CONFINS

O tempo social é influenciado pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar – uma defesa do tempo, Harold Innis

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UMA NOVA IMPRENSA

Como os jornais perderam o passo na era da informação virtual

RODRIGO MESQUITA

Publicado na Paiuí, junho de 2020

Rodrigo com o pai, Ruy Mesquita, no Alto Rio Negro, na Amazônia, em 1994: no ano seguinte, a <i data-recalc-dims=Newsweek, então a maior semanal do mundo, diria que a internet era coisa de lunáticos”/>

Rodrigo com o pai, Ruy Mesquita, no Alto Rio Negro, na Amazônia, em 1994: no ano seguinte, a Newsweek, então a maior semanal do mundo, diria que a internet era coisa de lunáticos

A imprensa cruzou os braços em 1995, quando a Web nascia. O mundo andou, e os gigantes da tecnologia conquistaram o seu mercado e dominaram o centro de uma estrutura construída pelos cientistas da década de Woodstock, ungidos pelo espírito libertário dos anos 1960, com o objetivo de que ninguém tivesse o controle da nova infraestrutura, que cresce ia pelas pontas e empodera a célula – ou seja, o indivíduo. Essa infraestrutura, que gerou a nova mídia, é a internet, cujos fluxos de informações, em função do domínio dos gigantes da tecnologia, estão apoiados e formatados pela publicidade, deixando a audiência exposta a operações de manipulação informativa num nível que acadêmicos, legisladores e mesmo jornalistas somente agora começam a entender de fato.

Em 2008, ano da crise financeira, quando já havia perdido o mercado de pequenos anúncios e começou a ficar sem os grandes anunciantes, a imprensa finalmente acordou. Mas acordou apenas para o potencial da rede de distribuir informação, atuando no novo ambiente midiático em formato broadcast – de um ponto para milhares, ignorando a via de retorno. Desconsiderou o fato de que tinha passado a atuar num novo ecossistema de informação, onde ninguém tem o domínio da opinião pública e todos podem interagir, articular, escrever, editar e publicar – um ecossistema muito diferente do antigo meio jornalístico, fechado e reservado a poucos nos seus predicados de interação e articulação.

Com isso, o campo ficou aberto para aventureiros na área da comunicação. Alguns deles desprovidos de ética e de responsabilidade social, capazes de recorrer a todos os recursos a fim de conquistar a atenção dos leitores para seus devaneios, valendo-se de processos de interação e articulação que têm como premissa as inseguranças e temores do público. Essas pessoas eram e são ainda uma ameaça à democracia.

Nasci num lugar que era como o anexo de uma redação, a casa do jornalista Ruy Mesquita, meu pai. Apaixonei-me pelo jornalismo ouvindo histórias sobre meu bisavô, Júlio Mesquita, publisher inovador, que revolucionou O Estado de S. Paulo ao priorizar o interesse público e desvinculá-lo de grupos políticos e econômicos, gestando assim o jornalismo moderno brasileiro. Era um homem consciente de que o público é sempre o protagonista e de que existe grande diferença entre o que almejamos para a sociedade e a dinâmica concreta da história. Tive também o prazer de conviver muitos anos com meu avô, Júlio Mesquita Filho, um jornalista que dedicou sua vida inteiramente ao Brasil.

Estudei e estudo a história tendo como perspectiva que o jornalismo é o primeiro registro do que somos e vivemos. Tive a sorte e o privilégio de começar a carreira profissional numa redação brilhante, que estava em sua melhor fase e sabia que o bom jornalismo é antes de tudo um exercício coletivo: a equipe do Jornal da Tarde. Essa redação não se teria destacado de outras do seu tempo se não tivesse havido ali um casamento positivo e profícuo entre governança e profissionais.

Todos os Mesquita da minha geração estavam fadados a trabalhar na empresa. Não almejava chegar à direção. Queria ser só jornalista e, como tal, conquistar o respeito dos profissionais. Desejava também fazer-me repórter especial: um jornalista que investigasse o que ocorre nos confins, que podem ser tanto as fronteiras de ocupação do planeta como uma esquina de São Paulo à qual poucos deram atenção.

Em 1976, com 22 anos de idade, minha primeira experiência na redação foi na mesa de triagem de telegramas.  Comandava um grupo de contínuos que fazia a primeira separação de todo o material recebido da então maior rede brasileira de captação de informações nacionais, a da S.A. O Estado de S. Paulo, e das agências de notícias internacionais. Não havia melhor ponto de observação da redação, do comportamento dos jornalistas e de como tratavam a maçaroca que recebíamos diariamente. Pouco a pouco, comecei a ascensão profissional, passando por diversas editorias do Jornal da Tarde, na função de repórter, copidesque, subeditor, pauteiro, repórter especial e editor.

Tenho saudade dessa época e guardo o prazer de ter me envolvido, entre outros trabalhos, na cobertura (como repórter, pauteiro ou editor) da construção do trecho Rio-Santos da BR-101, responsável pelo deterioramento do litoral paulista. Também atuei na cobertura da campanha das Diretas Já, da ocupação do Planalto Central e Sul da Amazônia e na série de reportagens especiais do Jornal da Tarde – como Guerra aos que Querem Destruir Nosso Litoral, A República Socialista Soviética do Brasil e Os Guerrilheiros da Prosperidade Nacional. Como editor da área internacional do Jornal da Tarde, fui responsável pelo furo mundial sobre o início da Guerra das Malvinas, em 1982, que cobri como enviado especial, mesma função que me coube na cobertura da primeira fase da Guerra Irã-Iraque, em 1980, e da morte de Tancredo Neves, em 1985.

Todos esses trabalhos tiveram diversos desdobramentos ao longo dos anos. Os que causaram maior impacto em minha vida foram a cobertura da construção da BR-101 e a série de reportagens Guerra aos que Querem Destruir o Nosso Litoral. Esta última começou quando detectei, no início dos anos 1980, um processo de grilagem de 60 dos 90 km do litoral do Paraná, feito com uma violência desconhecida na região: homens armados comandados por um sujeito egresso de El Salvador, búfalos sendo usados para destroçar as roças das dezenas de vilas da região, que foram cercadas por arame farpado, e centenas de desmatadores desalojados das áreas inundadas de Itaipu que passaram a destruir as matas.

A apropriação das terras ia das praias às encostas da Serra do Mar, cuja altitude havia sido adulterada num processo em que o grupo empresarial responsável pela devastação conseguira financiamento do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que não existe mais, para reflorestamento de palmito-juçara. Piada de mau gosto: não havia nem há tecnologia para isso. A Companhia Agropastoril Litorânea do Paraná (Capela), subsidiária de um grande grupo empresarial com interesses na exploração siderúrgica em Minas Gerais e negócios no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, era a responsável pela operação de guerra. Naquele local, viviam as últimas comunidades caiçaras do litoral Sul do Brasil, e os céus desabavam sobre elas. Convivia com os caiçaras desde a infância e compartilhei do seu sentimento de fim de mundo e de sua revolta com a situação.

Fizemos centenas de reportagens, em quase dois anos de muito trabalho, com envolvimento direto meu, de Dirceu Pio, Randau Marques, Laurentino Gomes, Celia Romano e outros jornalistas do Grupo Estado. O movimento ambientalista era incipiente na época e mantinha uma aproximação forte com o Jornal da Tarde em função da cobertura que o diário fizera da reação da sociedade contra a construção de uma usina atômica na Jureia, no litoral paulista, e de um novo aeroporto para a capital paulista em Caucaia do Alto, no município de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. Tal aproximação acabou gerando um processo de articulação entre o jornal e aquele setor da sociedade civil, e por isso foi importante em minha vida: o jornalismo só tem sentido enquanto ferramenta de articulação da sociedade. Esse trabalho me jogou de braços abertos nessa direção.

Em 1986, a Capela foi obrigada a se retirar do litoral do Paraná – que, somado ao litoral Sul de São Paulo, é hoje o que resta da costa brasileira não destruída pela especulação imobiliária – e criamos a SOS Mata Atlântica, fundação para perpetuar os cuidados com o litoral e a província de Mata Atlântica. O primeiro presidente foi Fábio Feldmann, que ficou no cargo por cerca de seis meses. Na eleição de 1986, ele resolveu se candidatar a deputado federal. Acreditávamos que não conseguiria o cargo, mas seus eleitores acabariam ficando como o cabedal da fundação: houve uma enorme abstenção, e ele se elegeu.

Sobrou para mim, que não ambicionava ser presidente da SOS Mata Atlântica por causa da minha atividade jornalística. Sempre tive preocupação com a questão ambiental, mas meu único ativismo é o jornalismo, e meu envolvimento com os ambientalistas ocorreu em função da minha solidariedade aos caiçaras ameaçados pela Capela. Criamos a campanha “Estão tirando o verde da nossa terra”, conseguimos uma doação de 400 mil dólares da Fundação MacArthur e, a partir daí, estruturamos a entidade durante meus seis anos como presidente, em trabalho voluntário, sem nunca termos recorrido a ela para nos promovermos e sempre em respeito pelo conselho da entidade, que representava de fato a sociedade civil.

Em 1984, assumi a função de editor-chefe, ou secretário de Redação, do Jornal da Tarde por aspiração e delegação da própria redação. Foi um período duro. A empresa vinha promovendo cortes contínuos havia anos, em função de um empréstimo em dólares para construir seu novo prédio e da primeira grande desvalorização do cruzeiro por Delfim Netto, em 1979. Assumi a redação no momento que Fernando Mitre saía para criar a revista Afinal, levando consigo o primeiro homem de cada editoria. Eu buscava na indústria jornalística movimentos que indicassem a criação de novas oportunidades e acabei me fixando nas atividades da Reuters, que, depois de passar por uma situação ruim nos anos 1960, tinha se voltado para as novas tecnologias e lançado para o mercado financeiro o primeiro serviço de informações econômicas em tempo real.

Em 1988, o Grupo Estado sofreu uma profunda reestruturação, e fui para a Agência Estado, unidade operacional do grupo fundada em 1970 para aglutinar toda a estrutura de captação de informação da empresa – historicamente a sua força e grande diferencial competitivo –, servindo aos dois jornais (O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde) e à rádio Eldorado, também parte da empresa. A Agência Estado era um túmulo para os aspirantes ao vedetismo.

