O papel do jornal

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado.  Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça  de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações  continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa)  relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social  com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela  frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro.  Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida  para a articulação  da sociedade em torno dos seus  interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração  de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que  a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação  tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

um esboço de modelo

Não é  mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do  de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

 

As mudanças extraordinárias do jornalismo!

julio_ousadia

O início da revolução

por Dirceu Pio

Há pouco mais de 20 anos, saímos do tempo diferido e entramos de  cabeça no tempo real; agora, somos forçados a esquecer o analógico e entrar de sola no digital. E o jornalismo ganha configurações jamais imaginadas!

        Tive o privilégio de pertencer à equipe que, sob a batuta de Rodrigo Mesquita, implantou o tempo real (realtime) no Brasil; tudo ocorreu nos anos 1990 através do projeto da Agência Estado – empresa do Grupo do Jornal O Estado de São Paulo – que saía da condição de agência de notícias para se transformar em agência de informações (enquanto a primeira abastecia de notícias os jornais de todo o país, a segunda começava a abastecer os mercados com informações para orientar o trabalho das mesas financeiras).

A troca de cultura que se irradiou a partir do projeto da Nova AE – como a Agência Estado era chamada por suas inovações – foi uma verdadeira epopeia: o jornalismo de então estava baseado num regime secular – captar uma informação, redigi-la, editá-la e publicá-la dentro de um prazo de 24 horas ou, quando menos, contemplando os interesses da TV, de oito a dez horas!

O tempo real quebrava esse ciclo na espinha forçando a divulgação instantânea das notícias… o marketing das grandes agências de informações mundiais (Reuters, Knight-Rider, Dow Johnes, Nikkei),  para conquista de novos assinantes nas mesas financeiras, baseava-se na velocidade com que as notícias importantes eram divulgadas… sair na frente em quatro ou cinco segundos fazia grande diferença!

Planejado pela Nova AE, o treinamento de jornalistas do Grupo Estado para assimilar a nova cultura foi uma guerra! Envolveu os melhores consultores nacionais e internacionais especializados na preparação das pessoas para receber uma novidade que iria mexer com vigor em hábitos sedimentados, práticas mais do que centenárias, formas consolidadas de apurar, escrever e divulgar uma informação! E o tempo real revolvia tudo, forçava mudanças vigorosas no jeito de produzir e fazer, uma nova cultura!

Em poucos meses, começávamos a colher os primeiros resultados… lembro-me do dia em que um dos repórteres do Grupo Estado assustou o CEO de uma grande corporação do Rio de Janeiro;  durante entrevista coletiva, ele fora informado por assessores que as informações que acabara de transmitir já repercutiam no mercado, divulgadas por celular pelo repórter que pioneiramente se engajara na cultura do realtime…

Não é fácil remover uma cultura sedimentada e substituí-la por outra nova… o novo tem de ser robusto para se impor… enfrentará resistência, reações em cadeia, intolerância, reprovação!

O AE News – o serviço informativo da Agência Estado em tempo real – entrou com tamanha força no mercado brasileiro que em menos de um ano de sua implantação foi capaz de alavancar a empresa, transformando-a em “case de sucesso” e líder absoluta do setor de divulgação de informações para mercados na América Latina…

“Isso vai virar uma coqueluche”, reagiu com acerto o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ao ser apresentado a um terminal da Nova AE… E o AE News nascia junto com um novo jornalista, bem mais veloz na divulgação de seus escritos, bem mais consciente de suas responsabilidades frente à informação por saber que agora, ao invés de escrever para o público em geral, uma entidade quase abstrata, passava a escrever para mercados e para um tipo de usuário que iria ganhar dinheiro com sua informação…

NOVA MUDANÇA É MUITO MAIS ASSUSTADORA

Esses pouco mais de 20 anos que separam a introdução do realtime  dos dias atuais com certeza não foram suficientes para preparar o jornalista para a mudança em curso – da passagem do jornalismo analógico para o jornalismo digital… Esta sim é uma verdadeira mudança, avassaladora!

O mais assustador nestas transformações é saber que a mudança está em curso e não se vislumbra um prazo para que ela se apresente por inteiro, com começo, meio e fim! O terreno onde o jornalista atua hoje é movediço, traiçoeiro, fluido! Nada do que é hoje pode ser também amanhã!

Mas vamos pensar um pouco: afinal, o que essencialmente mudou? O jornalista por acaso não é mais aquele profissional que capta uma informação, destila e a divulga? A resposta pode ser sim e ao mesmo tempo ser não!

Ah, quer dizer que o jornalista também não é mais aquele que tem e cultiva fontes exclusivas? A resposta também pode ser sim e não!

