobertas jornalisticamente com o algoritmo e todos os recursos técnicos que a rede permite e também com o melhor dos jornalistas e apurações jornalísticas de fôlego. Twitter, YouTube, Instagram, Facebook e similares são ferramentas, plataformas, a partir das quais se formam as redes sociais, que são de cada um de nós, o público.

A insistência da imprensa em apresentar as chamadas fake news como as principais responsáveis pela balbúrdia que envolve todo o planeta contribui para criar ainda mais confusão na cabeça do público, abandonado à própria sorte. Sem nenhuma mediação da imprensa que, omissa em relação ao fato de que as notícias abrem a porta para a participação, não cumpre sua missão e deixa de lado sua razão de ser: ajudar-nos a entender, a navegar, a separar a ordem do caos, porque a ordem surge do caos graças à habilidade de enfatizar aquilo que é importante e universal.

Anova realidade exige um novo comportamento da imprensa e dos jornalistas. Não se trata de o jornalista se colocar como influenciador, uma hipótese não descartável desde que inserida no todo. O desafio é trabalhar de forma organizada e coletiva, regidos por uma certa ideia do que é a sociedade (local) e quais são suas possibilidades futuras, com uma governança adequada ao tempo das redes. E, mais do que isso, abrir-se ao público, ouvindo-o antes de formular mensagens, que devem sempre estar abertas ao retorno, ao diálogo.

Bem ou mal, a reação está ocorrendo. A imprensa tem coberto com mais atenção e profundidade os movimentos dos novos impérios de tecnologia. Mas isso é pouco. É possível fazer mais, desde que os fluxos de informação e atenção passem a ser cobertos jornalisticamente com o melhor do algoritmo e jornalistas competentes. Não, isso não é um sonho nem um delírio. Existem na internet dezenas, senão centenas, de empresas que oferecem serviços sofisticados tanto de curadoria quanto de monitoramento, e não só para classificar como positivas ou negativas as manifestações do público sobre determinado tema. Elas oferecem também serviços que permitem identificar quem é quem numa rede social e o que determinada rede social está publicando.

As empresas jornalísticas poderiam e deveriam ter os próprios sistemas para fazer isso – ouvir e prospectar de forma contínua a opinião pública – e acompanhar a reação das pessoas ao que está sendo publicado, apresentando essa cobertura jornalística em páginas tecnologicamente dinâmicas na internet, analisadas e comentadas por jornalistas. Esse processo com certeza contribuiria para a construção de novos modelos de negócios. Restringir tal possibilidade à venda de assinaturas significa condenar à morte a maioria dos atuais players da indústria jornalística.

É preciso ter consciência de que, daqui para a frente, a formação da opinião pública vai ser cada vez mais fragmentada, complexa e autônoma. O desafio é ocupar os espaços civilizatórios dos fluxos de informação para enfrentar os da barbárie, estes mais organizados do que a imprensa nas redes sociais atualmente. Como as hordas da barbárie não têm passado nem compromissos com nada além de sua própria verdade, conseguem avançar rápido em épocas de rupturas tão profundas quanto as que estamos enfrentando. Por tudo isso, é preciso contribuir para que as novas gerações de jornalistas entendam que não se faz jornalismo sem ouvir e prospectar o público, o protagonista de toda a história.

“Quando se vive em uma era da informação, a cultura se torna um grande negócio, a educação se torna um grande negócio, e a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios”, alertava o teórico da comunicação Marshall McLuhan, na década de 1970, quando o processo apenas engatinhava. A imprensa, para ter sentido, tem de ser capaz de cobrir a nova realidade – a cultura se formando em tempo real nos fluxos da rede – e fazer o que está ao alcance para conquistar competências para isso.

A alternativa é jogar a toalha e brincar de influenciador, o lobo solitário, explorando a ignorância do público e contribuindo para que a balbúrdia seja um fenômeno permanente e dominante, com as forças da barbárie comandando o processo – no Brasil, muito bem representadas pelas redes sociais dos Bolsonaro, as mais organizadas desse novo ecossistema de comunicação da sociedade.

