CONFINS

O tempo social é influenciado pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar – uma defesa do tempo, Harold Innis

Tag: educação

Ainda gosto de achar as coisas por acaso

David Cavallo, pupilo de Seymour Pappert , que na década de 60 já desenvolvia projetos com tecnologia e educação na África, elegeu o  Brasil como seu segundo lar. Foi ele, o grande articulador do projeto de educação da OLPC por aqui. Em junho de 2005, Walter Bender e David promoveram dois seminários para apresentar o projeto para o PSDB, no iFHC, e para o governo do Lula, no NAE. A relação com o PSDB não evoluiu. Lula recebeu Nicholas Negroponte e Seymour Pappert  no mês de julho. Criou um grupo de trabalho, liderado por Cezar Alvarez, para consubstanciar e validar o projeto. Deste processo nasceu o programa Um Computador para Todos e o UCA, Um Computador por Aluno.

Abaixo, seu depoimento para o Confins sobre como se informa no dia a dia, na encruzilhada do futuro do presente.

Prefiro o básico, quando o assunto é obter informações pela internet. Mais do que nunca, sinto que meu tempo é precioso, e não quero perder tempo procurando novas coisas. Essencialmente, desisti do Twitter (muito lixo, pouca substância) e Facebook (sinto-me explorado por pouco valor). Sempre que um amigo manda um link para algo, vou conferir. Meu Google News é altamente personalizado, por seções, fontes e alertas. Enquanto estou trabalhando e dirigindo, faço streaming de notícias e entrevistas do rádio, normalmente National Public Radio, BBC e Pacifica. Muitas vezes leio o New York Times e o Guardian, do Reino Unido. Busco diligentemente notícias internacionais de uma variedade de fontes, já que as fontes americanas têm pouca qualidade nas suas notícias sobre a África, América Latina e Sul da Ásia. Não confio na maioria dos blogs, já que normalmente não há uma revisão cuidadosa e verificação dos fatos. Sigo apenas as pessoas cujos posts são sempre interessantes. Ainda gosto de achar as coisas por acaso, sem a ajuda de personalização. Assino algumas revistas, principalmente para mantê-las vivas.

 

2006

O Brasil exportando educação. Do sonho à realidade.

“Minha ênfase será sobre tecnologia e infraestrutura. Acho importante trabalhar no Brasil com colegas brasileiros, para criar oportunidades para todos. A partir dessa colaboração no Brasil, podemos gerar modelos de excelência que estabeleçam exemplos para o mundo todo”. Era junho de 2005, Nicholas Negroponte tinha anunciado no início do ano em Davos projeto One Laptop per Child, OLPC, cuja a missão era  projetar, fabricar e distribuir laptops suficientemente baratos para proporcionar a cada criança do mundo acesso ao conhecimento e modernas formas de educação, suportado por uma entidade sem fins lucrativos.

 

 Ele e David Cavallo vieram ao Brasil para apresentar ao PSDB, no iFHC, e ao PT, no NAE, a filosofia do projeto e porque o MIT – Media Lab tinha eleito nosso país como a base de lançamento do projeto global. O discurso foi o mesmo para os dois públicos. “Devemos examinar atentamente as relações entre inovação e indústria e entre academia e indústria. Duas instâncias devem ser consideradas: a inovação e a consolidação. Em uma analogia, as instâncias diferem uma da outra como os estados líquido e sólido. A inovação é líquida e a consolidação é sólida. A consolidação é a solidificação da inovação, a materialização de uma nova idéia ou conceito. Por outro lado, a consolidação é conservadora — tende à rigidez e resiste à inovação. A meta do inovador é sempre explorar as possibilidades do conhecimento”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O Media Lab, criado no início do anos 80, surgiu da necessidade de buscar novos caminhos de expressão. A comunicação é essencial para a expressão, e a expressão é essencial para a mente. Agora, mais de duas década depois, o laboratório já pode avaliar alguns resultados. Como disse o fundador do Media Lab, Norbert Wiesner, nunca acredite em nenhuma idéia com menos de 20 anos”. Walter Bender era nesta época o diretor de geral do Media Lab, o  braço direito de Nicholas Negroponte, que em julho viria ao Brasil com Seymour Papert para propor que o Brasil encomendasse três mil laptops, liderasse o projeto piloto e se preparasse para exportar educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walter Bender, já naquela época,  alertava : “é importante hoje repensar as telecomunicações, já que a base tecnológica das telecomunicações não é mais válida. Na época de Marconi, as telecomunicações eram baseadas em um modelo de banda restrita por número crescente de terminais. Hoje é possível ampliar a capacidade sem reduzir a banda por node de conexão. Hoje as comunicações são virais: escaláveis, de baixo custo, incrementais, adaptáveis, contributivas e robustas. Essas novas comunicações aproveitam-se de conhecimentos locais e decisões locais sobre uma estrutura global”. Esta infraestrutura, hoje representada pela internet, vem evoluindo e a sociedade em todo o planeta (a importância do nosso Marco Civil da Internet) lutando paque ele continue livre e sob o conceito da neutralidade para que ninguém, indivíduo, empresa ou entidade, tenha privilégio na sua utilização.