Afinal que diabo faz o jornalista nessa nova atmosfera na qual a internet introduziu as redes sociais, a interatividade, a possibilidade de transmissão de qualquer tipo de arquivo – leve, pesado, com documentos, sem documentos, com imagens estáticas, com imagens em movimento – e a possibilidade de acompanhar e captar, importar, compartilhar informações do mundo inteiro, em tempo diferido e em tempo real?

Boa pergunta, mas sinto dizer que não sei respondê-la e acho improvável que exista no mundo alguém que tenha uma resposta plausível! O que vejo é o pipocar de zilhões de experimentos em toda parte, o que, diga-se de passagem, é algo extraordinário!

No meio dessa tsunami de inovações e experimentos, o que eu faço? Experimento também, tateio, avanço, recuo, ouso não ouso, observo, sobretudo observo!

A inflexibilidade soberana no analógico tem de dar lugar a uma condescendência responsável no digital, pois neste o mundo se abriu para a colaboração, para a provocação, para a análise, para o humor, para o desabafo! Basta dizer que somos, os jornalistas, produtores, divulgadores editores ou mesmo compartilhadores de informações!

Nesses avanços e recuos proporcionados pelo que eu chamo de “nova atmosfera” temos grandes perdas e grandes ganhos; quando a internet liquida com os meios impressos e agora já ameaça acabar também com a TV aberta, perdemos!

Quando a internet nos oferece mil canais de divulgação para as coisas que produzimos, ganhamos! Quando a internet nos permite acesso a informações qualificadas dos mais diferentes sites e blogs, também ganhamos – e muito! A certeza que aflora é que tudo vai piorar muito antes de voltar a melhorar !

A internet, como eu já disse, é a grande maravilha do século XXI !

Ainda hoje pela manhã ao ligar a TV e ser informado que o Reino Unido ainda não saiu da União Europeia, indignado, postei: “Vou dar prazo de uma semana… e se até lá o Reino Unido não tiver saído da União Europeia, vou lá e tiro no tapa!”

Ganhei de leitores brasileiros inúmeros kkkkkkkkk e de minha sobrinha, a jornalista Fabiana Pio, que mora em Londres, uma frase enigmática: “Não faça isso, deixe assim !”

O PAPEL DO JORNAL

por Rodrigo Mesquita

A AE, Dirceu Pio, começou a trabalhar com a rede em 92, na véspera da ECO 92. Era ainda a APARNET. O seu artigo é sobre o início do desafio de criar uma nova cultura de envolvimento com os fluxos de informação.

Os fluxos se tornam mais complexos e fluidos conforme a sociedade humana evolui na conquista do espaço em que está inserida, que sempre foi analógico e “digital”, este antes restrito às ondas de idéias, do imaginário, dos sonhos.

Voce foi e continua sendo uma referência neste processo de evolução, com profundas rupturas, do ecossistema de informação e comunicação da sociedade. Ninguém tem a formula do futuro, que será sempre beta daqui pra frente, se é que não foi desde sempre, desde a escrita na pedra.

Os caminhos, os peabirus, são muitos. O meu está refletido neste artigo de 2013.

um grande abraço, companheiro de viagem.

O PAPEL DO JORNAL

Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixo-me ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo.

Júlio Mesquita – 1862 – 1927, uma cabeça de rede em qualquer época

Rede social sempre existiu, o desafio é trabalhá-la também no mundo digital e, consequentemente, na nova infraestrutura da economia. É este o caminho para as velhas redações continuarem desempenhando seu papel no ecossistema da informação, comunicação e articulação da sociedade. Se dominam (como deveriam) o ferramental da internet, suas mídias e ferramentas, cabe a elas construir, manter e contribuir para a articulação de redes de interesse e segmentos da sociedade, que é o papel histórico dos jornais.

Redes sociais não são as ferramentas/mídias (FB, Twitter, Blog, Sulia, Pinterest, Papper.li, Scoop.it, Ning, Youtube, Tumblr, Google+, RSS, o diabo). São as suas (você indivíduo, você entidade, você empresa) relações (amigos, consumidores, fornecedores, distribuidores) articuladas por meio das ferramentas/mídias que você escolheu para estruturar a sua rede social com as tecnologias digitais na Web

Monitoramento + curadoria + edição jornalística da aparente balbúrdia (O dilúvio está aí, falta o Noé) considerando a arquitetura da nova infraestrutura, a nova plataforma da informação, comunicação, articulação da sociedade, é o desafio que temos pela frente. Ênfase para organização da informação, sem menosprezar a cobertura jornalística clássica. As fontes estão na rede, todas as fontes estão na rede. Não existem dois mundos, o analógico e o digital. Um é extensão do outro. Conteúdo não é consequência da sua capacidade escrevinhadora. O conteúdo é o ponto de partida para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. O momento hoje é das redes digitais. A geração de conteúdo – monitoramento + curadoria + edição jornalística (agregação) – é o caminho para construir redes digitais de interesse específico ou de nicho, redes sociais dentro da rede e o conjunto das mídias que a compõe.

