O papel do jornal

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado.  Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça  de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações  continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa)  relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social  com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela  frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro.  Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida  para a articulação  da sociedade em torno dos seus  interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração  de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que  a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação  tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

um esboço de modelo

Não é  mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do  de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

 

Todas as empresas fazem parte da indústria da informação

See on Scoop.itJournalism and the WEB

The Obama administration has shown what is possible when a government becomes a media entity in its own right. But is that good or bad for a free press and for society in general?

Rodrigo Mesquita‘s insight:

empresas de qualqur setor, governos, forças armadas, somos todos empresas de mídia. isso é bom para a democracia?

See on paidcontent.org

Contra a clicagem burra

Luciana Moherdaui, jornalista e doutora em Processos de Criação nas Mídias pela PUC/SP, é  autora do Guia de Estilo Web (1999, Senac), primeiro do gênero no País, e do blog contra a clicagem burra (foto adima). Foi bolsista do UOL Pesquisa em 2008 e participou da criação do iG e do Último Segundo. É uma das minhas referências para procurar entender o que está acontecendo no mudo da informação em função da nova conformação da plataforma de informação, comunicação e articulação da sociedade, composta pelos velhos meios broadcast (jornais, rádio e tv)  e a internet, a rede, com a sua infinidade de mídias e ferramentas.

Abaixo, o depoimento que ela deu para o Confinas, nesta série cujo objetivo é abrir mais o debate sobre a encruzilhada do futuro do presente, a crise que estamos vivendo que tem um dos seus eixos na mudança do processo de informação da sociedade. As imagens do texto são de postagen da Luciana em seu blog. Clicando nelas, você será levado para as matérias correspondentes.

Logo cedo, por volta de 8 horas, abro o Echofon, aplicativo de Twitter para iPhone, e recebo informação imediata sobre os assuntos que me interessam. Tenho, também, na palma da mão imagens das primeiras páginas dos jornais de papel.

 

 

 

 

 

Interessante anotar que essas capas estão linkadas ao Facebook. Então, dou uma olhadela lá antes de acessar dispositivos da mídia clássica – rádio e tevê. Entro pelo notebook. Não funcionam bem os aplicativos da rede de Mark Zuckerberg para telefones e tablets.

 

 

 

 

 

Depois, uso o iPad para ler os apps de Folha, Globo e Estadão. Volto ao iPhone para acessar e-mail e resolver questões de trabalho via WhatsApp, Skype e IM+, plugada em Gtalk e Messenger. É isso que orienta minha manhã.

 

 

 

 

 

Ao longo do dia, basta o Twitter para me deixar absolutamente atualizada. Ligo a tevê somente para acompanhar casos como o atentado a Aurora, nos Estados Unidos. Muitas vezes, compartilho também comentários no microblog.

 

 

 

 

 

À noite, não podem faltar os telejornais das sete, das oito e das onze, mesmo que o noticiário se repita. É o ângulo que me faz prestar atenção a eles.

 

 

 

 

 

Meu dia de trabalho termina logo após o “boa noite” de William Waack e Christiane Pelajo, no Jornal da Globo.

Prefiro plataformas hierarquizadas e curadas

O depoimento de José Papa Neto para o Confins sobre como se informa no dia a dia, na encruzilhada do futuro do presente, para não perder o bonde da história.

Comeco, sem viés, pela integral leitura do Estadao, hábito há muito incorporado ao meu dia-a-dia. No carro, fico ligado na rádio Estadão/ESPN. Nunca deixo de ver as principais manchetes do Valor, FT e dealbook do NYTimes. Além de uma série de blogs e sites que tenho no “favoritos”, como techcrunch e específicos da indústria (WAN e INMA).

Nos finais de semana vou de Economist a Exame e Wired. Prefiro plataformas hierarquizadas e “curadas”  a agregadores, apesar que tenho, quando por ocasião de estar usando determinada rede e um assunto interessar, acessado notícias diversas pelo linkedin e facebook.

Notícia, notícia, notícia e o nosso tempo se esvai

Não sei quantos depoimentos já publiquei nesta série sobre como as pessoas se informam nestes tempos de rede para se manterem ligadas. Vai mais um, o da jornalista Beatriz Abreu. Junto com ele vai também meu incômodo com a certeza de que estamos perdendo alguma coisa importante das nossas vidas afogados por uma avalanche de informações, como nota com propriedade o professor Antonio Mendes Ribeiro no seu depoimento para o Confins: O dilúvio está aí, falta o Noé.