Comandada pelos jornais, essa plataforma funcionava conforme o deadline das redações do Estado e do JT. Em São Paulo, tinha um gestor e meia dúzia de jornalistas que caçavam matérias nas redações para distribuir a vários jornais brasileiros. A essa altura, a Reuters já tinha virado o jogo e se transformado em uma empresa pós-moderna de jornalismo internacional, oferecendo serviços tradicionais para os meios de comunicação e novos para o mercado financeiro.

Aproximei-me de Enrique Jara, jornalista uruguaio que comandava a Reuters na América Latina, a partir de Buenos Aires, onde na época ficava o principal escritório da empresa no continente. Aprofundamos as prospecções e os estudos sobre novos serviços para a nova empresa que estávamos criando. A equipe liderada por mim reformulou toda a cadeia de captação de informação do Grupo Estado, na época a rede de maior capilaridade do jornalismo brasileiro. Com seus processos renovados, deixou de trabalhar em função do deadline dos jornais e abraçou um novo sistema, compatível com a necessidade de uma empresa de informação que servia dois jornais, uma rádio e o mercado consumidor de informações, abrindo oportunidades para todos os envolvidos. Naquele início nos servíamos da Arpanet (rede de computadores que precedeu a internet) ao fax, passando pelo telex, para distribuir os serviços.

Mergulhamos em seguida nos mistérios das novas telecomunicações, com toda a sua parafernália de computadores e softwares, e os desvendamos, ou pelo menos perdemos o medo deles. Tanto jornalistas quanto profissionais da área comercial do tempo do papel se tornaram capazes de especificar softwares junto ao pessoal da tecnologia.

O objetivo era criar um serviço de informação econômica em tempo real para o mercado financeiro, na época o único segmento da sociedade aparelhado para recebê-lo e disposto a pagar por isso. E um software para esse mercado precisa de alguma sofisticação. Não existe de fato serviço de notícia em tempo real, mas entregávamos o pregão das Bolsas usadas pelo mercado brasileiro com um delay de, no máximo, um segundo e meio (o “tempo real”), com uma cobertura jornalística técnica, que incluía notícias que afetavam os mercados, análises, o diabo. Para se ter ideia, distribuímos num dia um volume de informações equivalente ao publicado em um ano pelo Estado de S. Paulo. E cada uma das telas dos nossos clientes era totalmente personalizável, nenhum deles via exatamente os mesmos dados, e cada um podia montar suas telas em função dos mercados em que trabalhava e do público a que servia.

Como dizia Enrique Jara, tínhamos a obrigação de focar nisso não só porque era um bom negócio, mas porque os classificados – que eram a base de sustentação de todos os jornais do mundo – acabariam por migrar inexoravelmente para os novos sistemas. Foi recorrendo a essa argumentação que defendi o investimento junto ao conselho da empresa em 1990. Seria o primeiro passo para entendermos o que era trabalhar em rede, sem o domínio do público, sem barreiras de entrada, num mundo com vias de duas mãos em que todas as pessoas são publishers.

AReuters tinha o “Rolls-Royce”: um serviço desenhado para o topo do mercado global, pelo qual a agência firmava contratos leoninos e cobrava preços estratosféricos. Construímos o Fuscão envenenado: um serviço desenhado para a média do mercado brasileiro, com preços razoáveis, contratos amigáveis e – a grande inovação – meios alternativos de distribuição. Além de linhas telefônicas privadas da Embratel, que não garantia qualidade nem escala, utilizávamos para a distribuição dos serviços, de forma pioneira em todo o mundo, a sub-banda de radiotransmissão (faixa em geral ociosa e algumas usadas para carregar bits) das rádios FMs. E nasceu então a Broadcast, empresa que em pouco tempo conquistou o mercado brasileiro, mostrando à Reuters que esse mercado era maior do que imaginava a agência internacional.

Lançamos a Broadcast em 1991. Três anos depois, os investimentos estavam pagos. Com esse serviço e outros igualmente inovadores, mas com menos tecnologia agregada, a Agência Estado começou a caminhar para uma liderança inequívoca do mercado. Para os envolvidos em todas as áreas da empresa, foi um prazer construir a nova Agência Estado, uma unidade de negócios aberta ao mercado, e atuar nela. Tínhamos liberdade para criar, trabalhar e muita responsabilidade, sem os cacoetes e vícios dos jornais e sem a pretensão de sermos os xerifes da razão. Nosso objetivo era interagir com o público e, assim, servi-lo, como no início da história moderna dos jornais.

Quando assumimos a unidade operacional, ela faturava cerca de 400 mil reais por ano, valor que não se realizava integralmente por desleixo na cobrança. Na realidade a agência estava totalmente voltada para os veículos da casa. Entregamos uma nova empresa com mais de 100 milhões de reais de faturamento, com margem de lucro de quase 30%, líder do mercado de informação financeira e de todos os outros em que atuava – uma empresa focada nos clientes, entre os quais se incluíam, é claro, os jornais da casa. Situação que perdura até hoje, apesar de não ter sido feita nenhuma inovação substancial.

O aprendizado estava só começando. No início dos anos 1990, fui convidado pela Innovation International Media para um encontro de jornalistas da América Latina na Universidade Harvard. Apresentei no seminário minha visão sobre o futuro das empresas de informação. Na plateia, estava Jerome Rubin, chairman do programa News in the Future (Notícias no futuro). O programa fazia parte do Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Rubin tinha fundado e depois vendido a primeira grande empresa eletrônica de informações jornalísticas, o LexisNexis, uma base de dados dinâmica da jurisprudência norte-americana que indexava diariamente cem dos maiores jornais dos Estados Unidos. Terminado o seminário, Rubin, que com o tempo se tornou meu pai norte-americano, disse que tinha gostado da apresentação e que eu deveria participar como representante do Grupo Estado no News in the Future.

Convenci o Grupo Estado e fui. Minha vida profissional já tinha mudado radicalmente. Não imaginava que poderia ser muito diferente do que era. Mas mudou outra vez e me trouxe a esperança de, no futuro, voltar a atuar como repórter dos confins. Agora não numa esquina de São Paulo ou nos limites da Amazônia, mas cobrindo o processo de ocupação da última fronteira da humanidade nos confins da rede formada pela internet, que deflagrou o processo de inovação mais radical e violento já vivido pelo ser humano.

Mais do que de invenções, como ocorreu na Revolução Industrial, o resultado prático – em termos de produtividade, criação e distribuição de riqueza – depende agora do entendimento da sociedade sobre o que é a rede das redes, do amadurecimento de sua visão a respeito dessa tecnologia e do modo de usufruir dela. É um trabalho para essa geração e as futuras. Ainda está no início de sua expansão esse emaranhado de sistemas criado pela internet, com as invenções que nela se dependuram e dela dependem, ampliando os limites e possibilidades das sociedades com novos caminhos de interação e articulações de todo tipo: sociais, políticas e econômicas.

Era esse o foco do programa do Media Lab: ajudar a indústria jornalística a entrar com o pé direito no tempo das redes, que são uma extensão do mundo analógico e sua única possibilidade de rejuvenescimento. Todas as grandes empresas e grandes veículos do jornalismo norte-americano estavam lá, do New York Times à Time Warner. Também marcava presença o McCann Worldgroup, agência internacional de publicidade.

Em outros programas específicos, estavam as operadoras de telefonia, a indústria de software e games, entidades médicas e governamentais, além de empresas de vários outros setores, de todo o mundo. O Media Lab tinha sido fundado por Nicholas Negroponte e Jerome B. Wiesner em 1980. Wiesner, que fora conselheiro científico de John Kennedy e presidente do MIT, deu guarida ao jovem Negroponte, que havia previsto no final dos anos 1970 a convergência das mídias. Juntos, eles criaram o laboratório de tecnologias digitais do MIT, que teve enorme responsabilidade na gestação da revolução tecnológica. Com certeza, de todos os setores da economia que participavam dos programas do Media Lab, o mais reticente e arrogante era a indústria da informação. Em grande parte por causa de seu domínio, de mais de um século, sobre a opinião pública.

Seria uma digressão expor aqui parte do que aprendi sobre o mundo atual e os caminhos futuros durante dezesseis anos de convivência (dez deles como representante do Grupo Estado e os últimos seis como pesquisador afiliado) com esse centro de pesquisas e estudos de excelência mundial. Mas não posso deixar de mencionar dois ensinamentos que viraram totens para mim.

Hoje, todos nós temos consciência de que vivemos num mundo “em beta”, ou seja, envolvido num processo de mudança contínuo e em alta velocidade. Naquela época era diferente, mesmo lá no Media Lab não se falava nisso com a contundência de hoje, mas estava muito enraizada a certeza de que vinham sendo fermentadas duas revoluções, como disse o cientista Walter Bender: “A primeira, uma revolução de comunicação interpessoal. A segunda, não uma revolução da tecnologia, mas da epistemologia e do aprendizado. Construcionismo, aprender fazendo, a revolução de Dewey, Piaget e Papert. Nela, o aprendizado acontece melhor não no espaço formal da sala de aula. Acontece em aplicações concretas. Eis porque devemos buscar construir ambientes para aprender fazendo.”

Ao analisar a segunda revolução, Bender antevia com clareza que a sociedade teria pela frente uma nova arquitetura cognitiva, um novo ambiente cognitivo, que com o tempo seria dominante. Daí a necessidade de construir ambientes que permitam fazer. O cientista dirigia o programa News in the Future, e poucos anos depois se tornaria o braço direito de Nicholas Negroponte na direção operacional de todo o Media Lab. Bender desenvolveu também as primeiras pesquisas sobre redes sociais, que no Media Lab eram chamadas “redes orgânicas”.

Entrei nesse think tank em 1994 e ter me conscientizado de que eram duas, e não uma, as revoluções em processo – a tecnológica e a epistemológica – foi algo fundamental para poder armar e desenvolver o projeto da Agência Estado, que não parou de inovar. Outra noção importante foi a de que software é informação, pois compõe e alavanca a informação jornalística e qualquer outra. Isso aprendi com os cientistas do Media Lab e com brasileiros como Demi Getschko, figura fundamental no desenvolvimento da Agência Estado.

Hoje, não tenho dúvida de que a ignorância a respeito desses dois fatores de grande parte da indústria jornalística e, por consequência, de jornalistas teve enorme responsabilidade na dimensão que alcançou a crise no setor quando a web emergiu. Vivi e assisti a isso de dentro do Media Lab e também do Grupo Estado, do qual sou acionista. Em 1995, a Newsweek, então a revista de maior tiragem impressa de todo o mundo, publicou um texto chamado The Internet? Bah. O subtítulo era menos agressivo, mas talvez mais arrogante: Why Cyberspace Isn’t and Will Never  Be Nirvana (Por que o ciberespeaço não é e nunca será o nirvana). Nicholas Negroponte era apresentado como um lunático, e o Media Lab, como um local de formulação de delírios.