O jornalista Frédéric Filloux, hoje um analista e consultor do setor, argumenta que o drama das tradicionais empresas jornalísticas (e dos jornalistas) é que ambos se sentem intelectualmente superiores aos mortais comuns. Em função disso, não mergulharam nas peculiaridades da internet. A principal delas é a capacidade do algoritmo de criar comunidade sobre comunidade a partir do nada. Nós jornalistas não somos o farol do mundo, somos uma ferramenta do público. Tanto nós quanto as empresas jornalísticas precisamos recuperar o papel de intermediário, de filtro, e abandonar os arroubos de ‘autoridade’, de donos da verdade.

A oportunidade está aí, num mundo mais fragmentado, complexo e rico. Monitoramento e curadoria (contexto e perspectiva) em processos organizados é o mercado para os velhos players. E é a Demanda Zero para a imensa maioria dos usuários da rede, vítimas da balbúrdia opinativa das mídias sociais. A notícia é o início da conversa, abre a porta para o diálogo, um convite para a participação. O negócio dos jornais é consequência da sua capacidade de articular públicos em torno de ideias, sonhos, problemas, consumo. A informação, editorial e comercial, é ferramenta. Nada mudou. Ficou mais complexo e rico.

A Web é infraestrutura, além de fonte básica sobre qualquer matéria. Uma redação tem de estar preparada para “editar” a rede, com um determinado olhar, foco, viés, e com isso contribuir para a articulação de públicos, para a articulação da sociedade em torno dos seus interesses. A Web é um ecossistema mais complexo e fragmentado, composto por novas ferramentas/mídias e processos de interação, com uma dinâmica evolutiva jamais sonhada.

Rede social é a base das suas relações, seja você um indivíduo, uma entidade, uma empresa, um setor da economia, um partido político, uma igreja, o que for. Fornecer a arquitetura e estruturar estes processos na rede e suas ferramentas/mídias é a extensão natural do papel histórico dos jornais, das tradicionais empresas de informação, do mundo analógico para a sua extensão digital. Da informação segmentada para setores da sociedade para a organização de setores por meio da curadoria, agregação e articulação da informação do público, o que significa também geração de informação. O conteúdo ganha novos significados, num novo contexto, mas com a mesma perspectiva.

Não é mais possível menosprezar ou ignorar as novas possibilidades de organização que a Web nos traz. Os impactos vão da relação capital versus trabalho, à interação com o mercado; a nova infraestrutura permite e fomenta novas arquiteturas de negócios, novas arquiteturas de relacionamento político e novas arquiteturas de relacionamento social. Ela não é só um novo meio de armazenamento, processamento e distribuição de informação. É muito mais do que isso e, embora não seja a causa primária, compreendida em toda a sua dimensão, ajuda a entender a profundidade e extensão da crise global que estamos vivendo.

O jornal é um conceito, o ponto de encontro, a Ágora da pólis, a cidade-Estado na Grécia da Antiguidade clássica. Esta missão está viva na rede. A demanda de serviços e produtos de informação para a articulação e organização da sociedade é enorme. Os processos informativos das mídias sociais são um novo componente, mas ainda não conformaram o ponto de encontro, a praça para a reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. O jornal de papel não desaparece neste processo, ele complementa a landing page para público, o eixo de sustentação deste novo processo, num conceito que vai muito além do de home pages concebidas para distribuir informação ao invés de servir como ponto de encontro para a reflexão e o debate.

Jornalismo: 19 anos depois, a mesma visão e a mesma certeza

Artigo publicado na edição deste mês na Revista de Jornalismo da ESPM, Edição Brasileira da Columbia Journalism Review

dois tempos de entendimento da rede

O ano era 94, o país o México, governado pelo corrupto Carlos Salinas, que tinha adotado uma política de ajuste do câmbio correlacionado às variáveis de inflação e juros, com uma desvalorização progressiva e controlada do peso atrelado ao dólar. Na campanha presidencial um dos candidatos é assassinado. Salinas passa o governo para Ernesto Zedillo, que em 20 de dezembro decide desvalorizar o peso para promover as exportações mexicanas. Todo o sistema desmorona fazendo o país entrar numa crise que durou anos e gerou o Efeito Tequila: uma crise de confiança do mercado financeiro internacional que afetou profundamente a economia brasileira e de toda a América Latina.

