O publisher mais poderoso do  mundo, dono de um dos impérios do século 21, é um craque do entretenimento e uma farsa em todos os outros sentidos. Seu projeto de jornalismo é uma demonstração cabal de que não tem nenhum compromisso além de fazer dinheiro.

Zuckerberg entende de códigos e acertou na mosca nos seus primeiros passos. Um fenômeno de momentos de ruptura tecnológica, com seus impactos na economia, na política e nos  processos sociais. Mas não  tem noção do  que  seja cultura e muito menos processos culturais. É irresponsável  neste sentido e vai dar ainda uma enorme contribuição para a aumentar a complexidade da crise que estamos atravessando, que tem na mudança da lógica do  sistema de comunicação da sociedade um dos seus principais eixos.

Hoje, cada  um de nós está no  centro do sistema de comunicação, que se transformou gostemos  ou não numa extensão do nosso sistema nervoso. Isso – também em função da fragmentação da rede em APPs e ambientes fechados –  promove naturalmente um fechamento para o acaso, para a surpresa, para o necessário debate e abertura ao controverso de uma sociedade civilizada. A tendência é promover o próprio ego fomentando uma sociedade ególatra.

Meu primeiro contato com o que viria a ser a Web, na época ainda em gestação, foi no MIT – Media Lab, com o cientista Walter Bender, em 92. Como ele, alimentei a esperança de que “a mídia digital estava longe de engendrar um mundo fragmentado habitado por míopes preocupados com seus próprios interesses. Em vez disso, estava liberando em cada um de nós nosso o desejo básico de compartilhar, o que às vezes se traduz num compartilhamento de informações, idéias políticas e sociais ou bens e serviços. O processo já começou e é de fato uma mudança paradigma”. 

A Web emergiu poucos anos depois. Era aberta, livre de espaços que se valem deste início de novos tempos e, por isso, do desconhecimento do  público  das suas possibilidades, para desvirtuar os propósitos humanistas com que a rede foi criada. Continuei com os meus laços estreitos com o Media Lab até 2006. APPs e ambientes restritos como o Facebook batem de frente com o sonho de Tim Berners-Lee e toda a comunidade científica que contribuiu para a construção da rede. 

O artigo  que transcrevo abaixo é do Frederic Filloux, do Monday Note, um especialistas das mídias tradicionais e das novas e que como Walter Bender e eu consideramos que “as notícias nos dão uma nova informação e as ferramentas com as quais explorá-la. Uma fonte de modelos compartilhados sobre o mundo. Elas não nos dizem o que pensar, mas nos ajudam a navegar na complexidade de nossas vidas”. Esperávamos que a mudança provocada pela tecnologia no ecossistema de comunicação da sociedade fosse um meio para melhorar o acesso dos indivíduos às notícias para veículos de engajamento ativo. No artigo de Filloux, transcrito abaixo, uma explicação didática e objetiva da balbúrdia que Zuckerberg promove de forma cínica do o seu Facebook.

Arriscaria dizer que Zuckerberg como empresário do mundo digital se equivale a Trump como presidente do país mais rico e a democracia mais sólida do Ocidente. Para eles, a verdade é maleável, instrumental, subjetiva. É tudo sobre eles. É sempre sobre eles. Ególatras e a única contribuição  que podem dar para a humanidade é acirrar ainda mais os ânimos das pessoas de uma sociedade estressada pelo  processo  mais delicado e dramático  de mudança que a História já assistiu. E é claro promover os idiotas da objetividade, seus semelhantes.

Rodrigo Mesquita

PS: a versão para o português é do meu amigo e companheiro de viagem Sergio Kulpas.

O Facebook precisava fazer alguma coisa pelo ecossistema de notícias. Mas sua liberdade de movimentos é limitada pela própria estrutura de faturamento da empresa. Assim surge um projeto que combina cinismo e ingenuidade.

Frderic Filloux

 

O Facebook  tomou duas medidas significativas a respeito de sua postura em relação ao jornalismo. A primeira foi no dia 6 de janeiro, com a contratação de Campbell Brown, ex-âncora da NBC e da CNN, no cargo de “diretor de parcerias jornalísticas”. A segunda foi em 11 de janeiro, com anúncio do Facebook Journalism Project.