Informação: dos jornais a um mundo sem fronteiras


Jornalista da família Mesquita fala sobre a função histórica dos jornais impressos, inclusive o do O Estado de S. Paulo, e das mudanças que a era da internet trouxe. Ele aborda como é possível fazer jornalismo nos novos tempos
 –  entrevista de julho de 2013 transcrita do página 22 da GV

Página 22 – Rodrigo,  você acredita na existência de uma crise dos meios jornalísticos provocada pelo descompasso entre a novíssima sociedade do conhecimento, revolucionada pelo digital, e as antigas estruturas da informação ?

Rodrigo – O apogeu da indústria de jornais acontece na década de 1940. A partir daí, este setor da indústria de comunicação social começa a envelhecer. Assim como as plataformas digitais atuais, os jornais também eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos.  Alexis de Tocqueville ( filósofo político francês, 1805-1859) aborda, na Democracia da América o papel dos jornais que estavam se estruturando no século 19 nos Estados Unidos. Para Tocqueville, os jornais contribuíam para  os cidadãos se sentirem parte de uma comunidade local, que por sua vez fazia parte de uma comunidade maior,  que era a nação americana nascendo. O jornal teve durante dezenas de anos o papel de plataforma de articulação das comunidades locais. Veja o caso do meu bisavô, Júlio Mesquita (jornalista, 1862-1927)…

Página 22 –  Júlio Mesquita foi o fundador do jornal “O Estado de S Paulo”?

Rodrigo – Não, meu bisavô foi um “self-made man” e não foi o fundador do Estadão.  O jornal  A Província de S Paulo foi fundado por um grupo de republicanos em 1875 com o objetivo promover a República e a abolição da escravatura.  Ele foi levado como colaborador para este jornal por Rangel Pestana (jornalista e político, 1839-1903) no final do século 19.  Para os republicanos, o jornal não era um negócio. Era uma ferramenta para se atingir seus objetivos. Depois de a República ter sido proclamada e a escravatura abolida, este grupo de republicanos perdeu o interesse no jornal. Ele não tinha mais nenhum valor para eles.

Meu bisavô, com a ajuda do pai imigrante português semi analfabeto e que escolheu o filho que iria estudar, começou a comprar as ações do jornal até adquirir 100%.  Neste processo, partiu para o rompimento dos laços do jornal com o Partido Republicano que o subsidiava. Desde a proclamação da República, o  nome do jornal tinha sido alterado  para O Estado de S Paulo. Concomitantemente ao  rompimento, promoveu uma profunda reforma editorial no jornal e fez uma série de inovações empresariais. Ninguém podia assinar textos no jornal, nem ele, “porque não é nosso, é do  público”. Com isso ele indicava que considerava o jornalismo uma atividade coletiva e colaborativa e começava a definir a missão do jornal.

Era um homem além do seu tempo, como fica claro nesta antevisão do que seria colaboração em rede.

Página 22 –  E qual era esta missão?

Rodrigo –  A missão do O Estado de S Paulo  (e de todos os jornais sérios e éticos) era levantar os problemas que preocupavam a comunidade de São Paulo e promover o debate destes problemas pela comunidade. Ele tinha uma frase que considero lapidar, verdadeira até hoje para as empresas jornalísticas e que mostra que suas ideias (de rede) continuam contemporâneas:  Jamais sonhei que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública de meu estado. Tudo o que eu fiz na minha vida foi sondar a opinião pública e me deixar  levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada.

Um exemplo disso foi a greve operária de 1917, liderada pelos operários anarquistas. O governo criou um comitê de arbitragem, que não chegava a uma solução. Aí chamaram o jornal para arbitrar o comitê de arbitragem. E O Estado de S Paulo ficou do lado dos operários anarquistas porque as condições dos trabalhadores eram desumanas. Nesta época, os jornais estavam tão inseridos  na vida das comunidades que podiam representar este papel: o de árbitro de uma crise da comunidade que serviam.

A partir do  final da década de 1940, o papel de articulação da sociedade do meio jornal começa a mudar. O jornal deixa de acompanhar proporcionalmente o crescimento da população, começa a enfrentar a concorrência de múltiplas plataformas de mídia, a explosão demográfica e o crescimento desmesurado das cidades, que fazem que o meio jornal comece a se distanciar do seu público.  A sociedade  vai ganhando um outro  grau de complexidade e vai se fragmentando de tal forma que começa ficar difícil para o meio jornal fazer a cobertura jornalística com a mesma amplitude e profundidade do início do século passado até meados da década de 40.