Entre os tópicos analisados sem nenhum fundamento pelo autor do artigo na Newsweek estava a possibilidade de realizar vendas por meio da rede de computadores. Ele argumentava que era uma alucinação imaginar que a internet iria acabar com a célula mater do capitalismo: o vendedor. Na empresa de minha família, questionavam se eu estava querendo dizer que nosso negócio iria acabar. Tentava explicar, sem sucesso, que o negócio não iria acabar, mas que sofreria profundas mudanças, como toda a sociedade, e que, caso não nos preparássemos para isso, iríamos ter sérios problemas pela frente. Deveríamos começar a nos preparar para enfrentar o tsunami bem equipados e iniciando já naquela época a adaptação dos processos clássicos do jornalismo para uma sociedade ativa na rede e com canal de volta. Mas ficamos isolados na Agência Estado. O Grupo Estado e sua direção continuaram vinculados à era industrial.

A maioria da indústria jornalística, acomodada em já fragilizados oligopólios locais, se confortou com a arrogante e desacertada visão do artigo da Newsweek, sem se preocupar em estudar o que significava sair de um ecossistema de informação broadcast, no qual tinha domínio sobre o público, e entrar em um ecossistema em rede, o ambiente midiático da era da informação, onde já não teriam domínio sobre ninguém. Enquanto isso, empresas como a Google, hoje da Alphabet, começavam a refletir sobre como fariam dinheiro. Realizar vendas foi o primeiro objetivo.

Ora, vendas, tanto no ecossistema analógico broadcast quanto no ecossistema em rede, têm como premissa provocar emoção e desprezam totalmente a razão. O algoritmo tem a capacidade de formar redes a partir do nada e aprender com o tempo. E o tempo corria a favor dos novos entrantes. Nenhuma empresa do setor jornalístico se dispôs a refletir nem um minuto sequer sobre a possibilidade de provocar, fomentar e mediar processos de formação de redes em torno das questões básicas da vida das pessoas – educação, saúde, infraestrutura, segurança, saneamento, ciência e tecnologia –, em suas interações e articulações com o conjunto dos problemas sociais, políticos e econômicos.

Enquanto empresas como a The New York Times Company jogavam dinheiro no lixo comprando por 1,1 bilhão de dólares o Boston Globe para vender anos depois por 70 milhões de dólares, enquanto a imprensa e os jornalistas continuavam convencidos, como parecem estar até hoje, de que com suas marcas e nomes continuariam donos da opinião pública, os novos entrantes desenvolviam com algoritmos (e, junto, botsmalwares e outros bichos do mesmo naipe) as próprias redes, tendo a emoção na base dessa construção e com o objetivo de realizar vendas.

Por isso, hoje, quem domina a internet – e manda nela – são as tecnologias publicitárias, como demonstrou o Tow Center da Universidade Columbia no documento Guide to Advertising Technology (Guia para a tecnologia publicitária), publicado em dezembro de 2018. Por isso, o debate cívico em todas as plataformas sociais e nas redes que se formam em torno delas é regido pela lógica das vendas. Essa não é a única explicação para o processo contínuo de desinformação que nos assola – muito bem descrito no documento Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policy Making (A desordem da informação: rumo a um arcabouço interdisciplinar de pesquisa e formulação de políticas públicas), encomendado pelo Conselho da Europa, que está servindo de base para o início da regulamentação da ação dos gigantes da tecnologia –, mas é um dos bons motivos.

O que determina a formação da opinião pública nesse novo ecossistema – o planeta expandido pela rede das redes e as possibilidades que ela abre com seus novos caminhos de interação e articulação de todos os tipos de relação humana – são os fluxos de informações e as narrativas que carregam, responsáveis pelos fluxos de atenção. Estou falando das redes sociais, autônomas ou estimuladas, que precisam ser cobertas jornalisticamente com o algoritmo e todos os recursos técnicos que a rede permite e também com o melhor dos jornalistas e apurações jornalísticas de fôlego. Twitter, YouTube, Instagram, Facebook e similares são ferramentas, plataformas, a partir das quais se formam as redes sociais, que são de cada um de nós, o público.

A insistência da imprensa em apresentar as chamadas fake news como as principais responsáveis pela balbúrdia que envolve todo o planeta contribui para criar ainda mais confusão na cabeça do público, abandonado à própria sorte. Sem nenhuma mediação da imprensa que, omissa em relação ao fato de que as notícias abrem a porta para a participação, não cumpre sua missão e deixa de lado sua razão de ser: ajudar-nos a entender, a navegar, a separar a ordem do caos, porque a ordem surge do caos graças à habilidade de enfatizar aquilo que é importante e universal.

Anova realidade exige um novo comportamento da imprensa e dos jornalistas. Não se trata de o jornalista se colocar como influenciador, uma hipótese não descartável desde que inserida no todo. O desafio é trabalhar de forma organizada e coletiva, regidos por uma certa ideia do que é a sociedade (local) e quais são suas possibilidades futuras, com uma governança adequada ao tempo das redes. E, mais do que isso, abrir-se ao público, ouvindo-o antes de formular mensagens, que devem sempre estar abertas ao retorno, ao diálogo.

Bem ou mal, a reação está ocorrendo. A imprensa tem coberto com mais atenção e profundidade os movimentos dos novos impérios de tecnologia. Mas isso é pouco. É possível fazer mais, desde que os fluxos de informação e atenção passem a ser cobertos jornalisticamente com o melhor do algoritmo e jornalistas competentes. Não, isso não é um sonho nem um delírio. Existem na internet dezenas, senão centenas, de empresas que oferecem serviços sofisticados tanto de curadoria quanto de monitoramento, e não só para classificar como positivas ou negativas as manifestações do público sobre determinado tema. Elas oferecem também serviços que permitem identificar quem é quem numa rede social e o que determinada rede social está publicando.

As empresas jornalísticas poderiam e deveriam ter os próprios sistemas para fazer isso – ouvir e prospectar de forma contínua a opinião pública – e acompanhar a reação das pessoas ao que está sendo publicado, apresentando essa cobertura jornalística em páginas tecnologicamente dinâmicas na internet, analisadas e comentadas por jornalistas. Esse processo com certeza contribuiria para a construção de novos modelos de negócios. Restringir tal possibilidade à venda de assinaturas significa condenar à morte a maioria dos atuais players da indústria jornalística.

É preciso ter consciência de que, daqui para a frente, a formação da opinião pública vai ser cada vez mais fragmentada, complexa e autônoma. O desafio é ocupar os espaços civilizatórios dos fluxos de informação para enfrentar os da barbárie, estes mais organizados do que a imprensa nas redes sociais atualmente. Como as hordas da barbárie não têm passado nem compromissos com nada além de sua própria verdade, conseguem avançar rápido em épocas de rupturas tão profundas quanto as que estamos enfrentando. Por tudo isso, é preciso contribuir para que as novas gerações de jornalistas entendam que não se faz jornalismo sem ouvir e prospectar o público, o protagonista de toda a história.

“Quando se vive em uma era da informação, a cultura se torna um grande negócio, a educação se torna um grande negócio, e a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios”, alertava o teórico da comunicação Marshall McLuhan, na década de 1970, quando o processo apenas engatinhava. A imprensa, para ter sentido, tem de ser capaz de cobrir a nova realidade – a cultura se formando em tempo real nos fluxos da rede – e fazer o que está ao alcance para conquistar competências para isso.

A alternativa é jogar a toalha e brincar de influenciador, o lobo solitário, explorando a ignorância do público e contribuindo para que a balbúrdia seja um fenômeno permanente e dominante, com as forças da barbárie comandando o processo – no Brasil, muito bem representadas pelas redes sociais dos Bolsonaro, as mais organizadas desse novo ecossistema de comunicação da sociedade.

Informação: dos jornais a um mundo sem fronteiras


Jornalista da família Mesquita fala sobre a função histórica dos jornais impressos, inclusive o do O Estado de S. Paulo, e das mudanças que a era da internet trouxe. Ele aborda como é possível fazer jornalismo nos novos tempos
 –  entrevista de julho de 2013 transcrita do página 22 da GV

Página 22 – Rodrigo,  você acredita na existência de uma crise dos meios jornalísticos provocada pelo descompasso entre a novíssima sociedade do conhecimento, revolucionada pelo digital, e as antigas estruturas da informação ?

Rodrigo – O apogeu da indústria de jornais acontece na década de 1940. A partir daí, este setor da indústria de comunicação social começa a envelhecer. Assim como as plataformas digitais atuais, os jornais também eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos.  Alexis de Tocqueville ( filósofo político francês, 1805-1859) aborda, na Democracia da América o papel dos jornais que estavam se estruturando no século 19 nos Estados Unidos. Para Tocqueville, os jornais contribuíam para  os cidadãos se sentirem parte de uma comunidade local, que por sua vez fazia parte de uma comunidade maior,  que era a nação americana nascendo. O jornal teve durante dezenas de anos o papel de plataforma de articulação das comunidades locais. Veja o caso do meu bisavô, Júlio Mesquita (jornalista, 1862-1927)…

Página 22 –  Júlio Mesquita foi o fundador do jornal “O Estado de S Paulo”?

Rodrigo – Não, meu bisavô foi um “self-made man” e não foi o fundador do Estadão.  O jornal  A Província de S Paulo foi fundado por um grupo de republicanos em 1875 com o objetivo promover a República e a abolição da escravatura.  Ele foi levado como colaborador para este jornal por Rangel Pestana (jornalista e político, 1839-1903) no final do século 19.  Para os republicanos, o jornal não era um negócio. Era uma ferramenta para se atingir seus objetivos. Depois de a República ter sido proclamada e a escravatura abolida, este grupo de republicanos perdeu o interesse no jornal. Ele não tinha mais nenhum valor para eles.

