Jornalismo? Não. O compromisso do Facebook é com a balbúrdia.

O publisher mais poderoso do  mundo, dono de um dos impérios do século 21, é um craque do entretenimento e uma farsa em todos os outros sentidos. Seu projeto de jornalismo é uma demonstração cabal de que não tem nenhum compromisso além de fazer dinheiro.

Zuckerberg entende de códigos e acertou na mosca nos seus primeiros passos. Um fenômeno de momentos de ruptura tecnológica, com seus impactos na economia, na política e nos  processos sociais. Mas não  tem noção do  que  seja cultura e muito menos processos culturais. É irresponsável  neste sentido e vai dar ainda uma enorme contribuição para a aumentar a complexidade da crise que estamos atravessando, que tem na mudança da lógica do  sistema de comunicação da sociedade um dos seus principais eixos.

Hoje, cada  um de nós está no  centro do sistema de comunicação, que se transformou gostemos  ou não numa extensão do nosso sistema nervoso. Isso – também em função da fragmentação da rede em APPs e ambientes fechados –  promove naturalmente um fechamento para o acaso, para a surpresa, para o necessário debate e abertura ao controverso de uma sociedade civilizada. A tendência é promover o próprio ego fomentando uma sociedade ególatra.

Meu primeiro contato com o que viria a ser a Web, na época ainda em gestação, foi no MIT – Media Lab, com o cientista Walter Bender, em 92. Como ele, alimentei a esperança de que “a mídia digital estava longe de engendrar um mundo fragmentado habitado por míopes preocupados com seus próprios interesses. Em vez disso, estava liberando em cada um de nós nosso o desejo básico de compartilhar, o que às vezes se traduz num compartilhamento de informações, idéias políticas e sociais ou bens e serviços. O processo já começou e é de fato uma mudança paradigma”. 

A Web emergiu poucos anos depois. Era aberta, livre de espaços que se valem deste início de novos tempos e, por isso, do desconhecimento do  público  das suas possibilidades, para desvirtuar os propósitos humanistas com que a rede foi criada. Continuei com os meus laços estreitos com o Media Lab até 2006. APPs e ambientes restritos como o Facebook batem de frente com o sonho de Tim Berners-Lee e toda a comunidade científica que contribuiu para a construção da rede. 

O artigo  que transcrevo abaixo é do Frederic Filloux, do Monday Note, um especialistas das mídias tradicionais e das novas e que como Walter Bender e eu consideramos que “as notícias nos dão uma nova informação e as ferramentas com as quais explorá-la. Uma fonte de modelos compartilhados sobre o mundo. Elas não nos dizem o que pensar, mas nos ajudam a navegar na complexidade de nossas vidas”. Esperávamos que a mudança provocada pela tecnologia no ecossistema de comunicação da sociedade fosse um meio para melhorar o acesso dos indivíduos às notícias para veículos de engajamento ativo. No artigo de Filloux, transcrito abaixo, uma explicação didática e objetiva da balbúrdia que Zuckerberg promove de forma cínica do o seu Facebook.

Arriscaria dizer que Zuckerberg como empresário do mundo digital se equivale a Trump como presidente do país mais rico e a democracia mais sólida do Ocidente. Para eles, a verdade é maleável, instrumental, subjetiva. É tudo sobre eles. É sempre sobre eles. Ególatras e a única contribuição  que podem dar para a humanidade é acirrar ainda mais os ânimos das pessoas de uma sociedade estressada pelo  processo  mais delicado e dramático  de mudança que a História já assistiu. E é claro promover os idiotas da objetividade, seus semelhantes.

Rodrigo Mesquita

PS: a versão para o português é do meu amigo e companheiro de viagem Sergio Kulpas.

O Facebook precisava fazer alguma coisa pelo ecossistema de notícias. Mas sua liberdade de movimentos é limitada pela própria estrutura de faturamento da empresa. Assim surge um projeto que combina cinismo e ingenuidade.

Frderic Filloux

 

O Facebook  tomou duas medidas significativas a respeito de sua postura em relação ao jornalismo. A primeira foi no dia 6 de janeiro, com a contratação de Campbell Brown, ex-âncora da NBC e da CNN, no cargo de “diretor de parcerias jornalísticas”. A segunda foi em 11 de janeiro, com anúncio do Facebook Journalism Project.

 

A respeito da primeira ação, é de fato uma boa ideia contratar uma mulher para esse cargo; é um sinal claro para um setor conhecido por sua relutância em colocar mulheres em cargos executivos (os dados que indicam isso estão no estudo Status of Women in the in the U.S. Media)

 

Apesar disso, para estabelecer relacionamentos com chefes de redações, esperava-se um profissional muito tarimbado. Não há escassez de jornalistas experientes com capacidade para reforçar a credibilidade do Facebook. Uma âncora de telejornal não é a pessoa mais indicada. E para enfatizar ainda mais a fragilidade da contratação, o Facebook deu a entender que Campbell Brown não vai lidar com conteúdo.

 

O lançamento do Facebook Journalism Project teve muito mais peso. Segundo explica Fidji Simo, diretor de produtos do Facebook, o projeto se apoia em três pilares:

1 – “Desenvolvimento colaborativo de produtos noticiosos”, como novos formatos de storytelling, iniciativas para notícias locais e novos modelos de negócios, e “hackathons”;

2 – “Treinamentos e ferramentas para jornalistas”;

3 – “Treinamentos e ferramenta para todos”, o que inclui um conjunto não definido de medidas contra as fake news.

 

Muito bem. Colaboração, treinamento de jornalistas, ferramentas… parece familiar? Realmente é – reproduz ao pé da letra a declaração de princípios do Digital News Initiative do Google. O DNI foi lançado há dois anos pelo Google com oito publishers europeus. Como representante de um desses publishers, eu estava muito envolvido no projeto. Graças ao DNI, o Google foi capaz de estabelecer (e em alguns casos restaurar) boas relações com muitos publishers ao redor do mundo. É óbvio que o Facebook Journalism é uma resposta ao Google, nos níveis tático e político (leia-se geopolítico). O Facebook cita um relacionamento próximo com vários publishers alemães que estão às turras com o Google há muito tempo. Axel Springer e outros vivem enviando informações negativas sobre a atuação do Google em seus mercados para Comissão Europeia.

 

Além da percepção, está uma pergunta: até que ponto as ações do Facebook poderiam realmente ajudar o combalido ecossistema das notícias?

 

Em primeiro lugar, o Facebook precisaria fazer algo a respeito das notícias. A rede social enfrenta dificuldades em duas frentes diferentes: uma é a questão das fake news, problema que foi abordado de modo fraco por Mark Zuckerberg e sua equipe, para dizer o mínimo. O segundo problema é a crescente insatisfação dos publishers: eles se sentem enganados pelo que veem como uma tendência do Facebook de sequestrar o valor econômico de seu conteúdo. Depois de sucumbir à miragem do Instant Articles, os publishers chegaram a uma conclusão desagradável: os números de audiência eram ótimos, mas a monetização generosa esperada se mostrou na verdade um mero conta-gotas (Semana passada, para piorar, o Facebook cortou os subsídios dados a um pequeno grupo de publishers para a produção de vídeos ao vivo)

 

E se é impossível separar cinismo de ingenuidade aqui, o Facebook Journalism Project contém pérolas do ridículo. Vejamos duas delas.

 

Segundo a explicação de Fidji Simo, o Facebook está comprometido a “promover o alfabetismo para notícias”:

“Vamos trabalhar com outras organizações para melhor entender e promover o alfabetismo noticioso dentro e fora de nossa plataforma para ajudar as pessoas em nossa comunidade a ter as informações que precisam para decidir em quais fontes confiar.”

 

Não é piada. Se você conseguir engolir essa sentença com dezenas de palavras sem vírgulas, ela diz algo como “McDonald’s adota menu de baixas calorias” ou “A Monsanto compra a rede de produtos orgânicos Whole Foods”. Palavras cheias de gás, desconectadas da realidade.

 

Uma das “outras organizações” que vão fazer parte do time do Facebook chama-se “News Literacy Project”, que destaca o apoio do Facebook como se fosse uma medalha de honra:

fbjornalismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No box roxo está escrito: “aprenda a navegar pelas fontes de informação na internet de modo mais cético”. Curtindo ou não (perdão pelo trocadilho), o Facebook está exatamente no extremo oposto da nobre ideia da NLP. O sistema inteiro do Facebook é construído em torno da ideia de fechar seus usuários dentro de um ambiente “amigável”, totalmente blindado contra conteúdos que não reflitam suas ideias, opiniões, crenças, afiliações, etc… No mundo do Facebook, clique após cliques, todos erguemos nossos muros e reforçamos essas barreiras cognitivas. O mecanismo está no coração do modelo de negócios faminto por pageviews do Facebook: trata-se de reforçar sua sustentabilidade. O Facebook precisa manter seus usuários pelo maior tempo possível dentro de seus serviços. É por isso que o algoritmo é programado para evitar expor um usuário de “esquerda” a conteúdos de “direita”, e vice-versa.

 

Como disse um amigo especialista em tecnologia e mídia, “o Facebook é acima de tudo uma plataforma de entretenimento. Essa plataforma quer que você permaneça no ambiente a todo custo. Assim, no que se refere a notícias, se o seu perfil estabelece que você precisa de 20% de informações em seu newsfeed, é isso que você vê. Para outra pessoa, o algoritmo pode decidir que “notícias” não é o melhor meio de mantê-la dentro do ambiente da rede social, então vai reduzir essa proporção para 3 ou 4% — tudo cuidadosamente filtrado”. Na verdade, os usuários não veem mais do que 10% do conteúdo jornalístico que assinaram em suas timelines simplesmente porque notícias não representam o item que gera mais cliques em um feed do Facebook. Eu trato desse assunto neste artigo: Facebook’s Walled Wonderland Is Inherently Incompatible With News.

 

Outra ideia exótica do Facebook Journalism Project é usar a empresa recém-adquirida CrowdTangle, que define seu propósito como “oferecer análises críticas de mídias sociais para auxiliar publishers ao redor do mundo a avaliar seu desempenho em redes sociais e identificar reportagens de impacto”. Em outras palavras, a empresa ajuda a avaliar e promover o jornalismo segundo as necessidades do Facebook.

 

Aqui estão exemplos extraídos do interessante compêndio “The Top 10 Local News Post on Facebook in 2016”. Estão prontos?

 

  • “Um cachorro resgatado na Humane Society Silicon Valley muda a vida de um homem com excesso de peso, ajudando-o a se tornar uma pessoa mais ativa” — 920.000 interações.
  • “Um grupo de irmãos adolescentes contribui com a comunidade aparando gramados DE GRAÇA” – 961.500 interações.
  • “Um preview do Kitten Summer Games da Hallmark” – 1,05 milhão de interações.
  • “Um juiz da Georgia fala sem rodeios para um grupo de jovens sobre as consequências de uma juventude criminosa” – 1,08 milhão de interações.
  • “É um cachorro? É um cavalo? Um casal de Nevada acredita possuir o cão mais alto do mundo” – 1,17 milhão de interações.
  • “Cadela passa de assustada a feliz ao se ver reunida com seus filhotes” – 1,45 milhão de interações.
  • “Policiais ficam do lado do pai de um garotinho no primeiro dia de escola” – 1,5 milhão de interações.

 

Pode respirar agora. Tudo bem, são histórias de grande interesse humano (e animal), capazes de comover grandes multidões.

 

Mas elas representam a visão do Facebook sobre o jornalismo? Quero dizer – perdão pelo acesso de conservadorismo jornalístico – o tipo de jornalismo que educa, expande as mentes, ajuda as pessoas a formar sua opinião sobre questões importantes como atendimento de saúde ou os riscos do Estado Islâmico, o tipo de notícias que ajuda a entender complexas questões sociais?

 

É ESSA a visão do Facebook sobre um sistema de informações equilibrado?

 

https://mondaynote.com/facebook-journalism-project-is-nothing-but-a-much-needed-pr-stunt-c756744acec1#.a8azp28sb

Uma década muito turbulenta pela frente

At the World Future Society WorldFuture 2014 event, Lee Rainie discussed an extensiveroster of expert predictions about the internet in the coming decade. He discussed what happens to people’s behavior when the internet is everywhere, how new social and cultural divides will emerge, how deeply education will be disrupted, and how a different mix of companies will influence the Internet.

Este trabalho foi publicado originalmente PewResearchCenter com este título The internet’s turbulent next decade e a abertura que está acima. A apresentação abaixo é uma tradução e montagem minha. Abaixo dela, artigo meu publicado no Estado na véspera das eleições presidenciais cobrando dos nossos políticos e elites atenção para este processo. Estamos avançando no século 21 olhando para trás. E mais uma vez pagaremos um preço alto por esta omissão.