É bom lembrar que desde o final da década de 40 a comunidade científica acadêmica já estava estudando infraestruturas na direção da internet e prevendo a possibilidade de sistemas de comunicação distribuídos. Em 1968, o cientista  J.C. Licklider  já dizia que, em poucos anos, iríamos nos comunicar melhor através de uma máquina do que face a face.

Página 22 –  Mas se um afastamento de sua missão e novas formas de articulação já se formavam há tanto tempo, por que os jornais continuaram com o mesmo modelo?

Rodrigo – Os graves problemas que a indústria de jornais está enfrentando é resultado da sua acomodação. Esta crise não surgiu de repente. Os jornais tiveram o monopólio dos “classificados” das comunidades em que estavam inseridos durante cerca de meio século. Do início do século 20 aos anos 40, eram a Ágora política e comercial das cidades que serviam.  Todas as empresas que atingem uma posição monopolista emburrecem. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social. A maioria deles não tinha e não tem a visão empresarial dos patriarcas.

E isso ocorre até hoje. Por  isso, o que está em risco hoje é o jornal de papel. O papel do jornal, ser um instrumento de articulação para a sociedade, é um espaço que continua aberto para ser ocupado. A nova infraestrutura de comunicação abre espaço para o que chamamos de “jornalismo cidadão” e novos  players sem legados. No futuro, todo cidadão que tiver um compromisso com o processo institucional de alguma forma vai estar ligado ao que chamamos de jornalismo.  O  jornalista profissional será necessário para realizar a filtragem daquilo que tem consistência do que é besteira, bobagem.

Não existem dois mundos hoje. Um analógico, outro digital. O rejuvenescimento e revigoramento da economia analógica depende da evolução da economia digital, que é consequência da evolução da economia da era industrial e do gênio humano. Uma das principais áreas de cobertura jornalística hoje é a própria internet, na medida em que as fontes primárias estão presentes na rede e que o público, a cidadania, está lá num processo de conversação sem fim debatendo seus problemas, ansiedades, sonhos e perspectivas.

Hoje, todas as pessoas e todas as empresas são parte também do setor de informação. Até muito pouco tempo atrás, as empresas tradicionais de informação tinham o domínio da audiência.  E  qualquer pessoa que, por motivo político, econômico, institucional, comercial, quisesse se relacionar com o público, precisava fazer lobby sobre as estruturas jornalísticas e jornalistas para que a sua informação, a sua mensagem, chegasse ao público. Ou comprava espaço publicitário. Hoje isso não é mais necessário.  No futuro, a publicidade e o marketing serão substituídos por um processo de conversação contínuo das empresas, das pessoas, das entidades com o público na Web, na rede. Dentro de muito pouco tempo, não haverá mais barreiras entre conteúdo e mídia. Isso  estará inserido nos processos de cada profissional e de todas as empresas, nas redes sociais que elas paulatinamente estão construindo.

Página 22 – E as empresas de informação tem dificuldade em aceitar esta nova realidade?

Rodrigo – O  problema dos jornais e jornalistas é que se consideravam (e em alguns casos ainda se consideram) superiores aos mortais comuns e por isso, no início da internet como Web, eles não mergulharam nas peculiaridades da rede. E a principal peculiaridade da rede é que, por meio do algoritmo, ela permite a criação de comunidades sobre comunidades a partir do nada.

Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos. E contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política. Enfim, o papel do jornal era contribuir para articulação da sociedade para que ela fizesse valer seus interesses frente ao poder público e frente aos poderosos da sociedade. Se os jornais tivessem mergulhado na Web, rede, e procurado entendê-la desde o início, com certeza teriam encontrado caminhos para continuar cumprindo sua missão neste novo ambiente da informação, comunicação, articulação, este ambiente de conversação da sociedade.

Esse papel continua aberto para ser realizado e existem formas de monetizar isso oferecendo novas formas de serviços para pessoas, para empresas e para setores da economia que vão inexoravelmente entrar neste processo de digitalização da economia.  As empresas têm que organizar suas redes sociais nas mídias sociais. Elas têm que monitorar sua marca, entender como o público enxerga a empresa, o seu setor por meio da rede. Têm que estabelecer canais de conversação com seu público potencial, seus fornecedores e distribuidores.

O monitoramento se faz através de softwares, os processos de big data. A empresa tem que identificar quem é simpático a ela, saber quais são os problemas que ela enfrenta em relação à distribuição, ao preço, entender como sua marca é  vista, cumprir também com seu papel social.