Meu bisavô, com a ajuda do pai imigrante português semi analfabeto e que escolheu o filho que iria estudar, começou a comprar as ações do jornal até adquirir 100%.  Neste processo, partiu para o rompimento dos laços do jornal com o Partido Republicano que o subsidiava. Desde a proclamação da República, o  nome do jornal tinha sido alterado  para O Estado de S Paulo. Concomitantemente ao  rompimento, promoveu uma profunda reforma editorial no jornal e fez uma série de inovações empresariais. Ninguém podia assinar textos no jornal, nem ele, “porque não é nosso, é do  público”. Com isso ele indicava que considerava o jornalismo uma atividade coletiva e colaborativa e começava a definir a missão do jornal.

Era um homem além do seu tempo, como fica claro nesta antevisão do que seria colaboração em rede.

Página 22 –  E qual era esta missão?

Rodrigo –  A missão do O Estado de S Paulo  (e de todos os jornais sérios e éticos) era levantar os problemas que preocupavam a comunidade de São Paulo e promover o debate destes problemas pela comunidade. Ele tinha uma frase que considero lapidar, verdadeira até hoje para as empresas jornalísticas e que mostra que suas ideias (de rede) continuam contemporâneas:  Jamais sonhei que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública de meu estado. Tudo o que eu fiz na minha vida foi sondar a opinião pública e me deixar  levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada.

Um exemplo disso foi a greve operária de 1917, liderada pelos operários anarquistas. O governo criou um comitê de arbitragem, que não chegava a uma solução. Aí chamaram o jornal para arbitrar o comitê de arbitragem. E O Estado de S Paulo ficou do lado dos operários anarquistas porque as condições dos trabalhadores eram desumanas. Nesta época, os jornais estavam tão inseridos  na vida das comunidades que podiam representar este papel: o de árbitro de uma crise da comunidade que serviam.

A partir do  final da década de 1940, o papel de articulação da sociedade do meio jornal começa a mudar. O jornal deixa de acompanhar proporcionalmente o crescimento da população, começa a enfrentar a concorrência de múltiplas plataformas de mídia, a explosão demográfica e o crescimento desmesurado das cidades, que fazem que o meio jornal comece a se distanciar do seu público.  A sociedade  vai ganhando um outro  grau de complexidade e vai se fragmentando de tal forma que começa ficar difícil para o meio jornal fazer a cobertura jornalística com a mesma amplitude e profundidade do início do século passado até meados da década de 40.

É bom lembrar que desde o final da década de 40 a comunidade científica acadêmica já estava estudando infraestruturas na direção da internet e prevendo a possibilidade de sistemas de comunicação distribuídos. Em 1968, o cientista  J.C. Licklider  já dizia que, em poucos anos, iríamos nos comunicar melhor através de uma máquina do que face a face.

Página 22 –  Mas se um afastamento de sua missão e novas formas de articulação já se formavam há tanto tempo, por que os jornais continuaram com o mesmo modelo?

Rodrigo – Os graves problemas que a indústria de jornais está enfrentando é resultado da sua acomodação. Esta crise não surgiu de repente. Os jornais tiveram o monopólio dos “classificados” das comunidades em que estavam inseridos durante cerca de meio século. Do início do século 20 aos anos 40, eram a Ágora política e comercial das cidades que serviam.  Todas as empresas que atingem uma posição monopolista emburrecem. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social. A maioria deles não tinha e não tem a visão empresarial dos patriarcas.

E isso ocorre até hoje. Por  isso, o que está em risco hoje é o jornal de papel. O papel do jornal, ser um instrumento de articulação para a sociedade, é um espaço que continua aberto para ser ocupado. A nova infraestrutura de comunicação abre espaço para o que chamamos de “jornalismo cidadão” e novos  players sem legados. No futuro, todo cidadão que tiver um compromisso com o processo institucional de alguma forma vai estar ligado ao que chamamos de jornalismo.  O  jornalista profissional será necessário para realizar a filtragem daquilo que tem consistência do que é besteira, bobagem.

Não existem dois mundos hoje. Um analógico, outro digital. O rejuvenescimento e revigoramento da economia analógica depende da evolução da economia digital, que é consequência da evolução da economia da era industrial e do gênio humano. Uma das principais áreas de cobertura jornalística hoje é a própria internet, na medida em que as fontes primárias estão presentes na rede e que o público, a cidadania, está lá num processo de conversação sem fim debatendo seus problemas, ansiedades, sonhos e perspectivas.

Hoje, todas as pessoas e todas as empresas são parte também do setor de informação. Até muito pouco tempo atrás, as empresas tradicionais de informação tinham o domínio da audiência.  E  qualquer pessoa que, por motivo político, econômico, institucional, comercial, quisesse se relacionar com o público, precisava fazer lobby sobre as estruturas jornalísticas e jornalistas para que a sua informação, a sua mensagem, chegasse ao público. Ou comprava espaço publicitário. Hoje isso não é mais necessário.  No futuro, a publicidade e o marketing serão substituídos por um processo de conversação contínuo das empresas, das pessoas, das entidades com o público na Web, na rede. Dentro de muito pouco tempo, não haverá mais barreiras entre conteúdo e mídia. Isso  estará inserido nos processos de cada profissional e de todas as empresas, nas redes sociais que elas paulatinamente estão construindo.

Página 22 – E as empresas de informação tem dificuldade em aceitar esta nova realidade?

Rodrigo – O  problema dos jornais e jornalistas é que se consideravam (e em alguns casos ainda se consideram) superiores aos mortais comuns e por isso, no início da internet como Web, eles não mergulharam nas peculiaridades da rede. E a principal peculiaridade da rede é que, por meio do algoritmo, ela permite a criação de comunidades sobre comunidades a partir do nada.

Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos. E contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política. Enfim, o papel do jornal era contribuir para articulação da sociedade para que ela fizesse valer seus interesses frente ao poder público e frente aos poderosos da sociedade. Se os jornais tivessem mergulhado na Web, rede, e procurado entendê-la desde o início, com certeza teriam encontrado caminhos para continuar cumprindo sua missão neste novo ambiente da informação, comunicação, articulação, este ambiente de conversação da sociedade.

Esse papel continua aberto para ser realizado e existem formas de monetizar isso oferecendo novas formas de serviços para pessoas, para empresas e para setores da economia que vão inexoravelmente entrar neste processo de digitalização da economia.  As empresas têm que organizar suas redes sociais nas mídias sociais. Elas têm que monitorar sua marca, entender como o público enxerga a empresa, o seu setor por meio da rede. Têm que estabelecer canais de conversação com seu público potencial, seus fornecedores e distribuidores.

O monitoramento se faz através de softwares, os processos de big data. A empresa tem que identificar quem é simpático a ela, saber quais são os problemas que ela enfrenta em relação à distribuição, ao preço, entender como sua marca é  vista, cumprir também com seu papel social.

O problema é que as empresas, ainda naturalmente com um pé na velha economia, têm medo do  que  estão vendo pela frente e não sabem como fazer isso. As agências de publicidade tradicionais também não sabem fazer isso, transferem processos analógicos para o mundo digital, fazendo no máximo buzz, quase um barulho inócuo. Existem, é claro, as exceções, empresas modernas que já estão fazendo isso e que deveriam ser vistas como exemplo.

Se existe participantes de um setor da velha economia que têm cultura para fazer isso são as empresas jornalísticas, desde que tenham humildade para olhar para o papel histórico delas, que é sua capacidade para articular públicos. A notícia, a informação comercial é um meio, não um fim.

Página 22 –  Isto está acontecendo?

Rodrigo – Não na dimensão que poderia ocorrer, mas há movimentos  nesta direção. O Nieman Journalism Lab, fundação voltada para o jornalismo da Harvard University, tem alguns trabalhos  nesta direção. Mas os Estados Unidos é prático demais. Para eles é a indústria do News Print. Pra mim, a notícia não tem sentido por si só, distribuída no etéreo. As empresas não fizeram dinheiro pela sua capacidade de distribuir informação. Numa perspectiva histórica, legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da  sua capacidade de articular públicos. É o conceito do meu amigo Walter Bender, que é uma  das minhas premissas sagradas:  Notícias não mudam o mundo. Elas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir. Elas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação.

É também por isso que os processos de informação, comunicação e articulação na rede, na Web, impactaram e impactam as tradicionais estruturas das empresas jornalísticas e seus modelos de negócios. Invés de procurar um caminho neste novo mundo e mexer na sua estrutura e processos, as empresas jornalísticas estão mandando embora os jornalistas mais experientes e mais caros e contratando mão de obra inexperiente e barata.

A rede permite e fomenta novas formas de relacionamento de capital e trabalho e é sobre isso que todas as empresas (não  só as jornalísticas) deveriam estar refletindo.  As jornalísticas deveriam pegar diversos grupos de jornalistas experientes e criar condições para que estes pequenos grupos formassem suas ilhas jornalísticas, criassem pequenas empresas voltadas para fornecer notícias sobre um nicho, cobrir um nicho. Subsidiá-los por  um período curto. As velhas empresas jornalísticas criariam um canal de  relacionamento com eles e juntos desenvolveriam formas de monetização não exclusivas, mas parcerias. Um processo de satelização, consequência na nova infraestrutura da economia: a internet, a web, a rede.

Se você ficar em uma estratégia de cortar custos em função de queda da publicidade que está sendo registrada e que vai continuar sendo registrada, é a morte. Eu acho também que esses sistemas de “paywall” (acesso a conteúdo da internet apenas através de pagamento de uma tarifa) é uma barreira para a missão dos jornais, que vai além do informar. A informação que o jornal distribui tem sentido na medida que é um fator da articulação da sociedade e se você coloca limites se cria uma barreira também para sua atuação.

Faz sentido você ter sistemas de micropagamentos para informação superespecializada e setorizada, para pacotes específicos, mas não para o geral. Empresas que usam “paywall” como Wall Street Journal, Financial Times e New York Times estão fazendo pouco dinheiro e são brands globais na língua dominante. Sou mais pela abertura de novos caminhos trilhados pelo The Guardian, Forbes e outros. A Web é aberta e não adianta lutar contra isso. O núcleo principal da sua atividade não pode ser fechado, o modelo  de negócio tem que ser aberto.

Página 22 – Mas de onde virá a receita destas empresas?

Rodrigo – O processo de digitalização da economia  é irreversível. As empresas têm que procurar caminhos de monetização em função de serviços de articulação na rede e no processo de digitalização das empresas. Hoje você tem softwares que podem monitorar as informações que estão sendo publicadas nas diversas mídias/ferramentas sociais que estão dentro da internet, como Google+, Facebook, Twitter, Linkedin, Pinterest, Path, Youtube, Tumblr, Orkut etc.  Você pode acompanhar as discussões de assuntos específicos ou de determinada indústria ou governo ou entidade, praticamente em tempo real, em cada uma dessas mídias e nas mídias tradicionais que  atuam na rede.  Por outro lado, estes softwares mostram apenas estatísticas que precisam ser analisadas em função do seu objetivo. E este papel de análise pode ser feito por jornalistas com a contribuição de outros profissionais.