Foi neste contexto de crise que escrevi o artigo publicado em 26 de março de 95 no caderno de economia de O Estado de S Paulo sob o título nebuloso Tempo Real vai democratizar a informação e aqui republicado com o título finalmente revisado ytics . Desde 88, dirigia a Agência Estado, uma unidade operacional da empresa, com o os objetivos de transformá-la numa unidade de negócios e contribuir para que o Grupo Estado abraçasse o futuro do mundo da informação: o domínio das possibilidades do computador, dos softwares e das telecomunicações. Na AE, desde esta época, tínhamos consciência de que a emergência das TICs botaria o indivíduo no centro do processo. As empresas jornalísticas iriam perder o domínio do público.

Esta aventura fascinante, infelizmente abortada, tinha sido iniciada em 88 por um pequeno grupo de jornalistas que comungou minha visão de futuro desenvolvida em meados dos anos 80. No primeiro passo, reformulamos todos os processos informativos (prospecção, captação e distribuição) do Grupo Estado para que ele pudesse avançar no mercado como empresa de informação e não exclusivamente jornalística.

Além disso, fomos responsáveis pela especificação de um sistema eletrônico de recebimento e distribuição de informação desenvolvido in house. O Grupo Estado tinha iniciado seu processo de informatização, mas nas áreas editoriais só tinha contemplado das redações dos jornais para baixo. A entrada e saída da informação continuava dependendo de uma obsoleta e restritiva rede de telex. Ninguém na empresa tinha refletido e muito menos analisado este gargalo. Esta foi uma das vantagens competitivas da AE: nunca dependeu de sistemas centralizados com a inteligência fechada numa caixa preta.

Depois desta primeira arrancada para poder chegar ao mercado com eficácia, reorganizamos e desenvolvemos novos serviços para o mercado de jornais e revistas e lançamos serviços de informação empresariais e ambientais distribuídos por fax. Já éramos uma unidade de negócios. Uma receita marginal de 400 mil cruzados avançava para alguns milhões.

Em 92, depois de uma maratona atrás do que havia de mais avançado na indústria da informação, lançamos a Broadcast: o serviço de informações em tempo real do Grupo Estado para o mercado financeiro, que enfrentando Reuters, Bloomberg e a falecida Telerate da Dow Jones, então empresa proprietária do Wall Street Journal, já era líder de mercado em 94, posição que mantém até hoje. Os investimentos para a partida estavam pagos e a empresa faturava dezenas de milhões de reais, com uma margem muito maior do que a dos jornais porque fazer jornalismo no ambiente eletrônico tem um custo baixo graças à plataforma elwtrônica.

Desde o início, este grupo de profissionais que transformou a Agência Estado numa empresa referencial para o mercado tinha consciência que a Broadcast era uma plataforma de aprendizado e que no futuro próximo a base das receitas das tradicionais empresas jornalísticas, os classificados, seria roubada pelas telecomunicações (a internet que estava nas nossas portas), por ambientes criados por softwares e processados pela computação.

Tínhamos que começar em algum mercado e o único aparelhado e disposto a pagar por serviços nestes meios era o financeiro. Em 92, filiamo-nos ao então laboratório de mídia do MIT, o Media Lab. Foi lá, nos programas News in the Future, Information: Organized e Simplicity, que se consolidou a nossa visão de que daria certo neste novo mundo em constante beta e cada vez mais distribuído, descentralizado e descontínuo quem tivesse coragem de se perder na rede. Mais do que informar, o papel das empresas de informação foi e será sempre contribuir para os processos de articulação da sociedade. A notícia é um meio, não o fim. Elas não nos dizem o que fazer ou o que pensar, mas são um convite para a navegar, para a participação.

O processo de formação da opinião pública daqui para frente será cada vez mais fragmentado e autônomo, assim como a própria sociedade. A revolução tecnológica que estamos vivendo é muito mais profunda do que a do século 15, quando a reinvenção da prensa pelo mundo ocidental e outras inovações abriram o caminho para o processo que levou à revolução industrial. As tradicionais empresas jornalísticas, apesar de todos os problemas que enfrentam, continuam tendo todas as condições objetivas para gerarem novos caminhos e negócios. Falta conhecimento, visão e coragem.

RLM

A Tecnologia democratizará os processos de informação

olhando o futuro, 1995

É redundância dizer que estamos assistindo ao mais profundo, dramático e rápido processo de mudança que a humanidade já sofreu. Mas é necessário quando estamos falando de responsabilidade das empresas e profissionais empenhados em informar o mercado financeiro: o primeiro setor da nossa sociedade que se interligou em tempo real globalmente, subvertendo a ordem instituída e questionando a noção de soberania nacional.

Se isso já está claro há muito tempo para a pequena parcela da aldeia global que participa ativamente deste mercado, é uma grande novidade e fator de insegurança para os meros mortais que vêm de um dia para o outro a economia de um país – o México, e por consequência a de todo o nosso Continente – sofrer uma revolução em função da movimentação dos trilhões de dólares que alimentam o mercado financeiro internacional.