O problema é que as empresas, ainda naturalmente com um pé na velha economia, têm medo do  que  estão vendo pela frente e não sabem como fazer isso. As agências de publicidade tradicionais também não sabem fazer isso, transferem processos analógicos para o mundo digital, fazendo no máximo buzz, quase um barulho inócuo. Existem, é claro, as exceções, empresas modernas que já estão fazendo isso e que deveriam ser vistas como exemplo.

Se existe participantes de um setor da velha economia que têm cultura para fazer isso são as empresas jornalísticas, desde que tenham humildade para olhar para o papel histórico delas, que é sua capacidade para articular públicos. A notícia, a informação comercial é um meio, não um fim.

Página 22 –  Isto está acontecendo?

Rodrigo – Não na dimensão que poderia ocorrer, mas há movimentos  nesta direção. O Nieman Journalism Lab, fundação voltada para o jornalismo da Harvard University, tem alguns trabalhos  nesta direção. Mas os Estados Unidos é prático demais. Para eles é a indústria do News Print. Pra mim, a notícia não tem sentido por si só, distribuída no etéreo. As empresas não fizeram dinheiro pela sua capacidade de distribuir informação. Numa perspectiva histórica, legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da  sua capacidade de articular públicos. É o conceito do meu amigo Walter Bender, que é uma  das minhas premissas sagradas:  Notícias não mudam o mundo. Elas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir. Elas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.

É também por isso que os processos de informação, comunicação e articulação na rede, na Web, impactaram e impactam as tradicionais estruturas das empresas jornalísticas e seus modelos de negócios. Invés de procurar um caminho neste novo mundo e mexer na sua estrutura e processos, as empresas jornalísticas estão mandando embora os jornalistas mais experientes e mais caros e contratando mão de obra inexperiente e barata.

A rede permite e fomenta novas formas de relacionamento de capital e trabalho e é sobre isso que todas as empresas (não  só as jornalísticas) deveriam estar refletindo.  As jornalísticas deveriam pegar diversos grupos de jornalistas experientes e criar condições para que estes pequenos grupos formassem suas ilhas jornalísticas, criassem pequenas empresas voltadas para fornecer notícias sobre um nicho, cobrir um nicho. Subsidiá-los por  um período curto. As velhas empresas jornalísticas criariam um canal de  relacionamento com eles e juntos desenvolveriam formas de monetização não exclusivas, mas parcerias. Um processo de satelização, consequência na nova infraestrutura da economia: a internet, a web, a rede.

Se você ficar em uma estratégia de cortar custos em função de queda da publicidade que está sendo registrada e que vai continuar sendo registrada, é a morte. Eu acho também que esses sistemas de “paywall” (acesso a conteúdo da internet apenas através de pagamento de uma tarifa) é uma barreira para a missão dos jornais, que vai além do informar. A informação que o jornal distribui tem sentido na medida que é um fator da articulação da sociedade e se você coloca limites se cria uma barreira também para sua atuação.

Faz sentido você ter sistemas de micropagamentos para informação superespecializada e setorizada, para pacotes específicos, mas não para o geral. Empresas que usam “paywall” como Wall Street Journal, Financial Times e New York Times estão fazendo pouco dinheiro e são brands globais na língua dominante. Sou mais pela abertura de novos caminhos trilhados pelo The Guardian, Forbes e outros. A Web é aberta e não adianta lutar contra isso. O núcleo principal da sua atividade não pode ser fechado, o modelo  de negócio tem que ser aberto.

Página 22 – Mas de onde virá a receita destas empresas?

Rodrigo – O processo de digitalização da economia  é irreversível. As empresas têm que procurar caminhos de monetização em função de serviços de articulação na rede e no processo de digitalização das empresas. Hoje você tem softwares que podem monitorar as informações que estão sendo publicadas nas diversas mídias/ferramentas sociais que estão dentro da internet, como Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, Pinterest, Path, Youtube, Tumblr, Orkut etc.  Você pode acompanhar as discussões de assuntos específicos ou de determinada indústria ou governo ou entidade, praticamente em tempo real, em cada uma dessas mídias e nas mídias tradicionais que  atuam na rede.  Por outro lado, estes softwares mostram apenas estatísticas que precisam ser analisadas em função do seu objetivo. E este papel de análise pode ser feito por jornalistas com a contribuição de outros profissionais.