A rede hoje em certa medida é uma balbúrdia. Você tem uma porcentagem muito grande do público, com certeza mais do que 50%, que não consegue fazer distinção entre informação estruturada, relevante, primária ou uma  análise fundamentada e com valor   da “informação” dos espertalhões que estão fazendo marketing no mau sentido, retrabalhando informações de terceiros sem acrescentar  nada, fazendo  barulho para pegar vítimas.  As tradicionais empresas jornalísticas, com a força de suas marcas e sua relação centenária com a cidadania, deveriam estar oferecendo este serviço também. De monitoramento, de curadoria da rede, de agregação temática e de público.  Com isso, se colocariam como um dos vetores do processo de debate e articulação da sociedade na rede.

Enquanto a velha indústria fica parada, veja o Google… Com menos de 15 anos de idade, fatura mais com publicidade que todos os grupos jornalísticos norte-americanos juntos.

Página 22 – E os jornalistas? Qual o futuro para estes profissionais?

Rodrigo –  Antes, o profissional de informação se preparava para fazer carreira em uma empresa que o ajudava a expô-lo para o público, ajudava a promovê-lo como jornalista. Agora, ele terá que encontrar seu próprio caminho. A Universidade de Stanford, Columbia e outras nos Estados Unidos estão discutindo como fomentar o empreendedorismo entre os estudantes da área jornalística.

Os novos jornalistas terão que criar sua própria estrutura de trabalho ou manter relações mais abertas com as empresas tradicionais que sobreviverem. As oportunidades são muitas, este campo nunca esteve tão aberto. É um momento de profunda e acelerada mudança. Os profissionais que já percorreram meio caminho de suas vidas na estrutura antiga sentem uma justificada insegurança. Tecnologia é tudo aquilo que inventaram depois  que você nasceu. Não está no seu córtex, você não sabe pensar naturalmente com aquilo, não  é ainda uma extensão  da sua inteligência, das suas possibilidades.

Para quem está começando agora, as oportunidades são infinitas. O futuro do jornalista está no empreendedorismo. E o futuro das tradicionais empresas jornalísticas está no processo de digitalização das empresas de todos os setores, que  abre um novo campo de receitas que pode ser tão importante quanto os classificados, o velho marketplace,  foi para o jornal de papel. Em outra dimensão, é importante frisar. A Ágora agora é  pública. Cada um de nós está no centro do processo na Web, na rede.

Página 22 – Ao criar um um sistema de informações econômico-financeiras em tempo real, o Broadcast, sucesso instantâneo no início dos anos 1990, você previa esta migração do jornal de papel para o eletrônico?

R – Minha visão, ainda no início dos anos 90, era que a empresa jornalística que ia dar certo nesta nova fase seria aquela que tivesse coragem de se “perder na rede”.  Quando criei, na Agência Estado, o serviço de informação em tempo real (pregões das bolsas, notícias e análises) Broadcast, a ideia era construir um bom negócio e a plataforma de aprendizado da S.A. O Estado de S Paulo para o mundo das telecomunicações, da computação e do software, para o mundo da economia digital, que batia nas nossas portas.

Em 1992, éramos líderes deste mercado, posição que a Agência Estado ainda ocupa mesmo com a competição de gigantes como Reuters e Bloomberg. Naquela época, desenvolvemos um serviço taylorizado para o mercado brasileiro em relação às bolsas e mercados usados pela maior parte dos agentes do setor financeiro e injetamos no  serviço uma competentíssima cobertura jornalística técnica do  mercado financeiro e de informações locais de cunho geral que impactavam os  mercados. Isso com um preço adequado. A Broadcast era o fuscão envenenado; o rolls royce era a Reuters. Hoje, o rolls royce é a Bloomberg, mas a Broad continua liderando o mercado.

Mas tanto a Broadcast quanto os  outros serviços que  criamos na Agência Estado estavam estruturados sobre o velho modelo de monetização a partir da sua capacidade de distribuir informação.  Quando propus para o Conselho do Grupo Estado o projeto Broadcast, entre os argumentos estava o de que os classificados iriam migrar para o resultado  da convergência entre telecomunicações, computação e software. O MIT – Media Lab,  foi um dos primeiros centros  de think tank do novo cenário que estava se desenhando e eu estava lá, desde o  início da década de 90.  Em 1997, escrevi um artigo que já previa o desenvolvimento do cenário que estamos vendo hoje.

Em termos empresariais, meu objetivo era vender o sistema Broadcast a partir do momento em que a internet estivesse mais estruturada e a banda larga mais disseminada no Brasil (isso ocorreu em meados dos anos 2000). E colocar o foco no varejo da economia brasileira, se voltar para setores como micro e pequenas empresas, agronegócio, tecnologia, educação. A informação jornalística seria uma cunha para entrarmos com  serviços de articulação de setores e mercados no processo de digitalização da economia. A receita viria de processos de gestão  de relacionamento e serviços,  não da venda de informação.

Era esse o plano porque estava claro para mim que o mercado financeiro é um mercado das empresas que estão nas capitais financeiras do mundo e por isso nasceram globais. Nova York (Bloomberg) e Londres (Reuters). Em termos locais, o mercado brasileiro, é um mercado pequeno. A capacidade de investimento das empresas globais  neste mercado é muito maior do que o nosso. Enquanto o mercado de articulação e digitalização do varejo da nossa economia tem um potencial muito maior e tem muito mais  a  ver com o papel histórico dos jornais: servir como plataforma de articulação  da sociedade. A notícia, a informação editorial e a comercial, é um meio, não o  fim. Sempre foi assim.

Página 22 –  Entendo que você levou adiante seu projeto de criar processos de articulação na rede.

 Rodrigo – Sim, desde 2002, quando profissionalizamos a gestão da “S.A. O Estado de S Paulo” e eu saí, desenvolvo projetos de gestão de relacionamento na Web, rede, para empresas, setores e entidades. Começamos em Biriguicom uma rede de colaboração, conhecimento e negócios para a capital do calçado infantil. Perdi  dinheiro, mas aprendi muito.

Depois disso, desenvolvemos dezenas de projetos.  Entre eles, a plataforma Peabirus, o TEIAmg, maior projeto de processos crowdsourcing do Brasil,  a Rede CIMPequenas Empresas & Grandes Negócios da Globo, Museu em Rede, O Milagre de Santa Luzia, Raio Brasil, a República Popular do Corínthians entre outros. Um longo caminho de aprendizado, da minha  adolescência e meu sonho  de ser o repórter dos confins às novas fronteiras do desenvolvimento da sociedade humana, a Web, a rede.

Breve, estaremos lançando novos projetos. Agora, com o objetivo de criar uma empresa de informação aberta na Web, na rede,  da qual não seremos  donos nem teremos  o controle, mas teremos o domínio e a gestão.

Página 22 – Confins, acompanho-o por meio deste blog e outros canais que você mantém na rede. Que objetivos você tem com eles?

Sou jornalista, com uma forte e acentuada tendência para o empreendedorismo. Acho que esta característica por causa das circunstâncias do tempo que vivi e vivemos e por  respeito, admiração e amor pelo meu bisavô, meu avô e acima de tudo pelo meu pai, o  jornalista Ruy Mesquita. Na S.A. O  Estado de S  Paulo fiz tudo o que pude para contribuir para a perpetuação da empresa, para abrir um novo caminho no novo sertão, que é a fronteira da Web, da rede. Dei à empresa muito mais  do que recebi nos meus  quase 30 anos de dedicação exclusiva a ela.

O blog Confins é a minha landing page. Minha formação é em História. Para desenvolver os meus projetos, tive que me debruçar sobre a cobertura jornalística da evolução do ecossistema de informação, comunicação e articulação da sociedade e procurar dominar as mídias/ferramentas que vão surgindo na Web, na rede. Daí, o jornal dos confins, o meu canal no rebel mouse, no google+, no linkedin, no  facebook, no youtube, no peabirus, no  twitter, no pinterest, no scoop.it, no scribd, no slideshare, no delicious, no instagran  e outros. Eles estão mais ou menos interligados e em todos é o mesmo foco de conversação: a evolução do ecossistema da informação… Além desta função, há a do aprendizado para usar estas ferramentas na construção  das nossas redes sociais de interesse específico.

Não trabalho sozinho, tenho sócios, somos um time. Eles são mais moços do que eu. Têm mais agilidade e conhecimento para o desenvolvimento dos ambientes de curadoria, agregação, articulação e governança que desenvolvemos, a partir de processos estruturados de monitoramento da rede. O new new new jornalismo. Eu trouxe esta visão que desenvolvi graças a ter “nascido dentro das redações” da “S A O Estado de S Paulo”, de ter sido primeiro sponsor de programas do MIT – Media  Lab e depois pesquisador afiliado, durante quase 15 anos, deste que foi naquele tempo a Escola de Sagres dos novos tempos. Além disso, puxo a articulação no mundo físico (analógico)  e digital.

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Sobre os impactos deste processo na sociedade como um todo ver o post A infraestrutura do futuro.

Nele, utilizando entrevistas em vídeo de Alvin Toffler, Yochai Benkler e Marshall McLuhan,  procuro tecer o quadro do  momento da transição de uma era para outra  que estamos vivendo.

Alvin TofflerAs nações estão perdendo seu poder relativo… a propagação não só de computadores, como também de outros sistemas de comunicação e redes de todo o gênero, com isso  vemos atividades ocorrerem à margem do sistema ou mesmo à margem, em muitos casos, do controle das nações.

Yochai BenklerA principal mudança que a internet criou é a radical descentralização dos meios básicos de produção  de informações e conhecimento e cultura… pela primeira vez desde a revolução industrial estes recursos estão nas nas mãos da maioria da população.

Marshall MacLuhanTodas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos (a internet, a web, a rede) são uma extensão do sistema nervoso central.  A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos. Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

O novo ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade

As mudanças extraordinárias do jornalismo!

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O início da revolução

por Dirceu Pio

Há pouco mais de 20 anos, saímos do tempo diferido e entramos de  cabeça no tempo real; agora, somos forçados a esquecer o analógico e entrar de sola no digital. E o jornalismo ganha configurações jamais imaginadas!