Até que ponto um fato como este é de responsabilidade dos protagonistas deste mercado, ou de políticas governamentais, ou de questões estruturais, como cultura protecionista e corrupção, não é objeto deste artigo. Nossa responsabilidade, empresas e profissionais dedicados a fornecer informações em tempo real para o mercado financeiro, é com a correção e acurácia da informação, com a certeza dos protagonistas do mercado de que não temos nenhum tipo de interesse ou posição no mercado. Mais do que isso, a certeza de que o grupo empresarial que hoje sustenta a operação não tem outro interesse econômico fora do setor de informação.

O nosso dia a dia é feito de sangue frio e responsabilidade. Sangue frio porque centenas de pessoas estão envolvidas num processo de captar, processar e enviar notícias, análises e dados para milhares de telas de computadores – em mesas de operação de bancos, corretoras, traders, scalpers, departamentos financeiros de empresas – e, por isso, a responsabilidade: são eles que movimentam os trilhões de dólares. Uma operação como essa envolve não só jornalistas. Envolve homens de tecnologia, de marketing, de relação comercial e de administração. É uma operação casada em tempo real, em que todos têm o mesmo nível de responsabilidade em relação à nossa missão: instrumentalizar os homens do mundo de negócios para tomar posições, graças a um trabalho jornalístico impecável.

Mas temos um paliativo: a certeza de que será este o processo da indústria da informação daqui para a frente. Houve um tempo em que o meio jornal tinha o monopólio da informação. Era o único canal entre a sociedade civil e o poder público. Representou, com o desenvolvimento da revolução industrial, a praça da cidade antiga: o ponto de encontro da coletividade. O lugar onde ela se encontrava para se informar, refletir e debater o seu próprio futuro. Depois, vieram o rádio e a televisão. Junto com eles, a massificação. A possibilidade de um grupo econômico interferir como nunca na evolução dos costumes e da cultura. Com o domínio da informática, que permite a um grande grupo tradicional de informação ter numa mesma base tudo o que captou por meios próprios ou de terceiros, e com o domínio da telecomunicação, que permite a este mesmo grupo fornecer a informação para os mais diversos públicos, pelos mais diversos meios, o jogo mudou.

A revolução da informação trouxe incerteza e insegurança. Trouxe a possibilidade de movimentos especulativos jamais sonhados. Mas trouxe também a possibilidade da democracia direta. Quanta tempo e a que custo chegaremos lá é outra questão. O fato é que a forma como hoje o mercado financeiro se informa, em tempo real globalmente, já é algo possível para os mortais comuns: a Internet e derivados representam a democratização da informação, que muito em breve transitará por ela em texto, imagem e som em tempo real. Agora, muito além do que entre todos os mercados, entre todas as pessoas, que estarão no centro do processo.

O desafio quese coloca para as empresas é perceber que todas as suas cartas estão nos recursos humanos: a tecnologia, o meio, será de todos com custos insignificantes. A futura (não tão futura assim) empresa de informação terá a possibilidade de oferecer ao público conhecimento agregado. Num processo que privilegia a horizontalização, o trabalho através de células comprometidas com o processo. Ao contrário do antigo processo industrial, que privilegiava estruturas piramidais e concentração de poder. O desafio dos profissionais da informação é manter o elo de confiança com o público em geral, conscientes de que no próximo milênio as grandes empresas de informação vão se atomizar em pequenas unidades. Estamos a um passo da aldeia global. O que estamos assistindo no mercado financeiro é só a ponta do iceberg. A democratização da produção e a disseminação da informação só se legitimarão na medida em que os agentes deste processo tenham consciência rigorosa da sua responsabilidade com o público.

Artigo publicado no O Estado de S Paulo em março de 1995, quando dirigia a Agência Estado. E republicado agora na Revista de Jornalismo da ESPM.  

A era das multiplataformas começará a se consolidar

olhando para o futuro, 2014

Considerando que nos próximos 10 anos a tecnologia estará integrada nos ambientes e em cada um de nós – não será mais algo que você liga e desliga – e que isso mudará totalmente a experiência humana de viver, vejo os avanços das multiplataformas (sistemas integrados em rede) de atuação na rede como a principal tendência em 2014.

Monitoramento, curadoria e agregação, articulação e governança são os processos provocados na sociedade pela linguagem, pela informação. E assumidos como técnica pelo jornalismo. Da linguagem oral à eletrônica, que promete, se não o retorno, a valorização da cultura oral. Mídias sociais como Twitter, google+, facebook, linkedin, pinterest, tumblr, youtube, paper.li, rebelmouse, instagram, scoop.it, flipboard, meddle etc são plataformas pontuais, ferramentas, mídias. É neste ecossistema que se pratica hoje o jornalismo.