O objetivo da série de depoimentos, vale lembrar, é procurar abrir o debate sobre a crise de longa duração que estamos atravessando, a encruzilhada do futuro do presente, na perspectiva do Confins. Uma crise que se inicia com a disparada dos preços de petróleo na década de 70 e que, de lá para cá, tem momentos piores e melhores, mas persiste. Ela é o tempo de mudança de uma época para outra, da sociedade industrial para a do conhecimento. Da rede de distribuição de energia para a rede de construção e compartilhamento de conhecimento. Das plataformas de informação, comunicação e articulação lineares para as tridimensionais.

Distribuição implica hierarquia e poder,  compartilhamento significa uma nova ordem social. É este o principal fundamento dos novos tempos, que elucida para quem ainda não entendeu a resistência do status quo. Como diria Marshall McLuhan, “há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante”.

É hora de irmos para o depoimento da Bia, jornalista que foi (e é) o eixo do serviço de notícias para o mercado financeiro em tempo real da Broadcast em Brasília.

Eu adoro acordar com as notícias. Já no meu café da manhã acesso meus e-mails para checar informações enviadas por amigos, acompanho o noticiário em Tempo Real, checo os sites e inicio a leitura dos jornais.  Como a informação primária está nos conteúdos digitais, a leitura dos jornais me complementa, seja comparando como cada um abordou o tema mais importante do dia anterior, seja com a leitura de colunas,  artigos e editoriais da midia impressa.

Esse primeiro momento me atualiza e me deixa antenada sobre o assunto que vai ditar o noticiário econômico, político e temas relacionados ao dia-a-dia da população, principalmente na área de educação e saúde. Ao longo do dia, troco opiniões  com colegas do trabalho e amigos sobre o noticiário e, invariavelmente,  eles percebem um assunto ou fazem uma análise diferenciada. O noticiário em Tempo Real me mantém plugada na notícia, além do acesso aos sites dos principais jornais do país e as redes de relacionamento.

O twitter constitui um mundo de notícias. Muitas vezes, nem os sites publicaram. É interessante acompanhar o twitter porque, ao longo do dia e parte da noite, tudo gira por alí. A noite, quando já estou em casa acompanho o Telejornais e dou mais uma olhada nos sites. Bom, meu celular está sempre comigo e o acesso à internet me mantém concectada o tempo todo.

Nos fins de semana, além dos jornais, eu também me informo com a leitura das revistas semanais.

“O homem civilizado, o homem destribalizado.”

A cultura literária é visual e separada (ou alienada). Ela cria o homem civilizado, o homem “destribalizado”. O homem que não está envolvido. E o efeito da Revolução Elétrica é criar novamente um envolvimento que é integral.

O artista é a única pessoa a usar sua antena para captar essas mensagens antes de qualquer outro. Por isso, o artista sempre é considerado como alguém muito à frente do seu tempo: porque ele vive no presente.

A íntegra de uma edição possível  do nosso mundo, construída com McLuhan.

“As sociedades sempre foram mais moldadas pela natureza dos meios usados pelas pessoas para se comunicarem do que pelo conteúdo dessa comunicação.

Todas as mídias são extensão de alguma habilidade ou capacidade humana, mental ou física.

A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. As roupas são uma extensão da pele.

Circuitos elétricos são uma extensão do sistema nervoso central.

A extensão de qualquer um dos sentidos desloca (ou distorce) todos os outros sentidos. Altera o modo como pensamos, o modo como vemos o mundo, e a nós mesmos.

Cada vez que uma mudança dessas ocorre, as pessoas mudam.

A cultura literária é visual e separada (ou alienada). Ela cria o homem civilizado, o homem “destribalizado”. O homem que não está envolvido. E o efeito da Revolução Elétrica é criar novamente um envolvimento que é integral. 

Por que de repente a arte a cultura se tornaram grandes negócios, como é a grande ciência?*. Os motivos para isso estão relacionados com o fato de que vivemos em uma Era da Informação. Quando se vive em uma Era da Informação, a cultura se torna um grande negócio, a educação se torna um grande negócio, e a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios.

O artista é a única pessoa a usar sua antena para captar essas mensagens antes de qualquer outro. Por isso, o artista sempre é considerado como alguém muito à frente do seu tempo: porque ele vive no presente. 
Há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante.