A rede hoje em certa medida é uma balbúrdia. Você tem uma porcentagem muito grande do público, com certeza mais do que 50%, que não consegue fazer distinção entre informação estruturada, relevante, primária ou uma  análise fundamentada e com valor   da “informação” dos espertalhões que estão fazendo marketing no mau sentido, retrabalhando informações de terceiros sem acrescentar  nada, fazendo  barulho para pegar vítimas.  As tradicionais empresas jornalísticas, com a força de suas marcas e sua relação centenária com a cidadania, deveriam estar oferecendo este serviço também. De monitoramento, de curadoria da rede, de agregação temática e de público.  Com isso, se colocariam como um dos vetores do processo de debate e articulação da sociedade na rede.

Enquanto a velha indústria fica parada, veja o Google… Com menos de 15 anos de idade, fatura mais com publicidade que todos os grupos jornalísticos norte-americanos juntos.

Página 22 – E os jornalistas? Qual o futuro para estes profissionais?

Rodrigo –  Antes, o profissional de informação se preparava para fazer carreira em uma empresa que o ajudava a expô-lo para o público, ajudava a promovê-lo como jornalista. Agora, ele terá que encontrar seu próprio caminho. A Universidade de Stanford, Columbia e outras nos Estados Unidos estão discutindo como fomentar o empreendedorismo entre os estudantes da área jornalística.

Os novos jornalistas terão que criar sua própria estrutura de trabalho ou manter relações mais abertas com as empresas tradicionais que sobreviverem. As oportunidades são muitas, este campo nunca esteve tão aberto. É um momento de profunda e acelerada mudança. Os profissionais que já percorreram meio caminho de suas vidas na estrutura antiga sentem uma justificada insegurança. Tecnologia é tudo aquilo que inventaram depois  que você nasceu. Não está no seu córtex, você não sabe pensar naturalmente com aquilo, não  é ainda uma extensão  da sua inteligência, das suas possibilidades.

Para quem está começando agora, as oportunidades são infinitas. O futuro do jornalista está no empreendedorismo. E o futuro das tradicionais empresas jornalísticas está no processo de digitalização das empresas de todos os setores, que  abre um novo campo de receitas que pode ser tão importante quanto os classificados, o velho marketplace,  foi para o jornal de papel. Em outra dimensão, é importante frisar. A Ágora agora é  pública. Cada um de nós está no centro do processo na Web, na rede.

Página 22 – Ao criar um um sistema de informações econômico-financeiras em tempo real, o Broadcast, sucesso instantâneo no início dos anos 1990, você previa esta migração do jornal de papel para o eletrônico?

R – Minha visão, ainda no início dos anos 90, era que a empresa jornalística que ia dar certo nesta nova fase seria aquela que tivesse coragem de se “perder na rede”.  Quando criei, na Agência Estado, o serviço de informação em tempo real (pregões das bolsas, notícias e análises) Broadcast, a ideia era construir um bom negócio e a plataforma de aprendizado da S.A. O Estado de S Paulo para o mundo das telecomunicações, da computação e do software, para o mundo da economia digital, que batia nas nossas portas.

Em 1992, éramos líderes deste mercado, posição que a Agência Estado ainda ocupa mesmo com a competição de gigantes como Reuters e Bloomberg. Naquela época, desenvolvemos um serviço taylorizado para o mercado brasileiro em relação às bolsas e mercados usados pela maior parte dos agentes do setor financeiro e injetamos no  serviço uma competentíssima cobertura jornalística técnica do  mercado financeiro e de informações locais de cunho geral que impactavam os  mercados. Isso com um preço adequado. A Broadcast era o fuscão envenenado; o rolls royce era a Reuters. Hoje, o rolls royce é a Bloomberg, mas a Broad continua liderando o mercado.

Mas tanto a Broadcast quanto os  outros serviços que  criamos na Agência Estado estavam estruturados sobre o velho modelo de monetização a partir da sua capacidade de distribuir informação.  Quando propus para o Conselho do Grupo Estado o projeto Broadcast, entre os argumentos estava o de que os classificados iriam migrar para o resultado  da convergência entre telecomunicações, computação e software. O MIT – Media Lab,  foi um dos primeiros centros  de think tank do novo cenário que estava se desenhando e eu estava lá, desde o  início da década de 90.  Em 1997, escrevi um artigo que já previa o desenvolvimento do cenário que estamos vendo hoje.