Na conversa com o PSDB, no iFHC, e o PT, no NAE, Bender falava também sobre o contexto: “é importante hoje repensar as telecomunicações, já que a base tecnológica das telecomunicações não é mais válida. Na época de Marconi, as telecomunicações eram baseadas em um modelo de banda restrita por número crescente de terminais. Hoje é possível ampliar a capacidade sem reduzir a banda por node de conexão. Hoje as comunicações são virais: escaláveis, de baixo custo, incrementais, adaptáveis, contributivas e robustas. Essas novas comunicações aproveitam-se de conhecimentos locais e decisões locais sobre uma estrutura global”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E ia adiante exemplificando: ” é  preciso repensar também as regras de envolvimento. Estudos mostram que estruturas com mais de 150 pessoas sofrem fortes mudanças organizacionais, exigindo maior hierarquização para impedir o caos. Mas em estruturas muito numerosas, vale a “regra da multidão”, “rule of many”. O fluxo se organiza sem hierarquia, sem organização de cima para baixo, sem editores — baseado na confiança que cada contribuição é positiva.  Exemplos dessas organizações super-numéricas são a enciclopédia online Wikipedia e o organizador de álbuns de fotos online Flickr. Esses sistemas alimentados por milhares de pessoas são exemplos de inovações (líquido) que atingiram a consolidação (sólido).   São “organic networks“, capazes de reduzir a barreira econômica à inovação. Apresentam arquitetura mais modular, mais flexível e tornam a computação mais acessível para os empreendedores”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nicholas e Seymour vieram ao Brasil um mês depois, propuseram o projeto para o PSDB e o PT, que sob a liderança do Cézar Alvarez criou um grupo de trabalho para consubstanciar a proposta e acabou gerando os programas Um Computador para Todos e Um Computador por Aluno. Nicholas nunca conseguiu entender que o Lula não poderia assumir o projto por decreto. Nossa indústria da educação nunca se interessou pelo projeto. Já a Microsoft e a Intel trabalharam legitimamente seus lobbies. Microsoft temia um sistema operacional fundamentado em processos de aprendizado compartilhado e a Intel, a entrada no mercado de uma máquina, o XO, de baixo custo e equipada com Wi-Fi mesh. Não abraçamos o projeto como um todo, mas a questão da tecnologia na educação ganhou outra dimensão no Brasil e no mundo, onde cerca de cinco mihões de crianças estudam na plataforma da OLPC.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi com este time que aprendi que o computador é muito mais do que uma ferramenta para informação e comunicação. É antes de tudo uma alavanca para criação, expressão, visualização e simulação. Foi com eles e McLuhan, “circuitos elétricos são uma extensão do sistema nervoso central” (a rede é uma extensão do nosso sistema nervoso), que entendi que vivemos hoje, graças a este fabuloso processo de inovação, na encruzilhada do futuro do presente, que tanto pode ser brilhante quanto uma tragédia. Foi também por isso, dar uma colaboração para o entendimento do momento que vivemos, que inciei esta série de textos com depoimentos de cientistas, empresários, estudantes, jornalistas, professores, sobre como se informam para não perder o trem da história. Em seguida o depoimento do Walter Bender.