 

Eleição e Civilização

Publicado no Estado de S.Paulo
em setembro de 2014, a propósito
das eleições presidenciais no Brasil

A computação, o software e as telecomunicações, cuja síntese é a Internet, tiraram o domínio do público das tradicionais empresas de informação e colocaram o indivíduo no centro do processo de comunicação. Situação que está subvertendo a arquitetura de todos os processos sociais, econômicos e políticos, neste início do século 21. Trazendo definitivamente para o dia a dia da sociedade um grau de insegurança sobre o futuro que nenhuma das gerações anteriores à nossa sofreu.

O teórico da comunicação Harold Innis, mentor de Marshall McLuhan, considerava que os impérios começavam a morrer quando sua “linguagem” se desestruturava em função de um movimento de inovação tecnológica, normalmente precedida de uma crise de suprimento da matéria prima dos meios de comunicação da época, da argila ao papiro e o papel.

Linguagem aqui no sentido de toda a sua estrutura, arquitetura e consequente dinâmica de comunicação. Dos impérios que precederam Grécia e Roma à nossa época da comunicação de massa, a partir da produção industrial do papel imprensa até chegar à Internet, que será o eixo principal da nova “linguagem do novo império” – a sociedade em rede – e está promovendo a nova ruptura.

Até 2025, estaremos vivendo num “ambiente computacional imersivo, invisível, ambiental e conectado, construído a partir da contínua proliferação de sensores inteligentes, câmeras, softwares, databases e imensos centros de dados em um tecido de informação que envolverá o planeta, chamado Internet das Coisas,” conforme avaliou um recente trabalho do PewResearch Internet Project, respeitado centro de pesquisa e think tank dos EUA, com pouco mais do que 2.500 cientistas pesquisadores, autores, editores, jornalistas, empreendedores, líderes de negócios, desenvolvedores de tecnologia, ativistas, futuristas, consultores, legisladores e advogados. Parte da elite norte-americana.

Neste contexto “imersivo” conviveremos com “aplicações de realidade aumentada sobre o mundo real, que serão percebidas através do uso de tecnologias portáteis/vestíveis/implantáveis.” E assistiremos “a ruptura dos modelos de negócios estabelecidos no século 20 (com maior impacto sobre as indústrias financeira, de entretenimento e a de educação).” A etiquetagem, catalogação e mapeamento analítico inteligente dos mundos físico e social serão uma realidade, que poderá ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

O Brasil está preparado para este cenário? Nossos governantes, políticos, empresários, cientistas, profissionais liberais, trabalhadores têm consciência deste processo irreversível?

Não conquistamos sequer os fundamentos da sociedade do século 20, que se vai. Educação, saneamento básico, segurança, infraestrutura e um arcabouço político minimamente preocupado com a sociedade e seu futuro são as reivindicações da sociedade que ainda não conquistou uma cidadania plena. Na campanha eleitoral, as bandeiras são estas questões e as promessas de governar com seriedade. Nada em relação a este futuro e seus processos de disrupção e reconstrução contínua. Esta eleição ainda não promoverá um movimento civilizatório.

A turbulenta próxima década da Internet é o título da pesquisa do PewInternet. E o universo pesquisado, os 2.500 cidadãos da nata da elite norte-americana, não é pessimista sobre o futuro. Têm consciência de que serão tempos difíceis, com “a Internet sendo ‘como a eletricidade’ — menos visível, mas mais profundamente inserida na vida das pessoas”, tanto em termos positivos como negativos. Um cenário que levará a melhorias na saúde, conveniência, produtividade, segurança e muito mais informações úteis ao mesmo tempo em que gerará mais ameaças à privacidade, expectativas irrealistas e alta complexidade tecnológica.

No trabalho da PewInternet são traçados horizontes pessimistas e otimistas sobre o nosso futuro. Vão do crescimento do abismo entre pobres e ricos à possibilidade de governos e corporações, pressionados pelas mudanças, tentarem reforçar seu poder, invocando segurança e normas culturais, no contexto pessimista, e, no otimista, passam por uma revolução na educação em função da rede criando mais oportunidades para todos, reforçando relacionamentos planetários e menos ignorância e vão à maior conscientização do nosso mundo e de nós mesmos gerando ações políticas pacíficas e o compartilhamento de informações integrado sem qualquer esforço à vida diária das pessoas.

Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões como cidadania e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

Parafraseando o historiador Fernand Braudel, “vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.”

É este o sentido civilizatório que nossas elites devem promover. A alternativa é o risco de caos, com momentos de anomia e conflito social.

Rodrigo Lara Mesquita é jornalista e diretor da NetNexus

@rmesquita

rmesquita@netnexus.com.br

Jornalismo: 19 anos depois, a mesma visão e a mesma certeza

Artigo publicado na edição deste mês na Revista de Jornalismo da ESPM, Edição Brasileira da Columbia Journalism Review

dois tempos de entendimento da rede

O ano era 94, o país o México, governado pelo corrupto Carlos Salinas, que tinha adotado uma política de ajuste do câmbio correlacionado às variáveis de inflação e juros, com uma desvalorização progressiva e controlada do peso atrelado ao dólar. Na campanha presidencial um dos candidatos é assassinado. Salinas passa o governo para Ernesto Zedillo, que em 20 de dezembro decide desvalorizar o peso para promover as exportações mexicanas. Todo o sistema desmorona fazendo o país entrar numa crise que durou anos e gerou o Efeito Tequila: uma crise de confiança do mercado financeiro internacional que afetou profundamente a economia brasileira e de toda a América Latina.

Foi neste contexto de crise que escrevi o artigo publicado em 26 de março de 95 no caderno de economia de O Estado de S Paulo sob o título nebuloso Tempo Real vai democratizar a informação e aqui republicado com o título finalmente revisado ytics . Desde 88, dirigia a Agência Estado, uma unidade operacional da empresa, com o os objetivos de transformá-la numa unidade de negócios e contribuir para que o Grupo Estado abraçasse o futuro do mundo da informação: o domínio das possibilidades do computador, dos softwares e das telecomunicações. Na AE, desde esta época, tínhamos consciência de que a emergência das TICs botaria o indivíduo no centro do processo. As empresas jornalísticas iriam perder o domínio do público.

Esta aventura fascinante, infelizmente abortada, tinha sido iniciada em 88 por um pequeno grupo de jornalistas que comungou minha visão de futuro desenvolvida em meados dos anos 80. No primeiro passo, reformulamos todos os processos informativos (prospecção, captação e distribuição) do Grupo Estado para que ele pudesse avançar no mercado como empresa de informação e não exclusivamente jornalística.

Além disso, fomos responsáveis pela especificação de um sistema eletrônico de recebimento e distribuição de informação desenvolvido in house. O Grupo Estado tinha iniciado seu processo de informatização, mas nas áreas editoriais só tinha contemplado das redações dos jornais para baixo. A entrada e saída da informação continuava dependendo de uma obsoleta e restritiva rede de telex. Ninguém na empresa tinha refletido e muito menos analisado este gargalo. Esta foi uma das vantagens competitivas da AE: nunca dependeu de sistemas centralizados com a inteligência fechada numa caixa preta.

Depois desta primeira arrancada para poder chegar ao mercado com eficácia, reorganizamos e desenvolvemos novos serviços para o mercado de jornais e revistas e lançamos serviços de informação empresariais e ambientais distribuídos por fax. Já éramos uma unidade de negócios. Uma receita marginal de 400 mil cruzados avançava para alguns milhões.

Em 92, depois de uma maratona atrás do que havia de mais avançado na indústria da informação, lançamos a Broadcast: o serviço de informações em tempo real do Grupo Estado para o mercado financeiro, que enfrentando Reuters, Bloomberg e a falecida Telerate da Dow Jones, então empresa proprietária do Wall Street Journal, já era líder de mercado em 94, posição que mantém até hoje. Os investimentos para a partida estavam pagos e a empresa faturava dezenas de milhões de reais, com uma margem muito maior do que a dos jornais porque fazer jornalismo no ambiente eletrônico tem um custo baixo graças à plataforma elwtrônica.

Desde o início, este grupo de profissionais que transformou a Agência Estado numa empresa referencial para o mercado tinha consciência que a Broadcast era uma plataforma de aprendizado e que no futuro próximo a base das receitas das tradicionais empresas jornalísticas, os classificados, seria roubada pelas telecomunicações (a internet que estava nas nossas portas), por ambientes criados por softwares e processados pela computação.

Tínhamos que começar em algum mercado e o único aparelhado e disposto a pagar por serviços nestes meios era o financeiro. Em 92, filiamo-nos ao então laboratório de mídia do MIT, o Media Lab. Foi lá, nos programas News in the Future, Information: Organized e Simplicity, que se consolidou a nossa visão de que daria certo neste novo mundo em constante beta e cada vez mais distribuído, descentralizado e descontínuo quem tivesse coragem de se perder na rede. Mais do que informar, o papel das empresas de informação foi e será sempre contribuir para os processos de articulação da sociedade. A notícia é um meio, não o fim. Elas não nos dizem o que fazer ou o que pensar, mas são um convite para a navegar, para a participação.

O processo de formação da opinião pública daqui para frente será cada vez mais fragmentado e autônomo, assim como a própria sociedade. A revolução tecnológica que estamos vivendo é muito mais profunda do que a do século 15, quando a reinvenção da prensa pelo mundo ocidental e outras inovações abriram o caminho para o processo que levou à revolução industrial. As tradicionais empresas jornalísticas, apesar de todos os problemas que enfrentam, continuam tendo todas as condições objetivas para gerarem novos caminhos e negócios. Falta conhecimento, visão e coragem.

RLM

A Tecnologia democratizará os processos de informação

olhando o futuro, 1995

É redundância dizer que estamos assistindo ao mais profundo, dramático e rápido processo de mudança que a humanidade já sofreu. Mas é necessário quando estamos falando de responsabilidade das empresas e profissionais empenhados em informar o mercado financeiro: o primeiro setor da nossa sociedade que se interligou em tempo real globalmente, subvertendo a ordem instituída e questionando a noção de soberania nacional.

Se isso já está claro há muito tempo para a pequena parcela da aldeia global que participa ativamente deste mercado, é uma grande novidade e fator de insegurança para os meros mortais que vêm de um dia para o outro a economia de um país – o México, e por consequência a de todo o nosso Continente – sofrer uma revolução em função da movimentação dos trilhões de dólares que alimentam o mercado financeiro internacional.

Até que ponto um fato como este é de responsabilidade dos protagonistas deste mercado, ou de políticas governamentais, ou de questões estruturais, como cultura protecionista e corrupção, não é objeto deste artigo. Nossa responsabilidade, empresas e profissionais dedicados a fornecer informações em tempo real para o mercado financeiro, é com a correção e acurácia da informação, com a certeza dos protagonistas do mercado de que não temos nenhum tipo de interesse ou posição no mercado. Mais do que isso, a certeza de que o grupo empresarial que hoje sustenta a operação não tem outro interesse econômico fora do setor de informação.

O nosso dia a dia é feito de sangue frio e responsabilidade. Sangue frio porque centenas de pessoas estão envolvidas num processo de captar, processar e enviar notícias, análises e dados para milhares de telas de computadores – em mesas de operação de bancos, corretoras, traders, scalpers, departamentos financeiros de empresas – e, por isso, a responsabilidade: são eles que movimentam os trilhões de dólares. Uma operação como essa envolve não só jornalistas. Envolve homens de tecnologia, de marketing, de relação comercial e de administração. É uma operação casada em tempo real, em que todos têm o mesmo nível de responsabilidade em relação à nossa missão: instrumentalizar os homens do mundo de negócios para tomar posições, graças a um trabalho jornalístico impecável.

Mas temos um paliativo: a certeza de que será este o processo da indústria da informação daqui para a frente. Houve um tempo em que o meio jornal tinha o monopólio da informação. Era o único canal entre a sociedade civil e o poder público. Representou, com o desenvolvimento da revolução industrial, a praça da cidade antiga: o ponto de encontro da coletividade. O lugar onde ela se encontrava para se informar, refletir e debater o seu próprio futuro. Depois, vieram o rádio e a televisão. Junto com eles, a massificação. A possibilidade de um grupo econômico interferir como nunca na evolução dos costumes e da cultura. Com o domínio da informática, que permite a um grande grupo tradicional de informação ter numa mesma base tudo o que captou por meios próprios ou de terceiros, e com o domínio da telecomunicação, que permite a este mesmo grupo fornecer a informação para os mais diversos públicos, pelos mais diversos meios, o jogo mudou.

