“ESTAMOS NA METADE DA CRISE MUNDIAL”

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A crise brasileira reflete a morte da democracia representativa no Ocidente e corremos o risco de assistir “a ascensão de democracias não liberais ou de ditaduras plebiscitárias escancaradas, nas quais o líder eleito exerceria controle tanto sobre o Estado quanto sobre os capitalista”.

Abro este post com um lead criado a partir do título do artigo publicado por Fernando Henrique Cardoso, no último dia 8, no Huffington Post em língua inglesa, e da frase que sintetiza o alerta que o mais arguto articulista da imprensa econômica no mundo, Martin Wolf do Financial Times, vem dando às elites globais há dois anos em seus artigos sobre a globalização, as políticas concentracionistas que vem beneficiando só as minorias mais ricas nos países de todo o mundo e o descontentamento global dos “perdedores econômicos”.

Fernando Henrique, o último estadista do século 20, menciona no seu artigo as grandes transformações econômicas e tecnológicas, responsáveis pelo enfraquecimento dos Estados nacionais, em sociedades cada vez mais fragmentadas e expostas a tensões e desequilíbrios de uma crescente diversidade cultural.

Vivo assustado há anos. Nasci mergulhado no mundo da comunicação. Na minha andança, bati em muitos teóricos. Mas acabei abraçado no Harold Innis. Um economista canadense que começou a vida estudando a relação dos países periféricos com os centrais. Canadá era provedor de matérias primas para os EUA. Não sei bem como, ele evoluiu para o estudo das sociedades, dos impérios, em função da sua estrutura de linguagem no lato sensu (discurso, escrita, arquivos, distribuição). Da escrita na pedra e a oralidade grega, ao papel e à invenção da bobina e das rotativas, que marca o início da comunicação de massa. Tudo que veio depois foi basicamente aceleração. Isso até o corte da rede, o marco de início da Era Elétrica, na qual o sistema de comunicação da sociedade é uma extensão do nosso sistema nervoso.

Innis é o pai da escola de comunicação de Toronto e o mentor do McLuhan. No livro O viés da comunicação, ele defende em síntese que “o tempo social é definido pela linguagem que restringe e fixa conceitos prévios e modos de pensar”. Tanto ele quanto McLuhan defendem a tese de que o que molda a sociedade é forma como ela se informa, o ambiente tecnológico pelo qual ela se informa e não o conteúdo que ele carrega. Estou nesta viagem desde meados da década de 80 e confesso que tenho certo temor em relação aos próximos anos, que não serão breves. Se sobrevivermos, chegaremos à democracia perfeita.

Nos últimos dois anos, este meu temor aumentou em função do que estamos assistindo em função da crise global que convivemos e a forma como as elites globais têm reagido a este quadro. Sou leitor do Martin Wolf, do FT, o melhor analista dos movimentos dos mercados e seus impactos na sociedade. Desde o aniversário da 1ª Grade Guerra ele vem de tempos em tempos publicando artigos sobre isso. Copio abaixo os títulos e os links dos artigos publicados no UOL.

Recentemente, o caderno de leitura do Valor saiu com um bela entrevista do economista francês Robert Boyer. Em resumo ele dizia que estamos na metade da crise, que ela é global, que as instituições estão desajustadas,os sindicatos fracos e os bancos cada vez mais especulativos, frisando que não podemos esquecer que a saída para a Grande Depressão de 1929 só foi possível depois da 2ª Guerra Mundial. Para ele, “o desafio é encontrar uma solução que leve em conta três fatores principais: a recuperação dos EUA, o dinamismo da China e o esgotamento de recursos naturais”.

Bato na mesma tecla dele desde os anos 80, influenciado por Fernand Braudel. Me formei em História e, é claro, nunca parei de estudar a História. Considero o Braudel o grande historiador da nossa época. No final dos anos 70 ou início dos 80, ele deu uma entrevista de fôlego que tinha como ponto de partida a primeira grande crise do petróleo. Ele fazia uma análise do quadro que vivíamos argumentando que aquela crise era só a ponta do iceberg, que estávamos entrando numa crise de longa duração, uma “onda longa”, os ciclos de Kondratiev. E ia mais fundo do que o Robert Boyer coloca na boa entrevista ao Valor sobre o estado de “envelhecimento” e desajuste das instituições.

Para Braudel, o conjunto dos conjuntos das estruturas, que era como ele falava da sociedade ou de uma época no lato sensu, tinha ido à frente das instituições que regulam a sociedade e que, as do nosso tempo, amadureceram a partir das revoluções na Europa em meados do século 19. E argumentava que já nos anos 80, elas não sustentavam uma sociedade muito mais complexa, fragmentada e com uma dinâmica infinitamente mais rápida do que a da sociedade do tempo em que elas se conformaram. Depois de tecer uma argumentação muito bem estruturada sobre este processo, terminava a entrevista dizendo que os políticos, os economistas, as lideranças dos processos institucionais iriam dizer que a crise iria passar. E comentava que estão no papel deles, têm que passar esta mensagem para o público, mas a crise está aí para ficar. Ela terá seus ciclos, momentos piores e melhores, mas vai durar um bom tempo. A formação das instituições é um processo. Não se trata de uma troca de camisa.

Isso foi bem no início dos anos 80. De lá pra cá rolou o que sabemos até coroar com a emergência da internet, marcando o início da Era Elétrica, prevista e estudada por uma série de pensadores voltados para os impactos dos processos de comunicação na sociedade. Das trilhas (peabirus) do passado e suas possibilidades à velocidade da rede, a extensão do nosso sistema nervoso, e seus impactos em tudo nas nossas vidas.

Fracasso das elites é ameaça para o nosso futuro

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