Num mundo que a cada dia ganha maiores índices de complexidade e fragmentação atuar de forma isolada com uma ou outra destas mídias é inócuo. Indivíduos, profissionais e empresas que atuam com propriedade e objetividade no novo ecossistema da informação vêm avançando na construção de suas multiplataformas com o conjunto de ferramentas que lhes parecem mais apropriadas para seus objetivos.

Rede social existe desde a idade da pedra. É a base de relacionamento de indivíduos, de entidades, de empresas, de setores da economia, de partidos políticos, de sindicatos, de qualquer organização humana. No mundo digital, na economia social, esta base de relacionamento tem que estar organizada na rede para lhe dar mais organicidade e objetividade.

Consolida-se aí o conceito de multiplataforma (e viabilizam-se as redes sociais, as redes de interesse específico, as redes de nicho), que requer ainda processos de monitoramento (Big Data) e a inter-relação com landing pages apropriadas para fazer andar o processo de comunicação e articulação frente a um ou uma gama de objetivos. Além, é claro, da integração com as mídias tradicionais, os antigos ambientes do jornalismo. Há e haverá por um bom tempo uma forte interdependência entre os dois mundos, que são um só.

A tendência tecnológica é reforçada pela demanda da sociedade. A tecnologia, suas ferramentas e processos vão contribuir para dar vazão às necessidades de uma sociedade muito mais complexa e fragmentada da que foi regida pelas tecnologias da era industrial. Esta percepção já é latente na sociedade contemporânea atônita com o contexto e surpreendida pelos novos processos da informação, comunicação e articulação num mundo em profunda transformação. Neste cenário, o do avanço das multiplataformas de atuação, estão contidos também o cloud, a mobilidade e o analytics.

RLM

Prefiro plataformas hierarquizadas e curadas

O depoimento de José Papa Neto para o Confins sobre como se informa no dia a dia, na encruzilhada do futuro do presente, para não perder o bonde da história.

Comeco, sem viés, pela integral leitura do Estadao, hábito há muito incorporado ao meu dia-a-dia. No carro, fico ligado na rádio Estadão/ESPN. Nunca deixo de ver as principais manchetes do Valor, FT e dealbook do NYTimes. Além de uma série de blogs e sites que tenho no “favoritos”, como techcrunch e específicos da indústria (WAN e INMA).

Nos finais de semana vou de Economist a Exame e Wired. Prefiro plataformas hierarquizadas e “curadas”  a agregadores, apesar que tenho, quando por ocasião de estar usando determinada rede e um assunto interessar, acessado notícias diversas pelo linkedin e facebook.

Todos, o tempo todo, trabalham na minha redação!

Minha prima e amiga Mariana Salles Oliveira é psicologa e trabalha com formação experiencial ao ar livre pela Outward Bound Brasil.  Como ela comenta no seu depoimento sobre como se informa no dia a dia na encruzilahada do futuro do presente, é quase uma nativa. Seu jornal tem uma receita própria composta pelos seus interesse e os de seus amigos, na sua própria rede social.

Ler o bom e velho jornal era e ainda é o hábito matinal do meu pai. Eu desde sempre li tudo aquilo em partes, só as que me interessavam, novos horizontes naquele calhamaço de papel vinham quando alguém me chamava atenção para alguma matéria em especial. Quando fui morar sozinha, todo investimento era algo a se pensar e entre assinar o jornal diariamente, ou investir na melhor velocidade de internet possível, fiquei com a segunda opção!

 

uma história da internet (legendado)

Naquele tempo, o provedor de e-mails tinha como chamariz um portal de notícias. Encontrei lá um ótimo jornalismo internacional, e uma seleção de notícias bem bacana! As redes sociais engatinhavam e os blogs eram mais temáticos e pessoais do que uma fonte de informação alternativa aos grandes veículos impressos. O jornal que meu pai lia, estava lá também, em versão online tinha seu “papel” no meio daqueles novos canais!

Num pula pula filtrado pelo que me interessava e ao mesmo tempo afogada em tantas novas ofertas, aconteceu que, antes mesmo deu ter tempo de estruturar minha busca por notícias, e organizá-las para acessá-las de uma maneira fácil e confortável, uma outra onda fez rever a forma como eu iria me informar dali para frente!

Imagens de cursos da Outward Bound Brasil (OBB) com depoimentos de participantes

Em pouco tempo todos os meus amigos, parentes, colegas de trabalho, autores dos meus blogs favoritos, instituições, o governo, governantes e candidatos, e até pessoas públicas que adimiro, todas elas, passariam a compor um grande filtro de relevância para mim! Viraram meus editores chefes! Todos, o tempo todo, trabalham na minha redação! Minha rede social virou online e junto comigo tocam meu jornal diário! Os valores são múltiplos, e a ética também, a amostragem gigante, mas ainda sobram alguns filtros onde posso operar!