A revolução da informação trouxe incerteza e insegurança. Trouxe a possibilidade de movimentos especulativos jamais sonhados. Mas trouxe também a possibilidade da democracia direta. Quanta tempo e a que custo chegaremos lá é outra questão. O fato é que a forma como hoje o mercado financeiro se informa, em tempo real globalmente, já é algo possível para os mortais comuns: a Internet e derivados representam a democratização da informação, que muito em breve transitará por ela em texto, imagem e som em tempo real. Agora, muito além do que entre todos os mercados, entre todas as pessoas, que estarão no centro do processo.

O desafio quese coloca para as empresas é perceber que todas as suas cartas estão nos recursos humanos: a tecnologia, o meio, será de todos com custos insignificantes. A futura (não tão futura assim) empresa de informação terá a possibilidade de oferecer ao público conhecimento agregado. Num processo que privilegia a horizontalização, o trabalho através de células comprometidas com o processo. Ao contrário do antigo processo industrial, que privilegiava estruturas piramidais e concentração de poder. O desafio dos profissionais da informação é manter o elo de confiança com o público em geral, conscientes de que no próximo milênio as grandes empresas de informação vão se atomizar em pequenas unidades. Estamos a um passo da aldeia global. O que estamos assistindo no mercado financeiro é só a ponta do iceberg. A democratização da produção e a disseminação da informação só se legitimarão na medida em que os agentes deste processo tenham consciência rigorosa da sua responsabilidade com o público.

Artigo publicado no O Estado de S Paulo em março de 1995, quando dirigia a Agência Estado. E republicado agora na Revista de Jornalismo da ESPM.  

A era das multiplataformas começará a se consolidar

olhando para o futuro, 2014

Considerando que nos próximos 10 anos a tecnologia estará integrada nos ambientes e em cada um de nós – não será mais algo que você liga e desliga – e que isso mudará totalmente a experiência humana de viver, vejo os avanços das multiplataformas (sistemas integrados em rede) de atuação na rede como a principal tendência em 2014.

Monitoramento, curadoria e agregação, articulação e governança são os processos provocados na sociedade pela linguagem, pela informação. E assumidos como técnica pelo jornalismo. Da linguagem oral à eletrônica, que promete, se não o retorno, a valorização da cultura oral. Mídias sociais como Twitter, google+, facebook, linkedin, pinterest, tumblr, youtube, paper.li, rebelmouse, instagram, scoop.it, flipboard, meddle etc são plataformas pontuais, ferramentas, mídias. É neste ecossistema que se pratica hoje o jornalismo.

Num mundo que a cada dia ganha maiores índices de complexidade e fragmentação atuar de forma isolada com uma ou outra destas mídias é inócuo. Indivíduos, profissionais e empresas que atuam com propriedade e objetividade no novo ecossistema da informação vêm avançando na construção de suas multiplataformas com o conjunto de ferramentas que lhes parecem mais apropriadas para seus objetivos.

Rede social existe desde a idade da pedra. É a base de relacionamento de indivíduos, de entidades, de empresas, de setores da economia, de partidos políticos, de sindicatos, de qualquer organização humana. No mundo digital, na economia social, esta base de relacionamento tem que estar organizada na rede para lhe dar mais organicidade e objetividade.

Consolida-se aí o conceito de multiplataforma (e viabilizam-se as redes sociais, as redes de interesse específico, as redes de nicho), que requer ainda processos de monitoramento (Big Data) e a inter-relação com landing pages apropriadas para fazer andar o processo de comunicação e articulação frente a um ou uma gama de objetivos. Além, é claro, da integração com as mídias tradicionais, os antigos ambientes do jornalismo. Há e haverá por um bom tempo uma forte interdependência entre os dois mundos, que são um só.

A tendência tecnológica é reforçada pela demanda da sociedade. A tecnologia, suas ferramentas e processos vão contribuir para dar vazão às necessidades de uma sociedade muito mais complexa e fragmentada da que foi regida pelas tecnologias da era industrial. Esta percepção já é latente na sociedade contemporânea atônita com o contexto e surpreendida pelos novos processos da informação, comunicação e articulação num mundo em profunda transformação. Neste cenário, o do avanço das multiplataformas de atuação, estão contidos também o cloud, a mobilidade e o analytics.

RLM

Na encruzilhada do futuro do presente

Durmo preocupado por imaginar que perdi algumas notícias e informações.

(post de 26 de outubro de 2012, às 15:19)

Todos nós vivemos com a sensação do Toninho, empresário  do setor de mídia e comunicação. Na bela definição de Alan Kay, tecnologia é algo que foi inventado depois que você nasceu. Por isso, nossa dificuldade de se relacionar com a internet, a rede, e seus predicados. Ela ainda não foi absorvida pelo nosso córtex, não pensamos com ela, não é uma extensão das nossas possibilidades. Mas não está longe o dia em que estar conectado –  viver no mundo envolvido (ou estendido) pela mais rica invenção do gênio humano, a internet, – será tão natural quanto respirar.

Na minha perspectiva, – a de um jornalista de 58 anos de idade que escrevia em máquinas de escrever, que chegou a transmitir matérias por telex e que reza pela cartilha de que os jornais foram (e deveriam trabalhar para ser no novo ambiente)  plataformas de articulação das comunidades em que estão inseridos, – a rede é o novo ecossistema da informação, da comunicação e dos processos de articulação da cidadania. E, é claro, a principal plataforma de publicação e de fonte de informações.

Foi esta perspectiva que me levou a pedir para o Toninho, estudantes, profissionais em início de carreira e outros com vasta quilometragem seus depoimentos sobre como se informam para ficarem ligados e não perecerem com a moribunda economia da era industrial. Abro cada um dos tópicos deste post com um extrato do depoimento deles, uma imagem com significados  e uma referência destes tempos confusos da mais profunda e dramática transição de uma época para outra que a humanidade enfrentou em toda a sua história. A rede é a infraestrutura do futuro, um novo ambiente, um novo ecossistema, que vai determinar a reformulação das instituições e de todo o jogo das práticas sociais, econômicas e políticas da nova sociedade que se está formando.

Lembro como se fosse ontem a primeira vez que acessei a rede, foi o exato momento em que a TV, o jornal e todas as minhas revistas se tornaram obsoletas.

Não sei se o Henrique concebe que vive num mundo onde a aquisição do conhecimento faz parte da navegação. Numa sociedade que se auto-organiza em sistemas que se parecem muito mais com a relação que encontramos na natureza do que com as formas rígidas e hierarquizadas da era industrial, na formulação genial e futurista de mais de 10 anos atrás do Nicholas Negroponte. Tenho a impressão que isso para ele é intuitivo e natural. Não é um corte como para  a geração dos que nasceram na época da educação enciclopédica e de modelos de negócios e ideologias estáveis.

Para o historiador Fernand Braudel, a História convive com o tempo passado, o tempo presente e o tempo futuro. Quando falo na moribunda era industrial, não significa que todo um conjunto de processos e arquiteturas de relações sociais, políticas e econômicas, que amadureceram e deram o tom ao século 20, acabou ou vai acabar de um dia para o outro. Como Avin Toffler aponta,  estamos vivendo a agonia do industrialismo e a sua substituição por uma ordem social e uma economia com base no conhecimento, radicalmente diferentes, com novos conceitos de sexo, raça e idade, novas estruturas familiares e novas formas organizacionais e culturais. Como diria McLuhan,  há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante.

E agora? Em primeiro lugar, há tanta coisa online que temos de esquecer tudo exceto aquilo que é realmente essencial. Tanto a sintaxe quanto a semântica do termo “essencial” (não apenas neste caso) ficam problemáticas.

Conheço  o Silvio Meira há pelo menos 20 anos. Faz muito tempo que ele se informa exclusivamente por meio da internet e propaga aos quatro ventos o fim dos tempos dos jornais. No seu recente texto sobre o processo de destruição criativa [ou criadora], que na visão de Schumpeter, é o processo pelo qual um conjunto de mecanismos [até então inexistentes] afeta equilíbrios até então existentes no mercado, causando um número de efeitos que eliminam, ao mesmo tempo, produtores [de alguma coisa], o que eles produziam [a coisa, em si] e práticas de consumo que, no mercado, geravam renda para os produtores…., ele (Silvio) argumenta mais uma vez nesta direção: os jornais estão mortos.

Numa super-simplificação (para ir um pouco  mais fundo, clique aqui) , para o economista (sociólogo e filósofo) Joseph Alois Shumpeter, o capitalismo se legitima porque, por meio da inovação e do empreendedorismo, promove  e fomenta  a geração de riqueza como nenhum outro  sistema, ao mesmo tempo em que dá à sociedade uma dinâmica na qual a sua arquitetura social está sempre em movimento,  elevando o nível de vida da base da pirâmide social.

Na época em que ele viveu, 1883 a 1950, este movimento se dava no tempo de vida de duas a três gerações (avô rico, filho nobre, neto pobre). Hoje, tempo da rede, o processo de destruição criativa é contínua. Quem para, morre. Isso é verdadeiro para todas as indústrias e todos os profissionais (será que também para as operadoras de telecomunicações, que detêm hoje mais poder do que a maioria dos Estados nacionais (esta é uma pergunta que gostaria que o silvio me respondesse. e a todos nós, é claro. é uma informação que o público precisa ter. e ninguém melhor do que o silvio para dá-la consubstanciadamente).

Mas, muitas vezes, recebo excelentes dicas de ouvintes e telespectadores da Band, entre tantos que me procuram (e que atendo sempre que posso).

Um dos motivos (não o único) que me levaram a trabalhar em torno de tecnologias de informação e novas possibilidades de interação do e com o público, desde 1988, foi a minha solidariedade com os jornalistas, especialmente os do Jornal da Tarde de meados da década de 70 até 88. Era uma redação brilhante, inovadora e corajosa. Tenho muitas saudades desta época, a mais divertida e muito rica em termos de aprendizado da minha vida profissional. Aprendi com eles, a geração do JT, que chegou à direção do jornal em meados da década de 70, o que é a profissão voltada para o jornalismo.

A empresa da minha família vivia em crises recorrentes. A única estratégia era cortar custos – suspender a circulação dos cadernos de classificados na edição nacional, depois na edição estadual , depois a estrutura de cooptação de informação nacional e assim por diante. Resolvi abandonar o meu sonho de vir a ser o repórter dos confins para empreender. Não me dei mal na Agência Estado, que foi uma referência para o jornalismo brasileiro na década de 90. Mas não me deram tempo para ir até o fim do projeto: da informação setorizada para a gestão de processos de relacionamento de setores da economia nacional por meio de redes sociais de nicho.

Fui foca do Mitre. Ele me ensinou que a função receptora (ouvir) é mais importante do que a emuladora (falar) na arte do diálogo para os jornalistas e para qualquer mortal. Tenho, como confesso acima, enorme respeito por todos os jornalistas que passaram pelo Jornal da Tarde, que está vivo nas milhares de histórias que nos contou (e contava história como ninguém).O Mitre foi o melhor de todos eles, o mais competente, o mais talentoso. Quando assumiu a função de editor chefe, representava a geração que tinha entrado no jornal com 17/18 anos. Os meninos que ajudaram a fundar o JT, em 66, tinham amadurecido, enriquecido seu conhecimento e assumiam o poder. A fase mais brilhante do JT foi durante a gestão desta geração sob a hábil condução do Mitre, que meu avô morreu pensando ser parente do Bartolomé Mitre Martinez, jornalista que foi presidente da Argentina entre 1862 e 1868.

 

Para me informar, costumo ler as chamadas de capa dos dois jornais que assino (Estadão e Folha) de manhã antes de ir para a faculdade de Relações Internacionais. Eles ficam sobre a mesa onde o café da manhã é servido. Sim, ainda sou adepta aos jornais impressos.

Compromisso com a verdade; servir o interesse público em primeiro lugar; monitorar os poderosos e oferecer voz aos sem voz; fornecer um fórum para comentário, crítica e compromisso; empregar um método ético de verificação; manter independência de facções; fazer notícias engajadoras e relevantes; manter as notícias abrangentes e proporcionais.

 Estes são os princípios fundamentais do jornalismo (versão da Nieman Journalism Foundation), dos jornalistas e dos empreendimentos ligados a esta atividade. Ontem, hoje e amanhã e que podem justificar a opção da Catrina , que é fruto de uma família  de jornalistas e com certeza uma exceção na sua geração. Mas num mundo em que os governos começam a olhar para plataforma abertas de aprendizado, em que Harvard, a Universidade mais antiga dos Estados Unidos, abre seus cursos para a rede e em duas semanas tem mais de 100 mil alunos inscritos, em que um grupo de investidores cria uma plataforma como a Coursera, na qual mais de um milhão de alunos de cerca de 30 países estão matriculados em cursos de dezenas de universidades norte-americanas, terá sentido o jornal como historicamente fomos aculturados? E a revolução no setor de educação está só começando. Esta indústria de trilhões de dólares também vai sofrer profundas mudanças, nos próximos anos, acelerando ainda mais a rzevoluçaõ  que estamos sofrendo.