        Tive o privilégio de pertencer à equipe que, sob a batuta de Rodrigo Mesquita, implantou o tempo real (realtime) no Brasil; tudo ocorreu nos anos 1990 através do projeto da Agência Estado – empresa do Grupo do Jornal O Estado de São Paulo – que saía da condição de agência de notícias para se transformar em agência de informações (enquanto a primeira abastecia de notícias os jornais de todo o país, a segunda começava a abastecer os mercados com informações para orientar o trabalho das mesas financeiras).

A troca de cultura que se irradiou a partir do projeto da Nova AE – como a Agência Estado era chamada por suas inovações – foi uma verdadeira epopeia: o jornalismo de então estava baseado num regime secular – captar uma informação, redigi-la, editá-la e publicá-la dentro de um prazo de 24 horas ou, quando menos, contemplando os interesses da TV, de oito a dez horas!

O tempo real quebrava esse ciclo na espinha forçando a divulgação instantânea das notícias… o marketing das grandes agências de informações mundiais (Reuters, Knight-Rider, Dow Johnes, Nikkei),  para conquista de novos assinantes nas mesas financeiras, baseava-se na velocidade com que as notícias importantes eram divulgadas… sair na frente em quatro ou cinco segundos fazia grande diferença!

Planejado pela Nova AE, o treinamento de jornalistas do Grupo Estado para assimilar a nova cultura foi uma guerra! Envolveu os melhores consultores nacionais e internacionais especializados na preparação das pessoas para receber uma novidade que iria mexer com vigor em hábitos sedimentados, práticas mais do que centenárias, formas consolidadas de apurar, escrever e divulgar uma informação! E o tempo real revolvia tudo, forçava mudanças vigorosas no jeito de produzir e fazer, uma nova cultura!

Em poucos meses, começávamos a colher os primeiros resultados… lembro-me do dia em que um dos repórteres do Grupo Estado assustou o CEO de uma grande corporação do Rio de Janeiro;  durante entrevista coletiva, ele fora informado por assessores que as informações que acabara de transmitir já repercutiam no mercado, divulgadas por celular pelo repórter que pioneiramente se engajara na cultura do realtime…

Não é fácil remover uma cultura sedimentada e substituí-la por outra nova… o novo tem de ser robusto para se impor… enfrentará resistência, reações em cadeia, intolerância, reprovação!

O AE News – o serviço informativo da Agência Estado em tempo real – entrou com tamanha força no mercado brasileiro que em menos de um ano de sua implantação foi capaz de alavancar a empresa, transformando-a em “case de sucesso” e líder absoluta do setor de divulgação de informações para mercados na América Latina…

“Isso vai virar uma coqueluche”, reagiu com acerto o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ao ser apresentado a um terminal da Nova AE… E o AE News nascia junto com um novo jornalista, bem mais veloz na divulgação de seus escritos, bem mais consciente de suas responsabilidades frente à informação por saber que agora, ao invés de escrever para o público em geral, uma entidade quase abstrata, passava a escrever para mercados e para um tipo de usuário que iria ganhar dinheiro com sua informação…

NOVA MUDANÇA É MUITO MAIS ASSUSTADORA

Esses pouco mais de 20 anos que separam a introdução do realtime  dos dias atuais com certeza não foram suficientes para preparar o jornalista para a mudança em curso – da passagem do jornalismo analógico para o jornalismo digital… Esta sim é uma verdadeira mudança, avassaladora!

O mais assustador nestas transformações é saber que a mudança está em curso e não se vislumbra um prazo para que ela se apresente por inteiro, com começo, meio e fim! O terreno onde o jornalista atua hoje é movediço, traiçoeiro, fluido! Nada do que é hoje pode ser também amanhã!

Mas vamos pensar um pouco: afinal, o que essencialmente mudou? O jornalista por acaso não é mais aquele profissional que capta uma informação, destila e a divulga? A resposta pode ser sim e ao mesmo tempo ser não!

Ah, quer dizer que o jornalista também não é mais aquele que tem e cultiva fontes exclusivas? A resposta também pode ser sim e não!

Afinal que diabo faz o jornalista nessa nova atmosfera na qual a internet introduziu as redes sociais, a interatividade, a possibilidade de transmissão de qualquer tipo de arquivo – leve, pesado, com documentos, sem documentos, com imagens estáticas, com imagens em movimento – e a possibilidade de acompanhar e captar, importar, compartilhar informações do mundo inteiro, em tempo diferido e em tempo real?

Boa pergunta, mas sinto dizer que não sei respondê-la e acho improvável que exista no mundo alguém que tenha uma resposta plausível! O que vejo é o pipocar de zilhões de experimentos em toda parte, o que, diga-se de passagem, é algo extraordinário!

No meio dessa tsunami de inovações e experimentos, o que eu faço? Experimento também, tateio, avanço, recuo, ouso não ouso, observo, sobretudo observo!

A inflexibilidade soberana no analógico tem de dar lugar a uma condescendência responsável no digital, pois neste o mundo se abriu para a colaboração, para a provocação, para a análise, para o humor, para o desabafo! Basta dizer que somos, os jornalistas, produtores, divulgadores editores ou mesmo compartilhadores de informações!

Nesses avanços e recuos proporcionados pelo que eu chamo de “nova atmosfera” temos grandes perdas e grandes ganhos; quando a internet liquida com os meios impressos e agora já ameaça acabar também com a TV aberta, perdemos!

Quando a internet nos oferece mil canais de divulgação para as coisas que produzimos, ganhamos! Quando a internet nos permite acesso a informações qualificadas dos mais diferentes sites e blogs, também ganhamos – e muito! A certeza que aflora é que tudo vai piorar muito antes de voltar a melhorar !

A internet, como eu já disse, é a grande maravilha do século XXI !

Ainda hoje pela manhã ao ligar a TV e ser informado que o Reino Unido ainda não saiu da União Europeia, indignado, postei: “Vou dar prazo de uma semana… e se até lá o Reino Unido não tiver saído da União Europeia, vou lá e tiro no tapa!”

Ganhei de leitores brasileiros inúmeros kkkkkkkkk e de minha sobrinha, a jornalista Fabiana Pio, que mora em Londres, uma frase enigmática: “Não faça isso, deixe assim !”

O PAPEL DO JORNAL

por Rodrigo Mesquita

A AE, Dirceu Pio, começou a trabalhar com a rede em 92, na véspera da ECO 92. Era ainda a APARNET. O seu artigo é sobre o início do desafio de criar uma nova cultura de envolvimento com os fluxos de informação.

Os fluxos se tornam mais complexos e fluidos conforme a sociedade humana evolui na conquista do espaço em que está inserida, que sempre foi analógico e “digital”, este antes restrito às ondas de idéias, do imaginário, dos sonhos.

Voce foi e continua sendo uma referência neste processo de evolução, com profundas rupturas, do ecossistema de informação e comunicação da sociedade. Ninguém tem a formula do futuro, que será sempre beta daqui pra frente, se é que não foi desde sempre, desde a escrita na pedra.

Os caminhos, os peabirus, são muitos. O meu está refletido neste artigo de 2013.

um grande abraço, companheiro de viagem.

O PAPEL DO JORNAL

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa) relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro. Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

Não é mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

Navegando pelo passado de uma reflexão sobre o futuro

Navegando pela internet, nesta quinta-feira, dia 28 de fevereiro, fui bater nesta entrevista dada no final da década de 90, quando dirigia a Agência Estado. Apesar de não usar a palavra disrupção, hoje tão comum nos meios que acompanahm a indústria da informação, ela está nas entrelinhas das minhas respostas. Iniciei  o projeto AE – transformar uma unidade operacional de O Estado de S Paulo numa moderna turbina informativa para o mercado – em 88. Já naquela época, tinha consciência de que os jornais iriam perder o domínio sobre os classificados – os pequenos anúncios de empregos, imóveis, carros, oportunidades – para a computação e as telecomunicações. Tudo isso e mais a visão de que o futuro do modelo de negócios seria moldado sobre processos de gestão de relacionamento de setores e segmentos da sociedade, está nesta entrevista. Por isso, não resisti em republicá-la no meu blog.

Rodrigo Mesquita

Diretor da Agência de Noticias Estado do grupo O Estado de São Paulo

Entrevista concedida a Eugênio Araújo

Título: O futuro das agências de notícias e negócios

Fonte: Site Máster em jornalismo/Universidade de Navarra

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Cada um dos meios de informação – o jornal, as rádios, as TVs e as agências com seus conjuntos de serviços – é uma plataforma de relacionamento com o público. A Agência Estado trabalha com dezenas de plataformas diferentes, com características específicas, conforme o mercado/comunidade que ela vem procurando desenvolver (veja em Estadão). Hoje, o negócio que menos cresce da AE é o seu serviço voltado para o mercado tradicional das agências de notícias – o mercado de meios: jornais, revistas, rádios e TVs. Apesar disso, a AE considera esta plataforma de negócios estratégica em função das oportunidades sinérgicas que ela lhe abre em relação aos demais serviços que oferece aos diversos mercados/comunidades que vem desenvolvendo e procurando fidelizar: financeiro, nove setores da indústria brasileira, o agronegócio – do setor financeiro à produção – e os players do mercado/comunidade mídia.

Hoje, quase 100% da nossa receita é conseqüência de assinatura. Mas trabalhamos com a perspectiva de que, no futuro, a receita será conseqüência da geração de negócios para as comunidades que servimos. Quero ressaltar com isso que, no momento, sinto uma tendência no mercado de fechamento de serviços de informação com real valor agregado. Para citar um só exemplo, falemos do FT.com (Financial Times), um serviço que nasceu aberto e custou cerca de US$ 200 milhões de perda para a Pearson e que recentemente foi fechado e cujo modelo de negócio vem sendo reconstruído.

Master em Jornalismo – Qual é o papel e quais são as estratégias das agências perante os novos meios e as novas tecnologias? A Internet é a saída natural e a ferramenta do futuro para as agências de notícias?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me atreveria a falar sobre este assunto da perspectiva das agências de notícias globais. A Agência Estado é uma empresa de informação nascida num país de dimensões continentais e com um potencial econômico que supera em muito o da média dos países da América Latina. Falando a partir desta perspectiva e considerando a tremenda e profunda evolução que as tecnologias de informação estão sofrendo, considero que o futuro das agências de notícias é extremamente promissor se elas souberem, como outros meios de informação, se transformarem e se adaptarem a uma realidade – também em função da evolução das tecnologias de informação – dinâmica e mutante como nunca antes na história.