Nossa cultura oficial está lutando para forçar as novas mídias a fazer o trabalho das velhas mídias. Esses são tempos difíceis porque estamos testemunhando um choque de proporções cataclísmicas entre duas grandes tecnologias.”

 

 

 

 

O Tempo da História

Há 20 anos, Tim Berners-Lee inventou a Word Wide Web. Em seu próximo projeto, ele está construindo uma rede que vai vincular os dados que fará aos números o mesmo que a Web fez com as palavras, imagens e vídeos: Libere seus dados e reestruture a forma de utilizá-los.No vídeo abaixo, ele fala deste futuro, um futuro impossível de ser imaginado por nós hoje.

“A Internet não é confiável”

Aqui, não falamos do passado. Falamos de cultura. Cultura no sentido de forças sociais articuladas que nos levam a uma reflexão profunda sobre com que velocidade avançaremos para este futuro inexorável. O ponto de partida são os questionamentos simplistas sobre se a Internet é ou não confiável. É um erro ou uma forma pouco adequada colocar o problema afirmando que a “internet” não se mostrou confiável.

A internet é um protocolo de comunicação. Este protocolo junto com o url: o http:// e o hypertexto viabilizam a Web, que é a teia mundial, uma nova infraestrutura de atuação (,que aqui denonimamos internet). Dominante, como foi a eletricidade no passado. Agora é o tempo da informaticidade. E pela primeira vez na história, a inteligência de uma infraestrutura é distribuída. Os jornais estão aí e continuarão aí. Os melhores ou mais inteligentes sobreviverão e saberão se transformar com o tempo. Mas não são mais o meio adequado para a complexidade da sociedade (o mundo) que vivemos. Eles ainda desempenham um papel importante, mas são veículos para as elites, e vêm de cima para baixo; nós valorizamos conhecimento e elites. E as mídias desempenharam e desempenham o papel de plataforma para que as elites compartilhem idéias. Esta função não desaparecerá.

Como negócio, os jornais não se sustentam como no passado porque a base das suas receitas foram irremediavelmente perdidas para a computação e a rede. É mais barato, prático e eficiente distribuir pequenos anúncios de diversas formas na rede. O problema dos jornais não é informação gratuita. Isso é bobagem, ignorância, uma tentativa de tapar o sol com a peneira. Enquanto isso vem ocorrendo com os jornais de forma dramática conforme a banda larga se espalha pelo mundo, vai se construindo esta nova infraestrutura que não é linear e fomenta a construção de novas arquiteturas de relacionamento social, político e econômico.

É tudo muito recente. O rádio, a tv foram não foram mais do que emulações do modelo velho, no qual é necessário grande volume de capital para montar a operação. Da captação à distribuição de forma broadcasting e unidirecional. Hoje não. Hoje qualquer um é publisher. É verdade que isso pode significar balbúrdia para pessoas que ainda não sabem se valer das primitivas ferramentas que usamos na rede. Mas isso avança todos os dias e cada vez mais fica claro os enormes benefícios que esta infraestrutura traz para a sociedade como um todo. É um assunto de certa complexidade. Mal coberto pela mídia tradicional, que tem medo deste processo. Neste link , uma série de textos em português do Media Lab e do Forum de Comunicação do MIT sobre esta questão: informação/comunicação/articulação na transição da era industrial para a era da comunicação.

O fato é que, como nota o sociólogo Manuel Castells, “além de livre expressão, a rede é educação, economia, negócios… é a eletricidade de nossa sociedade“. De modo que incomodados ou não seremos obrigados a investir cada vez mais sobre o domínio desta tecnologia.

Presente, passado e futuro

Parafraseando o historiador Fernad Braudel, “vivemos no tempo curto, o tempo da nossa própria vida, o tempo dos jornais, da rádio, dos acontecimentos, em companhia dos homens importantes que dirigem o jogo ou julgam dirigi-lo. É exatamente o tempo, no dia a dia, da nossa vida que se precipita, que se acelera, como que para se queimar rapidamente de uma vez por todas, à medida que envelhecemos. Na verdade é apenas a superfície do tempo presente, as vagas ou as tempestades do mar. Abaixo das vagas há as marés. Abaixo dessas estende-se a massa fantástica da água profunda.” … “Mas ao lado do tempo que passa, há o tempo que permanece, esse passado profundo no qual, sem que nós habitualmente saibamos, a nossa vida é apanhada.”