A crise brasileira reflete a morte da democracia representativa no Ocidente” e corremos o risco de assistir “a ascensão de democracias não liberais (uma plutocracia mundial) ou de ditaduras plebiscitárias escancaradas, nas quais o líder eleito exerceria controle tanto sobre o Estado quanto sobre os capitalista“.

Fernando Henrique Cardoso, autor do artigo cujo título abre o lead deste, é o último estadista da nossa época. Em seu artigo aponta “as grandes transformações econômicas e tecnológicas, responsáveis pelo enfraquecimento dos Estados nacionais, em sociedades cada vez mais fragmentadas e expostas a tensões e desequilíbrios de uma crescente diversidade cultural”, como fatores críticos da crise.

Martin Wolf do Financial Times, autor da advertência sobre a ameaça que ronda todas as democracias ocidentais que fecha o lead deste artigo, é o mais arguto analista da imprensa econômica mundial. Faz anos que vem publicando periodicamente artigos chamando a atenção das elites globais sobre sua responsabilidade em relação à crise que estamos atravessando: instituições desajustadas, políticas econômicas concentracionistas, bancos cada vez mais especulativos e descontentamento global dos “perdedores econômicos”. Para ele, não foi surpresa a vitória de Trump  nas eleições norte-americanas, mera consequência. No final deste artigo, links paea uma série de análise do  Martin Wolf)

No início deste ano o caderno de leitura do Valor, publicou uma entrevista do economista francês Robert Mayer na qual ele referendava tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Martin Wolf. Mas, além disso, argumentava que, no plano teórico, o maior empecilho para superarmos a crise financeira é a “incapacidade da própria ciência econômica de explicar as razões da crise e solucioná-la com as ferramentas até então disponíveis em seus manuais”.

Faltou para os três, e acredito que é por isso que ninguém consegue explicar as razões da crise, uma análise da ruptura mais profunda que a sociedade humana sofreu em todos os tempos: a dramática mudança do seu ecossistema de informação de processos broadcast para processos em rede, a primeira descentralizada e sem controle da História da humanidade, e na qual cada um de nós está no centro, o que não contribui para a cooperação e colaboração. Ao contrário, fomenta uma sociedade narcisista e egoísta.

Harold Innis, economista canadense que começou sua vida acadêmica analisando a relação dos países periféricos com os centrais, se tornou a maior referência da escola de comunicação de Toronto em função de seus estudos das sociedades, dos impérios, em função da sua “estrutura de linguagem” (discurso, escrita, arquivo, distribuição). Da escrita na pedra, cuneiforme e a oralidade grega ao papel e à invenção da bobina e das rotativas, que marca o início da comunicação de massa. Tudo que veio depois foi basicamente aceleração. Isso até o corte da rede, o marco de início da Era Elétrica, na qual o sistema de comunicação da sociedade é uma extensão do nosso sistema nervoso.

Innis, mentor de Marshall McLuhan, no livro O viés da comunicação, argumenta em síntese que “o tempo social é definido pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar”. Tanto ele quanto McLuhan defendem a tese de que o que molda a sociedade é forma como ela se informa, o ambiente tecnológico pelo qual ela se informa e não o conteúdo que ele carrega.

Robert Boyer na entrevista ao Valor, adverte que não podemos esquecer que a saída para a Grande Depressão de 1929 só foi possível depois da 2ª Guerra Mundial. Para ele, “o desafio é encontrar uma solução que leve em conta três fatores principais: a recuperação dos EUA, o dinamismo da China e o esgotamento de recursos naturais”.

Bato na mesma tecla dele desde os anos 80, influenciado por Fernand Braudel, o grande historiador da nossa época. No final dos anos 70 início dos 80, deu uma entrevista de fôlego que tinha como ponto de partida a primeira grande crise do petróleo. Nela fazia uma análise do quadro que vivíamos argumentando que aquela crise era só a ponta do iceberg, que estávamos entrando numa crise de longa duração, uma “onda longa”, os ciclos de Kondratiev. E ia mais fundo do que o Robert Boyer coloca na boa entrevista ao Valor sobre o estado de “envelhecimento” e desajuste das instituições.

Para Braudel, o conjunto dos conjuntos das estruturas tinha ido à frente das instituições que regulam a sociedade e que, as do nosso tempo, amadureceram a partir das revoluções burguesas na Europa em meados do século 19. E argumentava que já nos anos 80, elas não sustentavam uma sociedade muito mais complexa, fragmentada e com uma dinâmica infinitamente mais rápida do que a da sociedade do tempo em que elas se conformaram.

Depois de tecer uma argumentação muito bem estruturada sobre este processo, terminava a entrevista dizendo que os políticos, os economistas, as lideranças dos processos institucionais iriam dizer que a crise iria passar. E comentava que estavam no papel deles, têm que passar esta mensagem para o público, mas a crise está aí para ficar. Ela terá seus ciclos, momentos piores e melhores, mas vai durar um bom tempo. A formação das instituições é um processo. Não se trata de uma troca de camisa.

Isso foi bem no início dos anos 80. De lá para cá rolou o que sabemos até a emergência da internet, marcando o início da Era Elétrica, prevista e estudada por uma série de pensadores voltados para os impactos dos processos de comunicação na sociedade. Das trilhas do passado e suas possibilidades à velocidade da rede, a extensão do nosso sistema nervoso, e seus impactos em tudo nas nossas vidas.

A crise política brasileira torna-se dramática neste contexto. Cabe às nossas elites se conscientizarem sobre este processo e liderar um movimento civilizatório que permita ao Brasil superar seu atraso secular em relação às questões como cidadania e avançar sobre este novo tempo investindo o que for necessário em infraestrutura tecnológica e educação. A Internet não é apenas um monte infinito de informações. Ela tem vida. Tem alma. Quando você entra nela e aprende a ouvi-la, com a devida atenção e cuidado, você aprende com ela, que reflete os anseios da sociedade. Não existem dois mundos: um analógico, outro digital. Um é a extensão do outro.

A alternativa é caminhar para o caos, com momentos de anomia e conflito social. E talvez sem caminho de volta.

 

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