Master em Jornalismo – Qual o futuro das agências de notícias, em um mercado de informação como o atual, com uma quantidade de informação gratuita ao alcance dos usuários?

Rodrigo Lara Mesquita – Na minha visão de futuro, o jornal de papel está condenado, o papel do jornal é perene. Quero dizer com isso que não vejo a Internet/Redes como um novo meio que compete com os que conhecemos. Vejo a Internet/Redes e seus sucedâneos como uma nova infra-estrutura que permeará e sustentará todos os meios de comunicação social num movimento convergente. Qual é o papel do jornal? Ele representa, em última instância, o ponto de encontro das comunidades que serve para refletir, analisar e debater sobre os problemas que lhe afligem. O jornal tem que cobrir os movimentos macro da história traduzidos no dia-a-dia, com a missão de fornecer para o leitor a perspectiva, a interpretação isenta, o contexto, a análise.

Os serviços que a AE vem desenvolvendo nos últimos 15 anos para desenvolver e fidelizar novos mercados/comunidades têm outra função. A função destes serviços/plataforma de relacionamento – compostos por informação e tecnologia – é instrumentalizar o cidadão enquanto agente econômico e contribuir para que cada uma das cadeias econômicas destas comunidades seja mais eficaz e competitiva em níveis locais e globais.

Master em Jornalismo – O êxito será das agências globais, as grandes, ou será das pequenas e mais flexíveis? Que papel tem a especialização? Quais as vantagens e inconvenientes se se tem em conta exemplos como os da Reuters e sua atual situação?

Rodrigo Lara Mesquita – Não me sinto capaz para responder sua pergunta. O que posso dizer é que a AE é líder no mercado/comunidade financeira no Brasil – temos 60% deste mercado contra Reuters, Bloomberg e mais três pequenas empresas locais. Por quê isso ocorre? Porque Reuters e Bloomberg trabalham com o mesmo produto distribuído em todo o mundo. O mercado financeiro tem necessidades de uma cobertura que vai além da sua tecnicidade. Nosso acompanhamento dos movimentos da macroeconomia brasileira e dos impactos da política nacional sobre os mercados e a economia fazem a diferença. Se Reuters e Bloomberg resolverem fazer esta cobertura no Brasil, o negócio deles ficaria inviável em função dos custos. Além disso, por causa da escala e nossas especificidades, trabalhamos com preços competititivos.

A AE pretende dar uma contribuição para a competitividade da economia brasileira como um todo. Sua lógica operacional não tem nada a ver com a de empresas de informação globais. Sua plataforma de relacionamento para o mercado/comunidade financeira acaba sendo o filtro de todo este esforço de cobertura. É isso, junto às competências tecnológicas e comerciais que conquistamos em função das especificidades do mercado brasileiro, que  permite a AE ser competitiva em relação à Reuters e Bloomberg.

Acredito que a evolução da Internet/Redes e seus sucedâneos abrirá espaço no futuro para uma infinidade de negócios pequenos e grandes – não só na indústria da informação. O movimento de concentração/monopolização – em certa medida, conseqüência da “idade da pedra” no mundo das redes – já sofreu seus primeiros impactos negativos.

Master em Jornalismo – Também se fala muito de redações multimídia. Que realidades apresenta a Agência Estado neste sentido? Que importância tem conseguir uma verdadeira redação multimídia e uma convergência real? O que se está fazendo na sua empresa neste sentido?

Rodrigo Lara Mesquita – A AE é pioneira na montagem de uma estrutura de produção editorial integrada em seus diversos níveis. Construiu uma redação capaz de gerar conteúdos em formatos diversos e destinados a públicos também diferenciados. Mais recentemente, incorporamos à nossa redação os instrumentos necessários para a produção de conteúdos de aúdio e vídeo, o que nos permitirá abranger todo o ciclo de produção jornalística. Para nós, conceitos como convergência e multimídia já são plena realidade.

Temos uma única redação composta por cerca de 150 jornalistas e um único sistema editorial. Considero que somos uma turbina informativa adequada para o momento que vivemos. A AE tem consciência de que a dinâmica das atuais redações deve acompanhar as possibilidades que a tecnologia nos abre todos os dias.

Master em Jornalismo – Em quê se diferencia a Agência Estado de outras agências? Detalhes peculiares e definitivos.

Rodrigo Lara Mesquita – O foco da AE na economia brasileira define sua principal peculiaridade. A consciência de que, a médio prazo, a relação com as comunidades econômicas que vimos desenvolvendo devem caracterizar a AE como uma empresa de network e não de business information definem as demais peculiaridades. A AE, uma empresa totalmente virtual, é um planeta com dezenas de satélites ligados virtualmente a ela. Se considerarmos os dados dos pregões das bolsas, cerca de 90% dos conteúdos que distribuimos em nossas plataformas de relacionamento são de terceiros, de parceiros da AE. Considerando só conteúdos-texto, cerca de 60% dos conteúdos são nossos. O resto é de terceiros.

Vivemos uma época de revolucionários avanços tecnológicos que levaram o ambiente de negócios a se caracterizar pelo que o laboratório de mídia do MIT (Media Lab) e a Solan School of Business definiram como “o movimento das grandes convergências”. São elas: a convergência entre pesquisa e desenvolvimento; a convergência entre redes de comunicação e mercados, cada vez mais difíceis de se distinguir; a convergência entre precificação e mecanismos de relação comercial com o mercado; a convergência entre design e engenharia; a convergência entre produto e serviço; a convergência entre conteúdos e transações; e a convergência entre front e back office.

É evidente que estes movimentos têm impactos ainda impossíveis de serem mensurados em toda a sua magnitude na estrutura da economia conhecida. Para Walter Bender, diretor do Media Lab, “há duas revoluções fermentando. A primeira é uma revolução de comunicação interpessoal. A segunda revolução não é de tecnologia, mas de epistemologia e aprendizado. Construcionismo, aprender fazendo; é a revolução de Dewey, Piaget e Papert. O aprendizado acontece melhor não no espaço formal da sala de aula. Ele acontece em aplicações concretas. Eis porque devemos buscar construir ambientes para fazer”.

Não é esta a lógica do mundo tradicional de negócios, mundo acostumado com empreendimentos com break-even point e pay backs previsíveis. A consciência de que tem que construir uma empresa que lhe permita aprender fazendo (e renumerando o capital social) disseminada pelos profissionais que compõem o negócio faz a diferença. Os profissionais da AE sabem que a empresa terá que se reinventar a cada dia, na medida em que as tecnologias de informação forem se desenvolvendo e que o público for se aculturando a elas. É este o fator determinante do processo, o aculturamento do público às possibilidades ainda restritas do mundo em rede.

Além disso tudo, a AE é detentora de uma certa cosmovisão. Herança positiva de uma empresa familiar e, na minha opinião, fator decisivo para o sucesso de uma empresa de informação. Considero a Agência Estado uma empresa única.

Correndo atrás das notícias e do tempo

Gabriel Azevedo, Subsecretário da Juventude do Governo do Estado de Minas Gerais, Secretário de Comunicação Social da Juventude do Partido da Social Democracia Brasileira, Assessor da Presidência do Clube Atlético Mineiro, Coordenador da Turma do Chapéu e empresário, é mais uma vítima do dilúvio de informações que vivemos, dá seu depoimento sobre como se informa no dia a dia para a série na encruzilhada do futuro do presente.

Assim que acordo, utilizo meu iPhone ainda na cama. Ele dormiu ao meu lado enquanto recuperava a carga mais uma vez. Através de um e-mail exclusivo onde recebo o clipping, confiro as principais notícias do dia. O material vem organizado com meus temas de interesse e traz conteúdo da Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Estado de Minas, O Tempo, Hoje em Dia, Valor Econômico, Brasil Econômico, Diário do Comércio, Veja, Istoé, Época e Carta Capital. Ao longo do dia, no mesmo e-mail, recebo conteúdo dos mesmos veículos que são veiculados no seus respectivos sites. Em tempo real, recebo a reprodução das postagens nos principais blogs do país no mesmo e-mail. Fica fácil organizar um arquivo na caixa e procurar algo específico quando for necessário. A TV fica ligada no bom dia Brasil da Rede Globo.

Além disso, sigo perfis de interesse no Twitter e clico em links que me direcionam para as notícias caso não me satisfaça ao ler a manchete. Raramente utilizo o facebook para me informar, embora compartilhe notícias no meu perfil.

Se estou no trânsito, escuto a CBN pela manhã e ao fim do expediente na Cidade Administrativa. Ao chegar na sede do governo, leio o clipping do diário oficial com as notícias da minha pasta e outras mais gerais. Também recebe o jornal metro que é entregue no trânsito. Vejo o Jornal Nacional a noite enquanto corro na esteira. Se há algum evento que merece maior atenção, acompanho as transmissões da GloboNews. Tenho o costume de assistir o Jornal das Dez, quando estou em casa, ou o Jornal da Globo. Se o assunto de interesse é internacional assisto a CNN ou a Fox. Tenho aplicativos para iPhone também da CBN e da GloboNews, além da Rádio Itatiaia para ouvir o jogo de futebol no estádio. Acompanho sites institucionais também.

 

Celular, kindle, twitter e produtos em papel

Depoimento do jornalista Renato Cruz para o  Confins, na série na encruzilhada do futuro do presente. Uma tentativa de abrir um pouco mais  o debate sobre o novo ecossistema da informação e a crise da tradicional indústria jornalística, cujo modelo de negócios se sustentava na capacidade destes meio de articular públicos em torno de idéias, sonhos, problemas, consumo etc.

De manhã, dou uma olhada nos jornais brasileiros (Estadão, Folha, Valor, O Globo) pela internet. Normalmente, vejo as edições impressas somente mais tarde, na redação. Recebo por email as newsletters do New York Times, do Guardian, do Washington Post, do San Jose Mercury News, do Wall Street Journal, da Economist e do Financial Times, entre outros.

Ouço notícias no rádio do carro, normalmente para saber do trânsito. Tenho dezenas de blogs nacionais e internacionais assinados no Google Reader, mas o horário em que consulto isso depende um pouco do dia. O Twitter e o Facebook são fontes importantes de informação. No Twitter, tenho algumas listas privadas, por assunto, que me ajudam a organizar a informação.