Em termos empresariais, meu objetivo era vender o sistema Broadcast a partir do momento em que a internet estivesse mais estruturada e a banda larga mais disseminada no Brasil (isso ocorreu em meados dos anos 2000). E colocar o foco no varejo da economia brasileira, se voltar para setores como micro e pequenas empresas, agronegócio, tecnologia, educação. A informação jornalística seria uma cunha para entrarmos com  serviços de articulação de setores e mercados no processo de digitalização da economia. A receita viria de processos de gestão  de relacionamento e serviços,  não da venda de informação.

Era esse o plano porque estava claro para mim que o mercado financeiro é um mercado das empresas que estão nas capitais financeiras do mundo e por isso nasceram globais. Nova York (Bloomberg) e Londres (Reuters). Em termos locais, o mercado brasileiro, é um mercado pequeno. A capacidade de investimento das empresas globais  neste mercado é muito maior do que o nosso. Enquanto o mercado de articulação e digitalização do varejo da nossa economia tem um potencial muito maior e tem muito mais  a  ver com o papel histórico dos jornais: servir como plataforma de articulação  da sociedade. A notícia, a informação editorial e a comercial, é um meio, não o  fim. Sempre foi assim.

Página 22 –  Entendo que você levou adiante seu projeto de criar processos de articulação na rede.

 Rodrigo – Sim, desde 2002, quando profissionalizamos a gestão da “S.A. O Estado de S Paulo” e eu saí, desenvolvo projetos de gestão de relacionamento na Web, rede, para empresas, setores e entidades. Começamos em Biriguicom uma rede de colaboração, conhecimento e negócios para a capital do calçado infantil. Perdi  dinheiro, mas aprendi muito.

Depois disso, desenvolvemos dezenas de projetos.  Entre eles, a plataforma Peabirus, o TEIAmg, maior projeto de processos crowdsourcing do Brasil,  a Rede CIMPequenas Empresas & Grandes Negócios da Globo, Museu em Rede, O Milagre de Santa Luzia, Raio Brasil, a República Popular do Corínthians entre outros. Um longo caminho de aprendizado, da minha  adolescência e meu sonho  de ser o repórter dos confins às novas fronteiras do desenvolvimento da sociedade humana, a Web, a rede.

Breve, estaremos lançando novos projetos. Agora, com o objetivo de criar uma empresa de informação aberta na Web, na rede,  da qual não seremos  donos nem teremos  o controle, mas teremos o domínio e a gestão.

Página 22 – Confins, acompanho-o por meio deste blog e outros canais que você mantém na rede. Que objetivos você tem com eles?

Sou jornalista, com uma forte e acentuada tendência para o empreendedorismo. Acho que esta característica por causa das circunstâncias do tempo que vivi e vivemos e por  respeito, admiração e amor pelo meu bisavô, meu avô e acima de tudo pelo meu pai, o  jornalista Ruy Mesquita. Na S.A. O  Estado de S  Paulo fiz tudo o que pude para contribuir para a perpetuação da empresa, para abrir um novo caminho no novo sertão, que é a fronteira da Web, da rede. Dei à empresa muito mais  do que recebi nos meus  quase 30 anos de dedicação exclusiva a ela.

O blog Confins é a minha landing page. Minha formação é em História. Para desenvolver os meus projetos, tive que me debruçar sobre a cobertura jornalística da evolução do ecossistema de informação, comunicação e articulação da sociedade e procurar dominar as mídias/ferramentas que vão surgindo na Web, na rede. Daí, o jornal dos confins, o meu canal no rebel mouse, no google+, no linkedin, no  facebook, no youtube, no peabirus, no  twitter, no pinterest, no scoop.it, no scribd, no slideshare, no delicious, no instagran  e outros. Eles estão mais ou menos interligados e em todos é o mesmo foco de conversação: a evolução do ecossistema da informação… Além desta função, há a do aprendizado para usar estas ferramentas na construção  das nossas redes sociais de interesse específico.