 

Gostaria de melhor representar a sociedade moderna, mas não é o caso.  Obtenho minha dose de informações diárias consultando um jornal impresso e suas ramificações online: o New York Times.    

Corajoso é o homem que questiona se há futuro para dirigentes de empresas de mídia, quando está à mesa com três dos maiores líderes deste setor. Com esta afirmação, a ZDNet UK abria uma entrevista com o Andrew Lippman, pesquisador MIT – Media Lab , em 2006, sobre mídia aberta, software livre e direitos autorais. Lippman tinha participado uma semana antes de uma mesa redonda com os principais executivos da MTV NetworksSaatchi and Saatchi e Magna Global Worldwide. Nesta entrevista, argumentou que em breve os próprios consumidores poderiam criar e publicar seu conteúdo, com a mesma facilidade das grandes distribuidoras de mídia; em tais circunstâncias, qual seria a necessidade de um grande executivo de uma empresa de mídia, ou mesmo de empresas de mídia em si?

Lippman liderava os programas Viral Communications e Organic Networks, no MIT – Media Lab, no início deste século. Na justificativa do Viral Communications ele argumentava: As comunicações estão prestes a se tornar características pessoais e embutidas no mundo que nos cerca. As novas tecnologias nos permitem construir dispositivos com e sem fio, que são cada vez mais instalados e presentes, praticamente sem limites. Não precisam de um backbone ou infraestrutura para funcionar. Ao invés disso, utilizam vizinhos para improvisar tanto a distribuição de bits como a geo-localização. Isto redistribui o domínio das comunicações, de um provedor integrado verticalmente, para o usuário final ou dispositivo final, segregando a distribuição de bits e os serviços.  As comunicações podem ser tornar algo que você faz, ao invés de algo que você compra (e aí Silvio Meira? você ajuda a gente a entender porque o Andrew Lippman parou de bater nesta tecla tão cara às operadoras de telecomunicações?).

 

Recebo também vários informativos por email, principalmente de centros de estudos internacionais, como Stratfor e Ifes, que além de análises incluem também notícias do dia.  Nos fins de semana, leio o Estado nas Digital Pages ou compro na banca e ouço bastante rádio, quando estou dirigindo. 

Três de anos atrás, nem 50% das 500 maiores empresas listadas pela revista Forbes usavam alguma ferramenta de mídia social para atuar na rede. Hoje, a proporção é a apontada no gráfico acima. 94% usa alguma ferramenta e mais de 58% percebe a utilidade. Isso não quer dizer que elas estejam estruturando suas redes sociais por meio destas ferramentas. São poucas as que fazem isso, apesar de que  as que estão estejam tendo resultados fantásticos. É o natural conservadorismo das estruturas de poder da velha economia.

Fazendo contraste com este comportamento das empresas, Lourival Sant Anna sem dúvida um dos melhores repórteres do mercado, tem corrido o mundo para trazer para as páginas de O Estado de S Paulo as questões mais diversas dos  mais diferentes pontos do globo. Ele sozinho  tem o peso informativo de uma rede social. Usa a internet também (como vocês verão no seu depoimento de como se informa no seu dia a dia), mas com a propriedade dos jornalistas veteranos que não pararam no tempo. Vai direto aos pontos em que tem interesse e que precisa acompanhar continuamente para fazer o seu trabalho, que é nos informar com começo, meio e fim, dando o contexto e apresentando alguma perspectiva.

Mesmo tendo o café e o jornal à mão, começo a minha rotina passando os olhos pelos meus emails – na maioria das vezes, algum amigo enviou um link para alguma matéria recomendada. 

 Walter Bender dirigia, em 92 no  MIT – Media Lab, o programa News in the Future, que no decorrer dos anos se transformou no Information: Organized e depois no Simplicity. Ele era um entusiasta das oportunidades que os jornais viriam a ter com a emergência das TICs. Não podia imaginar que o conservadorismo destas empresas e uma certa arrogância, que as faz se imaginarem (junto com seus profissionais) intelectualmente superiores aos meros mortais, iria  impedi-las de mergulharem nas peculiaridades da rede, a principal delas o agoritmo que permite que se criem comunidades sobre comunidades a partir do nada. Também por isso, estas empresas, estão ameaçadas de perder o bonde da história.

Bender foi adiante, está conectado com a História. Em 2004, fundou com Nicholas Negroponte e Seymour Papert a OLPC. Entidade sem fins lucrativos com a missão de  projetar, fabricar e distribuir laptops que sejam suficientemente baratos para proporcionar a cada criança do mundo acesso ao conhecimento e modernas formas de educação. Projeto, que entre outros resultados, inverteu o drive de investimentos das empresas de hardware que até então só pensavam em máquinas cada vez mais caras. Hoje, é diretor do Sugar Labs que desenvolve o sistema operacional do  XO, o laptop da plataforma de educação da OLPC. E, apesar  da arrogância dos jornais, continua tendo eles como sua primeira leitura. 

Não costumo ler jornais impressos com frequência, nem assistir aos telejornais da televisão, acredito que a Internet supre todas as necessidades de ler jornais ou assisti-los, pela quantidade de informações que são disponibilizadas.

Victor Barros é um garoto que estuda no Colégio Graham Bell, dirigido pela educadora Denise Villardo, que desde o início deste século se deixou fascinar pelos processos de redes sociais. Muito antes, portanto, de o público atuar na miríade de ferramentas/mídias que temos hoje a disposição para estruturar nossas redes sociais na internet e também antes de a mídia tradicional tachar ferramentas como o Facebook, uma ferramenta, como a maior rede social. Victor não quer conversa. Ele se informa na rede e ponto. Além de tudo, diz ele, na rede tem acesso a mais opiniões, não fica na mão de ninguém (cá comigo tenho minhas dúvidas se esta manipulação não é mais variada e sofisticada na rede, onde todo mundo é consultor, especialista em auto-ajuda, jornalista cidadão e outros bichos. É claro que há profissionais e cidadãos sérios (e não são poucos) na rede atuando com propriedade, mas qualquer ambiente de informação está aberto à manipulação).

Foi só parar para pensar na sua pergunta – sobre como me informo – que, descobri, ela é muito mais complexa de responder do que achei no primeiro momento. Por isso mesmo, é uma pergunta instigante.

Quem fala sobre a complexidade da pergunta (como se informa para ficar ligado no seu dia a dia para não perder o bonde), neste mundo onde tudo é social, é o Pedro Doria. Como eu e diversos outros deste post, que por vício da minha origem tem mais jornalistas do que deveria ter, ele vive mergulhado, entupido de informação desde o tempo do NO, que ele editava para uma série de figurões que escreviam para este site de relevância no início da internet no Brasil. Hoje, é editor executivo e colunista de tecnologia do jornal O Globo, além de colunista do Jornal das Dez, da GloboNews. Como ele diz, pertencer a este nosso tempo é parte do trabalho.

Uso uma combinação de Flipboard e Twitter para me atualizar nas tendências, além do Google Alerts para reunir informações que possa estar monitorando. Sempre que surge um novo sistema – seja Currents ou Zite – eu o testo, que é mais uma maneira de me manter atualizado sobre como devemos desenvolver novos sistemas para ficar à frente das coisas. 

John Maeda é design gráfico e um monte de outras coisas, além de genial e cativante numa conversa pessoal ou numa apresentação (How art, technology and design inform creative leaders). Apesar de todo o seu trabalho estar relacionado com o processo de enredamento da sociedade que estamos vivendo, ele sempre lembra – como todos nós sabemos – que nada substitui o contato pessoal, olho no olho, pé de ouvido.

Prefiro o básico, quando o assunto é obter informações pela internet. Mais do que nunca, sinto que meu tempo é precioso, e não quero perder tempo procurando novas coisas.  

Se a educação é essencial, os sistemas educacionais estão em xeque, argumentava David Cavallo nos seminários que serviram para preparar a vinda do Nicholas Negroponte ao Brasil, em julho de 2005, para propor um projeto para revolucionar nossa educação (e a do mundo).  É crucial promover a criatividade e a invenção na sala de aula. O ambiente criativo torna as crianças mais interessadas. Deve-se abandonar posturas tradicionais no modo de ensinar (separar as crianças por faixa etária, por exemplo, ou desconstruir e fragmentar os conteúdos).

David Cavallo, pupilo de Seymour Pappert , que na década de 60 já desenvolvia projetos com tecnologia e educação na África, elegeu o  Brasil como seu segundo lar. Foi ele, o grande articulador do projeto de educação da OLPC por aqui. Em junho de 2005, Walter Bender e David promoveram dois seminários para apresentar o projeto para o PSDB, no iFHC, e para o governo do Lula, no NAE. A relação com o PSDB não evoluiu. Lula recebeu Nicholas Negroponte e Seymour Pappert  no mês de julho. Criou um grupo de trabalho, liderado por Cezar Alvarez, para consubstanciar e validar o projeto. Deste processo nasceu o programa Um Computador para Todos e o UCA, Um Computador por Aluno.

Precisamos, assim, assumir o papel de um Noé do novo século, selecionando espécies significativas de informação, colocando-as na nossa arca e com isso sobreviver no mundo do entendimento, da interpretação, da reflexão, o que é essencial para os nossos estudos e até negócios.

Se não inovarmos, não conseguiremos sobreviver, não aproveitaremos as oportunidades que aparecerem, seremos ultrapassados pelos concorrentes. Para assumirmos o papel de um agente de inovação em rede, entre outros fatores necessitamos de informação de qualidade, no momento exato. Um dos fatores que nos impede que nos apropriemos da informação, é a sua própria abundância. Richard Wurman autor americano, mesmo antes da internet estourar, já prévia a síndrome dos nossos tempos, a Ansiedade de Informação, um componente do stress do dia a dia das pessoas, o buraco negro entre os dados disponibilizados e o conhecimento.

 Antônio Mendes Ribeiro, responsável pela afirmação acima, é professor do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e o internauta com mais didática para ensinar aos inciantes os meandros e sutilezas da rede. Ele contribuiu para a estruturação do projeto TEIAmg – Tecnologia Empreendedorismo e Inovação Aplicadas -, que realizamos em Minas Gerais, sob a liderança do então secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Alberto Portugal. O TEIA é até hoje o maior projeto de crowdsourcing do Brasil, fomentou inovação em mais de 600 municípios mineiros e criou cultura de rede em diversas instâncias do governo mineiro.

Leio mais livros impressos do que nunca …. poque tenho pouco tempo. E durmo com o iPhone na mesinha de cabeceira, meu despertador e minha nova caixa de pandora informativa.

La transición digital de los medios impresos no es fácil pero tampoco imposible. Si se ponen los medios. La gente. Y los recursos. Por ejemplo, los desarrolladores. Profesionales que hasta ahora trabajaron confinados en los departamentos de IT. Aislados de las redacciones. Como si fueran unos apestados. Cuando en realidad son unos virtuosos de los lenguajes multimedia imprescindibles. Pongámoslos a trabajar codo con codo con el resto de periodistas. Porque no trabajan “para” nosotros sino que son “como” nosotros. Hacen periodismo por otros medios. Como los diseñadores. Los fotógrafos. Los infografistas. O los ilustradores. Que también son periodistas. Y no esclavos de los plumillas. 

Juan Antonio Giner, autor da confissão de escravidão ao iPhone e do texto acima, é um apaixonado pelo meio jornal. Não interessa em que mídia. Analógica ou digital. Dá o devido valor ao papel institucional do jornal como plataforma de articulação da comunidade em que está inserido, sem menosprezar a obrigação das empresas que os abrigam em se abrirem a todas plataformas que as tecnologias digitais proporcionam para diversificar seus serviços e relacionamento com a sociedade. Desde o final da década de 80, por meio do que é hoje a Innovation in Newspapers, desenvolve este trabalho evangelizador juntos às centenas de tradicionais empresas jornalísticas que contrataram  os serviços desta consultoria apontada pelo Financial Times como a McKinsey da indústria da informação, anos atrás.

No cotidiano, do começo ao fim do dia, as informações mais relevantes eu conto que as pessoas de convívio me tragam, via email ou presencialmente.

Já que me inflamei tão solenemente com o papo, vou encerrar com uma homenagem ao inventor da WWW, Tim Berners-Lee, citando a frase com que ele termina seu livro, Weaving the Web, editado pela HarperSanFrancisco no fim do ano passado: “A experiência de ver a Web decolar através do esforço de milhares de pessoas comuns me dá a esperança de que se tivermos a vontade individual, nós podemos fazer deste mundo, o que quisermos. Tesão, né ? Vamos nessa, amigo. É bom estar com você nessa parada.