A Wired é uma das poucas revistas que ainda leio regularmente no papel. Assino a Technology Review e o New York Review of Books no Kindle. Tenho lido muita não ficção em versão digital, principalmente no celular, na rua, enquanto espero para falar com alguém ou alguma coisa assim. Li no celular The Information, do James Gleick, e The Idea Factory, do Jon Gertner, por exemplo.

Notícia, notícia, notícia e o nosso tempo se esvai

Não sei quantos depoimentos já publiquei nesta série sobre como as pessoas se informam nestes tempos de rede para se manterem ligadas. Vai mais um, o da jornalista Beatriz Abreu. Junto com ele vai também meu incômodo com a certeza de que estamos perdendo alguma coisa importante das nossas vidas afogados por uma avalanche de informações, como nota com propriedade o professor Antonio Mendes Ribeiro no seu depoimento para o Confins: O dilúvio está aí, falta o Noé.

O objetivo da série de depoimentos, vale lembrar, é procurar abrir o debate sobre a crise de longa duração que estamos atravessando, a encruzilhada do futuro do presente, na perspectiva do Confins. Uma crise que se inicia com a disparada dos preços de petróleo na década de 70 e que, de lá para cá, tem momentos piores e melhores, mas persiste. Ela é o tempo de mudança de uma época para outra, da sociedade industrial para a do conhecimento. Da rede de distribuição de energia para a rede de construção e compartilhamento de conhecimento. Das plataformas de informação, comunicação e articulação lineares para as tridimensionais.

Distribuição implica hierarquia e poder,  compartilhamento significa uma nova ordem social. É este o principal fundamento dos novos tempos, que elucida para quem ainda não entendeu a resistência do status quo. Como diria Marshall McLuhan, “há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante”.

É hora de irmos para o depoimento da Bia, jornalista que foi (e é) o eixo do serviço de notícias para o mercado financeiro em tempo real da Broadcast em Brasília.

Eu adoro acordar com as notícias. Já no meu café da manhã acesso meus e-mails para checar informações enviadas por amigos, acompanho o noticiário em Tempo Real, checo os sites e inicio a leitura dos jornais.  Como a informação primária está nos conteúdos digitais, a leitura dos jornais me complementa, seja comparando como cada um abordou o tema mais importante do dia anterior, seja com a leitura de colunas,  artigos e editoriais da midia impressa.

Esse primeiro momento me atualiza e me deixa antenada sobre o assunto que vai ditar o noticiário econômico, político e temas relacionados ao dia-a-dia da população, principalmente na área de educação e saúde. Ao longo do dia, troco opiniões  com colegas do trabalho e amigos sobre o noticiário e, invariavelmente,  eles percebem um assunto ou fazem uma análise diferenciada. O noticiário em Tempo Real me mantém plugada na notícia, além do acesso aos sites dos principais jornais do país e as redes de relacionamento.

O twitter constitui um mundo de notícias. Muitas vezes, nem os sites publicaram. É interessante acompanhar o twitter porque, ao longo do dia e parte da noite, tudo gira por alí. A noite, quando já estou em casa acompanho o Telejornais e dou mais uma olhada nos sites. Bom, meu celular está sempre comigo e o acesso à internet me mantém concectada o tempo todo.

Nos fins de semana, além dos jornais, eu também me informo com a leitura das revistas semanais.

Quando dá tempo, leio também os jornais

Conrado Christiansen tem 30 anos, é formado em Comunicação pela ESPM, Escola Superior de propagando e Marketing, DJ profissional e como toda a família Christiansen um amante do mar e da vida. Como todos nós está emaranhado pela rede. Talvez, de uma forma menos stressada do que a turma com mais de 50 anos. Abaixo, seu depoimento de como se informa no dia a dia.

A rede é uma extensão dos meus espaços. Toda manhã quando acordo puxo meu smartphone, por ali vejo rapidamente as notificações de alguns aplicativos e dos meus canais mais importantes. Logo em seguida checo todas as minhas caixas de email. A princípio não respondo nada, nem as notificações, apenas olho todo o input de informações e defino uma ordem de prioridade para responder depois. Tomo um banho e no café da manhã começo a me interar das notícias do dia em algumas plataformas de conteúdo e curadoria, tais como: Google News, New York Times, Estadão, Uol, Valor Econômico, Zite, Flipboard, Pinterest, etc.

Assim que chego no escritório começo a responder aos emails que olhei antes e, quando dá tempo, leio o jornal impresso também. Em alguns momentos do dia entro no Facebook para abastecer as fan-pages que administro, também aproveito para acessar alguns grupos privados que faço parte. Ao contrário do Facebook, gosto de olhar a timeline do Twitter com mais profundidade. Nem tudo consigo ler na hora, para isso utilizo o Instapaper que armazena os links para ler depois quando eu tiver tempo. Quando estou navegando também utilizo sempre o Netvibes e o Delicious, onde recebo feeds e armazeno sites de minha preferência.

do outro lado do mundo

Á noite quando chego em casa geralmente leio um livro ou os artigos que salvei antes no Instapaper. Com certa frequência acesso o YouTube e passo por alguns canais que assino (assisto mais YouTube do que TV). Quando não estou tocando ou produzindo também entro no meu SoundCloud e em outros sites de música e produção musical. Para terminar, dou uma olhadinha no Instagram, afinal, é sempre bom estar perto das pessoas que você gosta ou admira, mesmo que do outro lado do mundo.

Depois tomo Rivotril, com tanta informação não há Cristo que durma

Abaixo, o depoimento do Tutinha Carvalho sobre como se informa no seu dia a dia para tocar a Joven Pan e dúzias de empreendimentos que inventa e reinventa todos os dias. Com certeza, ele não se sente na encruzilhada do futuro do presente.

Acordo ouvindo a Jovem Pan (um som pra você) e o jornal da manhã, já com a internet ligada vou usando o feed de RSS buscando as notícias que eu tenho interesse, rádio, economia, esportes, tecnologia e headline news. Dou uma olha no Estadão, em algumas notícias pra me interar mais profundamente , e vou trabalhar  na Jovem Pan.

 

Já na radio  entro em sites de rádio de pesquisas musicais, Tipo billboard.com/allcess.comwww.eurochart.com e Musicweek.com. Durante o dia tô sempre ouvindo a JPAM e quando me interesso por alguma coisa entro de novo na internet pra me aprofundar.

 

 

 

 

 

 

A tarde, tenho reunião no portal Virgula para decidir conteúdos da semana, no meu caso mais ligados a entretenimento. Dou uma olhada nos portais da Cnn, Fox, Wired,T3, Flipboard e outros sites internacionais de música entretenimento.

 

 

 

 

 

 

Mais no fim do dia, o pessoal do Pânico se junta e nós vamos ao Youtube procurar casos engraçados ou vídeos que estão fazendo sucesso no mundo. Uso bastante também o site Iheart.com que vc pode ouvir as rádios do mundo todo. Aí tenho idéias de promoção, ouço os playlists da Europa que são bem diferentes dos EUA.

 

 

 

 

 

 

A noite, já em casa depois do jantar, TV ligada e computador ligado e esposa ligada que vão me contando as fofocas do FaceBook e Twitter e Glamurama, Circolare e outros de fofocas e entretenimento.

 

 

 

 

 

 

Depois tomo Rivotril, se nao com tanta informação não há Cristo que durma.

billboard: postolje, reklamni panel


(bi): would

Caminhando para o futuro, aos trancos e barrancos

A rede – a internet e seus predicados que se desenvolvem de forma exponencial embaixo da nuvem computacional – privilegia antes de tudo a organização local ou nas palavras de Nicholas Negroponte, a globalização privilegia antes de tudo o glocal (informação, comunicação e articulação, veja mais aqui). E isto caracteriza o momento de conflito que vivemos entre a nova e a velha economia, descrito pelo economista José Roberto Mendonça de Barros, em recente artigo no Estado de S Paulo, como “uma grande atividade e forte efervescência, típicas das viradas de ciclo”. Ou seja: ao mesmo tempo que convivemos com um “um processo de consolidação dos setores da economia mais maduros, há uma explosão de novas atividades, resultantes de saltos tecnológicos e de novas demandas da sociedade. O jogo principal está na emergência do novo, e este, como se sabe, decorre em larga medida da revolução da tecnologia da informação, da comunicação e da sociedade em rede” (a íntegra, aqui).

Refletindo a preocupação das estruturas de poder tradicionais com este processo de mudança, paralelamente ao último encontro do G8, em Paris, organizado pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, ocorreu o evento oficial e-G8 (aqui, o canal do e-G8 no youtube), um fórum para discutir as questões conflituosas que vivemos desde a emergência da rede como Word Wide Web, em dezembro de 1990. Mais do que debater esta situação, o objetivo de Sarkozy assim como de boa parte do establishment era propor formas de controle da rede. Como se fosse possível e tivesse sentido controlar a rede.

Fazendo contraste a tudo isso, Yochai Benkler, professor de direito em Harvard e pesquisador da economia em rede, fala nesta entrevista no fórum e-G8 sobre a radical descentralização dos meios de criação de informação, conhecimento e cultura que a internet trouxe para a sociedade e, com isso, a inovação para as mãos do público. Na visão dele, nos próximos anos vamos continuar assistindo uma batalha entre a velha e a nova indústria. A internet móvel, na opinião dele, pode indicar o futuro. Se vencer o controle das Telecons em vez do fator ubíquo (a inteligência nas pontas, a descentralização) da rede, a sociedade e a democracia serão as perdedoras.

Apesar do pessimismo de Benkler, por considerar a hipótese de vitória do oligopólio formado pelas grandes operadoras de telefonia, é uma questão de tempo e muitos dramas para o novo se impor ao velho. É evidente que neste processo ocorrerão composições. Não há dúvida de que nestes primeiros anos da Web houve uma reação contrária às tecnologias (aqui, um exemplo deste espírito no G8), como por exemplo a reação da indústria fonográfica contra a música digital. Mas, como argumenta Andrew Lippman, quando se começa a construir uma plataforma aberta, é possível reverter esta reação e isto dará mais poder à sociedade. No final, a sociedade vencerá. No final das contas, as leis são apoiadas pela sociedade – elas não controlam a sociedade. Se você constrói sistemas e plataformas abertas, e os torna amplamente disponíveis, então a sociedade ganhará e manterá sua voz. As estruturas legais têm de apoiar as estruturas sociais.

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