Assim como meu cachorro, tenho hábitos constantes. Quando meu cachorro ouve o jornal sendo entregue na entrada da minha casa, ele me acorda. Ligo a máquina de café e saímos para um rápido passeio: enquanto eu vou pegar o New York Times, ele cheira toda a calçada para saber quais outros cachorros passaram pela minha casa. Meu foco é a cobertura internacional. O interesse dele, por outro lado, é estritamente local.

Mesmo tendo o café e o jornal à mão, começo a minha rotina passando os olhos pelos meus emails – na maioria das vezes, algum amigo enviou um link para alguma matéria recomendada. Normalmente, ignoro os alertas de notícias, já que sei que verei essas notícias e muito mais ao acessar o Google News, minha próxima parada. Finalmente, passo uns 20 a 30 minutos com o New York Times. Faço uma leitura cuidadosa do primeiro caderno e superficial do resto.

Durante o meu dia, periodicamente acesso o Facebook, Twitter, Google+ e alguns outros sites de mídia social; por algum motivo, é apenas no Google+ que encontro uma ou duas recomendações de matérias que valem a pena ser lidas. Mas passo a maior parte do dia no IRC, um chatroom do estilo antigo, onde, além de discutir trabalho, meus colegas e eu comentamos nossas percepções sobre o mundo que nos cerca.

Finalmente, uma vez por semana, à noite, escrevo no meu blog e leio outros blogs. Temos um “planeta” de blogs relacionados, mas por vezes eu fujo do assunto e vou para o mundo dos blogs mais convencionais

Caminhando para o futuro, aos trancos e barrancos

A rede – a internet e seus predicados que se desenvolvem de forma exponencial embaixo da nuvem computacional – privilegia antes de tudo a organização local ou nas palavras de Nicholas Negroponte, a globalização privilegia antes de tudo o glocal (informação, comunicação e articulação, veja mais aqui). E isto caracteriza o momento de conflito que vivemos entre a nova e a velha economia, descrito pelo economista José Roberto Mendonça de Barros, em recente artigo no Estado de S Paulo, como “uma grande atividade e forte efervescência, típicas das viradas de ciclo”. Ou seja: ao mesmo tempo que convivemos com um “um processo de consolidação dos setores da economia mais maduros, há uma explosão de novas atividades, resultantes de saltos tecnológicos e de novas demandas da sociedade. O jogo principal está na emergência do novo, e este, como se sabe, decorre em larga medida da revolução da tecnologia da informação, da comunicação e da sociedade em rede” (a íntegra, aqui).

Refletindo a preocupação das estruturas de poder tradicionais com este processo de mudança, paralelamente ao último encontro do G8, em Paris, organizado pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, ocorreu o evento oficial e-G8 (aqui, o canal do e-G8 no youtube), um fórum para discutir as questões conflituosas que vivemos desde a emergência da rede como Word Wide Web, em dezembro de 1990. Mais do que debater esta situação, o objetivo de Sarkozy assim como de boa parte do establishment era propor formas de controle da rede. Como se fosse possível e tivesse sentido controlar a rede.

Fazendo contraste a tudo isso, Yochai Benkler, professor de direito em Harvard e pesquisador da economia em rede, fala nesta entrevista no fórum e-G8 sobre a radical descentralização dos meios de criação de informação, conhecimento e cultura que a internet trouxe para a sociedade e, com isso, a inovação para as mãos do público. Na visão dele, nos próximos anos vamos continuar assistindo uma batalha entre a velha e a nova indústria. A internet móvel, na opinião dele, pode indicar o futuro. Se vencer o controle das Telecons em vez do fator ubíquo (a inteligência nas pontas, a descentralização) da rede, a sociedade e a democracia serão as perdedoras.

Apesar do pessimismo de Benkler, por considerar a hipótese de vitória do oligopólio formado pelas grandes operadoras de telefonia, é uma questão de tempo e muitos dramas para o novo se impor ao velho. É evidente que neste processo ocorrerão composições. Não há dúvida de que nestes primeiros anos da Web houve uma reação contrária às tecnologias (aqui, um exemplo deste espírito no G8), como por exemplo a reação da indústria fonográfica contra a música digital. Mas, como argumenta Andrew Lippman, quando se começa a construir uma plataforma aberta, é possível reverter esta reação e isto dará mais poder à sociedade. No final, a sociedade vencerá. No final das contas, as leis são apoiadas pela sociedade – elas não controlam a sociedade. Se você constrói sistemas e plataformas abertas, e os torna amplamente disponíveis, então a sociedade ganhará e manterá sua voz. As estruturas legais têm de apoiar as estruturas sociais.