 Ricardo Guimarães  inventou o branding no Brasil. Era um homem de rede muito antes da rede.

Ao longo do dia, basta o Twitter para me deixar absolutamente atualizada. 

A grande questão que se coloca é saber se é possível uma empresa de comunicação ter um modelo de negócio baseado em redes sociais, em agenciamentos. Hoje, os jornais simulam o crowdsourcing. Não fazem parte dele. Como seria sua interface, uma vez descoberto esse modelo? Manteria a tradição ou romperia como fez corajosamente Bill Paley ao assumir a CBS ?  Até agora, a história mostra que na Web as reformas se alternam entre colocar e tirar fios (ó você aí, Leão Serva).  Mesmo aqueles que ganham dinheiro com o protocolo de Berners-Lee ou com aplicativos. (Lucina Moherdaui)

Quem, o quê, quando e onde é uma commodity hoje no jornalismo, graças à riqueza das informações que encontramos na rede a qualquer momento. Não tem mais valor como mantra para o repórter. Luciana Moherdaui sabe disso e está muito adiante na procura cotidiana  de contexto e perspectiva, na tentativa de relatar como, por que e o que significa, que deveria ser a nova missão dos jornalistas e das empresas jornalísticas na sua relação cotidiana com o público, com o objetivo também de fomentar a criação de comunidades ao redor das notícias e informações. Sua tese de doutorado em comunicação é uma referência para quem não quer se afogar na rede .

 

No mais, entendo que a informação está em toda parte, o tempo todo, e não reconheço mais nenhum meio ou veículo específico como A minha fonte. Funciono hoje como um radar e, mais importante, validando tudo o tempo todo.

Bob Wollheim, CEO da Appies.com e Sixpix, está na lista dos 50 profissionais mais inovadores do mercado digital brasileiro.

 

O fato de escrever o tempo todo me mantém ligada a tudo o que é online, mas ainda não consegui aderir ao Twitter. Sou “analfabeta” em Cultura, mas simplesmente adoro o tabloide EU & FIM DE SEMANA do Valor. Ainda uso o velho e bom PC, iPad e Blackberry.

Várias forças globais alteraram aos poucos, às vezes de maneira quase sub-reptícia, o mundo conhecido. A mais visível para quase todos nós, de maneira quase diária, tem sido a adoção cada vez mais intensa de novas tecnologias….Estas novas tecnologias não só descortinaram novos horizontes para as telecomunicações de baixo custo, mas também facilitaram avanços em finanças, que ampliaram em muito nossa capacidade de direcionar poupanças escassas para investimentos de capital produtivos, fator crítico para a rápida expansão da globalização e da prosperidade (gostaria de ler uma análise do Alan Greenspan sobre operações com derivativos e hedges e não uma reflexão no rastro da exuberância irracional como este extrato da introdução do seu livro Na Era da Turbulência, que não dou o link porque não merece).

A primeira mercadoria a se globalizar totalmente foi o capital, em função do contínuo desenvolvimento do comércio e como consequência da exponenciação dos processos de interação social que a rede permite e fomenta. Nunca tive a oportunidade de conversar com a jornalista Angela Bittencourt sobre este processo, apesar de ter trabalhado com ela durante muitos anos. Gostaria de conhecer a opinião dela sobre a visão do Greenspan, antes da crise de 2008: nas últimas décadas, a economia americana se tornou mais resiliente a choques. A desregulamentação dos mercados financeiros, a maior flexibilidade dos mercados de trabalho e, mais recentemente, os grandes avanços das tecnologias de informação aumentaram a nossa capacidade de absorver rupturas e de nos recuperarmos do choque. É isso ou o problema é a incapacidade das autoridades monetárias em todo o mundo regulamentarem um mercado conectado em tempo real, Angela?

você sabe, a pressão por informação começa cedo para mim. Faço o “Começando o Dia” na CulturaFM  a partir das 8 hs. da manhã de 2ª a 6ª . Às 6 hs. estou na rádio e tenho uma hora e meia para escrever o programa.

Organizações jornalísticas devem continuar a fornecer notícias para indivíduos e conhecimento enciclopédico sobre suas comunidades. Mas também devem reconhecer o papel dos consumidores como produtores. O futuro do setor é tanto de construção quanto de consumo. O impacto de “ser digital” é a emergência de uma nova relação entre editores e seu público: tornar as notícias mais relevantes ao construir conexões entre fornecedores de notícias e consumidores…. Notícias não mudam o mundo, mas nos dão uma nova inteligência e as ferramentas com as quais explorá-la – uma fonte de modelos compartilhados a respeito do mundo. Notícias não nos dizem o que pensar ou para onde ir, mas nos ajudam a navegar. Notícias abrem a porta para participação. (Walter Bender, num texto para a ANJ, Associação de Jornais do Brasil, em 1999)

O jornalista Alexandre Machado  é mais um escravo da informação. Madruga todos os dias para entrar no ar no seu Começando o Dia, na CulturaFM, com notícias frescas. Tem consciência de que a notícia não acaba quando é difundida. O verdadeiro ciclo da história começa aí, quando o público levanta questões, acrescenta fatos e corrige erros, levando a uma nova perspectiva mais próxima da verdade. Como todo bom jornalista (aqueles que não são caga regras, metidos a autoridade, guardinhas de trânsito), é um missionário desta verdade absoluta.

Mas também gosto de ler jornal impresso, ver os telejornais, pois sempre, em cada um, percebemos um ponto de vista diferente dos demais.

Nosso Colégio tem como foco principal o Ensino Técnico, nos níveis Médio e pós-Médio, nas áreas de Informática, Telecomunicações e Eletrônica. Participamos de Projetos em parceria com outras Instituições – públicas e privadas – das Áreas já mencionadas, com elaboração de materiais pedagógicos específicos; atendimento a demandas das empresas, (re)qualificando profissionais – e atuação docente. Nossa organização se dá através de uma Cooperativa de Profissionais de Ensino, criada em março/2004, para administrar o Colégio Graham Bell. Contamos, atualmente, com cerca de 40 profissionais cooperados. Esses profissionais organizam-se por meio das Coordenações Pedagógica; Administrativa e Projetos e Parcerias estratégicas. É nosso interesse, também, fomentar continuamente discussões na Área da Educação. Nesse momento, o Peabirus para nós é mais do que uma Rede de Relacionamentos, ele passa a fazer parte do desenvolvimento pedagógico/curricular de nossos alunos. 

Clarissa é mais uma estudante adolescente que teve a sorte de encontrar a Denise Villardo no colégio Grahm Bell, no Rio de Janeiro. Denise também vê a rede como a nova plataforma de articulação da sociedade. E trabalha isso na escola: Nossa primeira proposta de atividade é que vocês se apresentem utilizando a web, ou seja, quero conhecê-los mais profundamente através dos links dos sites que vocês gostam de utilizar, ou que são referência para vocês. Podem postar também vídeos, fotos ou outras apresentações que queiram fazer. (Dêem uma olhadinha nos links que eu já coloquei, para também me conhecerem melhor).

Minha “receita de informação” tem a maior cara de  cross media, ou de convergência, ou similares…

Mais que isso. Algumas coisas vão acontecer no ciberespaço, mas várias outras coisas estarão digitalizadas e vão envolver a lógica digital, de trocas, de bits. Um jornal impresso, hoje, se faz com meios digitais. A lógica digital é o grande chapéu do processo de comunicação. Uma parte do processo é o meio digital puro. Relacionamento com o público: o que vai fazer a diferença é se a relação é unilateral, bilateral, multilateral. O que vejo hoje é que se delimita o relacionamento no mundo virtual como se ele não se misturasse com os demais. Não acredito nisso. Tem que se misturar. Se você se propõe a entrar nas redes sociais, e abrir conta no twitter, no facebook, esse processo vai desembocar em outros processos não são tão virtuais assim. Existe toda uma integração que ainda não está clara. As pessoas acham que o que está no virtual ficará no virtual. Mas não é assim (ver mais aqui).

Conheci a Beth Saad quando armava a aventura abortada da Agência Estado. Na época, ela ainda não era Diretora de estratégias digitais da Digital Happenings, e professora titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. Se não estou enganado, estava se preparando para seu doutorado. Como tantos outros ficou fascinada com projeto AE, que a partir de uma plataforma, a Broadcast, lançada em 92, para levar informação em tempo real para o mercado financeiro,  tinha como objetivo chegar a um modelo de negócios baseado em gestão de relacionamento e não em distribuição de informação. Ela nos acompanhou muitos anos em diversas viagens de prospecção (na verdade, sempre como coparticipante do projeto), que sempre passavam pelo MIT – Media Lab, pelo mercado norte-americano. Hoje, na academia, é uma personagem referencial do mundo digital, uma extensão natural do analógico.

O Grande problema hoje é a questão “Urgente x Importante”. A internet aumentou a rapidez de transmissão das notícias supostamente Urgentes, que eu preciso saber.

As sociedades sempre foram mais moldadas pela natureza dos meios usados pelas pessoas para se comunicarem do que pelo conteúdo dessa comunicação. Todas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele. Circuitos elétricos são uma extensão do sistema nervoso central. (McLuhan) O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação?

A pergunta não é  para você, Stephen Kanitz. É uma provocação para uma reflexão sua e de todos nós. O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação (aqui, este texto na íntegra).

Vigio, ainda, a guerra dos blogs. Os chamados progressistas e os de direita. A maioria não me agrada. 

Uma nova economia surgiu em escala global nas duas últimas décadas. Chamo-a de informacional e global para identificar suas características fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidade ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos.

O texto, Marcia, é do Manuel Castells. O extrato está na pág 87 da edição da Paz e Terra do A Sociedade em Rede e me faz pensar no se faz sentido neste novo mundo que está emergindo esta classificação, direita e esquerda, do século passado: É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. É informacional e global porque, sob novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação. E ela surgiu no último quartel do século XX, porque a Revolução da Tecnologia da Informação fornece a base material indispensável para essa nova economia. É a conexão histórica entre a base de informação/conhecimento da economia, seu alcance global e a Revolução da Tecnologia da Informação que cria um novo sistema econômico distinto…

A Wired é uma das poucas revistas que ainda leio regularmente no papel. Assino a Technology Review e o New York Review of Books no Kindle.

Enquanto a linha de montagem do processo industrial acelerou o processo de produção, ela também embutiu os trabalhadores mais profundamente dentro da máquina de manufatura corporativa. De fato, essa foi a grande inovação da fábrica do século XX: as máquinas, ao invés dos trabalhadores, impulsionavam a produção. Com o código aberto, as pessoas estão de volta ao poder. Através da colaboração distribuída, uma legião de trabalhadores pode atacar um problema, todos de uma vez. A velocidade é ainda maior – mas a liberdade também. É uma indústria de vilarejo em ritmo de Internet. É um trecho do artigo Código Aberto em Toda Parte, do Thomaz Goetz, publicado na Wired em novembro de 2003, Renato (o texto, meu caro, que também me fez leitor desta revista. estamos longe do sonho, mas estamos  navegando. a íntegra está neste link).

Na verdade considero o jornal o veículo mais abrangente e mais agradável de se manusear

Jamais  ousei imaginar que tinha o direito ou o dever de formar a opinião pública do meu Estado. Tudo o que fiz na minha vida foi procurar sondar  a opinião pública e me deixar levar tranquilo e  sossegado pela corrente que me parecia mais acertada. (Júlio Mesquita 1862-1927, na foto na redação de O Estado o 1º a esquerda)

Um presente para você, Renné. Um pouco da história do pai do jornalismo do século 20 no Brasil, que como você pode ver acima, tinha uma cabeça de rede no século 19. Se ele tivesse nascido na nossa geração, estaria atuando no jornal de papel e na rede com a mesma intensidade. O texto que se segue é do historiador Jorge Caldeira (aqui, a íntegra). O exercício desta combinação entre isenção e engajamento, no entanto, se baseia numa arte de equilíbrio: supõe tolerância e capacidade de distinguir a todo momento entre o desejo, sempre grande, e sua possibilidade de realização, sempre limitada. Exige também uma modéstia básica: jamais se pode acreditar que os princípios se realizarão plenamente, e eles devem ser sempre submetidos à realidade dos fatos (tenho ele, meu bisavô, como referência de jornalismo/rede – possibilidades de interação do e com o público – desde sempre)

recentemente tenho adotado resumos diários do conteúdo mais trocado/repassado pelas pessoas que eu escolhi seguir no twitter. isso me faz sentir menos por fora daquilo que supostamente é importante neste que é o meu principal campo de atuação. 