 

A respeito da primeira ação, é de fato uma boa ideia contratar uma mulher para esse cargo; é um sinal claro para um setor conhecido por sua relutância em colocar mulheres em cargos executivos (os dados que indicam isso estão no estudo Status of Women in the in the U.S. Media)

 

Apesar disso, para estabelecer relacionamentos com chefes de redações, esperava-se um profissional muito tarimbado. Não há escassez de jornalistas experientes com capacidade para reforçar a credibilidade do Facebook. Uma âncora de telejornal não é a pessoa mais indicada. E para enfatizar ainda mais a fragilidade da contratação, o Facebook deu a entender que Campbell Brown não vai lidar com conteúdo.

 

O lançamento do Facebook Journalism Project teve muito mais peso. Segundo explica Fidji Simo, diretor de produtos do Facebook, o projeto se apoia em três pilares:

1 – “Desenvolvimento colaborativo de produtos noticiosos”, como novos formatos de storytelling, iniciativas para notícias locais e novos modelos de negócios, e “hackathons”;

2 – “Treinamentos e ferramentas para jornalistas”;

3 – “Treinamentos e ferramenta para todos”, o que inclui um conjunto não definido de medidas contra as fake news.

 

Muito bem. Colaboração, treinamento de jornalistas, ferramentas… parece familiar? Realmente é – reproduz ao pé da letra a declaração de princípios do Digital News Initiative do Google. O DNI foi lançado há dois anos pelo Google com oito publishers europeus. Como representante de um desses publishers, eu estava muito envolvido no projeto. Graças ao DNI, o Google foi capaz de estabelecer (e em alguns casos restaurar) boas relações com muitos publishers ao redor do mundo. É óbvio que o Facebook Journalism é uma resposta ao Google, nos níveis tático e político (leia-se geopolítico). O Facebook cita um relacionamento próximo com vários publishers alemães que estão às turras com o Google há muito tempo. Axel Springer e outros vivem enviando informações negativas sobre a atuação do Google em seus mercados para Comissão Europeia.

 

Além da percepção, está uma pergunta: até que ponto as ações do Facebook poderiam realmente ajudar o combalido ecossistema das notícias?

 

Em primeiro lugar, o Facebook precisaria fazer algo a respeito das notícias. A rede social enfrenta dificuldades em duas frentes diferentes: uma é a questão das fake news, problema que foi abordado de modo fraco por Mark Zuckerberg e sua equipe, para dizer o mínimo. O segundo problema é a crescente insatisfação dos publishers: eles se sentem enganados pelo que veem como uma tendência do Facebook de sequestrar o valor econômico de seu conteúdo. Depois de sucumbir à miragem do Instant Articles, os publishers chegaram a uma conclusão desagradável: os números de audiência eram ótimos, mas a monetização generosa esperada se mostrou na verdade um mero conta-gotas (Semana passada, para piorar, o Facebook cortou os subsídios dados a um pequeno grupo de publishers para a produção de vídeos ao vivo)

 

E se é impossível separar cinismo de ingenuidade aqui, o Facebook Journalism Project contém pérolas do ridículo. Vejamos duas delas.

 

Segundo a explicação de Fidji Simo, o Facebook está comprometido a “promover o alfabetismo para notícias”:

“Vamos trabalhar com outras organizações para melhor entender e promover o alfabetismo noticioso dentro e fora de nossa plataforma para ajudar as pessoas em nossa comunidade a ter as informações que precisam para decidir em quais fontes confiar.”

 

Não é piada. Se você conseguir engolir essa sentença com dezenas de palavras sem vírgulas, ela diz algo como “McDonald’s adota menu de baixas calorias” ou “A Monsanto compra a rede de produtos orgânicos Whole Foods”. Palavras cheias de gás, desconectadas da realidade.