Canais antes separados de fotos, vídeos e textos, se cruzam hoje com intimidade no meu facebook, twitter, no meu celular, lá estão todas elas, as tais notícias, numa versão multimídia, filtradas pelos meus contatos!

Se elas chegam até mim, o tempo todo, e aos poucos vou filtrando e selecionando minha rede de conexões e provedores de notícias, também descobri que o grupo de pessoas que gerem os browsers que uso, e as redes sociais de que faço parte, gostam e querem também fazer isso por mim!

Ler notícias hoje vai muito além de me manter informada, ler notícias agora constrói o meu perfil de usuário, um perfil de navegadora, que cruzado à minha rede de contatos tem servido para me conectar diretamente às informações que outras pessoas acham relevante que eu leia. Numa  versão ainda mais incrível me conecta ao comércio de produtos e serviços! A cada notícia que leio, recebo mais emails, mais sugestões de links, mais sugestões de amigos e produtos para consumir! É um efeito cascata dessa rede que interconecta planos diversos que antes compunham a minha vida sem que nem eu pudesse visualizá-los! Mais que visível essa trama das minhas conexões, dos meus assuntos de interesses, e dos meus gastos opera selecionando informações, serviços e produtos pra mim!

Navegar na internet atrás de notícias é também construir a maior rede de comércio e produção de subjetividade voltada ao consumo que já existiu no planeta! Parece também ser essa mesma rede, uma forma criativa de outras economias de troca! Para os que além de filtrados, filtram e infiltram, oferecendo conhecimento e fazendo frente à automatização da relevância apenas a serviço da venda de produtos e de uma subjetividade massificada. Tento, entre meus contatos, meus interesses e a oferta, achar a versão de informações que me acompanham na escolha que tenho feito de mundo!

O dilúvio está aí, falta o Noé

 

Por Antonio Mendes Ribeiro

Vivemos um dilúvio de informação ou mais precisamente de dados, pois não temos a capacidade de entendê-los completa e plenamente. Isso faz com que fiquemos perdidos na rede, sem aproveitar as  oportunidades que surgem nas nossas navegações. Precisamos, assim, assumir o papel de um Noé do novo século, selecionando espécies significativas  de informação, colocando-as na nossa arca e com isso sobreviver no mundo do entendimento, da interpretação, da reflexão,  o que é essencial para os nossos estudos e até negócios. Podemos dizer que  era de hoje da internet é  dos  letrados em informação. Na verdade temos que ter essa competência, além do domínio das tecnologias, para gerir a informação  que necessitamos. Isto é válido para todas áreas do conhecimento humano, para profissionais mais especializados e até crianças.

Mas  como uma pessoa pode evoluir ao atuar nessa área, que papéis deve assumir? Além de um simples RECEPTOR de informação (leitor de notícias colocadas pelos amigos que seguimos nos microblogs), podemos assumir uma ação mais ativa. Nos colocando como um EXPLORADOR saimos à cata de  informações já publicadas (pesquisando, filtrando, selecionando),  gerando e personalizando nova informação ( quando  a descrevemos e ilustramos, mesmo de forma sucinta, na nossa rede social). Com um passo além podemos nos ligar diretamente à informação de nosso interesse, tornando-nos um INTERAGIDOR (colocando tags nas mesmas e utilizando um ambiente de bookmarking social). Vivenciando esses papéis podemos criar condições para usar a informação, em vez de somente consumí-la, armazená-la, organizá-la e indexá-la. Como um APLICADOR podemos tomar nossas decisões e  resolver problemas da nossa realidade (a partir da criação de  um sentido à massa de informação a que somos submetidos, ao fazermos sínteses, reflexões e  conclusões  usando um blog). Quando assumimos esse nível de experiência na rede, sendo um especialista na nossa área de atuação, temos condições de agir como um CURADOR (disponibilizando informação atualizada e significativa para nossos parceiros, com a utilização das novas ferramentas de curadoria agora disponíveis).

Mas ser um letrado em informação é suficiente? O importante é que sejamos, além disso, capazes com esse tipo de competência de nos colocar  como um agente de inovação em rede. Com esse posicionamento será possível nos contrapor  às mudanças que ocorrem no mundo de hoje, co-construindo conhecimento de forma colaborativa e auto-regulando o nosso aprendizado,  em benefício pessoal , das nossas comunidades e da sociedade em geral.

O professor Antono Mendes Ribeiro, do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, está para lá da encruzilhada do futuro do presente. Há anos atua na rede como um construtor de caminhos. Vale a pena conhecer a sua comunidade de Colaboração e Conhecimento C – 5, na plataforma Peabirus, na qual ele vai mais fundo do que neste depoimento sobre como se informa no dia a dia para não soçobrar.