O profissional se torna o veículo – jornalistas já estão usando a plataforma de diversas formas: para divulgar notícias em primeira mão, para encontrar fontes de informação e para monitorar a repercussão e os desdobramentos de suas matérias e de veículos concorrentes. É uma ferramenta que em pouco tempo se tornou vital para a realização de reportagens e ainda – muito especialmente – para promover a aproximação entre leitores e veículos, mas essa novidade também está provocando tensão nas redações. O texto é do Juliano Spyer, que está mergulhado em antropologia digital para nos ajudar a perder o medo do abismo no fim dos mares: Há anos empresas são pressionadas a participar da “revolução digital.Elas investem em ambientes sociais pela promessa de usufruir da “colaboração nas redes”. Não refletem sobre a pertinência do projeto para seu público e, quando a iniciativa naufraga, escondem o resultado e tentam de novo. Veja mais aqui.

Last but not least, pessoas são sempre uma fonte inesgotável de informação. Então conhecer e conviver com muitas pessoas é muito bom para ficar informado, além de ser divertido. 

Marion Strecker não cita Humberto Eco no seu depoimento, mas suas reflexões sobre o excesso de informação numa entrevista à revista Época completam muito bem as ilações dela: A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais.

O que parece é que depois que montar esse “aparato na nuvem” eu não procuro informações e notícias, mas sim elas vêm até mim. 

Sergio Parreiras Pereira, Engenheiro Agrônomo, Mestre em Fitotecnia e Pesquisador Cientifico do Instituto Agronômico – IAC, Coordenador do Núcleo de Manejo da Lavoura Cafeeira do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café é o mediador da Comunidade Manejo da Lavoura Cafeeira, na plataforma Peabirus, que na prática é a base da Rede Social do Café. A rede congrega o sistema agroindustrial do Café.

O Sergio poderia dar aula para muitos jornalistas sobre como montar um “aparato na nuvem” para fazer as informações e notícias chegarem até eles afim de que as processassem e as levassem ao público. É o que ele faz com maestria, modéstia e humildade na sua comunidade do Peabirus, que na prática se transformou na principal landing page desta fundamental rede de informações para o setor.

Desde que me mudei para Santos, assino A Tribuna, para acessar informações locais e leio outros jornais distribuídos nas ruas com notícias da cidade.

Supõe que sou (Rodrigo Svazoni) um tipo encantado com o papel do artista engajado, como Gil, Chico e Caetano, que não se recusavam a subir gratuitamente num palco para manifestar suas posições em relação ao mundo…

Supõe que estamos em 2012, já na segunda década do século 21, que as pessoas estão conectadas por redes e dispositivos digitais e que essas tecnologias fortalecem a possibilidade de acelerar as relações e os processos políticos;

Supõe. Apenas supõe.

O The Guardian é uma fonte constante de informação, já que, acredito, eles têm um trabalho excelente na internet. Realmente, estão pensando em novas formas de se fazer jornalismo, ao contrário do que vem sendo feito no Brasil.

André Oliveira, jovem jornalista, tem razão: o The Guardian, jornal inglês fundado por John Edward Taylor, é um dos jornais mais audazes na rede. Envolve seu público na elaboração  de matérias, cria espaço de interação, analisa a crise dos meios impressos som seriedade,  é uma referência. Hoje, o jornal é propriedade do Scott Trust Limited, que foi criado para manter sua independência e sua linha liberal. Vem operando no vermelho há alguns anos.

Tentar compreender a repercussão da notícia em universos sem jornalistas e  políticos é tão importante quanto buscar informação. É uma receita que uso para não perder o sentido do meu trabalho. 

Hoje o conhecimento não está mais concentrado em certos locais como antigamente ( bibliotecas, enciclopédias ). Ele está fragmentado por todo lado ( nas redes ). Para conhecer necessitamos da habilidade de conectar, recombinar e recriar. Podemos fazer isso em várias mídias (escrita, áudio, vídeo ) e vários contextos ( blogs, redes sociais ). As pequenas peças do conhecimento, espalhadas pela rede, podem ser recriadas de forma personalizada, de forma a darmos significado próprio às mesmas.. Na medida que estamos debatendo, colocando nossas idéias, podemos combinar e recriar o conhecimento de várias maneiras, da forma que desejarmos, sem ficarmos restritos ao nosso campo de atuação. Qualquer peça do conhecimento que adquiramos tem valor no momento dessa aquisição, em função da nossa habilidade de trabalhar com a mesma: reconhecer o seu valor, refazê-la, combiná-la, estendê-la (do professor Antonio Mendes Ribeiro).

Leonencio NossaAli morava a matriarca da família, uma senhora de 93 anos. “É uma pena. Se você tivesse chegado cinco meses antes, falaria com mamãe. Ela não conversa mais”, disse Oneide, filha dela. Tatá, a matriarca, sofrera um derrame. Era a pessoa que eu buscava para conhecer a história da espada que fascinava gerações de ribeirinhos. Ao longo de dez anos de pesquisas sobre a Guerrilha do Araguaia passei a enxergar na arma um possível elo do conflito que envolveu o Exército e os militantes do PCdoB, nos anos 1970, com outras disputas na região.  

Prefiro plataformas hierarquizadas e “curadas” à agregadores.

Não sei se o José Papa Neto gosta e conhece das diversas ferramentas de curadoria (gosto muito do Scoop.it) que estão surgindo em torno da rede. Estas ferramentas junto com as de monitoramento das mídias sociais vão com certeza levar o entendimento da Web a um outro patamar por boa parte das pessoas que consideram a conversação global uma balbúrdia. O problema, ainda mal percebido e mal explicado pelo e para o público, é que, além de transformar cada um de nós em publishers, a rede exige que sejamos os editores das nossas receitas informativas no dia a dia, não se deixar levar pela confusão, saber escolher os caminhos. É um dos papéis que cabe aos jornalistas, organizar o caos para seus leitores. Mas mesmo nesta categoria de profissionais são poucos os que acharam o caminho.

Em pouco tempo todos os meus amigos, parentes, colegas de trabalho, autores dos meus blogs favoritos, instituições, o governo, governantes e candidatos, e até pessoas públicas que admiro, todas elas, passariam a compor um grande filtro de relevância para mim! Viraram meus editores chefes! Todos, o tempo todo, trabalham na minha redação!

Se eles nasceram em 85, em 95 estavam jogando na lan house. Então os professores novos que estão entrando agora, eles são games, eles nasceram na era da internet. Nós durante algum tempo vamos ver saindo da escola por aposentadoria, por migração, porque vão passar para administração simplesmente, a geração não games, a geração de não web, a geração excluída digitalmente… Para mim isso vai revolucionar a escola ao seguinte ponto, assumindo a mesma de 1985, e assumindo que a gente vai ter um presidente da república com 40 anos de idade em 2025, ele terá sido game também. Ele vai ter vindo de um laptop de classe média ou de classe rica, sei lá, ou vai ter vindo da lan house, mas em 2025 (Silvio Meira).

 Mariana S. Oliveira é de uma geração um pouco mais velha, mas sua perspectiva é da geração que o Silvio fala. Os processos (São Paulo hoje e no século 18, na imagem) não param.

Por fim, sempre tem aquele elemento do acaso. Sem planejar a gente cruza com alguém lendo algo interessante. Fico sempre de olho nos jornais e livros dos outros no metrô…

O jornalismo tem sido uma palestra – nós passamos as notícias para vocês, e vocês acreditam ou não. O processo agora está tornando-se algo parecido com um diálogo; e a primeira regra do diálogo é ouvir. Os jornalistas não teem sido especialmente habilidosos neste aspecto, embora na época que eu escrevia sobre tecnologia no Vale do Silício, na Califórnia, em meados dos anos 90, rapidamente tomei consciência que meus leitores sabiam mais que eu. Isto, em si, não é ruim; representa uma oportunidade para fazer um jornalismo melhor. (Dan Gilmor, no seminário O Nascimento da Mídia Cidadã, 2006)

Lembro de um texto do Ivan Illich, que li há muitos anos, no qual ele dizia que um dos segredos para se realizar na vida era se manter aberto ao acaso, Magda. Não se fechar às suas verdades nem se submeter ao peso dos anos. O acaso está nas ruas e na rede. Podemos cruzar com pessoas nos dois ambientes Quando pedi para todos que estão aqui um depoimento sobre como se informam, um dos objetivos era abrir uma discussão, uma conversa, sobre isso tendo em perspectiva a rede, que é para muitos de nós algo intrusivo, não amigável por ser muito novo. Você concorda?

Para terminar, dou uma olhadinha no Instagram, afinal, é sempre bom estar perto das pessoas que você gosta ou admira, mesmo que do outro lado do mundo.

A geração de ideias é um processo colaborativo, o Conrado está nesta viagem. É  de uma geração mais nova . Vai gostar desta citação do professor Ladislaw DowborNão por opção ideológica ou fundamentalismo de qualquer cor política, mas pela natureza das ideias. A internet não teria surgido sem as iniciativas dos pequisadores militares do DARPA, mas se materializou como sistema planetário através do www criado pelo britânico Tim Berners-Lee, que não o teria criado se não fosse o processo colaborativo do centro europeu de pesquisas nucleares (CERN) onde tinha de fazer conversar pesquisadores de diversos países e gerar sinergia entre as próprias pesquisas. 

 Apesar de razoavelmente antenado no que acontece à minha volta optei por não usar o Facebook. Tenho uma conta aberta, zero amigos, não a mantenho. Confesso que, no fundo, não tenho tempo ou paciência para todos os rituais FB e me preocupo muito com a questão da privacidade.

O artigo 3º do projeto de lei 2.112 (o Marco Civil da Internet), que disciplina o usoda internet no Brasil tem os seguinte princípios:i) garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição; ii)  proteção da privacidade; iii)  proteção aos dados pessoais, na forma da lei; iv) preservação e garantia da neutralidade da rede; v)  preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas; vi)  responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei; e vii) preservação da natureza participativa da rede.

Mas o Rainer tem razão em relação à sua privacidade. Quem usa as redes sociais, especialmente o Facebook, tem a sua privacidade devassada. E chegará o dia em que teremos um chip instalado em alguma parte do nosso corpo. Estaremos monitorados 24 horas por dia.

Vivemos em uma época de super-reprodução. Tudo é reproduzido centenas de vezes até de fato ser saturado. As notícias, as imagens, o conteúdo relevante etc…

Uma nova referência do que significa melhorar de vida viabilizará, permanentemente, um número muito superior de pessoas na Terra. Uma população 40 vezes superior à de todos os tempos, até o início da Revolução Industrial, só será possível, entretanto, com o fim do crescimento econômico como o conhecemos. O crescimento baseado na expansão do consumo de bens materiais está no seu capítulo final. (André Lara Resende, no artigo Os novos limites do possível)

Pietro Queiroz reflete o sentimento de uma geração que é vítima do processo analisado pela André Lara Resende no artigo citado. Por ele e pelo Eduardo Giannetti da Fonseca nesta entrevista da qual publico um trecho: Lamentavelmente, o ambiente não vai aceitar indefinidamente esse desaforo, ainda mais com 1 bilhão de indianos e chineses entrando na corrida armamentista do consumo. O limite virá de fora. Adoraria que viesse do amadurecimento ético, com as pessoas ganhando uma nova consciência e outros valores. Duvido muito. O mundo está se estreitando dentro de um padrão democrático monetário americano dominante. Mas o limite ambiental, que não é de escolha humana, vai se impor.

 

Assim que acordo, utilizo meu iPhone ainda na cama. Ele dormiu ao meu lado enquanto recuperava a carga mais uma vez. Através de um e-mail exclusivo onde recebo o clipping, confiro as principais notícias do dia.

 Quem está envolvido em mídia cívica, perguntou Henry Jenkins? Os blogueiros, os jornalistas colegiais, fontes de notícias étnicas, pessoas que participam de atividades transgeracionais (compartilhamento de experiências digitais) – podem formar as bases do engajamento cívico. Segundo Jenkins, o desafio é a necessidade de a democracia ser mais do que um evento especial que acontece uma vez ao ano. Precisa se tornar um desafio e atividade diária; e todos devem perguntar-se quais tecnologias ajudam a criar esse sentido de engajamento. (do seminário O que é a mídia cívica?, 2007, MIT Communications Forum).

Tenho certeza que esta é uma das reflexões do Gabriel Azevedo. Por isso e pela complementariedade do que se está discutindo nesta postagem, o trecho de uma matéria sobre o seminário com o dev ido link para quem quiser ir mais fundo.

E nesse ponto surge algo muito curioso e interessante, a mesma notícia, lida através do mesmo canal por pessoas diferentes, geram percepções absurdamente diferentes.