Inovar para ir em frente

“O processo de inovação, muitas vezes, ocorre em ondas, quando os ambientes social e econômico sincronizam-se em torno de uma oportunidade criada pela tecnologia. Isto ocorreu na década de 1930, com o telefone, na década de 1950, com o automóvel, e na década de 1980, com o computador pessoal. O setor de comunicações está face a uma ruptura semelhante. Assim como no passado, gigantes verticalmente integrados, amarrados a tecnologias e serviços centralizados ou de grande porte, estão sendo suplantados por novatos armados com novas idéias sobre propriedade individual, adoção incremental e rotatividade instantânea. A tecnologia permite esta mudança, tornando a inteligência local mais barata; a sociedade transforma esta capacidade em algo que lhe é útil; o potencial para investimento econômico difuso estimula novas opções. …As empresas podem tornar-se bem sucedidas utilizando pesquisa para “enxergar por detrás dos cantos”, invés de simplesmente seguir sempre adiante.”- Introdução do Programa Viral Communications do MIT-Media Lab, dirigido por Andrew Lippman e David P. Reed, 2003

Andrew Lippman e David P. Reed trabalharam anos com o visionário Nicholas Negroponte, que previu processo de convergência das mídias há mais de 30 anos, fundou o MIT-Media Lab em 1980 e desde 2005 está envolvido até alma com o projeto de educação da Fundação OLPC.

Quando o projeto foi lançado, em 2005, nós consumidores não sonhávamos com a possibilidade de comprar laptops por menos de 3/4 mil reais. Hoje, encontra-se máquinas no mercado por menos de mil reais. Apesar da resistência inicial, a indústria de informática está se benficiando com isso e os consumidores teem a perspectiva real de queda contínua de preços.

Esta foi a primeira vitória de Nicholas Negroponte e seu projeto de educação, cujo foco estará sempre voltado para a base de pirâmide social. O objetivo é educar e incluir digitalmente, que significa inclusão social no mundo globalizado. Na selva amazônica, nas comunidades perdidas dos Andes (vídeo), em Ruanda, país africano cuja herança da colonização ocidental foi o massacre de cerca de 800.000 tutsis e hutus na década de 90.

A história de Zimi

Depois da primeira onda, vem o medo

“Houve uma reação contrária às tecnologias, como por exemplo a reação da indústria fonográfica contra a música digital. Mas acredito que quando se começa a construir uma plataforma aberta, não é possível reverter esta reação e isto dará mais poder à sociedade. Acredito que no final, a sociedade vencerá. No final das contas, as leis são apoiadas pela sociedade – elas não controlam a sociedade. Se você constrói sistemas e plataformas abertas, e os torna amplamente disponíveis, então a sociedade ganhará e manterá sua voz. Por exemplo, o Digital Millennium Copyright Act – uma lei que tornou crimes atos que anteriormente eram apenas pequenas infrações – agora está sendo abrandada. As estruturas legais teem de apoiar as estruturas sociais.” – Trecho de uma entrevista de fevereiro de 2006 de Andrew Lippman.

O cientista do Media Lab refere-se à discussão com qual convivemos hoje sobre os impactos da evolução tecnológica sobre sobre a economia, a política, a sociedade como um todo.

Nada de novo abaixo do Equador: a prensa de Gutenberg estava entre as inovações tecnológicas que contribuíram para a ascensão da economia moderna e o amadurecimento da era industrial. Seus principais produtos – o livro e o jornal – foram entendidos durante muitos anos pela ordem dominante como ferramentas subversivas. Esta subversão gestou e gerou o mundo em que vivemos. Um mundo onde a iniqüidade social ainda incomoda e assusta, mas no qual todas as barreiras para a geração de riqueza e de conhecimento foram derrubadas, num processo que também gerou a onda de inovação que estamos vivendo e a possibilidade de darmos o próximo salto.

 

Procurando um futuro para a educação

Desenvolvido por SELVA/LAB