 

Novos paradigmas e desafios, na encruzilhada do futuro

Antonio Rosa está entre os que comungam a visão de Alvin Toffler de que se está formando uma nova sociedade com comportamentos e procedimentos em formação “na estruturação da família, nos relacionamentos dos jovens, com novos conceitos de sexo, raça e idade, novas estruturas familiares e novas formas organizacionais e culturais”. Um novo mundo que segundo ele ainda não entendemos e não sabemos para que direção caminha, na encruzilhada do futuro do presente na qual nos encontramos.

No texto  abaixo, seu depoimento para o Confins sobre como se informa no dia a dia para não perder o bonde, ele fala sobre usas previsões sobre o processo de “enredamento” da sociedade, os meios que utiliza para se informar do rádio à rede e sua ansiedade de estar perdendo alguma coisa, um stress comum a todos nós. O depoimento do Toninho está em itálico. Entre aspas jogando com o depoimento, trechos de uma entrevista dele sobre a rede para o Espaço Convergente. Isso depois do vídeo do Toffler falando sobre os novos paradigmas e dos desasfios que temos pela frente.

Para mim a informação é fundamental, pois como consultor de mídia entendo que passamos pela maior revolução que este setor já viveu. Evidentemente, a chamada Sociedade da Informação está mudando todos os hábitos de mídia e criando novos paradigmas.

Escrevi um livro falando sobre o tema em 98, o título Atração Global já identificava este fenômeno, mas também alertava para a criação das primeiras empresas globais de mídia, a propósito último setor econômico que ainda não se globalizou, produtos industriais, serviços e mercado financeiro já operam neste novo modelo.

 

Toninho Rosa: “A expansão da Internet no Brasil era altamente previsível, até porque o Brasil, e aí eu estou dizendo com base na minha teoria, o Brasil é o segundo maior país em mídia do mundo, só perde para os Estados Unidos. O Brasil tem um número de emissoras de televisão, de rádios, de jornais e de revistas altamente expressivo e tem um consumo muito grande também. Nós temos cinco redes de tv’s, os Estados Unidos só têm quatro redes, mesmo assim tem um enorme nível de audiência.

Começo o dia consumindo notícias pelo rádio,  meio imbatível para se acompanhar notícias nos dias de hoje. Tenho defendido a tese de que o rádio será o meio líder em comunicação, pela simples observação de que a população moderna é muito ativa. Permanecendo fora de casa praticamente o dia inteiro, noto facilmente que a que da de audiência da televisão, da circulação dos jornais e revistas refletem este comportamento. Evidente que o único meio de comunicação que pode ser consumido mantendo-se as atividades é o rádio; com ele é possível dirigir, trabalhar ou navegar na web. Para quem ainda não sabe, em SP o rádio já bate a TV em horas consumidas.

Toninho Rosa: “A convergência é um processo já iniciado e que tende a se aprofundar cada dia mais. Logo, o exercício do jornalismo e da propaganda passará obrigatoriamente por práticas, processos e estratégias que contemplem o cenário que se está desenhando, e que ainda me parece embrionário.”

Navego o dia inteiro por sites de informação, portais nacionais como UOL, Terra, G1, IG e sites de notícia, a exemplo da Folha, Estadão, Veja, Exame etc. Também navego por sites estrangeiros, principalmente no MailOnline, WSJ, NYT.  Também navego por sites de marketing e propaganda, Adnews (criado pela nossa empresa Dainet), MMonline, Propmark e Bluebus.
Jornais impresso apenas nos finais de semana, quando tenho mais tempo, mas também por ainda apreciar ler no velho e bom impresso.

Toninho Rosa: “Em linhas gerais, o espaço no impresso é limitado, e o da internet tem maior maleabilidade; o fechamento antecipado do impresso o “esfria”, enquanto a internet é sempre “quente”. Mas os princípios que norteiam a prática da propaganda e do jornalismo são (ou deveriam ser) os mesmos.”

No final do dia dedico o tempo para TV, procuro assistir todos os telejornais. Lamento pelo horário do Jornal da Band, pois estar em casa às 19:30h realmente é para poucos. Assisto o JN e o Jornal da Dez da Globonews.

Toninho Rosa: “O grande problema no Brasil é a falta de invenções brasileiras nas novas mídias. “Cadê os Googles? Facebooks? Twitters? Yahoo? Porque não conseguimos produzir um YouTube aqui? Nós temos um problema seríssimo educacional e empresarial no Brasil”. Essa á uma das carências que venho através de diversos estudos e ajuda de colegas tentando suprir.”

Durmo preocupado por imaginar que perdi algumas notícias e informações.