Os donos de “lan houses”, afirma o Mário Brandão, são nanoempresários atuando na economia informal. Não recebem qualquer tipo de suporte oficial para cumprir esse papel, o que limita sua atuação na introdução de seus clientes para a utilização das ferramentas mais úteis na internet: redes sociais como ferramentas de empreendedorismo, e-mails como instrumento de empregabilidade, segunda via de taxas, tributos e contas de consumo, consultas a processos judiciais, emissão de certidões, acompanhamento de documentos oficiais, entre dezenas de outros serviços prestados hoje pela internet.

Líder do setor, preside a ABCID, Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital. Há anos batalha para conseguir uma legislação que não imponha barreiras ao funcionamento destes empreendimentos que ainda são fundamentais para o processo de inclusão digital no Brasil, segundo as pesquisas do NIC.br. É ele quem afirma que continua sob risco o fundamental trabalho de formalização das “lan houses” como prestadoras de serviços indispensáveis ao cidadão contemporâneo, nos rincões menos favorecidos pela atuação do Estado.

O twitter constitui um mundo de notícias. Muitas vezes, nem os sites publicaram. É interessante acompanhar o twitter porque, ao longo do dia e parte da noite, tudo gira por alí.

Beatriz Abreu é jornalista e deve concordar que o twitter é uma plataforma de comunicação, um meio. É uma forma de acesso de interação e de troca de informação. É sem dúvida útil para jornalistas e para jornais. Poderá mesmo ser o lead das notícias, um meio para contactar as fontes e mesmo uma boa fonte de informação. Não será um complemento mas mais uma ferramenta que bem usada poderá ser muito proveitosa, como analisa neste entrevista a pesquisadora Patricia Couto.

Depois tomo Rivotril. Se não, com tanta informação, não há Cristo que durma.

Uso excessivo de computador deveria ser considerado um vício e incluído na lista de distúrbios clínicos reconhecidos oficialmente, segundo o psiquiatra  Jerald Block, da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, em editorial no American Journal of Psychiatry. Segundo o especialista, o vício em Internet tem quatro componentes principais: uso excessivo, freqüentemente associado à perda da noção do tempo ou negligência de impulsos básicos; sentimentos de irritação, tensão ou depressão caso o computador esteja inacessível; necessidade de computadores melhores, mais software ou mais horas de uso; e reações negativas como brigas, isolamento social e fadiga ligados ao uso do computador.

Tutinha é dono e CEO da Rádio Jovem Pan, da Bacanas Records, da marca Pânico. Ele e todos os outros que me deram seus depoimentos sobre como se informam no dia a dia para ficarem ligados., assim como eu, somos viciados na rede e corremos o risco de sofrermo distúrbios clínicos conhecidos. A alternativa é perder o bonde da História: Uma poderosa conversação global começou. Através da Internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante. Como um resultado direto, mercados estão ficando mais espertos—e mais espertos que a maioria das empresas. Estes mercados são conversações. Seus membros se comunicam em uma linguagem que é natural, aberta, honesta, direta, engraçada e muitas vezes chocante. Quer seja explicando ou reclamando, brincando ou séria, a voz humana é genuína. Ela não pode ser falsificada. (Do Cluetrain Manifesto)

As inovações causam mudanças dinâmicas que demoram a ser absorvidas. No século XIX, quando os motores elétricos começaram a substituir as máquinas a vapor, a produção como um todo nos EUA caiu por 10 anos. A questão é que grandes máquinas a vapor foram substituídas por pequenos motores – mudou a forma de distribuição do trabalho. Meu amigo David Cavallo complementaria, “a inovação coloca no centro o pensamento das pessoas, no eixo da participação democrática”.

Agora, sou eu, Rodrigo, terminando aqui este convite para um diálogo a todos os que me deram seu depoimento sobre como se informam no dia a dia para não perderem o bonde da História, cuja íntegra de cada um deles começo a publicar amanhã, e aos eventuais leitores que chegaram até este ponto deste texto.

Vivemos o fim de um tempo, de uma era. Convivemos com esta situação ao mesmo tempo que assistimos ao nascimento de novas estruturas sociais, novas arquiteturas econômicas, novas formas de organização política. Uma nova sociedade, um novo mundo emergindo.

O objetivo do Confins é cobrir jornalisticamente este processo, com uma perspectiva de conquista dos novos sertões: o “enredamento” da sociedade contemporânea, com sua exponencial evolução tecnológica, seu frenético processo de dirupção e inovação, seus novos processos de informação, comunicação e articulação. Acompanhar o nascimento da sociedade da chamada era do conhecimento, que ainda não entrou na sua primeira infância e a estruturação da Internet, que é muito mais do que um meio de informação. É a infraestrutura do futuro.

Na década de 70, no primeiro choque do petróleo, o historiador Fernand Braudel (1902 – 1985) dizia que estávamos entrando numa crise de longa duração. Na sua visão, as instituições criadas a partir do nascimento do Estado nacional, em meados do século 19, não suportavam mais mais o conjunto dos conjuntos, a sociedade.  Os políticos, os economistas, dizia ele, vão dizer que a crise está  passando. Estão no papel deles e a crise terá momentos mais críticos e outros menos críticos, mas é um movimento de longa duração. Ele argumentava que o Estado nacional, as instituições que regulamentam as relações entre os Estados, a economia global não suportavam o  mundo que emergiu e se estruturou a partir do século 19. E que as mudanças ocorreriam no tempo da História.  

É dele também, no seu Escritos sobre a História, o texto com o qual termino esta postagem, com a consciência da nossa relatividade e a convicção que temos que lutar até o fim por um mundo equânime e justo. um mundo melhor:

Vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.

Mas ao lado do tempo que passa, há o tempo que permanece, esse passado profundo no qual, sem que nós habitualmente saibamos, a nossa vida é apanhada.

PS:  Mídias Sociais & Jornalismo

O futuro em nossas mãos

rodrigo lara mesquita, 1997

Banda, download, bits, html, site, link, linguagem C, bookmarks, mercado virtual, hits, banner, real time, ftp, gopher, real audio,
browser… Internet.

O que é isso? O diabo que chegou para atrapalhar o nosso velho e conhecido negócio? Ou uma avenida em direção a infinitas oportunidades para alavancarmos posições no mercado de informações?

Os dois. O diabo para os acomodados sobre verdades ultrapassadas pelo desenvolvimento do mercado e um mar de oportunidades
para as empresas e profissionais que se deixam instigar pelas tendências deste mesmo mercado. É o caso do Grupo Estado, que desde 1988 vem investindo no desenvolvimento de negócios e aquisição de conhecimento sobre o mundo virtual sem deixar de investir na área tradicional dos nossos negócios, que hoje são os pilares da operação de todo o Grupo.

E no futuro? Os jornais vão deixar de existir? Talvez, se a sociedade, pela primeira vez em sua história, deixar de ter necessidade de fóruns para debater, refletir e analisar seu passado, seu presente e seu futuro. Como é impossível imaginar este cenário nos dias atuais, devemos acalentar e alimentar a ideia de que conviveremos com todos os meios conhecidos para continuar desempenhando o papel clássico de uma empresa jornalística – norteador da opinião pública – e os novos, abertos pelos avanços das tecnologias de comunicação, que permitem a abertura de novas áreas de atuação para a empresa e que ajudam a instrumentalizar a opinião pública na direção de lutar pelos seus direitos. Isso significa, portanto, revitalizar toda a atuação da empresa de informação.

Por ter consciência de tudo isso, o Grupo Estado é hoje membro de diversos fóruns nacionais e internacionais que se dedicam
exclusivamente ao estudo e desenvolvimento de ferramentas para as empresas de informação atuarem com propriedades neste novo cenário que se está desenhando. O principal deles, é o Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusets.

Estamos em boa companhia lá. New York Times, Los Angeles Times, Knight Ridder, IBM, Reuters, Sony… dezenas de empresas de todos os setores da nossa indústria – do conteúdo ao hardware – competitivas e preocupadas com sua competitividade futura. E quase todos têm algumas certezas: a natureza do nosso negócio não muda.

Por dezenas de anos, teremos ações complementares entre o papel e os meios virtuais, ‘as estruturas novas – exemplo: AE – não substituirão as antigas – exemplo: O Estado. O que muda é o espectro de público a ser atingido e o padrão de qualidade de toda a nossa operação. E, se num primeiro momento a causa disso tudo é a evolução das tecnologias, num segundo, perene, o motor deste processo é o que o ser humano pode fazer em função dessas tecnologias. E com isso quem se valoriza, além do público, é o profissional, desde que tenha capacidade para responder ao desafio percebido com competência pelo Grupo Estado.

 

Das fontes tradicionais ao futuro: correlações de força e poder

Andrew Lippman,  pesquisador do MIT – Media Lab, foi um crítico perspicaz das tele operadoras, em função do desmesurado poder que elas vem conquistando na economia global e frente aos Estados nacionais. Tinha um olhar crítico sobre a forma como as tradicionais empresas de informação se colocaram em relação à onda de inovação em torno da emergência das tecnologias de informação e comunicação a partir da década de 70.  Abaixo, o depoimento que ele deu ao Confins sobre como se informa no dia a dia. Confesso que fui pego de surpresa pelo seu conservadorismo, com o qual tendo a me alinhar em alguns aspectos. Isso, apesar da minha crítica aos jornais por não terem reagido à emergência da internet, que graças ao seu predicado de formar comunidades sobre comunidades afetou profundamente o modelo de negócios das tradicionais empresas de informação, desenvolvido em função da sua capacidade de distribuirem informação de um ponto para n pontos no mundo broadcast.

Gostaria de melhor representar a sociedade moderna, mas não é o caso.  Obtenho minha dose de informações diárias consultando um jornal impresso e suas ramificações online: o New York Times.  Em minha opinião, as notícias são bem diferentes das atualidades que ajudam a ilustrar uma matéria.  Notícias representam uma decisão editorial sobre o que deve constar na agenda local ou nacional. Claro, sempre existem elementos de importância instantânea, como a Primavera Árabe ou um ataque maluco como acabou de ocorrer nos EUA.  Mas, o mais importante é o quadro maior que a experiência e o conhecimento editorial ajudam a traçar.  Nos EUA, o New York Times, o Wall Street Journal e algumas outras fontes de notícias definem a maior parte da agenda.  Eles estimulam um jornalismo investigativo que cria uma conscientização e uma preocupação com um determinado assunto e têm a memória corporativa que permite ir além da última imagem ou frase.   Tendo tudo isso como contexto, fica bem mais fácil navegar pelo restante da cobertura mais superficial encontrada online e em outras mídias impressas.

Reproduzo abaixo entrevista de 2006 do Lippman para a ZDNet UK sobre mídia aberta, software livre, direitos autorais e em que exatamente ele estava trabalhando no MIT. Na verdade, estou compartilhando minha surpresa com a evolução do pensamento do Andrew Lippaman, que conheci no Media Lab na década de 90, quando ele começava a armar os programas Comunicações Virais e Redes Orgânicas. Se não por outros motivos, a entrevista merece ser lida para se entender um pouco mais até onde vai o poder das empresas operadoras das telecomunicações.

Você poderia explicar em mais detalhes sua opinião sobre a abertura da mídia, o que permitiria que todos pudessem participar?

Se analisarmos a história da indústria de mídia, cerca de 500 anos atrás, os usuários criativos da mídia também a inventavam. Para citar um exemplo, Leonardo da Vinci procurava no solo os pigmentos necessários para sua pintura – ele não apenas inventou o meio, mas usava-o de forma criativa. Veio a mídia de massa. Como era baseada na tecnologia, os criadores e inventores passaram a ser pessoas diferentes. A era do computador subitamente abriu-nos a possibilidade de os criadores e inventores voltarem a ser as mesmas pessoas. Embora isto não signifique o fim da mídia de massa, mas haverá uma oferta cada vez maior de produtos, à revelia das grandes empresas.

Durante a mesa redonda, você falou sobre o software livre e sobre como o Brasil está se padronizando com o Linux. Em sua opinião, como o uso do software livre mudará nos próximos anos?

Esta é minha opinião pessoal; não é fruto de nenhuma pesquisa minha sobre o assunto. Acredito que o software livre é o tipo de coisa que crescerá exponencialmente. Quando uma comunidade é relativamente pequena, as pessoas inventam as coisas apenas para seu próprio uso; programadores sabem criar um sistema para outros programadores. Mas, à medida em que outras pessoas passam a usar o software e a comunidade cresce, o software se torna mais aberto para novos usos criativos, e crescerá de forma exponencial.

Qual é a sua opinião pessoal sobre o Linux desktop.

Não acredito que o consumidor comum saiba usá-lo; ainda não possui a facilidade de um sistema Mac. Mas, se tornará mais fácil e mais rápido, à medida em que a sua comunidade crescer e diversificar-se; ele se auto-alimentará. Linux já está no mercado há muito tempo, mas ainda não explodiu porque a comunidade falava mais entre ela que com outros.