 

Uma das “outras organizações” que vão fazer parte do time do Facebook chama-se “News Literacy Project”, que destaca o apoio do Facebook como se fosse uma medalha de honra:

fbjornalismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No box roxo está escrito: “aprenda a navegar pelas fontes de informação na internet de modo mais cético”. Curtindo ou não (perdão pelo trocadilho), o Facebook está exatamente no extremo oposto da nobre ideia da NLP. O sistema inteiro do Facebook é construído em torno da ideia de fechar seus usuários dentro de um ambiente “amigável”, totalmente blindado contra conteúdos que não reflitam suas ideias, opiniões, crenças, afiliações, etc… No mundo do Facebook, clique após cliques, todos erguemos nossos muros e reforçamos essas barreiras cognitivas. O mecanismo está no coração do modelo de negócios faminto por pageviews do Facebook: trata-se de reforçar sua sustentabilidade. O Facebook precisa manter seus usuários pelo maior tempo possível dentro de seus serviços. É por isso que o algoritmo é programado para evitar expor um usuário de “esquerda” a conteúdos de “direita”, e vice-versa.

 

Como disse um amigo especialista em tecnologia e mídia, “o Facebook é acima de tudo uma plataforma de entretenimento. Essa plataforma quer que você permaneça no ambiente a todo custo. Assim, no que se refere a notícias, se o seu perfil estabelece que você precisa de 20% de informações em seu newsfeed, é isso que você vê. Para outra pessoa, o algoritmo pode decidir que “notícias” não é o melhor meio de mantê-la dentro do ambiente da rede social, então vai reduzir essa proporção para 3 ou 4% — tudo cuidadosamente filtrado”. Na verdade, os usuários não veem mais do que 10% do conteúdo jornalístico que assinaram em suas timelines simplesmente porque notícias não representam o item que gera mais cliques em um feed do Facebook. Eu trato desse assunto neste artigo: Facebook’s Walled Wonderland Is Inherently Incompatible With News.

 

Outra ideia exótica do Facebook Journalism Project é usar a empresa recém-adquirida CrowdTangle, que define seu propósito como “oferecer análises críticas de mídias sociais para auxiliar publishers ao redor do mundo a avaliar seu desempenho em redes sociais e identificar reportagens de impacto”. Em outras palavras, a empresa ajuda a avaliar e promover o jornalismo segundo as necessidades do Facebook.

 

Aqui estão exemplos extraídos do interessante compêndio “The Top 10 Local News Post on Facebook in 2016”. Estão prontos?

 

  • “Um cachorro resgatado na Humane Society Silicon Valley muda a vida de um homem com excesso de peso, ajudando-o a se tornar uma pessoa mais ativa” — 920.000 interações.
  • “Um grupo de irmãos adolescentes contribui com a comunidade aparando gramados DE GRAÇA” – 961.500 interações.
  • “Um preview do Kitten Summer Games da Hallmark” – 1,05 milhão de interações.
  • “Um juiz da Georgia fala sem rodeios para um grupo de jovens sobre as consequências de uma juventude criminosa” – 1,08 milhão de interações.
  • “É um cachorro? É um cavalo? Um casal de Nevada acredita possuir o cão mais alto do mundo” – 1,17 milhão de interações.
  • “Cadela passa de assustada a feliz ao se ver reunida com seus filhotes” – 1,45 milhão de interações.
  • “Policiais ficam do lado do pai de um garotinho no primeiro dia de escola” – 1,5 milhão de interações.

 

Pode respirar agora. Tudo bem, são histórias de grande interesse humano (e animal), capazes de comover grandes multidões.

 

Mas elas representam a visão do Facebook sobre o jornalismo? Quero dizer – perdão pelo acesso de conservadorismo jornalístico – o tipo de jornalismo que educa, expande as mentes, ajuda as pessoas a formar sua opinião sobre questões importantes como atendimento de saúde ou os riscos do Estado Islâmico, o tipo de notícias que ajuda a entender complexas questões sociais?

 

É ESSA a visão do Facebook sobre um sistema de informações equilibrado?

 

https://mondaynote.com/facebook-journalism-project-is-nothing-but-a-much-needed-pr-stunt-c756744acec1#.a8azp28sb