Não trabalho sozinho, tenho sócios, somos um time. Eles são mais moços do que eu. Têm mais agilidade e conhecimento para o desenvolvimento dos ambientes de curadoria, agregação, articulação e governança que desenvolvemos, a partir de processos estruturados de monitoramento da rede. O new new new jornalismo. Eu trouxe esta visão que desenvolvi graças a ter “nascido dentro das redações” da “S A O Estado de S Paulo”, de ter sido primeiro sponsor de programas do MIT – Media  Lab e depois pesquisador afiliado, durante quase 15 anos, deste que foi naquele tempo a Escola de Sagres dos novos tempos. Além disso, puxo a articulação no mundo físico (analógico)  e digital.

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Sobre os impactos deste processo na sociedade como um todo ver o post A infraestrutura do futuro.

Nele, utilizando entrevistas em vídeo de Alvin Toffler, Yochai Benkler e Marshall McLuhan,  procuro tecer o quadro do  momento da transição de uma era para outra  que estamos vivendo.

Alvin TofflerAs nações estão perdendo seu poder relativo… a propagação não só de computadores, como também de outros sistemas de comunicação e redes de todo o gênero, com isso  vemos atividades ocorrerem à margem do sistema ou mesmo à margem, em muitos casos, do controle das nações.

Yochai BenklerA principal mudança que a internet criou é a radical descentralização dos meios básicos de produção  de informações e conhecimento e cultura… pela primeira vez desde a revolução industrial estes recursos estão nas nas mãos da maioria da população.

Marshall MacLuhanTodas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos (a internet, a web, a rede) são uma extensão do sistema nervoso central.  A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos. Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

Notícia, notícia, notícia e o nosso tempo se esvai

Não sei quantos depoimentos já publiquei nesta série sobre como as pessoas se informam nestes tempos de rede para se manterem ligadas. Vai mais um, o da jornalista Beatriz Abreu. Junto com ele vai também meu incômodo com a certeza de que estamos perdendo alguma coisa importante das nossas vidas afogados por uma avalanche de informações, como nota com propriedade o professor Antonio Mendes Ribeiro no seu depoimento para o Confins: O dilúvio está aí, falta o Noé.

O objetivo da série de depoimentos, vale lembrar, é procurar abrir o debate sobre a crise de longa duração que estamos atravessando, a encruzilhada do futuro do presente, na perspectiva do Confins. Uma crise que se inicia com a disparada dos preços de petróleo na década de 70 e que, de lá para cá, tem momentos piores e melhores, mas persiste. Ela é o tempo de mudança de uma época para outra, da sociedade industrial para a do conhecimento. Da rede de distribuição de energia para a rede de construção e compartilhamento de conhecimento. Das plataformas de informação, comunicação e articulação lineares para as tridimensionais.

Distribuição implica hierarquia e poder,  compartilhamento significa uma nova ordem social. É este o principal fundamento dos novos tempos, que elucida para quem ainda não entendeu a resistência do status quo. Como diria Marshall McLuhan, “há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante”.

É hora de irmos para o depoimento da Bia, jornalista que foi (e é) o eixo do serviço de notícias para o mercado financeiro em tempo real da Broadcast em Brasília.

Eu adoro acordar com as notícias. Já no meu café da manhã acesso meus e-mails para checar informações enviadas por amigos, acompanho o noticiário em Tempo Real, checo os sites e inicio a leitura dos jornais.  Como a informação primária está nos conteúdos digitais, a leitura dos jornais me complementa, seja comparando como cada um abordou o tema mais importante do dia anterior, seja com a leitura de colunas,  artigos e editoriais da midia impressa.

Esse primeiro momento me atualiza e me deixa antenada sobre o assunto que vai ditar o noticiário econômico, político e temas relacionados ao dia-a-dia da população, principalmente na área de educação e saúde. Ao longo do dia, troco opiniões  com colegas do trabalho e amigos sobre o noticiário e, invariavelmente,  eles percebem um assunto ou fazem uma análise diferenciada. O noticiário em Tempo Real me mantém plugada na notícia, além do acesso aos sites dos principais jornais do país e as redes de relacionamento.

O twitter constitui um mundo de notícias. Muitas vezes, nem os sites publicaram. É interessante acompanhar o twitter porque, ao longo do dia e parte da noite, tudo gira por alí. A noite, quando já estou em casa acompanho o Telejornais e dou mais uma olhada nos sites. Bom, meu celular está sempre comigo e o acesso à internet me mantém concectada o tempo todo.

Nos fins de semana, além dos jornais, eu também me informo com a leitura das revistas semanais.

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