Durante a mesa redonda, você também fez uma observação de como as gravadoras demonizaram seu público, assumindo que os consumidores querem roubar seus produtos. Você poderia ampliar suas considerações sobre este assunto, e apontar uma solução, em sua opinião?

Mais uma vez, isto é minha opinião pessoal. Acredito que as pessoas são essencialmente honestas, e reconhecem que devem pagar pelo trabalho de outros. Contudo, as gravadoras assumiram que os consumidores querem apenas roubar seus produtos. O que precisamos é um pouco de fricção, não perfeição. É preciso dificultar um pouco o furto, para lembrar as pessoas que devem ser honestas; mas não pode ser um assalto em seus bolsos. Um amigo meu foi à China, e mencionei este fato a algumas pessoas da indústria da mídia, que prontamente falaram: “Estas são as pessoas que roubam nossos filmes”. É preciso fazer a pergunta: por que estão dispostos a pagar pela programação local, mas não por filmes americanos. Será que são sociopatas? Ou será que os filmes são caros demais? As empresas de mídia forçam as pessoas à ilegalidade em razão de seus preços extorsivos. Mas, obviamente, se cobrarem menos na China, as pessoas vão montar seus negócios para vender os DVDs nos EUA. Ainda não tenho uma solução para isto.

Você coordena um grupo de pesquisa voltado a “Comunicações Virais” no Media Lab do MIT. O que quer dizer isto, e o que você está tentando fazer?

Quando falamos de viral, queremos dizer invenções cuja força e poder vêm da comunidade: são coisas que começam pequenas, e explodem. Um bom exemplo disto é o Skype. Em apenas dois anos de existência, 250 milhões de pessoas já fizeram seu download. Mas é muito difícil inovar no mundo das comunicações, o qual é fortemente centralizado e verticalmente integrado. As únicas inovações que têm chance de acontecer são o Skype e a Wikipedia, que estão na margem do sistema. Inovações extremamente integradas são mais difíceis de serem levadas adiante. Estamos trabalhando para superar este desafio – qual o grau de robustez e estabilidade que podemos dar a um sistema de comunicações com o mínimo possível de infra-estrutura?

Como você acredita que o setor de comunicações reagirá ao seu trabalho? Eles não resistirão a qualquer tentativa de tornar o sistema mais aberto, já que isto resultará em mais concorrentes e menos lucros?

Os grandes sistemas abertos do mundo digital conhecidos atualmente – a internet e o computador pessoal – foram feitos de uma forma pré-comercial. As pessoas envolvidas no desenvolvimento da internet estavam preocupadas em criá-la o mais aberta possível a inovações futuras; o setor de comunicações, por outro lado, foi econômico e regulamentado desde o seu início. Embora isto seja verdade, não quer dizer que as empresas de comunicação seriam adversas ao que eu estou fazendo. Um exemplo disso é o setor de telefonia dos EUA, antes de sua desregulamentação. Naquela época, o consumidor não podia conectar nada na rede telefônica que não fosse construído pela AT&T. Antes da desregulamentação, a AT&T era dona de tudo. Após a decisão da justiça de desregulamentar o setor, essa empresa passou a controlar apenas parte da rede, mas todo o setor cresceu muito com o desenvolvimento de secretárias eletrônicas, aparelhos de fax, modens, etc.

As redes sem fio e as redes de telefonia celular ainda estão na era pré-desregulamentação. A única forma de você conectar-se a uma rede móvel é através de um telefone fornecido pela sua operadora de telefonia celular. É possível você comprar o telefone, mas não é economicamente interessante, já que a operadora subsidia o telefone. Se você é uma empresa de comunicações, talvez não seja uma má idéia abrir sua empresa – você tem a ganhar com a inventividade que você permitiu. Se você conseguir criar um telefone celular que não precisa de torres – se cada telefone funcionar como um torre – isto ajudaria a empresa de telefonia celular, já que esta não teria de arcar com a construção de torres. Tenham certeza, não estou numa cruzada para eliminar as empresas telefônicas.

Quando o seu projeto estará completo?

Gostaria que fosse mais fácil responder a esta questão. O programa que Nicholas Negroponte [o presidente anterior do Media Lab do MIT, que deixou o cargo quarta feira] fundou – o One Laptop Per Child. Se você conectar todas estas crianças, terá uma rede muito fértil de inovação. Para começar, você pode usar redes em malha (mesh networks). [Os laptops terão banda larga sem fio, que os tornará uma grande rede em malha – cada laptop poderá comunicar-se com seu vizinho mais próximo, criando uma rede local ad hoc. O projeto também está explorando formas de conectar os laptops à estrutura da internet, por um custo muito baixo, de acordo com um documento de perguntas mais freqüentes sobre os laptops]. Inicialmente, o laptop será distribuído a cinco milhões de crianças em cinco continentes, mas futuramente poderá ser entregue a muitas mais. Quão bem você acha que poderá funcionar uma rede em malha tão grande? Quão bem poderemos fazê-la funcionar? Gostaria que rodassem toda a sorte de comunicações desejadas, e nunca se esgotar. É possível criar uma rede que possa crescer sem limites? Não. Pode funcionar agora tão bem quanto terá de funcionar no final? Não. Mas será que a tecnologia irá melhorar à medida que tocamos o projeto? Sim. A questão é como podemos deixá-la escalar-se.

Você acredita que todos vão passar a usar redes em malha para cortar custos?

Eu não vejo desta maneira, como algo que estamos fazendo para cortar custos. Os grandes avanços ou mudanças que ocorreram em razão da internet mostram o grande poder da comunidade, como é o caso da eBay, Skype ou Wikipedia. Mas é difícil fazer previsões mais específicas para este tipo de coisa. O mais importante para redes virais é reduzir as barreiras de comunicação, de modo a introduzir invenção nesse espaço. Muda o nome do jogo, para o que a plataforma pode ser usada.

O que mais o anima com relação aos próximos anos?

Houve uma reação contrária às tecnologias, como por exemplo a reação da indústria fonográfica contra a música digital. Mas acredito que quando se começa a construir uma plataforma aberta, não é possível reverter esta reação e isto dará mais poder à sociedade. Acredito que no final, a sociedade vencerá. No final das contas, as leis são apoiadas pela sociedade – elas não controlam a sociedade. Se você construi sistemas e plataformas abertas, e os torna amplamente disponíveis, então a sociedade ganhará e manterá sua voz. Por exemplo, o Digital Millennium Copyright Act – uma lei que tornou crimes atos que anteriormente eram apenas pequenas infrações – agora está sendo abrandada. As estruturas legais têm de apoiar as estruturas sociais.

 

(



Ainda gosto de achar as coisas por acaso

David Cavallo, pupilo de Seymour Pappert , que na década de 60 já desenvolvia projetos com tecnologia e educação na África, elegeu o  Brasil como seu segundo lar. Foi ele, o grande articulador do projeto de educação da OLPC por aqui. Em junho de 2005, Walter Bender e David promoveram dois seminários para apresentar o projeto para o PSDB, no iFHC, e para o governo do Lula, no NAE. A relação com o PSDB não evoluiu. Lula recebeu Nicholas Negroponte e Seymour Pappert  no mês de julho. Criou um grupo de trabalho, liderado por Cezar Alvarez, para consubstanciar e validar o projeto. Deste processo nasceu o programa Um Computador para Todos e o UCA, Um Computador por Aluno.

Abaixo, seu depoimento para o Confins sobre como se informa no dia a dia, na encruzilhada do futuro do presente.

Prefiro o básico, quando o assunto é obter informações pela internet. Mais do que nunca, sinto que meu tempo é precioso, e não quero perder tempo procurando novas coisas. Essencialmente, desisti do Twitter (muito lixo, pouca substância) e Facebook (sinto-me explorado por pouco valor). Sempre que um amigo manda um link para algo, vou conferir. Meu Google News é altamente personalizado, por seções, fontes e alertas. Enquanto estou trabalhando e dirigindo, faço streaming de notícias e entrevistas do rádio, normalmente National Public Radio, BBC e Pacifica. Muitas vezes leio o New York Times e o Guardian, do Reino Unido. Busco diligentemente notícias internacionais de uma variedade de fontes, já que as fontes americanas têm pouca qualidade nas suas notícias sobre a África, América Latina e Sul da Ásia. Não confio na maioria dos blogs, já que normalmente não há uma revisão cuidadosa e verificação dos fatos. Sigo apenas as pessoas cujos posts são sempre interessantes. Ainda gosto de achar as coisas por acaso, sem a ajuda de personalização. Assino algumas revistas, principalmente para mantê-las vivas.

 

2006

A socialização vai muito além da tecnologia

O genial designer John Maeda, presidente da Rhode Island School of Design, está num momento de revisão das suas expectativas em relação às mídias sociais, que ele viu nascer no MIT – Media Lab. É crítico das relações efêmeras que se criam no espaço digital. Nada, diz ele, substitui uma conversa cara a cara, olho no olho. Acredita que os líderes que vêm trabalhando num sistema sem controle centralizado, consensula, podem estar nostálgicos de uma hierarquia ordenada.

“Estar no mesmo lugar” comenta, “para conhecer um ao outro e ter partilhado experiências, cria laços que são muito mais difíceis de quebrar. De ver a reação de alguém em primeira mão depois de ouvir uma ideia – ou melhor ainda – a ouvi-los formar uma ideia própria, não pode acontecer de forma tão eficaz online”. Para John Maeda, o desafios na encruzilhada do futuro do presente é tornar os relacionamentos nascidos no mundo digital algo realmente impactante. É este o tema de um recente artigo dele para o Huffington Post. No vídeo abaixo (versão em português), ele fala do encontro do design com o computador.

Abaixo, o depoimento que ele me deu sobre como se informa no seu dia a dia.

Uso uma combinação de Flipboard e Twitter para me atualizar nas tendências, além do Google Alerts para reunir informações que possa estar monitorando. Sempre que surge um novo sistema – seja Currents ou Zite – eu o testo, que é mais uma maneira de manter-me atualizado sobre como devemos desenvolver novos sistemas para ficar à frente das coisas. 

No tocante a manter-me atualizado sobre assuntos não digitais, mantenho contato com os especialistas. Não há nada como sairmos do nosso mundo e falarmos com pessoas que vivem em uma cultura ou um setor diferente do nosso. A tecnologia de mídia social faz com que nos esqueçamos que a tecnologia não é imprescindível à nossa socialização.

A rede é uma extensão do nosso sistema nervoso

Da Magda David Hercheui, sobre como ela se informa no dia a dia para não perder o trem da História (Entenda a rede do título como os circuitos elétricos, que é por onde corre a informação nos nossos dias. Circuitos elétricos são uma extensão do sistema nervoso central.  Todas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física. ).

A primeira coisa que faço quando levanto é ligar o computador. O celular não conta porque está sempre ligado e qualquer informação importante eu teria recebido em tempo real.

Eu gosto de checar primeiro o meu email privado, para ter certeza de que nada de urgente precisa ser resolvido. Na sequência, eu leio as mensagens do Facebook. Depois vou para o email corporativo.

Quando tenho tempo, dou uma lida nas notícias de manhã.  Eu assino a versão eletrônica do Financial Times, então pela manhã tenho o jornal no meu email. Durante o dia, outras mensagens chegam de várias fontes. Eu recebo as mensagens da televisão britânica BBC e da revista Economist, com os alertas do dia.

Também assino vários canais no YouTube, como TED Talks, para saber quando novos vídeos de áreas que eu acompanho ficam disponíveis. Eu assino as mensagens de diversas outras fontes, como a consultoria McKinsey (The social economy: Unlocking value and productivity through social technologies) e órgãos do governo, que mandam os links através de emails.

do silvio meira

Em paralelo,  acompanho várias fontes de informação através do Facebook, como os jornais Guardian, Estadão e Folha de S.Paulo. Infelizmente, o Facebook não permite fazer uma classificação de fontes, para saber o que é mais importante, então tem muita mistura das fontes de informação com o conteúdo produzido por amigos. Isso é uma limitação do Facebook para ter boa informação. Por outro lado, muitos amigos são boas fontes de informação, publicando links ou vídeos para relatórios ou noticias relevantes.

Semanalmente, recebo a revista Economist em papel. Eu ainda gosto de andar de metro com a minha revista em papel.

No topo disso, tenho de estar informada sobre publicações acadêmicas e livros de minha área, e isso realmente é uma atividade que consome muito tempo, porque tenho de consultar cada publicação de meu interesse individualmente. Não existe um agregador que informe sobre os conteúdos dispersos em muitas publicações.

Por fim, sempre tem aquele elemento do acaso. Sem planejar a gente cruza com alguém lendo algo interessante. Fico sempre de olho nos jornais e livros dos outros no metrô…

boa: boa, udav


boa: boa